Cultivar a compaixão

Cultivar a compaixão

21 de Outubro de 202528 min 12 s

Capítulos

Transcrição

Gerada automaticamente

Abertura e boas-vindas

Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio Mentes Que Sentem. É sempre uma alegria estar consigo, convosco, para si que já nos acompanha há alguns meses, há alguns episódios, para outros que talvez tenham detetado ou descoberto este programa Mentes Que Sentem, seja muito bem-vindo também e muito bem-vinda. E temos orado a Deus para que nos use, para a sua bênção, para esclarecimento, para ajuda, para informação, para que realmente a saúde mental possa ser também uma mais-valia na sua vida ou na vida daqueles que você mais ama. Nós, com certeza, continuamos a ter neste programa a presença da doutora Cristina Dias. Cristina, mais uma vez, muito obrigada sempre pelo teu altruísmo, o teu espírito de serviço e mais uma vez a informação que estamos para dar para ajudar os nossos queridos que nos escutam.

Obrigada Milô, tal como eu tenho vindo a referir é bom podermos estar aqui, estarmos em conjunto no nosso espaço. É isso. Sem filtros e um espaço de confiança.

Conceito de compaixão

É verdade. Louvado seja Deus por isso. Cristina, nós no episódio anterior nós acabamos por ver que há uma relação direta entre aquela que é chamada e que desenvolvemos um pouquinho da inteligência emocional, a compaixão e a nossa saúde. E também abordamos a diferença entre a compaixão e a empatia. Falamos também sobre a importância de começarmos a desenvolver atitudes de compaixão para connosco, próprios e também para com os outros. E se calhar era importante desenvolver um pouquinho mais esta ideia e este ensinamento. Obrigada Milú por essa ressalva, por essa observação. E efetivamente quando nós falamos de compaixão, e já tivemos a oportunidade de ver isso no episódio anterior, nós nem sempre temos uma noção plena de qual é o conceito de compaixão.

Mas vamos recuperar algumas ideias-chave que deixamos no ar no episódio anterior. Quando nós falamos de compaixão, por exemplo, de atitudes práticas de compaixão para connosco próprios, temos que falar, por exemplo, na forma como nós dialogamos para connosco próprios, aquilo que nós chamamos de nosso diálogo interno. Estivemos a falar no estarmos atentos à maneira como nós nos posicionamos relativamente a nós próprios. Falamos também, e temos vindo a falar várias vezes sobre isso, sobretudo desde que abordamos o conceito da inteligência emocional, na questão de aceitarmos as nossas emoções sem estarmos a atribuir juízes de valor. mas olharmos para elas no seu caráter de funcionalidade.

Quando falamos na questão de... porque isto vai nos capacitar para termos atitudes de compaixão para com o outro também. E quando estamos a falar do outro não podemos deixar de referir que estamos todos na mesma situação. Todos nós temos desafios que temos que aprender a lidar com eles, portanto estamos aqui, estamos todos a lidar com situações que desafiam a nossa capacidade muitas vezes de intervenção, mas não nos podemos esquecer que é mais aquilo que nos une do que propriamente aquilo que nos separa. E quando falas dos outros, que o capitular também é um bocadinho este conceito, quando tens alguém que tu te apercebes que está a ter uma postura crítica para consigo própria, a tal voz interna do outro, Muitas vezes é importante ajudar a pessoa a ver as coisas noutra perspectiva, fazendo uma pergunta tão simples.

Olha, se fosse eu que estivesse a partilhar isto contigo, se fosse outro amigo, tu estarias a utilizar exatamente o mesmo tipo de discurso? Estarias a utilizar exatamente o mesmo tipo de observações? É porque se não estarias a fazê-lo, então o que é que precisa de mudar? E há aqui um aspecto que eu gostaria de trazer, que está diretamente implicado com a questão da compaixão, quer seja uma atitude de compaixão para connosco próprio, quer seja uma atitude de compaixão para com o outro, que tem a ver com aceitar o fato de que o sofrimento faz parte da experiência humana. E nós até abanamos a nossa cabeça em concordância e dizemos que efetivamente faz sentido, mas nós não sabemos reagir a esta evidência com uma atitude compassiva.

