27:00Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um programa Mentes que Sentem. É sempre uma alegria poder estar consigo, convosco. É sempre bom podermos estar neste bocadinho à parte, a refletirmos, a pensarmos, a aprendermos sobre coisas importantes da nossa vida, particularmente sobre as nossas emoções. Cristina, a doutora Cristina está connosco mais uma vez. Muito obrigada pela tua presença e que bom é podermos estar juntas mais uma semana. É verdade. Eu estava a pensar, há uns episódios atrás, eu utilizava esta expressão, o nosso cantinho do conforto. E cada vez mais é isso que eu percepciono. Estamos num espaço sem tabus, sem juízos de valor, com respeito a abordar questões que são importantes para cada um.
Sem dúvida. E nós damos a graças a Deus por este privilégio que temos de estar aqui cada semana a refletir consigo sobre coisas tão interessantes como esta que nós iniciamos no episódio anterior, de inteligência emocional, porque fazíamos mais ou tínhamos mais conhecimento sobre outro tipo de coeficiente, que era a questão do coeficiente de inteligência e não tanto do coeficiente emocional. No entanto, hoje, Cristina, creio que era importante nós abordarmos um pouquinho ou compreendermos um pouquinho mais sobre o que é que é isto de emoções, o que é que é isto de sentimentos, como é que podemos compreender ou definir isto. E eu acho que essa é a pergunta basilar. Afinal, estamos a falar do quê?
Primeira coisa que eu gostava que nós tivéssemos percepção é que as emoções são naturais. Nós temos, nascemos com a capacidade de sentir as emoções. António Damasio é um nome incontornável nesta área, é um neurocientista de renome. E ele tem uma expressão muito interessante. Ele diz que a emoção é um programa de ações. É uma sequência de ações consecutivas. É disputada pela tua mente, mas ocorre no teu corpo. No teu coração, nos teus músculos, no teu sistema endócrino. Uma série de situações. Imagina. Imagina que tu dás uma gargalhada. Ok? Suponhamos isso. Eu vou olhar para ti e eu vou ver algo. E eu estou a dizer, a milo está alegre.
Como é que eu vejo isso? Pela tua fisionomia, pela tua postura corporal. Isto que se vê é o que António Damasio refere e define como sendo emoção. É o processo fisiológico, é a representação, a exteriorização do nosso corpo. Que nós vemos uma parte dele, porque tu não vês os processos internos que estão a ocorrer no teu corpo. mas que te ajudam a definir o que é que a outra pessoa sente ou não sente. Mas o sentimento, tu não o consegues ver. Porque tu podes, por exemplo, ter dado uma gargalhada e eu olhar para ti e dizer que a minha luz está alegre. E tu estás a lidar com uma tristeza profunda no teu íntimo e não estás a transparecer para o outro que isso ocorre. Então, eu gostaria de utilizar uma citação que ele tem em que diz o seguinte.
A emoção todos podem ver. enquanto o sentimento é privado. E eu gosto de utilizar este exemplo. É mais ou menos como se fosse... Não levem a mal o exemplo, porque parece que estamos a falar de uma coisa altamente complexa, utilizando um exemplo infantil. Mas é como se fosse um ovo. Tu olhas para um ovo e dizes, o ovo só é ovo quando tem casca gema e clara. Então, independentemente de nós conseguirmos definir o que é emoção, o que é sentimento e percebermos este processo, eles fazem parte do mesmo mecanismo.
E a pergunta que se coloca é, mas afinal, para que é que existem as emoções? Se nós já nascemos com a capacidade e a sentido de as expressar, para que é que elas existem? E voltamos a fazer uma questão. Imagina que tu te cortas no teu dedo. E a pergunta é, para quê serve um corte no dedo se tu não tiveres a perceção da dor? Se tu não tiveres a consciência da dor. Então a consciência da dor está a fazer o quê? Está a informar o teu organismo que aconteceu algo, está a predispor-te para a ação, para lidares com aquela situação. Então quando nós olhamos para as emoções, e antes de entrarmos em algumas delas, é importante que hajam determinadas coisas que fiquem claras na nossa mente.
