Ruben de Abreu

Ruben de Abreu

11 de Julho de 202558 min 37 s

Capítulos

Transcrição

Gerada automaticamente

Abertura e apresentação

Seja muito bem-vindo ao programa Olhos nos Olhos, aqui na TV Novo Tempo Portugal. No programa de hoje, aproveitando a visita dele ao nosso país, vamos conversar com o pastor Rubem de Abreu, presidente da União Franco-Belga da Igreja Adventista do 7º dia. A União Franco-Belga integra o conjunto das Igrejas Adventistas da França, da Bélgica, do Luxemburgo e também do Mónaco, com 169 igrejas num universo de 78 milhões de habitantes. Rubem João Ferreira Simões de Abreu nasceu a 31 de dezembro de 1965, numa família profundamente comprometida com o trabalho missionário, primogénito e num total de quatro irmãos, desde cedo revelou um forte desejo em tornar-se pastor, tendo estudado no Colégio Adventista de Oliveira de Douro e ainda também numa escola ali ao lado, a Escola Secundária de Oliveira de Douro, esta última, onde o apelidavam de Padre Inácio, porque os colegas já haviam nele alguma vocação sacerdotal, mas também porque era uma excelente defesa central, igual ao jogador Inácio.

Por ele, ou passava a bola, ou passava o jogador, nunca passavam os dois. Com apenas mais de 18 anos vai para a França para estudar Teologia. É aí que conhece Veronique, de ascendência franco-canadiena, com quem se casa e juntos têm dois filhos, o Michael e o Gabriel. A multiculturalidade do seu casamento proporcionou-lhe importantes reflexões sobre integração e diversidade. Regressa a Portugal, onde assume a liderança de diversas igrejas como pastor. Sendo que, com apenas 40 anos, passa a ocupar o cargo de secretário executivo da União Portuguesa dos Adventistas no sétimo dia, cargo que ocupa até 2012. Um ano depois, regressa a França para assumir a presidência da União Franco-Belga, tendo sido reeleito em 2018 e 2023. Como em Abreu, mantém uma paixão pelo desbravadorismo, tecnologia, culinária, ensino, carros antigos e está hoje connosco para conhecermos Olhos nos Olhos.

Infância e raízes familiares

Bem-vindo, Rubem. Muito obrigado. É verdade tudo o que eu disse ou eu disse aqui alguma imprecisão? Talvez tenhas dito até demais. Era o Augusto Inácio? O que se chamava Inácio era por causa disso ou não? Havia uma piada na altura de um padre que se chamava Inácio e eles juntaram as duas coisas e era por aí que isso derivou. Porque eles já reparavam que tu tinhas aquela vocação sacerdotal. Porquê? Bem, eu lembro-me que... Quando comecei como desbravador, na altura, o dia do desbravador era bastante novo, cerca de 11 anos, e foi a primeira vez que, para o primeiro dia do desbravador na Igreja de Oliveira de Douro, fui eu que fui indigitado por eles para pregar.

Devia ter sido uma pregação com 20 minutos, mas foram longos, 7 minutos, que aquilo durou. Quantos anos tinhas? Tinha 11 anos. A primeira vez que pregaste, tinhas 11 anos? Isso... A própria integração da igreja ajudou ao desenvolvimento de uma visão de vocação e de uma integração, e que os colegas reconheciam. na escola sabatina, nas diversas intervenções que nós tínhamos. Outros não gostavam de falar em público, amendavam-me sempre, empurravam-me e isso ajudou-me a consolidar depois aquilo que eu sou e que fui. Nós temos uma imagem dessa altura, não dessa pregação, mas eu creio que nós podemos ver essa foto, em que tu terias aí, eventualmente, 11, 12 anos.

Temos uma foto para te mostrar. Que idade é que terias aqui? Consegues reconhecer esta foto? Teria os meus 12 anos. Eu lembro o lenço. O lenço não era triangular, era um lenço quadrado e era enorme, porque era um lenço que devia servir para as emergências, então se fosse preciso alguma intervenção de emergência para um garrote, para bloquear um braço e mobilizar, o lenço deveria servir para tudo isso. Ou seja, era algo que tinha várias funções e hoje em dia já não é bem assim? Hoje em dia tem uma noção muito mais de identificação que isso, e faz parte da evolução do processo do desbravadorismo. Mas então vamos ao início. Tu nasceste num lar adventista do sétimo dia.

Os teus pais, que era o teu pai, que era a tua mãe, já eram adventistas sétimo dia quando nasceste. Sim. Eu sou, na realidade, terceira geração de adventistas. Os meus filhos são a quarta geração. Os meus avós eram católicos. devotos que no desenvolvimento da sua vida espiritual conheceram o Adventismo e converteram-se ao Adventismo. Por aí vieram, veio a minha mãe e aconteceu a mesma coisa do lado do meu pai na igreja do Porto. e que, finalmente, nas atividades de jovens entre igrejas, acabaram por se conhecer, e quando nós aparecemos, eles já eram Adventistas integrados e comprometidos.

E o teu pai teve um papel... Eu sei que o teu pai foi coportouro, ou seja, uma espécie de coportouro missionário, não é? Alguém que iria para um lugar e que pregava o Evangelho, digamos assim. Ele esteve... Cabo Verde... O meu pai foi aquilo que se chamava coletor de avançada durante algum tempo. Era para lugares onde não havia forçosamente igreja, que eram enviadas pessoas que de alguma forma iam ser autossustentadas e que podiam fazer trabalho missionário. E durante algum tempo, já não me lembro exatamente quantos anos, mas ele fazia essa ida e volta entre Porto e Cape Verde. E quando te recordas de ver o teu pai partir a ir para a África, no fundo, isso impressionava-te e querias fazer algo parecido?