Nós não sabemos perceber e ajudar o outro a perceber que muitas vezes a reação que estamos a ter ou que é a reação que o outro está a ter ao sofrimento, a alguma dor, a algum desafio faz parte da nossa biologia. E às vezes temos coisas tão simples como pensamentos que nos vêm à mente, sou fraco por estar a sentir isto, ou efetivamente só eu é que erro, quando na realidade se percebermos que o sofrimento é algo transversal, não na perspectiva de estar a aliviar o meu sofrimento, mas na perspectiva de não querer ficar isolado nesta questão. E aqui se me permite se eu gostava de dar um exemplo prático para clarificar esta situação. Recentemente falava com um jovem, que teve um relacionamento amoroso durante algum tempo e por algum motivo este relacionamento não seguiu.

E no decurso das nossas conversas a determinada autora ele verbalizava e dizia-me, sabes, eu às vezes tenho receio de ser emocionalmente fraco porque eu já estou nisto há algum tempo, parece que eu não consigo ultrapassar esta situação. E à medida que falo nisto, começo a tomar consciência que eu também tenho medo que os outros considerem que eu sou emocionalmente fraco. Porque às vezes eu ouço observações dos meus amigos do género. Ainda estás nessa? Então ela já seguiu a vida dela, tu ainda continuas. E parece que isso me faz sentir como se eu não tivesse competências ou capacidade ou não estivesse à altura. E aqui enfatizar algo que temos falado em vários episódios.

O sentimento, o pensamento, é diferente de um facto. Portanto, ele pode pensar que às tantas já deveria ter ultrapassado esta situação. Ele pode sentir-se emocionalmente incapaz porque aparentemente ainda não ultrapassou esta situação, mas isso não significa que seja um facto. E se nós perguntássemos, ok, qual seria uma verbalização, uma reformulação deste pensamento de uma forma mais compassiva, nós poderíamos dizer algo do género. Ok? Eu gostaria de não estar a sofrer ainda com esta situação, no entanto eu estou a trabalhar no sentido de me recuperar dela. E cada pessoa tem o seu tempo. Eu não tenho que ser igual aos outros.

E isto permite que não ficares presa a um pensamento que na realidade vai trazer dor. Por exemplo, outro pensamento que é comum nestas situações. Ah, se eu tivesse agido de outra forma ainda estaríamos juntos. E a pergunta que se coloca é, nada te garante que isso pudesse ter ocorrido. Eu posso olhar para trás e efetivamente perceber situações em que eu agi de forma incorreta. E agora, o que é que eu faço com essas situações? Aprendo a ter uma atitude diferente daqui para a frente? Por outro lado, será que à medida que eu fui tomando consciência daquilo que estava incorreto, eu agi no sentido da mudança? E por outro lado, quando nós falamos de uma relação, nós falamos de uma relação que envolve sempre duas pessoas.

Embora possamos dizer que há uma maior responsabilidade de um ou de outro, efetivamente são duas pessoas que estão implícitas. Isto é uma atitude mais compassiva para com este pensamento. Imagina, por exemplo, ainda neste contexto em particular, o pensamento de nunca mais vou encontrar alguém como ele ou como ela. Também é um pensamento muito comum. Exato. Muito comum. Eu posso ter medo de não ter na minha vida uma pessoa que tenha aquelas características que eu apreciava no relacionamento anterior. Ou não. Não sei. É uma indefinição. Mas isto não significa que pelo fato de eu não encontrar ou ter medo de não encontrar alguém que tem essas características, não significa que eu não vou encontrar uma outra pessoa que possa ter outras características que também venham complementar as minhas necessidades.

que cada relação é única. Claro. Portanto, quando eu olho para o pensamento de nunca mais vou encontrar ninguém como ela ou como ele, é um facto. Prende-me essa situação.