Primeiro, as nossas emoções têm um propósito para a nossa sobrevivência e para a nossa proteção. Sobrevivência e proteção física e emocional. Segundo, nós dizemos que as emoções são funcionais. Todas elas têm uma função diferente. Terceiro, as nossas funções são adaptativas. Levam-nos a adaptar ao meio e às circunstâncias. Mas agora eu gostava de, antes de continuar a elencar algumas das características, eu gostava de fazer uma pergunta. Milú, alegria e tristeza. Qual destas emoções é que tu defines como positiva e qual destas é que tu defines como negativa? Naturalmente iríamos para a alegria como positiva e a tristeza como negativa.
Mas se calhar depende das situações, não sei. Sabes que a própria forma de fazer a pergunta já enviesou a tua resposta. E isto para nos levar a refletir em algo. Porque nós temos a tendência de classificar as emoções como positivas ou negativas. Isto está completamente errado. Se as emoções têm uma função, se elas são adaptativas, elas são sempre positivas. Se, dentro da sua funcionalidade, elas executarem o propósito que têm. O que nós confundimos é que há emoções agradáveis e desagradáveis de sentir. Então, nós tecemos um juízo de valor. Como é desagradável sentir a tristeza e eu não quero voltar a passar por isto, eu digo que é uma emoção negativa.
Mas não é. Esta é a primeira coisa que eu gostaria de desmistificar. Todas elas têm uma funcionalidade, são positivas e são adaptativas. Agora vamos imaginar um exemplo do dia-a-dia. Uma criança, por exemplo, 7, 8, 9 anos de idade, que está na escola e que vai ter um teste no dia seguinte. E, de repente, a criança começa a queixar-se. Dói uma barriga, dói uma cabeça, até apresenta ali alguma sintomatologia febril. Vamos escolher outro tipo de causas, está bem? Vamos centrar apenas nisto. A criança está a vivenciar a emoção do medo. E, fisiologicamente, o seu organismo está a reagir à dor de cabeça, à dor de barriga, à sintomatologia febril.
Mas porquê a criança age desta forma ou porquê o seu organismo reagiu desta forma? Pelo valor que a criança sente em relação àquilo. Vai ser difícil. A professora vai se aborrecer comigo, por exemplo. E agora vamos, mais uma vez, sair um bocadinho daquele padrão de referência que nós temos e alargar o leque de pensamento. Eu recordo-me, em relação a esta questão das emoções, eu recordo-me de uma situação com a qual tive contacto há relativamente pouco tempo. Uma jovem mãe partilhava comigo uma experiência que teve com a filha. A filha, salvo erro, terá agora 4 aninhos. E todos nós temos aqueles dias em que não temos bom acordar.
E de certeza que tu, que eu e alguns dos que nos ouvem se identificam plenamente com aquela expressão de que desespero. A mosca vai para a direita, chora. A mosca vai para a esquerda, chora. Nunca está bem com nada, chora por tudo e por nada. Esta mãe estava num dia assim. A criança saiu da cama, foi à cozinha, viu que o pequeno almoço não estava na tigela que ela queria, chorou, chorou, chorou, chorou, fazia uma birrota e a mãe estava desesperada. Até que a mãe se recordou de um joguinho que tinha já há algum tempo e que eu acho muito interessante. e desafio aqueles que são pais e avós a poderem procurar e fazer algo. E que tem a ver exatamente com estimular a identificação das emoções. Então, eram bonequinhos, a mãe até fez aquilo, bonequinhos em que, por exemplo, o bonequinho vermelho era a emoção da raiva, o bonequinho amarelo era a emoção da alegria, o bonequinho azul era a emoção da tristeza, por exemplo.
Então, a mãe foi buscar esses bonequinhos e, olha, vamos imaginar que esta menina se chama Maria, por exemplo, E olhou para a pequenina e disse assim, pegou no bonequinho vermelho, o bonequinho da raiva, a menina já sabia, não é? E dizia assim, Maria, tu estás-te a sentir assim. E a menina dizia, não, não estou, e chorava e continuava. E a mãe voltava a insistir, não querida, tu estás-te a sentir assim. E a menina dizia que não. Até que a mãe optou por uma estratégia um bocadinho diferente. E perguntou-lhe, então, mostra-me como é que tu te estás a sentir. E a pequenina foi e pôs no bonequinho azul, o bonequinho da tristeza. É assim que eu me estou a sentir. Independentemente de tu e eu, enquanto adultos, podermos dizer não, não, porque aquela criança estava a sentir, era raiva.