Sinceramente, eu lembro mais disso por ouvir falar e pelos testemunhos do que por experiência própria, porque eu era bastante pequeno. Apesar de teres um irmão mais velho. Sim, era bastante pequeno nessa fase. Mas então, como é que te influenciou os teus pais, no fundo?

Influência espiritual dos pais

Eu penso que há duas coisas que influenciaram. Primeiro no meu desenvolvimento espiritual. Eu lembro-me de que era bastante jovem e eu via o meu avô levantar-se todos os dias cedo. E sempre que eu passava pelo quarto dele, ele estava no pxixé, para aqueles que sabem o que era da altura, no quarto dele, com a Bíblia, a ler e a orar. Não conheço a palavra. Pxixé? As do Porto também. Aqueles móveis onde havia um espelho nos quartos onde as senhoras se arranjavam.

Nem sei se existe esse tipo de coisa. Eu lembro-me dessa visão que me encorajava também a querer aproximar-me de um lado da oração e do outro lado do estudo da Bíblia. O meu pai em si vai ser importante também por uma outra coisa. Ele era uma pessoa muito comprometida com estudos bíblicos. Sábado à tarde dava estudos bíblicos. Ele pregava na igreja. Muito cedo comecei a acompanhá-lo, aos sábados à tarde, antes das atividades de jovens, nas sessões de estudos bíblicos que ele dava. E, a um momento, devia ter os meus 13 anos, e lembro-me disso porque foi depois da pregação que o mencionei, ele disse, até agora tu tens estado a ouvir, hoje não te preocupes, eu estou lá, mas és tu que vais dar o estudo bíblico.

E isso acompanhado da... da igreja e do contexto de igreja que tínhamos na altura, que procurava favorecer, encorajar os jovens, integrar os jovens, não os via como futuro, mas via como uma parte integrante daquele instante e era daquele momento que devia ser. e por isso penso que por essa razão saíram, não apenas eu, mas saíram outros postores daquela igreja naquela altura. Ou seja, podes dizer que com 13 anos já dizias que era aquilo que tu querias fazer a vida toda. Mesmo mais cedo. Para mim foi uma consciência muito natural de desenvolver-me para ser pastor.

Eu, quando começo os meus estudos do secundário, todas as opções eram por aí. Não via outra opção. Há alguns pastores que vão influenciar nessa altura. Lembro o pastor Viegas, o falecido pastor Walter Miguel, por razões diferentes, que ficam no imaginário da criança que eu era e que ajudaram a consolidar isso, acompanhado de todo o processo dos jovens e dos esbarbadores que tiveram aí. Nós aqui já entrevistamos alguns pastores. E. Este é um programa que vem aqui necessariamente com muitos pastores.

Quanto olhas para esses pastores mais antigos, falavas do pastor Walter, depois teve Egas. São pessoas muito diferentes daquilo que tu te tornaste ou tu ainda hoje pensas neles como alguém que gostarias de ser como eles? O primeiro, o pastor Viegas, era bastante miúdo. Aquilo que teve influência mesmo na minha abordagem ao ser humano, e em particular aos mais novos, é que com ele era muito fácil de se aproximar. Lembro-me dele estar à saída, eu estava no colo da minha mãe e ele não só cumprimentava a minha mãe, mas cumprimentava-me a mim como miúdo e brincava comigo.

E isso fazia... mas eu sou importante, eu conto. E essa noção foi alguma coisa que me acompanhou e que eu procuro implementar. Porque os mais novos Às vezes nós temos essa tendência, no meio eclesial, de dizer que os jovens são o futuro. Não são o futuro. Desde que eles são lá, eles pertencem à Igreja, têm de ser integrados. E essa noção foi-me transmitida por homens como eles, que foram importantes. E em que momento é que te cruzas com o Brett Thorpner, um pastor que vem cá a Portugal, faz uma série de conferências e foi a primeira vez que estiveste a participar em alguém grande, do que tu recordas?

Início da vocação pastoral

Enquanto pastor, sim. Foi coincidente. Eu tinha me casado há pouco tempo, tinha terminado os estudos há pouco tempo e estava a começar o meu estágio. Na realidade, o meu estágio começou com essa campanha no Porto, onde foram deslocados uma série de pastores, éramos muitos que ali estavam, no cinema Vilar Formoso, alguma coisa assim. Estávamos sediados no Colégio de Oliveira de Douro, no CAOD, onde tínhamos formações para seminários. Lembro-me que na altura havia os seminários de Daniel e Apocalipse, seminários de stress, seminários anti-stress.

seminários de acompanhamento de família, seminários para deixar de fumar, hábitos, bons hábitos de saúde. Havia uma série de seminários ali que durante a parte da manhã nós tínhamos formação. À tarde depois íamos fazer visitas das pessoas que eram contactadas à noite e à noite participávamos. Eu estava envolvido na parte técnica de todo esse programa. Foi aí que comecei, durante quase seis meses, até o mês de dezembro. Mas, na verdade, nunca te colocaram a pergunta, se não fosses pastor, o que é que gostarias de ser? Ou já pensaste nisso ou nem sequer faz parte? Quando, naquela altura, Quando eu entrei no décimo ano, no secundário, havia aquilo que se chamava, na altura, os testes psico-técnicos de formação vocacional.

Havia duas áreas que davam sempre. Uma era Relações Públicas e a outra era Administração Pública. mas para mim nunca foi causa. Ainda hoje, teria muita dificuldade a ver-me a fazer outra coisa. Se me fosse perguntado hoje, será que eu antevia a carreira que tenho tido até aqui, não. Para mim, a vocação pastoral continua a ser a vocação. O acompanhamento, uma das coisas que me torna sempre realizado e feliz, continua a ser o ensinamento da palavra. Continua a ser a pregação, porque faz parte disso.