Atitudes práticas de compaixão

Quando eu reformulo este pensamento, eu abrigo de uma atitude mais compassiva, ele dá-me aqui um hiato de esperança e o ser humano quando tem um hiato de esperança ele luta. Um outro pensamento ainda neste contexto. Eu preciso de esquecer isto rápido senão eu nunca vou avançar com a minha vida. Quantas e quantas vezes nós lidamos também com esta situação. E a verdade é que nós quando pensamos desta forma, nós queremos aliar-nos ou não sentir o desconforto que a situação nos provoca. Querem termos sintomatologia física, querem termos sintomatologia emocional, porque ninguém gosta de sofrer, nós sabemos disso. Agora, se eu olhar e perceber que o sofrimento faz parte do processo da cura eu vou ter mais capacidade de respeitar o tempo necessário.

E provavelmente quer tu, quer eu, quer aqueles que nos escutam conhecem alguma situação de pessoas que tentam resolver uma relação que não correu bem criando uma nova relação e saltitam de relação em relação e acabam por incorrer nos mesmos erros porque a situação anterior não ficou resolvida. É quase como se eu estivesse a tapar ali um espaço. Portanto, isto não deixa de ser uma atitude compassiva para comigo e para com aquele que está ao meu lado reformular os pensamentos desta forma. Há também uma outra situação que nós desvalorizamos pela sua simplicidade. Eu já utilizei algumas vezes esta observação. Quando nós estamos a passar por algum desafio, nós queremos uma solução que seja rápida e igualmente proporcional ao desconforto que aquilo provoca.

Mas esquecemos, e eu vou continuar a ser insistente neste aspecto, esquecemos que são as coisas simples postas em prática com consistência que a maior parte das vezes dão os grandes resultados de mudança. e nós esquecemos de pôr em prática atitudes intencionais de compaixão para connosco e para com os próprios. E eu aqui não tenho uma lista a dizer faz isto, faz aquilo, faz aquilo outro, não. Aqui eu vou apelar, quer a ti, quer àqueles que nos ouçam, que façam um exercício de reflexão e vejam o que é que fará sentido. E vou dar três exemplos concretos para nos ajudar a descortinar um bocadinho de forma prática isto. Algum tempo atrás acompanhava alguém, uma pessoa profissional de saúde, uma pessoa da área da enfermagem, que me dizia assim, eu sinto-me cada vez mais isolada, eu parece que já não tenho grande propósito e ninguém me liga, as pessoas ignoram-me.

E a pessoa dizia isto com uma dor muito profunda e dizia, olha, às vezes nem sequer para um bom dia, nem sequer para um sorriso. E provavelmente Alguns de nós identificamos com esta experiência, com esta situação. Então, na perspectiva da compaixão, nós resolvemos fazer um exercício muito simples. E dissemos, ok, então, durante esta semana, aquilo que tu vais fazer é, intencionalmente, vai ser tu a ter essa atitude para com o outro. Foste ao supermercado, deste um sorriso e disseste obrigado à senhora da caixa. Viste o teu vizinho, não cumprimentes só, pergunta se está tudo bem ou deseja uma boa semana. Entrou-te um paciente no consultório, Estabelece um bocadinho uma conversa, nem que seja uma conversa de circunstância, mas faz esse esforço com intencionalidade.

A verdade é que a próxima vez que estivemos juntas ela dizia-me assim, olha, não sei se é daquilo ou não, mas as pessoas estão mais simpáticas comigo. E nós podemos olhar para este exemplo e pensar que simplicidade ou que poéria este exemplo é. Este exemplo, ou esta atividade, não vai fazer com que a pessoa deixe de se sentir só. Mas vai permitir à pessoa que a intensidade com que ela vivencia esta emoção diminua um bocadinho. Dá espaço ao quê? Àquilo que nós falávamos, à tal esperança. Portanto, eu tenho a capacidade de agir sobre. Um outro exemplo de uma atitude muito simples que entra no contexto da compaixão. Eu não tenho memória visual da minha avó materna.