A verdade é que a perceção que aquela criança tinha é que o evento em si lhe estava a provocar tristeza. E agora a pergunta que eu te coloco é, o fato de uma criança de 4 anos te identificar que não está com raiva, mas está com tristeza, modifica ou não logo automaticamente o teu posicionamento enquanto adulto? Modifica logo. Porque a minha estratégia de atuação vai ser completamente diferente. Porquê que eu trouxe estes dois exemplos? Para nós percebermos o impacto de aprendermos a identificar as emoções, a desenvolvermos uma linguagem que está mais à vontade com isto e a reproduzirmos isto nos nossos contextos familiares.
E agora iremos abordar algumas das emoções em concreto também. Já agora, Cristina, é interessante. Estavas a falar e eu estava a pensar. Mesmo a nível dos nossos relacionamentos de adultos, muitas das vezes nós temos grandes desafios, e vêm as incompreensões, e vêm os problemas, porque detetamos uma determinada emoção, mas não estamos a compreender o sentimento. E nós estamos a gerir apenas na fase ou no nível da emoção, quando aquilo é mais profundo, portanto aquilo tem a ver, porque nem sempre nós exteriorizamos corretamente o nosso próprio sentimento. Como essa menina, não é? Que aparentemente parecia uma coisa, mas afinal ela se sentia como outra coisa. E eu acho que isto é muito importante.
E já agora, antes de continuares, porque é importante também, lá em casa, vós poderes ter aí em casa, para aqueles que já estão connosco há muito tempo, sabem que nós temos este manual de estudo, que é gratuito, que nós poderemos enviar para vós, apenas contactar-nos através do 933 939 291 e nós teremos toda a alegria e o privilégio de poder enviar para si ou enviar para algum amigo que queira oferecer este manual de estudos, Sentimentos, a Ciência do Existir, que fala sobre várias coisas, assuntos que nós já tratamos aqui em diferentes episódios, outros que estamos a tratar agora e que trataremos no futuro, na graça de Deus. Então, é um excelente manual. Portanto, não perca esta oportunidade e entre em contacto connosco.
falar dessas emoções, então. E, portanto, dessas experiências tão naturais quanto a nossa própria existência. A alegria, a tristeza e tudo isso. O que é que poderemos dizer sobre isso, Cristina? Olha, Milo, eu gostava de recuperar algo que tu estavas a dizer há pouco, que eu acho muito importante. Tu estavas a falar, nós avaliamos ao nível da superfície, portanto, aquilo que é visível aos nossos olhos, mas nem sempre percebemos o sentimento. E aqui é um parênteses. Mesmo às vezes, aquelas situações em que a pessoa aparentemente não está a conseguir expressar uma emoção. Imagina, a pessoa que está a lidar com um desafio, ou uma perda, ou algo que é significativo. E nós dizemos, mas aquela pessoa parece que está sem emoções, desprovida de emoções.
Se calhar já é uma emoção em si. E nós estranhamos. É o que nós chamamos de embutimento emocional. Mas pensa comigo, a maior parte das vezes nós não temos uma perspectiva de compreensão face a isto. Nós temos uma perspectiva de apontar o dedo. Então é-me muito frequente lidar com situações em que as pessoas me dizem, perdi a capacidade de chorar. Atingi o mais baixo nível, perdi a capacidade de sentir. Eu não consigo saber como é que era viver antes. Porque a minha realidade atual é só esta. Atualmente. Então, porquê que eu estou a fazer esta referência? Para que haja da nossa parte compreensão, paciência, respeito acima de tudo.