A outra dimensão que acompanhou o meu ministério foi, e continua a ser, os jovens. Mas isso por paixão, mas também porque foi alguma coisa que me formou com pessoas que foram grandes referências. Em Oliveira de Douro não posso deixar de pensar no Vitor Alves. e outros que acompanharam essa fase e que me transmitiram esse valor, mas que vai à resposta à questão que tu punhas há instantes, porque fez parte da minha formação e agora a transmissão também faz parte disso. A terceira dimensão é esta que eu tenho estado a viver nos últimos anos, se fosse aqui em Portugal, seja agora nestes países onde estou envolvido, a administração.

Nunca pensei, nunca imaginei, nunca o desejei, mas é porque a igreja me o pede e a igreja o necessita. e que eu revê. Mas tenho o sonho, esse sim, de terminar a minha carreira ainda antes da reforma, de voltar à experiência de igreja local e poder ser feliz. É isso que eu queria perguntar. O teu primeiro estudo bíblico que tu deste a alguém foi aos 13 anos. Hoje em dia ainda consegues ter tempo para dar estudos bíblicos? Esforço-me por isso. Embora as coisas tenham mudado e é tudo muito diferente, eu participei há algum tempo atrás numa atividade de jovens de nosso território e dois jovens solicitaram-me para serem acompanhados por mim em institutos bíblicos.

Por resumo... Para mim é quase uma violência. Eu prefiro estar olhos nos olhos, eu preciso de sentir as reações, de comprometer, mas é uma evolução do próprio Ministério, porque cada vez mais se fazem à distância, pelo mundo digital, e é uma nova coisa que está aí, e sempre que me é solicitado, eu procuro abrir espaço na minha agenda para ele. E é algo que te enche profundamente, acredito. Não é apenas para o outro, mas é sobretudo também para mim. A necessidade de manter um pé na realidade do que é o trabalho local, por outro lado, para adaptação, porque eu não posso pegar num estudo bíblico que frias há 37 anos, quando comecei o meu ministério, tirar o pó e utilizar.

A linguagem não é a mesma. A mensagem é a mesma, mas a roupagem e a forma de o transmitir não pode ser a mesma. E isso obriga-me a ter esse legado de realidade que me parece importante, mesmo para as outras dimensões do meu Ministério, inclusivamente administrativa. Há alguma tradição, usa esta palavra no bom sentido, que tu guardas e que ainda hoje mantens, que aprendeste quando eras pequeno com os teus pais ou até na igreja de Liverador, a tua igreja original? Depende do que tu entendes por tradição.

Estudos e casamento

Há coisas que se mantêm de família. Para nós é importante, por exemplo, a questão do pôr do sol de sexta-feira e poder partilhar os momentos de família. Embora não seja o ideal, por exemplo, as questões do digital veio-nos ajudar. A nossa família está um bocado espalhada. Eu estou com a Verónica em França, no sudeste de Paris. O meu filho mais velho, o Miquel, está na Alemanha. O mais novo está aqui, mas nós reunimos-nos através dos meios digitais. E isso é uma tradição que ficou. Às vezes, mesmo comemos juntos sem estarmos juntos.

Eu sou levado a viajar quase todos os fins de semana porque temos igreja por um território muito grande. e sou levado a pregar em diferentes igrejas, muitas vezes tenho que partir na sexta-feira de manhã para poder estar, ou em hotéis ou em casas de amigos, de membros que nos convidam, e esse momento está ali sempre. Há coisas que ficam. Sais do ensino secundário com 18 anos, acredito, mais ou menos por aí. Eu fui fazer os 18 anos a Colóns. Ah, então fizeste mesmo... Fiz os 18 anos lá. Ah, então foste com 17 anos estudar de UGI. Eu fui com 17 anos ainda não... Os 18 anos ainda não feitos.

Ou seja, seguiste muito rapidamente todo o processo académico em Portugal para depois poderes estudar a Teologia em Colóns. A tua maior conquista em Colóns terá sido conheceres a tua esposa. Fica mal dizer que não. Fica mal dizer que não, sim. E eu penso que isso marcou também bastante a minha vida, por aquilo que ela é, pelo complemento que ela faz, pelo apoio que me dá, que sempre deu, mesmo em todas as deslocações que o próprio ministério levou. Ela é francesa de origem canadiana? Não, é o contrário. Ela nasceu no Canadá, mas é de origem francesa. Os seus pais. E viveu praticamente toda a sua infância e juventude em França.

E vocês se conheceram em Colónes, porque ela também estudava lá? Ela estava a estudar, na altura, os cursos técnicos. Ela estava a fazer o 12º ano técnico de... estenografia e contabilidade, e foi onde nos cruzamos. E quando regressam, já regressas a Portugal casado? Não. Eu terminei... Ela ficou lá durante dois anos, voltou para Nice, junto da mãe, Continuamos a frequentar-nos. Sempre que eu tinha a disponibilidade ia visitá-la. Ela vinha visitar-me cá acima. E depois, quando eu terminei em meio do segundo fim de semana de junho, Viemos para Portugal, casámonos em julho e no primeiro de agosto comecei a trabalhar aqui.