Ela faleceu, eu era muito pequenina. Mas eu tenho uma memória que me acompanha até hoje. Se tu me perguntares Como é que era o rosto da minha avó, eu não sei. Mas eu sei que ela tinha uma pele extremamente macia. E como é que eu sei que ela tinha uma pele macia? Porque quando ela pegava em mim, ela encostava o rosto dela ao meu. E isto ficou-me marcado para o resto da vida. E provavelmente aquela pessoa, a minha avó, não teve noção do impacto que teve em mim, mas foi um pequeno gesto. A verdade é que ela deixou ali uma atitude compassiva de intervenção na vida do outro que perpetua até hoje. E nós muitas vezes o que fazemos é não valorizar estes pequenos gestos ou pequenas atitudes.

Às vezes porque não fazem parte do nosso temperamento, às vezes porque não estamos habituados, não fizeram parte da nossa educação. Terceiro exemplo. Quando estávamos em plena época pandémica, ano de 2020, passamos por várias fases. Passamos pela fase do confinamento total, o lockdown, passamos por fases em que era permitido com algumas restrições fazermos a nossa vida. E nessa altura em que era permitido fazer a nossa vida, embora com algumas restrições, eu recordo-me que um dos meus filhos tinha transitado de escola. Portanto, não era uma escola totalmente desconhecida para ele, porque ele efetivamente já tinha visto um dos irmãos a andar na escola, mas era a primeira vez que ele estava lá enquanto aluno. E na primeira semana de aulas houve um dia em que, inadvertidamente, eu me atrasei um bocadinho para o ir buscar.

Mas não estamos a falar de um atraso de meia hora ou de uma hora, estamos a falar de 5 ou 10 minutos. Quando eu cheguei, ele estava do lado lá da escola, do portão, estava visivelmente assustado. E a verdade é que a funcionária da escola disse uma coisa que eu tenho gravada até hoje também. Ela disse assim, homem, eu tive muita pena dele, mas nós não podemos abraçar. E repara, eu não estou de todo a questionar a atitude da funcionária. Não tenho essa legitimidade. E ela estava a cumprir ordens. mas ela tinha noção que bastava ter dado um abraço para acalmar o nível de medo e de ansiedade que aquela criança tinha. Isto é uma atitude compassiva. Então quando nós falamos na questão dos pequenos gestos aquilo que eu desafio cada um de nós a pensar é o que é que me traz segurança a mim pessoalmente?

O que é que me traz a noção de pertença a uma comunidade? O que é que me traz a noção de valor próprio? Então, ao invés de estar à espera que isso seja suscitado espontaneamente pelos outros, começar a desenvolver pequenas atitudes simples, em que haja intencionalidade da minha parte para com o outro, porque tal como diz a lei da física, uma ação tem uma reação. Exato. E o principal beneficiado vou ser eu, quando falamos desta questão da compassion. Eu creio que passarmos de uma atitude passiva para uma atitude ativa, muda logo a nossa reação perante o desafio que nós possamos ter diante de nós.

Manual de estudos

Muitos lá em casa já têm com certeza aquele que é o manual de estudos que sempre oferecemos neste programa, neste episódio e em cada episódio nós falamos sobre este manual, Sentimentos, a Ciência do Existir. Muitas casas já o têm, muitos são aqueles que já pediram. Se é o caso de não ter, ou assim, ou para oferecer a alguém, aqui está este manual para ir para a sua casa diretamente gratuito. Basta apenas enviar uma mensagem para o número 933-939291 e nós teremos com certeza todo o gosto. de poder enviar para si este manual que tem vários assuntos que nós já abordamos aqui em diferentes episódios e outros que ainda vamos abordar mais no futuro. Portanto sinta-se à vontade e escreva ou ligue para o 933 93 92 91.