E percebermos que todos nós gerimos as coisas de forma diferente. E nós não temos que avaliar a pessoa, temos que estar disponíveis para ser um ponto de apoio para a pessoa. E já agora, desculpa, querida, para não te interromper, esta questão dos relacionamentos exige tempo. E às vezes a gente não tem tempo nem uns para os outros. Eu creio que é aqui que muitas das vezes perdemos e acabamos por até ficar ressentidos ou divididos, porque por não termos tido tempo para fazer essa análise e dar esse tempo justo e correto àquilo que são as emoções e a forma de ser e de sentir de cada um, acabamos todos por perder. E realmente, investamos no tempo e uns nos outros, no fundo é uns nos outros.
E eu sei que nós estamos a fugir um bocadinho do tema, mas já lá voltaremos. Mas, sabes, isso fez-me lembrar duas situações. A primeira é que foi feito um estudo há algum tempo atrás, não sei de memória agora, poderei trazer para um futuro episódio, em que perguntaram a pessoas que estavam em fim de vida, olhando para trás, o que é que elas lamentavam. E, curiosamente, todas as respostas foram associadas às relações e ao tempo. E há bem pouco tempo alguém partilhava isto comigo. As pessoas, estamos numa sociedade consumista. E criou-se em nós a falsa expectativa de que o ter é sinónimo de felicidade. Mas há, neste momento, uma geração que começa a ficar mais atenta e substituir o ter pelo guardar como memória.
O ter experiências, o ter algo físico, Por guardar uma memória, eu ter uma experiência que hoje me ajuda a perceber que a minha vida faz sentido porque aquilo está integrado na nossa vida diária.
Emoções. Vamos falar sobre emoções básicas. Não vamos abordar todas. Provavelmente teríamos o equivalente a vários episódios. Para aqueles de nós que já tiveram a oportunidade, isto vai vos soar um bocadinho ao filme Divertidamente. Um filme que foi produzido há uns anos atrás. O título original é Inside Out. mas que está efetivamente construído de uma forma muito interessante e científica até. Então nós vamos abordar cinco emoções básicas e vamos tentar abordá-las na perspectiva de emoções como funcionais. Ou seja, a funcionalidade e o propósito da emoção. Vamos falar sobre a alegria, vamos falar sobre o medo, sobre o nojo, sobre a raiva e sobre a tristeza.
E vamos começar por aquela que, para a maior parte de nós, é a que desejamos. A alegria. Então, a alegria é uma emoção que ocorre dentro de nós e que é exteriorizada. E aqui não vamos fazer distinção entre emoção e sentimento, tá bem? O que ocorre dentro de nós quando nós interpretamos algo como sendo de grande valor? Portanto, imagina, eu passei no exame de condução, o meu filho teve uma boa nota no teste, uma amiga mandou-me uma mensagem. Não estamos a falar aqui de valor material, ok? Estamos a falar de valor que nós atribuímos à situação. E a verdade é que o nosso cérebro fisiologicamente gosta de sentir prazer.
Então tem tendência a querer reter aquilo ou repetir aquela evidência. Um exemplo muito simples. Imagina que nós as duas estamos a conversar num determinado local e aproxima-se alguém que tem um bebê pequeno no colmo. E o bebê sorri espontaneamente para ti. Qual é a tua tendência? É sorrir. Aliás, os investigadores na área dizem que o sorriso é fisiologicamente contagioso. Então, porquê que tu olhando para uma criança que sorri para ti, não tendo ela nada a ver com quem tu és, porquê que tu tens tendência a sorrir? Porque há esta demonstração, há mecanismos ativados, no âmbito do nosso Centro de Recompensa e de Prazer, que te dão, efetivamente, esta noção de bem-estar e de prazer. E já fizeram até aquela experiência de alguém num metro ou num comboio que está a ver qualquer coisa e começa a rir às gargalhadas.
Ninguém está a ver o que ele está a ver, nem a ouvir o que está a ouvir, mas começam a rir-se também. Exatamente. E agora pensa comigo, como é que se comporta uma pessoa que está sob a influência da emoção, da alegria ou da felicidade? A pessoa tem ou não tem tendência para estar mais expansiva socialmente? Para permitir um maior contacto? A verdade é que a função da emoção alegria é ser agregadora socialmente. É isto que a emoção alegria faz. A funcionalidade dela, perdão, estou a atrapalhar, é agregar socialmente. Agora a pergunta que eu te coloco é, imagina que tu conheces alguém que esteja sempre no mesmo pico de alegria, Se conhecesse alguém que estivesse sempre no mesmo pico de alegrias, dizeria que aquilo é alegria excessiva.