E é isso que vamos saber na segunda parte. Vamos conhecer melhor o teu ministério em Portugal. Estamos olhos nos olhos com o nosso convidado de hoje, Rubem Abreu. Ele é presidente das igrejas adventistas do sétimo dia nos países da França, da Bélgica e do Luxemburgo. E voltamos já depois de um curto intervalo. Até já. TV Novo Tempo. O canal da família. O canal da esperança. Segunda parte do programa Olhos nos Olhos aqui na Novo Tempo Portugal. Este e outros programas que já sabe pode acompanhar também no nosso canal do

Primeiros desafios no ministério

YouTube. Hoje estamos com Rubem de Abreu, pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia Português. Ele é atualmente o presidente da União Franco-Belga, o conjunto das igrejas adventistas do sétimo dia na França, na Bélgica e no Luxemburgo. São mais de 160 igrejas, mais de 20 mil membros, mas Rubem, como qualquer pastor, tu começaste pelas bases. Começaste em Portugal, como estagiário naquela série de conferências que falamos do pastor Brett Thorpe. Tiveste em diversas igrejas em Portugal. Recordas-te, eventualmente, neste início, qual terá sido o teu maior desafio de um jovem com vinte e poucos anos? Terás sido dos mais novos pastores adventistas a formarem-se tão rapidamente, não é? Tinha, na altura, 23 anos.

Hoje em dia, alguém com 23 anos é um adolescente. E tu já estavas a liderar igrejas com anciãos, com pessoas de todas as idades. Qual terá sido aquele grande desafio que te recordas nessa altura? O primeiro desafio foi a transição do mundo escolar, onde tudo é apresentado de uma forma teórica e idílica e passar para a realidade do dia-a-dia. Sentes-te mal preparado para o que estavas a fazer? Eu diria que se fosse ligado unicamente à formação académica, sim. aquilo que para mim foi uma vantagem e voltamos novamente à questão da base de acompanhamento das igrejas também de onde saímos.

foi que todo o percurso que eu pude fazer fosse na Igreja de Oliveira de Douro, fosse mesmo na Igreja de Colões, onde cheguei a integrar o Conselho de Igreja, onde fui chefe de diáconos, o que permitiu-me que eu conhecesse, na prática, também o funcionamento da Igreja. mas entre o idílico que tu vens da formação, aquilo que tu queres ensinar, que tu queres mostrar, e a realidade é diferente. Eu lembro-me. A minha primeira afectação foi abrir o trabalho na Igreja de Moura, onde eu fui apresentado e depois nunca lá mais voltei como pastor, só lá tive um fim de semana, porque por razões diversas fui deslocado para Peniche, E lembro-me que havia uma senhora já com muita idade em Peniche, Tu vens da faculdade e tentas ensinar e mostrar e usas o grego, o hebraico e tudo isto e aquelas coisas todas e a senhora, no final do meu segundo ou terceiro sermão, vem ter comigo, mete-me o braço e diz ao pastor, o pastor é muito simpático, eu gosto muito de si, gosto muito de o ouvir, mas eu não percebo absolutamente nada do que você diz.

E isso foi marcante. Foi um desafio, mas foi marcante no meu ministério para me ensinar que... A pregação não é um exercício de cultura ou uma conferência ou um discurso, mas é para mostrar Cristo e transmitir numa linguagem e numa compreensão que todas as pessoas, dos mais novos aos mais idosos, dos mais cultos aos menos cultos, de poder compreender do nacional e do estrangeiro. Agora, com quase 60 anos, se pudesses dizer alguma coisa a esse Rubem Abril de 23, o que é que dirias como grande conselho para o início do seu Ministério Pastoral? Eu diria duas coisas.

Aprende a confiar e a desenvolver a confiança em Deus. As tuas capacidades são importantes, mas só são importantes se estiverem nas mãos de Deus. que isso te permita um desenvolvimento de aproximação aos outros. E, em segundo lugar, a persistência e a resiliência, que me parece cada vez mais ser necessário. Mas assim ainda mantens a persistência e a resiliência. Graças a Deus. Rui, eu vou-te propor ver um vídeo, que vais-te recordar certamente, que é um

Consagração pastoral

vídeo... Está cheio de surpresas. Ainda falta mais. Vê este vídeo e recorda-te e depois dizes que momento foi este. Gostaria também de agradecer a Deus por me ter permitido nascer numa família atletista, desde o começo conhecer, apreciar e amar esta igreja, que me deu a oportunidade de servir de uma forma direta aos filhos. Quando é que foi isto?

Foi na igreja do Porto? ao mesmo tempo que o pastor Júlio Carlos e o pastor Daniel Bastos. Foi o momento da minha consagração ao Ministério Pastoral. Ou seja, para explicar quem nos acompanha, um pastor tira o seu curso em Teologia, vai para as igrejas, mas o processo em que ele é ordenado acontece muito tempo depois. Isto foi em 2000, já alguns anos depois de tu seres pastor. No meu caso foi... 11, 12 anos depois. Há todo um processo. Há um processo de estagiário onde não há uma ligação ainda oficial direta e que, mesmo os atos pastorais que somos levados a fazer, dependem da supervisão de um pastor consagrado.

Existe uma segunda fase, que são os pastores autorizados, que aí é permitido que ele seja e exerça os atos pastorais na região que lhe é atribuída, nas igrejas, no distrito pastoral que ele detém. mas depois há um trabalho de avaliação, de acompanhamento da parte da Associação Pastoral, de avaliação das igrejas também, e que finalmente leva a esse momento da ordenação que faz com que haja um reconhecimento, não apenas de um ministério local, mas que é um ministério da Igreja Adventista, o que permite de exercer todos os atos pastorais, não apenas naquele local, passa todas as questões administrativas que depois estão por aí, mas há um reconhecimento de uma a vida de serviço, de competências também de ensinamento, de ministério, e de alguma maneira, de alguma forma também, de uma fidelidade à teologia que defende a Igreja Adventista.

Há 25 anos atrás, como nós vimos, e não sabias que nós tínhamos este vídeo e tu dizias... Não, nem eu o tenho e por isso depois... Não o tens, vamos arranjar-te. Tu dizias que agradecias aos teus pais, à tua família, algo que já disseste aqui também, achei muito interessante, que sem saberes deste vídeo diz exatamente a mesma coisa, que a tua família foi a base para todo o teu ministério. Se fosse hoje, dirias exatamente a mesma coisa? Sim, diria a mesma coisa, porque a família para mim, vamos ver, a própria maneira como eu vejo a igreja é de uma família alargada. Não tem outro sentido. A família tem que ser a ligação, quase que os andeimes que mantêm a estrutura de pé e que ajudam a construir aquilo que nós somos.