Cristina, eu gostava, por favor, de recuperar uma questão que nós colocamos no episódio anterior. Como ter atitudes, e a pergunta que te coloco é, como ter atitudes de compaixão quando nós estamos a lidar com emoções difíceis, como por exemplo a questão da vergonha, a questão da culpa, parece-me ser um bocadinho mais complexo. É um bocadinho mais complexo pelo valor que nós lhes atribuímos. Ok. Mas a questão é extremamente pertinente, Milu. Primeiro, recuperar aquilo que tínhamos dito há pouco. As emoções difíceis fazem parte da existência humana. Por outro lado, dizer que em momento algum, naquilo que nós vamos abordar daqui para a frente, nós estamos a justificar o erro, ou estamos a tentar desvalorizar a atitude das pessoas, ou estamos a dizer que as coisas não têm consequências.

Muito pelo contrário. A pergunta que nós vamos tentar responder é, de que forma? é que eu posso existir quando eu tenho algum erro ou alguma vergonha ou alguma culpa na minha vida e que de alguma forma me está a trazer desconforto ou desafio emocional. E abordamos sempre as coisas na perspectiva terapêutica, porque isto é um programa no âmbito da saúde. Exato. Uma verdade que é básica, que já temos falado nela noutros episódios, é, para poder responder essa pergunta em concreto, é aprender a separar o erro da pessoa, do seu valor próprio. E nós mais uma vez abanamos a cabeça e dizemos que sim, mas não sabemos fazer isto na prática. E aqui há duas ressalvas que eu gostaria de deixar em primeiro lugar.

A primeira é uma coisa é a constância do comportamento. Portanto, imagina que eu tenho uma pessoa que com facilidade se impaciente em várias circunstâncias da vida e em vários contextos. Eu não posso de maneira nenhuma dizer que ela é uma pessoa paciente. Isto tem a ver com um traço dela. Um traço de personalidade, eventualmente da própria pessoa. Que é algo que poderá vir a ser trabalhado, portanto. Aprender a separar o erro da pessoa não significa que vamos retirar à pessoa as suas próprias características individuais. Por outro lado, os erros têm gravidades, têm níveis de gravidades diferentes e mais uma vez nós não estamos a justificar as consequências nem estamos a justificar o que motivou a pessoa a agir daquela forma.

Imaginemos o exemplo da pessoa impaciente. Vamos supor que aquela pessoa está no trânsito e está parada no trânsito e entretanto começa a ficar exaltada e a ver a fusta sozinha dentro do carro. Começa a refilar dentro do carro. Isto é uma atitude. Agora imagina que a pessoa tem uma atitude um bocadinho mais forte e acaba por se envolver numa discussão com um outro automobilista. Isto poderá ter outra consequência. Portanto, quando falamos de aprender a separar o erro do valor da própria pessoa, nós não estamos a desvalorizar a responsabilidade individual nem as consequências daquilo que fazemos. Então vamos tentar pegar num exemplo prático, em mais do que um, para percebermos como é que nós fazemos isto. Recentemente falava com alguém, tem um filho de 4 anos, e esta mãe partilhava comigo o seguinte, foi a festinha de final de ano, do infantário ou da pré-escola, neste caso, e a criança estava no palco e dizia à mãe, olha, tu não imaginas a vergonha que eu tive.