Aquilo foge. É estranho. Isto mostra-nos que as emoções têm a característica, para cumprirem a sua funcionalidade, de ir e vir. Quando tu tens um contínuo de uma determinada emoção, ela já poderá estar a passar para um sintoma, por exemplo. E agora vou pedir a quem nos ouve e quem nos vê que contextualize isto. Não estamos a fazer diagnósticos baratos, está bem? Mas, por exemplo, quando estamos numa situação em que temos, no tempo, uma demonstração de alegria ou de euforia continuada perante uma situação de uma determinada pessoa, para além de outros indicadores, nós podemos estar a lidar com uma situação de bipolaridade, por exemplo.
Aqui já estamos a falar da alegria enquanto sintoma e não enquanto função. Portanto, o nosso objetivo hoje, ao descrevermos as emoções, não tem a ver com atribuir-lhes o caráter de sintoma, mas atribuir-lhes o caráter funcional. E mais uma vez, volto a referir isto, não queremos apenas descrevê-las.
Queremos que as pessoas pensem nelas de forma a refletir. Outra emoção extremamente poderosa é o medo. E é consensual para a maior parte de nós que o medo tem uma função protetora. Está associado à nossa sobrevivência física. O que é que o medo faz? Ele é ilicitado sempre que nós estamos perante uma situação em que nós identificamos como potencialmente lesiva para nós. Então, o medo é a emoção que aciona o mecanismo de coordenação de respostas. É protetora. É uma emoção de alerta. Imagina duas situações distintas. Imagina que eu estou a conduzir e que a determinada altura eu me apercebo que acabou de acontecer um choque em cadeia.
imediatamente eu fico com medo. O que é que esse medo me vai fazer? Vai disputar uma série de mecanismos fisiológicos que vão fazer com que eu acabe por ter comportamentos de prevenção. Vou reduzir a velocidade, ligar os quatro piscas, mudar a faixa de rodagem. Isto é a identificação de um perigo iminente. Mas o medo também é ativado quando nós somos ou estamos perante uma situação em que identificamos a percepção de um perigo. Imagina que eu sou uma pessoa que não lido bem com alturas, por exemplo. E de repente tenho que atravessar uma ponte pedonal, por cima de um rio. Eu vou cheia de medo de atravessar aquela ponte. Porquê? Porque eu receio que a qualquer momento me possa desequilibrar e cair. Então o medo é ativado nestas duas circunstâncias.
Perante um perigo iminente e perante a perceção de um perigo. Só que muitas vezes esta perceção leva a que eu fique bloqueada, impede-me a ação. Por isso, pensa comigo, imagina que estamos aqui e de repente acontece um ruído muito forte. E eu olho automaticamente para ti. E eu vejo a tua expressão facial e tu estás com uma expressão facial assustada. O que é que achas que me vai acontecer? Contagia-te nisso também. Mas é contagiante porquê? Porque o meu cérebro interpreta que... Perdão, desculpa. O meu cérebro interpreta que se tu estás com medo, estás potencialmente em perigo. Se tu estás potencialmente em perigo, eu também. Eu também estou. Exatamente.
E aqui deixem-me só fazer um parênteses. Nós já tivemos episódios em que abordamos ansiedade. Quando é que o medo deixa de cumprir a sua função de proteção e de alerta e passa a ser um sintoma? Quando, de alguma forma, ele acaba por ter uma continuidade no tempo desproporcional à situação que o provocou. Por exemplo, eu lembro-me de uma situação de uma senhora que durante algum tempo acompanhei. Esta senhora tinha muita ansiedade. O medo pode ser uma base para o aparecimento de ansiedade. Esta senhora era incapaz de sair à rua sozinha. Ela não ia à padaria, ela não ia ao supermercado, ela não se metia num transporte público, ela não saía de casa a não ser acompanhada.