E, no meu caso, várias dimensões da família, com vários círculos de influência, aconteceram. O núcleo próprio da família de sangue direto, mas depois diversos níveis e diversos núcleos da família alargada, que é a igreja. E ali também dizias que era difícil lidar contigo. Dirias a mesma coisa hoje ou se calhar já não? Eu posso-te pôr a pergunta ao contrário. Trabalhaste comigo durante muitos anos nos jovens. É verdade, há momentos... Ainda tens aquela lanterna. Ainda tenho essa lanterna, ainda tenho o meu cajado também, que ainda me acompanha.

Faz parte da própria evolução de cada um de nós. Reconheço que o senhor trabalhou muito comigo, a influência de diversas pessoas, entre elas mencionávamos há pouco também a minha esposa, que a experiência da vida também, que nos vai quebrando um certo fulgor, vai nos dando também a capacidade de ver que há momentos que mais vale estar calados e ser mais apropriados depois. Aquela fugosidade dos 20 e poucos anos que foi mudando. E acredito também que o senhor tem trabalhado e continua a trabalhar muito em

Liderança jovem e desbravadores

mim. Tu foste diretor dos jovens aqui em Portugal durante muitos anos, ou seja, eras o responsável por toda a juventude em Portugal, pelas atividades que organizavas, etc. Como é que tu recordas esse tempo de grandes desafios e muito diferente daquele que é agora? Achas que é mais difícil ser diretor dos jovens hoje em dia, diretor do departamento de jovens, do que na altura? Ou é igual? Eu pergunto, não é igual porque os tempos não são iguais. Não é igual porque os hábitos não são os mesmos. Aquilo que se mantém de igual é em si os objetivos. é os valores que queremos transmitir, é a necessidade de construir caminhos e projetos que permitam aos mais novos crescerem, amadurecerem na sua visão espiritual para se tornarem não apenas filhos das suas famílias, mas filhos da grande família de Deus e do reino de Deus na eternidade.

E esse processo nunca é simples. As pessoas são diferentes. Os desafios são outros. Nós não tínhamos as questões das redes sociais que hoje existem, mas tínhamos que criar materiais que pudessem chegar a toda a gente. É por isso que eu digo dificuldades em qualquer época, em qualquer momento elas são, mas recordo esses momentos com muita felicidade, com muita alegria, muito trabalho, muito cansaço, Alguns nomes que ainda me vêm com algumas memórias em vários sentidos, mas sobretudo momentos muito positivos.

Em Portugal, e agora pergunto enquanto o pessoal conhece bem a realidade europeia, Portugal talvez dedique mais a questão do desbravadorismo no caso da integração dos jovens Da comparação que fazes com outros países, achas que esse poderá ser um dos segredos, entre aspas, para que em Portugal a juventude adventista, e esta pergunta é assim um bocadinho mais ligada ao interior da igreja, esteja tão conectada com a igreja ou achas que hoje em dia já é um bocadinho diferente? Eu penso que há questões que acabam por ser quase culturais. Nós aqui em Portugal, por exemplo, temos uma ligação à identidade que a farda, que o uniforme traz. Tu vais para determinados países da Europa, como a França ou a Alemanha, onde o rigor da farda, da ordem unida, leva a imagens de outros tempos de uma sociedade que tem o oposto dos valores que nós temos enquanto jovens cristãos.

Falo, por exemplo, a ordem unida, a farda, aos momentos da Segunda Guerra Mundial e do que isso trazia. E por isso há uma certa rejeição quase cultural, natural, que vem daí. Mas os valores e a aplicação dos princípios do desbravadorismo continuam presentes e continuam a ser mesmo hoje em dia, um pouco por toda a Europa, a base da integração de uma grande parte dos jovens na nossa igreja. Aquilo que me parece que, e aí volto há quase 20 anos atrás, que foi quando se começou os projetos dos jovens adventistas, Porque nem toda a gente, e cada vez mais isso vai acontecendo, nem toda a gente se revê no processo pedagógico do desbravadorismo.

E, por isso, há alternativas que se criam para poder integrar. E um daquilo que me parece, pelo que eu tenho visto e da experiência que tem trazido grande integração e mesmo desenvolvimento de vocações, passa pela valorização do humanitário e do ser humano. Os jovens interessados em se comprometerem em projetos humanitários, local como no exterior, em servir o próximo dessa maneira, que é um ramo que não é forçosamente aquele que está na base do desbravadorismo. E esta evolução vai acompanhar a evolução da própria sociedade.

Se tu não tivesse nenhuma limitação nem de recursos humanos nem de recursos orçamentais, que projeto ligado aos jovens é que tu gostarias de fazer? Eu penso que não seria tanto uma questão de recursos financeiros ou limites financeiros. O sonho que eu tenho e que mantenho, seja de que forma for, é transmitir o valor que Cristo atribui a cada jovem. Nós vivemos numa sociedade em que desvaloriza o ser humano.

Eu gosto muito dos textos de Isaías, capítulo 40, 41, 42, até o capítulo 53, são textos extraordinários, é quase o que eu chamo o Evangelho do Antigo Testamento, onde ele diz que tu tens um enorme valor aos meus olhos. eu daria isto, aquilo e aquilo outro por ti. E transmitir isso, eu penso que passa, em grande medida, não tanto por grandes eventos, mas por ensinar e transmitir no relacionamento pessoal. Se eu pudesse escolher essa parte do meu ministério, eu deixava já a administração e poder me envolver dessa maneira mais próxima a campamentos, naquilo que existe, mas na proximidade do relacionamento com eles.