Porque ele não parava quieto, só estava a fazer disparates. É verdade que depois a educadora a percebeu-se e foi lá ter com ele e acabou pedindo-lhe ajuda e o menino sossegou um bocadinho. Mas as coisas que me passavam pela cabeça eram, o que é que eles vão pensar desta criança? E vão pensar que é uma criança sem educação, e vão pensar que nós como pais não sabemos educar. E depois, como nós já vimos em episódios anteriores, a nossa mente tem a capacidade de projetar diversos cenários. E alguns dos cenários que vieram foi, e se esta criança não se consegue controlar, a culpa é dos pais. E se os pais não a conseguem controlar, significa que quando ele for para a escola primária, ninguém vai ter paciência com ele. E ninguém tendo paciência com ele, vão pô-lo de lado. e se lhe começam a fazer bullying e por aqui fora. Isto até nos pode trazer um sorriso aos lábios, mas quantas e quantas vezes nós nos identificamos com isto.

Agora imagina que eu... Não faço, intencionalmente, o exercício de separar o erro da própria pessoa. Provavelmente, a atitude que eu teria quando chegássemos a casa é, vamos imaginar que este menino se chama João, seria algo do género. Oh João, tu viste como é que te portaste na escola? Portaste mal. Não é assim que se portam as crianças. Os meninos bons não fazem aquilo. Tu viste que só fizeste disparates. Provavelmente iríamos classificar esta criança desta forma. Agora, se nós tentarmos fazer este exercício, que às vezes só o conseguimos fazer à posteriori, Mas é uma questão de treino. Depois torna-se mais simples e mais espontâneo na nossa mente isto surgir. Nós começaríamos por fazer a seguinte pergunta. Afinal, qual foi o erro? Para mim, qual foi o erro?

O erro foi que aquela criança teve um comportamento desajustado à circunstância. Ok. Isto foi o erro. A criança teve um comportamento impulsivo ao fora do contexto. Mas o fato da criança ter tido esse comportamento significa que ela é automaticamente mal educada? Significa que é uma criança desrespeitadora? Ou significa que é uma criança que não sabe cumprir ordens? Não, porque na maioria dos casos não é assim que eu classifico a criança. Muito pelo contrário. Então, o mau comportamento da criança não veio de uma característica individual no sentido de de respeito ou falta de educação, mas veio sim porque ele estava nervoso. E o que é que eu também já percebi?

Eu já percebi que quando ele está nervoso o meu filho reage de forma patetinha, portanto faz disparates, brinca porque está nervoso, além disso era a primeira vez que ele estava num contexto de um palco com tantas pessoas à frente dele. Por outro lado, ele era o mais novo do grupo. O grupo eram crianças entre os 4 e os 12 anos de idade. Uma criança com 12 anos de idade tem a capacidade de ler as coisas de uma forma diferente de uma criança de 4 anos. O que é que eu estou a fazer aqui? Eu estou a separar o comportamento da criança, aquele erro em particular, de um valor que a criança tem. E agora como é que isto vai ter um impacto direto na forma como eu falo com a criança? Imagina quando chegamos a casa e eu digo ao João A mamãe viu que tu estavas um bocadinho atrapalhado quando estavas lá em cima no palco. Estavas nervoso, filho?

Era muita gente, não era? Olha, mas tu sabes que quando nós ficamos nervosos às vezes temos atitudes que não são as mais corretas e viste que depois quando a educadora te veio pedir ajuda tu acalmaste. Então, olha, vamos pensar os dois em conjunto. De que forma é que quando estiveres nervoso nós podemos criar aqui alguma coisa para te acalmares? O impacto desta diferença entre aquilo que eu sou e aquilo que eu sou enquanto valor próprio e aquilo... A atitude. A atitude que eu tive faz completamente uma distinção e isto tem impacto emocional e é uma atitude de compaixão também para com a própria pessoa. Agora, deixe-me só dar-te um último exemplo.

