Júlio Carlos dos Santos

Júlio Carlos dos Santos

16 de Maio de 202559 min 47 s

Capítulos

Transcrição

Gerada automaticamente

Abertura

Seja muito bem-vindo ao programa Olhos nos Olhos, aqui na TV Novo Tempo. No programa de hoje vamos conversar com o pastor Júlio Carlos Santos, atual secretário-executivo da União Portuguesa dos Adventistas do 7º dia. Júlio Carlos Duarte dos Santos nasceu em Angola no dia 24 de junho de 1960, num ambiente marcado pelos desafios e pela luta diária. Da infância numa roça de café, em Angola, a um percurso cheio de reviravoltas. Desde Portugal, Espanha, França, Júlio Carlos construiu uma vida intensa, guiada pela paixão por Deus, pela família, pela igreja, pelos jovens, pela música, pelo desporto, pela pregação e, sobretudo, pelo Evangelho. Hoje vamos conhecê-lo olhos nos olhos a esta história inspiradora de vida do pastor Júlio Carlos Santos.

Muito bem-vindo, Pastor Júlia Carlos. Para aqueles que nos acompanham, eu vou pedir licença a ti e aos nossos telespectadores. Vou tratar-te por tu, ao longo desta nossa conversa, até porque foste o meu professor, conheces-me desde muito pequeno e acredito que poderíamos tratar-nos desta forma qualquer. Não te importas com isso. De maneira nenhuma, Ezequiel. Obrigado por estar contigo neste momento e neste programa. E com certeza que também é meu, portanto, e de maneira que da minha parte estás à vontade. Júlio, achas que tens uma história de vida inspiradora? Achas que, olhando para trás dos teus 60 e alguns anos, por acaso não sei quantos anos é que tens? 64. Vou fazer este ano 65 anos. 65, ok.

Ainda tens 64 na altura em que estamos a gravar. Achas que tens uma história que pode inspirar as pessoas que nos vão ver hoje? Eu diria que, com toda a humildade e com sinceridade de coração, penso que sim. Aliás, só faz sentido a tua passagem por esta terra, se na realidade tu deixares alguma marca e se tiveres alguma história, alguma experiência, que possa ser motivo de inspiração para outros que olham para ti, que conversam contigo. E, portanto, sinceramente, penso que sim. Aliás, eu quero dar-te, quero dizer-te uma coisa, Ezequiel. que é quando esta palavra inspiração tem estado presente na minha mente, porque eu gostava muito, e quem sabe isto poderá vir a ser o ponto de partida para a escrita de um livro. Eu gostava muito que a minha vida. Também estivesse... Já pensaste nisso? Já pensei nisso.

Já pensei nisso. Já pensei nisso e... Falta de tempo? Não, falta-me alguém que me ajude. Falta-me alguém que ajude. Se calhar no final deste programa poderá aparecer alguém. Poderá aparecer alguém no final do programa, exatamente. que me ajude, efetivamente, neste processo. Gostava de deixar, efetivamente, para o futuro um testemunho de vida que seja uma inspiração, sobretudo para os jovens. Muita gente tem-me perguntado e tem-me até desafiado porquê é que já pensaste, porquê é que não escreves um livro, Porque é interessante a tua história de vida e poderá ser uma inspiração para outros. Ou seja, há vários Júlios, teríamos vários capítulos com Júlios, se calhar, diferentes em cada um deles. Exatamente, haveria vários Júlios diferentes em cada um dos capítulos.

E que eu penso que poderia ser interessante, sobretudo para a juventude.

Infância no interior de Angola

E de maneira que, sim, eu penso que sim, Ezequiel, respondendo à tua pergunta. Então, vamos começar pelo início. Nasceste em Angola. No interior de Angola, em que cidade é que tu nasceste? Sim, eu nasci no interior de Angola. Eu nasci no Quanzasul. Para aqueles que passaram por Angola, estão a situar no mapa, Quanzasul. Ali, muito perto da Gabela, portanto, Gabela Konda. Eu nasci numa fazenda de café. Fazenda conhecida como a Fazenda Boa Esperança. Num hospital, que era o Hospital Dunhim, E, portanto, ali foi onde eu, na realidade, nasci. Nas mais profundezas do interior de Angola. Temos uma imagem que queremos mostrar aos nossos telespectadores, mais ou menos, dessa altura. Quantos anos terias aqui? Bom, aqui... Isto é em Angola. Isto é em Angola, isto é em Angola. Eu não sei quantos anos é que eu teria aqui, mas talvez uns quatro anos, talvez.

4 ou 5 anos, por aí sim. Ou seja, tu tinhas... 5 ou 6 anos aqui, talvez. 2 dos teus irmãos, creio que já faleceram, não é? No entanto, eram 5 filhos. Éramos 5 irmãos, de facto. Portanto, 2 faleceram. Atualmente, portanto, estamos 3. Ou seja, nesta altura viviam vocês os cinco com o teu pai e a tua mãe? Sim. No interior de Angola? No interior de Angola. Portanto, o meu pai era responsável por uma das roças de café e, portanto, ele tinha a sua responsabilidade, exatamente, de dirigir uma roça de café no sul de Angola. Ou seja, nasceste em 1960, por isso ficaste lá até mais ou menos ao 25 de Abril de 74, voltaram em. 74, em 75, Não, voltamos em 75. Vim fazer 15 anos a Portugal.