Sempre as pessoas que são mais próximas de ti, todas elas, são anónimas em dizer que tu valorizas muito a questão das pessoas. E sempre isso foi que te moveu muito e que, no fundo, também te tornou um trabalhador incansável. Ou seja, no tempo em que estavas aqui em Portugal, no caso do Departamento de Jovens, nunca tiveste medo do trabalho. Ou seja, sempre fazias muitas coisas e isso acabou por te custar a saúde também. Ou seja, houve um momento muito complicado da tua vida em que tu simplesmente

Problemas de saúde e superação

perdeste a visão, que foi algo que deixou não só a ti, naturalmente, mas também todas as pessoas que estavam à tua volta que ficaram muito preocupadas. Recordas-te desse tempo de excesso de trabalho? Já melhoraste ao nível do excesso de trabalho ou ainda não? É melhor não falar com tu isso. Sim, foi uma fase complexa. Não sei se teve a ver com isso. Não sei se teve a ver, se foi uma coincidência. Eu procuro tirar de todas as situações de vida conceitos e experiências e tentar transformar as coisas de maneira positiva. Eu vivia na Nadia. era responsável pelas igrejas de Vila Nova de Monsarros e Sangalhos e foi nomeado diretor do departamento de jovens e tinha o escritório em Lisboa.

Durante a semana fazia esse trajeto, ao fim de semana estava com as igrejas ou em atividades com os jovens. O que aconteceu, e o episódio que tu mencionas, e talvez estás muito bem informado, foi que uma vez que eu voltava de Lisboa, fiquei durante algum tempo sem ver. Enquanto conduzias? Enquanto estava a conduzir. O que aconteceu é simples. Eu tenho uma herança familiar de diabetes. E por... razões de desregulamento ou também do controle da situação de saúde, comer mal porque era muito trabalho, não comer a horas e tudo.

foi o momento que despolutou uma situação grave de diabetes e foi o que aconteceu nesse momento. Passei algum tempo internado no Hospital de Coimbra, mas graças a Deus o senhor ajudou. E esse momento, para mim, foi o momento de uma grande lição. Lembrei-me do episódio do apóstolo Paulo e não sei porquê, mas ainda hoje o sentido da visão para mim continua a ser extremamente importante. Eu punha uma questão, mas o que é que eu vou fazer sem ver os próximos, sem ver o rosto da minha mulher, dos meus filhos, daqueles que estão à minha volta.

E isso levou-me à experiência do apóstolo Paulo e essa semana Eu tinha a minha Bíblia comigo, mas era a única coisa que me vinha. A minha graça te basta. A minha graça te basta. E venha ao mesmo tempo a essa noção que eu dizia há instantes. As capacidades são importantes, mas elas são-te dadas por Deus também. Não serve de nada tu fazeres tudo por ti Tu não pões Deus primeiro e sabes que mesmo que tenhas que parar, o caminho tem que ser sempre com o Senhor. E descobrir dessa maneira esta dimensão da graça da parte de Deus, para mim foi um momento que eu...

acaricio-o, porque foi um momento revelador para mim. Alguma coisa que eu pensava, estou no topo do mundo, porque nem as igrejas sentiam essa dificuldade, nem o próprio departamento de jovens Porque as coisas funcionavam. Mesmo quando eu estava em Lisboa, eu telefonava aos membros, eu acompanhava. Tinha uma equipa de anciãos e de diáconos extraordinários que permitiam isso. As igrejas estavam estruturadas por isso. E esse sentimento de dizer-me, Senhor, eu estou a fazer tudo o que me pedem e, de repente, plaf!

E essa dimensão o senhor teve que me mostrar dessa maneira. E para mim é uma lição que eu acaricio ainda hoje. E que embora eu continue a ser um workaholic, continuo de vez em quando a lembrar-me que é preciso uma boa gestão também naquilo que é positivo e mesmo no trabalho. Quando olhas para trás, achas que esse poderá ter sido um dos momentos mais abrólhos, digamos assim, da tua vida? Foi certamente um dos momentos mais reveladores, reveladores pessoais, e que me ensinou nessa gestão.

E isso, hoje em dia, continua a ser, porque, de vez em quando, eu tenho os diabetes que sobem, que há algum descontrolo e que me diz, bom. Tens que... Mesmo fisicamente que estás tão diferente daquilo que eras antes, não é? A necessidade de intervir de maneira a que isso mudasse. Havia realmente problemas de saúde, São questões um bocado pessoais, mas cheguei a uma altura que eu estava a tomar doses extremamente elevadas de insulina na casa das 300 unidades por dia e estavam completamente desreguladas.

Houve um segundo momento de uma quebra de saúde complicado, já em França, e que me obrigou, com um grupo de médicos, onde em que nas suas especialidades eles me viam e eles diziam que cada um deles, se continuar assim, não chega à idade da reforma. E foi um lembrar de todo esse percurso. Disse-me, bom, tenho que agir e fazer alguma coisa para mudar isso. A verdade é que estás com quase 60 anos e estás com o melhor aspecto do que eu. Porque continuas aí muito jovem. Vamos para o curto intervalo. Nós já voltamos com o nosso convidado, o Rubem de Abreu.