Quando estava a pensar nisto lembrei-me de um episódio que ocorreu lá em casa quando os meus filhos eram pequeninos. E eu recordo-me que um deles, deveria ter uns três aninhos de idade, sensivelmente, resolveu que era pintor. E achou que a parede lá de casa era fabulosa. Era uma tela maravilhosa. E alguns de nós, sem dúvida, ficamos com isto. E ele resolveu fazer lá uns desenhos. E na altura quem estava com eles em casa era a minha mãe. E a minha mãe, sabendo perfeitamente quem tinha feito o desenho, chamou-o e disse quem fez aquilo na parede? E a primeira atitude dele foi, não fui eu? Não fui eu? E a minha mãe perguntava-lhe, então quem é que foi? E ele dizia, foi o Mano. Acontece que o Mano era um bebê de meses que estava aqui e ainda nem sequer gatinhava e que estava a dormir no quarto ao lado.

E a minha mãe na brincadeira respondia-lhe e dizia-lhe, que malandro que o Mano é, que conseguiu sair da caminha dele e vir para aqui a fazer isto. Pois é, dizia o pequenino. Pois é. E mais parou ali um bocadinho e ele quando achou que já não iria ter nenhuma repercussão sobre a situação, virou-se para a minha mãe e disse assim, ó vó, vó, estás a ver, é um carrinho. Agora pensa comigo, se nós formos olhar e classificarmos a pessoa pelo seu erro, o que é que nós vamos dizer? Não se faz isto. Isto é uma coisa que os meninos bons não fazem. Exato. E catalogamos. E catalogamos e classificamos, mas nós fazemos isto com muita facilidade uns com os outros. Agora imagina que nós aprendemos a destrinçar, a fazer esta diferença.

Oh filho, olha, Porque o erro aqui foi que ele mentiu. Mas mentiu porque tinha medo das consequências. Ó filho, olha, não se deve pintar na parede e tu és um bom menino. E os bons meninos não mentem. Quando tu tiveres vontade de fazer isso, vamos encontrar aqui um sítio onde tu possas pintar. Há uma diferença, a criança aprende que ela não é classificada pelo seu erro, embora o seu erro tenha consequências. Agora nós os dois vamos limpar a parede. Por exemplo. Cristina, sem dúvida que é sempre um universo maravilhoso e tão grande quando

Encerramento e reflexão espiritual

nós começamos a conversar sobre estas coisas e no início, a título de encerramento deste episódio, quando falávamos sobre aceitarmos que o sofrimento faz parte da experiência humana. E é interessante que Jesus nunca nos deixou nessa ignorância. Pelo contrário, quando ele diz em João 16, 33, E portanto, todo aquele que realmente constata que tem desafios na sua vida, porque tem, todos nós os temos, mas sabe que o Senhor não nos deixando na ignorância é exatamente para nos precaver e nos preparar para estes desafios que fazem parte da nossa vida. E mais ainda, Ele não só diz que nós no mundo teremos aflições, mas diz para termos bom ânimo, porque o Senhor Jesus venceu.

Então, quando nós conhecedores destas coisas permitimos pela graça de Deus também nos conhecermos a nós próprios e no fundo este ministério, este trabalho, destes programamentos que se sentem é exatamente para que o ser humano e aquele sobretudo que sofre a nível mental compreenda algumas das coisas que darão respostas a tantas outras que nós não as tendo seremos mais angustiados e sofreremos muito mais. Mas, com certeza, nós teremos a oportunidade de continuar estes ensinamentos no próximo episódio. Obrigada, Cristina, mais uma vez. Que Deus o abençoe e a abençoe. E, então, até o próximo episódio, se Deus quiser.

Sobre este episódio

Neste episódio exploramos como desenvolver atitudes de compaixão - connosco próprios e com os outros - especialmente quando lidamos com emoções difíceis como culpa, vergonha, medo ou tristeza. A Dra. Cistina mostra, com exemplos reais e acessíveis, como o diálogo interno, a aceitação das emoções e pequenos gestos intencionais podem abrir espaço para cura, esperança e mudança genuína.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 25
Estreou
21 de Outubro de 2025
Categoria
Saúde