Isto porquê? Porque, a uma altura, ocorreu a senhora ter desmaiado num local público. E a senhora dizia que de cada vez que pensava em sair de casa estava a perguntar a si própria, quando é que eu vou desmaiar outra vez? E se eu caio mal e parto alguma coisa? E se não está lá ninguém para me socorrer? Aqui já estamos a falar do medo como sintoma de um quadro que evolui para algo patológico. Nós também já tivemos a oportunidade de ver que existe a ansiedade funcional e a ansiedade disfuncional. E só aqui uma última ressalva em relação a esta questão do medo. Muitas vezes, aquilo que ocorre é que nós, perante uma situação de medo, ilicitem em nós o tal sistema de luta ou fuga que já tivemos a oportunidade de abordar em episódios anteriores.
E o que é este sistema de luta ou fuga? Eu tomo uma decisão perante a potencial ameaça. Ou eu defendo-me, ou eu fujo, mas há situações em que as pessoas congelam. E as pessoas acabam por olhar para si próprias de forma desmerecedora e dizer, mas eu congelei-se, não deveria ter acontecido. Eu gostava de tranquilizar um bocadinho aqueles que nos ouvem. E pegar aqui num exemplo da natureza. Se tu estiveres a passar numa zona onde tem, por exemplo, um escaravelhozinho, e o escaravelhozinho sentir que tu estás a passar por lá, ele faz-te de quê? Normalmente ele faz de morto. Ele congela. É uma estratégia de sobrevivência. E eu não estou com isto a querer dizer que esta estratégia de sobrevivência está sempre adequada em todos os contextos.
Mas aquilo que eu gostaria de trazer para aqueles que nos ouvem é Se isto acontecer convosco em algum momento, eu tenho que refletir porquê. Mas eu não tenho que me penalizar porque eu congelei naquele momento. Às tantas, eu preciso de elicitar técnicas que me ajudem a ultrapassar esta situação. Porque embora o medo seja uma avaliação de perigo iminente, a ansiedade é uma projeção de perigo para o futuro. Mas isto contextualizado, O medo enquanto função, ele tem a função protetora e a função de alerta. Eu creio que é muito interessante e é completamente pertinente tudo isso que nós estamos a aprender, porque é como tu dizias no início.
nós somos feitos e criados como seres emocionais e, portanto, parte-se do princípio completamente natural que faz parte do ser humano e é bom nós termos emoções e sentirmos as emoções. A questão aqui está ainda na forma como nós as gerimos e a forma como nós as vemos, as percebemos na nossa própria vida e como é que nós as vamos gerir ao longo da nossa vida. Eu recordo-me de um versículo que nós encontramos em Provérbios, no capítulo 25 e no versículo 28, que fala sobre esta questão e que vai ao encontro de como é que nós estamos a gerir a nossa própria vida e as nossas emoções. E o Senhor aqui diz, como uma cidade derribada ou derrubada, que não tem muros, assim é um homem que não tem domínio próprio.
E isto é tão extraordinário ao ponto de nos fazer entender que não é o facto de sermos emocionais que está o problema, Mas é o facto da forma como nós gerimos este domínio próprio, que no fundo vamos desenvolver isto depois nos próximos episódios, mas realmente do Senhor vem sempre o conhecimento correto, que não é o facto do desafio em si que temos perante nós, mas é a forma como nós vamos fazer face a esse mesmo desafio. E o desafio que nós deixamos é exatamente estarem connosco no próximo episódio, se Deus quiser. Agradecemos mais uma vez à Cristina e desejamos tudo bom para a sua vida, para a vida daqueles que ama e que o Senhor continue a trazer vitórias, sucessos e a correta, melhor gestão das suas emoções.
Fique connosco na próxima semana, se Deus quiser.
Este episódio mergulha no fascinante universo das emoções e sentimentos, convidando-o a desvendar a sua profunda complexidade. Irá descobrir a intrigante distinção entre aquilo que se manifesta externamente e a experiência íntima do que sente, desafiando a forma como classifica as suas emoções. Prepare-se para uma nova perspetiva sobre a alegria e o medo, compreendendo o propósito vital que cada emoção cumpre na sua vida, para além de meras categorizações de 'positivo' ou 'negativo'.