Ele é pastor da Igreja Adventista do 7º dia e é o presidente da União Franco-Belga da Igreja Adventista. Até já. TV Novo Tempo. O canal da família. O canal da esperança. Olhos nos Olhos, terceira e última parte deste programa aqui na Novo Tempo

Presidência na União Franco-Belga

Portugal, canal que pode acompanhar no número 186 da MEO, na sua box ou claro também através do Youtube e através do portal novotempo.pt. O nosso convidado de hoje é Rubem de Abreu, ele que tem gostado de compartilhar conosco um pouco do seu ministério, da sua vida também, dos seus desafios. Rubem, já analisamos aqui um pouco da tua infância em Livre de Douro, do teu ministério pastoral em Portugal, em algumas igrejas e também em Lisboa. Assumes o departamento de jovens, assumes a administração enquanto secretário, que é uma espécie de vice-presidente aqui no nosso país, sendo que em 2013 és chamado para assumir a presidência da União Franco-Belga. Foi algo que te surpreendeu completamente, chamarem um português para assumir igrejas adventistas no sétimo dia em França?

Foi uma experiência completamente inusitada. Devo dizer que nessa altura... Nós estávamos em diálogo com a Conferência Geral dos Adventistas, 7º dia, do Departamento de Missões, porque havia uma proposta para eu ir trabalhar para o Norte de África, os países de expressão francesa do Norte de África, e era um desafio que me atraía. Aprender uma nova língua, aprender novas culturas, completamente diferente de nós, e isso atraía-me. Por aquilo que eu juro saber, tu tens uma grande paixão pelo Ministério Pastoral, junto de comunidades muçulmanas.

Nós trabalhamos... Desenvolvi-o depois, também, por causa dessa sensibilidade que foi criada, porque obrigou-me a interessar-me por isso, porque era uma realidade que estava aí. E, na realidade, o que aconteceu foi que tudo estava pronto para eu e a minha família, para irmos para o Líbano, na altura. O que é que acontece? Nesse fim de semana teve a Assembleia da União Franco-Belga, e no domingo eu estou com os desbravadores de Setúbal na praça em uniforme a fazer uma atividade, recebo um telefonema do presidente da divisão a dizer-me que o meu nome saiu na comissão de nomeações, aquela comissão que dentro da Assembleia trabalha as propostas a fazer à Assembleia, e que se eu estava disponível para isso.

Eu disse, bom, eu tenho este compromisso com o norte da África, por isso nós estamos preparados para sair. Não me acredito. mas deixa o nome seguir, se queres, porque franceses deviam buscar um português ainda por cima nessas circunstâncias. A verdade é que um quarto de hora depois ele diz, olha, o teu nome foi votado, passou, sem qualquer problema, agora é a ti de decidir, porque vais para ser apresentado em Assembleia. E eu disse que preciso de algum tempo, preciso falar com a minha família, preciso falar com o Presidente da União, porque parece-me uma questão dática que ele esteja ocorrendo.

E eu estou entre Setúbal e a minha casa no Montijo, Quando eles estão... Eles telefonam-me em menos de 10 minutos. Então, já decidi. E foi assim. Mas, mais uma vez, eu vejo a mão de Deus na construção das coisas. Porque se não fosse todo o percurso que nós tínhamos feito para ir para o norte da África, nunca teria sido possível aceitar, em 10 minutos, mudar toda a vida. Mas todas as coisas estavam preparadas para ali. E o Senhor chamou-nos, e graças a Deus. Sim, já estás desde 2013 como presidente desta União Franco-Belga.

Quais são os grandes desafios que tu enfrentaste, mal lá chegaste? É muito diferente da realidade portuguesa. Temos desafios estruturais. e temos desafios internos e eclesiais. Os desafios estruturais pandem-se com as questões de legislação. Eu passei os meus, e tu podes compreender-se perfeitamente, passei os meus primeiros seis meses a ler os textos de lei e a formar-me, apesar de eu conhecer muito bem o que se passava aqui em Portugal. Eu dou-te um exemplo. Tu conheces a lei da liberdade religiosa que define o culto em Portugal, que é uma coisa recente, no princípio dos anos 2000, e que é fininha no seu tamanho.

Na França, é uma lei de 1905. e que depois, para além de tudo isso, eles não anulam. acrescentam as alterações. É um princípio francês. E as questões da compreensão, da gestão entre aquilo que é possível fazer, aquilo que não é, aquilo que a laicidade francesa permite. Porque às vezes confunde-se que o secularismo à americana que é a mesma coisa do que ali. Na americana há uma indiferença, mas a religião está no meio da sociedade. O sentido da laicidade francesa vem da herança da revolução francesa, que exclui e é contra o próprio fenómeno religioso.

Não o espiritual, mas o religioso. E eu tive que aprender a trabalhar com isso. A segunda questão estrutural é que, em Portugal, nós somos uma união de igrejas, O que quer dizer que tem uma estrutura única. Na União Franco-Belga, nós temos três associações. que a União gere através dessas associações. A Associação do Norte da França, a Associação do Sul da França e a Associação Belgo-Luxemburguesa. O que faz que elas têm diferenças de tamanho, diferenças culturais, têm diferenças mesmo de recursos.

Uma outra diferença com Portugal, por exemplo, é que a União gera diretamente os postores. Eu não tenho a gestão dos postores. Quem tem são as associações locais. O meu papel passa a ser muito mais de coordenação, como é que se diz em português, de supervisão, de verificar que as coisas são aplicadas segundo a lei, segundo os regulamentos e o funcionamento da igreja. E aí vem o outro grande desafio que é a questão da diversidade. A integração das três num projeto comum, quando elas cresceram de maneira muito diferente.

depois a integração dentro da própria igreja. Nós somos uma união com uma rara diversidade, diversidade cultural, diversidade linguística. Eu falo quatro línguas e prego em todas elas aquela que eu menos utilizo é o português. Aquilo, para poderem compreender, nós temos 16, 15, 16 comunidades linguísticas, nós chamamos mais étnicas porque dentro das comunidades linguísticas existem muitas nacionalidades, organizadas. Temos pastores brasileiros, cavardianos, rumenos, do Ghana, temos um pastor coreano.

Essa diversidade é um desafio extraordinário. E foste buscar também muito na relação, quer com o Veronique, quer também com as

Diplomacia e diversidade religiosa

pessoas que foste conhecendo ao longo da tua vida. essa capacidade de conseguires criar pontos e diz quem te conhece que, curiosamente, tu tens criado pontos também nos movimentos religiosos, não só adventistas, mas quer entre os reformadores, os evangélicos. Eu creio que há um outro nome em francês para isto, mas aquilo que me foram dizendo é que tu tens muito essa ligação de pontos, quer até com outras religiões, não é? Tem a ver com questões pessoais, mas tem sobretudo a ver também com a questão da própria estrutura de funcionamento em França. O governo francês não reconhece nenhuma igreja e apenas fala através de famílias.

O que, na opção natural para nós, foi nos ligar à família protestante. Dentro desse relacionamento, eu sou membro do Conselho de Administração da Federação Protestante de França. A noção de federação não tem a ver com a noção de ser uma supraigreja, mas é uma plataforma onde criamos laços de compreensão uns dos outros, mas que permite, ao mesmo tempo, ter uma força e uma voz de negociação com as autoridades e o poder político. E isso desenvolveu uma parte Eu diria diplomática em mim, que até aqui nunca tinha tido a necessidade de o utilizar.

No fundo, os testes psicotécnicos ou vocacionais que te deram, no fundo, era um. Bocado isso que já dizia. Tinham alguma razão de ser. Rubem, eu tenho um vídeo que eu gostava que tu visses. É o último vídeo que nós temos de alguém que resolveu gravar uma mensagem para ti, que tu conheces bem. Olá a todos, é particularmente uma salvação à Ruben. Eu o conheço desde 1986, em Colômbia, durante minhas estudos de teologia. Um ano mais tarde, eu estava com ele nos horizontes. Dez anos mais tarde, nos encontramos nas reuniões de juventude internacional e um pequeno lembrando particular ao Congresso de Juventude de Lisboa, como responsável de juventude. E, finalmente, nos encontramos na União Franco-Belga por três mandatos. Quando ele foi nomeado pela primeira vez à UFA, ele não estava preso.

Mas eu me lembro do que disse à Assembleia, para um pouco o apresentar, um pouco dizer o que ele era. Eu diria que ele é uma pessoa dinâmica, intencionada, criativa, direta e com um grande amor pelos outros. E foi isso que eu encontrei durante essas 12 últimas anos. É sempre um prazer trabalhar com ele, e ainda mais um grande obrigado por isso e por esses momentos passados, e eu tenho certeza que ainda há alguns anos a passarmos juntos. Ou seja, foi este pastor Pascal que te apresentou quando estavas em Setúbal, a caminho do Montijo. Não, não foi essa a história. Quem me ligou foi o pastor Bruno Vertallier, que na altura era o presidente da divisão, que no nosso caso, o presidente da divisão é o presidente da Comissão

Legado e mensagem final

de Nomeações. Aqui foi diferente. Quando o meu nome foi apresentado na Assembleia, eles apresentaram uma fotografia de alguém que normalmente poucos conheceriam. Aquilo que aconteceu foi que, entre outros, ele, o Pascal, que me conhecia bem, tomou a palavra para defender e falar sobre mim. E é interessante como ele fala nesse amor que sentes pelos outros e que ele também continua a identificar. Rubem, a última pergunta que eu te faço, e é a pergunta que eu faço a todos os convidados que passam por aqui, como é que tu gostarias de ser lembrado em relação à tua vida, ao teu ministério, a tudo o que tu fizeste nos últimos quase cento anos?

Eu apenas gostaria de ser lembrado como alguém que andou com Deus. Penso que seria a coisa mais extraordinária. O resto são funções, são a necessidade, o amor ao Senhor, a dedicação ao Senhor, nessa perseverança, e estamos na Semana de Adoração dos Jovens, que perseverou e andou com o Senhor até ao fim. Rouba, muito obrigado pela partilha e por teres nos dado a conhecer um pouco mais sobre a tua vida. Obrigado, e pela surpresa.

Sobre este episódio

Este episódio leva-nos a uma viagem inspiradora pela vida e ministério de Ruben de Abreu, à data Presidente da União Franco-Belga da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Desde cedo, o seu caminho parecia traçado para o serviço, revelando uma vocação precoce que o levou a dedicar a sua vida à fé. Hoje, lidera uma vasta comunidade de igrejas espalhadas por França, Bélgica e Luxemburgo, num testemunho de compromisso e dedicação que transcende fronteiras. Nesta conversa aprofundada, desvendamos as camadas da sua notável jornada. Prepare-se para conhecer o impacto de uma herança familiar missionária e o papel crucial que os desafios pessoais, incluindo uma experiência transformadora de saúde, tiveram na sua perspetiva espiritual e ministerial. O Pastor Ruben partilha reflexões valiosas sobre a liderança e a integração de diversas culturas e gerações na igreja, bem como a sua visão para o futuro do ministério jovem num mundo em constante mudança.

Não perca a oportunidade de explorar:

  • Os origens da sua vocação pastoral e os mentores que o moldaram.
  • Os desafios iniciais de um jovem pastor e a importância de uma comunicação acessível.
  • A complexidade de liderar uma união multicultural e a gestão da diversidade.
  • A sua experiência enquanto diretor do departamento de jovens em Portugal e a evolução do seu olhar sobre a juventude.
  • O impacto transformador de um sério desafio de saúde na sua fé e ministério.
  • O equilíbrio entre a vida familiar e as exigências do serviço pastoral, mesmo através da distância.
Série
Olhos nos olhos · 30 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 5
Estreou
11 de Julho de 2025
Categoria
Outros