Saímos de lá em maio de 75 e em junho vim cumprir os 15 anos. E como é que recordas então os 14 anos vividos no outro planeta? Recordos com muita nostalgia. Aliás, eu quero dizer-te que, se não se tivesse dado o 25 de Abril, eu provavelmente nunca teria vindo para Portugal, se calhar nunca teria saído de Angola, porque, de facto, a minha vivência em Angola, desde a minha infância até à minha adolescência, portanto, são marcadas, são momentos que me marcaram de forma incrível, extraordinária. Eu tive o privilégio de ter uma infância digamos, uma infância no mato, vamos dizer assim, rodeado de coisas espetaculares, de animais, de...

Eu diria que hoje, nos nossos dias, enfim, as nossas crianças não têm este privilégio. Eu tive esse privilégio. Recordas de alguma coisa que para ti era normal naquela altura e que para hoje, para uma criança de 10 anos, é absolutamente impossível de fazer? Sim, claro que me recordo. Recordo-me perfeitamente de da utilização da minha fisga, recordo-me o fabricar a minha própria fisga. Ias atrás dos animais mesmo? Ia atrás dos animais, dos pássaros, na altura, não é? Era o que eu tinha, portanto, numa roça de café, recordo-me, por exemplo, de um episódio que me marcou de forma incrível. Eu... sabes que isso que é a Ana Roça? Todos nós, os nossos irmãos, os meus irmãos, todos nós tínhamos animais. portanto, atribuídos mesmo.

Eu tinha, por exemplo, um chibo, um bode, que era interessante. A minha mãe, minha falecida mãe, a uma determinada hora do dia, ela libertava, portanto, ela abria as portas a todos os animais, e era interessante vê-los sair, enfim, do seu espaço em que eles estavam, e eles, em liberdade, no terreiro, que era assim, no terreiro onde se cava o café, portanto, nós brincavamos com esses animais. Eu lembro-me de eu brincar com este chibinho, com este bode, literalmente, portanto, ele quando me via estava no monto, quando me via vinha até comigo e nós brincávamos os dois no terreiro. E foi interessante que... A minha ligação a este animal foi tão forte que quando o meu pai vendeu este animal, isto teve um impacto negativo em mim, que foi uma coisa incrível.

Portanto, esta relação com os animais era próxima. Lembro-me perfeitamente do meu baloiço à frente da minha casa. Uma casa, portanto, espetacular. Uma casa que, quando tu saías e descias aquelas escadas, tinhas um panorama natural à tua frente, com os cafezeiros, com as árvores de fruto, enfim, lembro-me que em frente à minha casa eu tinha uma árvore, que eu penso que era uma nespreira, se não estou em erro, em que eu tinha ali o meu baloiço, por exemplo, meu baloiço fabricado, próprio, portanto, que ali estava. E lembro-me de brincar muito com aquele balanço. Lembro-me de brincar com carrinhos fabricados de lata, com as rolhas das garrafas.

Lembro-me de tudo isto. Lembro-me que não tinha problemas de brincar à chuva. Lembro-me que podia vir todo enlameado para casa porque era normal. Lembro-me, por exemplo, de momentos como este, de chover torrencialmente, porque a chuva torrencial em África é incrível, não é? E lembro-me de trovojar. quando havia as trovoadas, lembro-me, e os relâmpagos, lembro-me que na roça, portanto, aquilo entoava de uma maneira incrível, não é? E eu lembro-me de meter na cama, por exemplo, e quando havia estas trovoadas, os animais todos ficavam em alvoroço, não é?

As galinhas cacarejavam, os galos cantavam, portanto, e eu lembro-me de estar debaixo dos lençóis, na minha cama, e de estar a imitar os animais, portanto, fazer parte daquele momento e daquele e daquele movimento, coisas incríveis. Tudo isto tenho presente, de facto, na minha infância. E havia espaço para a espiritualidade? Tiveste uma educação ligada a Deus, à espiritualidade, à religiosidade, à igreja? Sim. Dizer que eu venho de uma família que era extraordinariamente católica, pela tradição, portanto, os meus pais e os meus irmãos, eles nasceram no interior, portanto, do país, em Portugal, ali pelos lados de Viseu, uma aldeia, e a tradição católica estava presente.

E, obviamente, dentro daquilo que era o melhor que os meus pais conheciam e sabiam, eles procuraram, efetivamente, dar-me uma orientação religiosa. Vocês iam à missa ao domingo? Sim, sim, nós íamos à missa ao domingo. Na Roça, não, porque nós não tínhamos, estávamos longe de tudo, portanto, estávamos no interior, não tínhamos igrejas perto, mas depois, quando nós mudamos para Luanda, portanto, para eu começar a minha carreira, digamos, a minha escola, a minha escolaridade, Sim, ao domingo nós íamos à missa, não é? Aliás, não sei se está previsto, portanto, na entrevista, mas dizer-te que mais tarde, quando eu vou para Luanda, eu começo o meu percurso efetivamente nos escuteiros, não é?

Na CNN, no Corpo Nacional de Escutas. Um bocadinho menos, até. Eu fui para Luanda com 7 anos de idade, foi quando eu comecei a escola. 7 anos de idade, mais ou menos com 8, 9 anos comecei nos Lubitos. Sim, acho capaz de ter razão, 9, 10 anos por aí, sim. Mas a tua família conhece a Igreja Adventista antes de regressar a Portugal, em Angola. Sim, senhor, em Luanda. Aliás, eu tenho contacto com a Igreja Adventista em Luanda. E é lá que a minha família, sobretudo a minha mãe e a minha irmã, portanto são aqueles que têm o primeiro contacto com a Igreja Adventista do sétimo dia.

Regresso a Portugal

E, aliás, é em Luanda, na Igreja Central de Luanda, que elas são batizadas. E eu, através da minha mãe e da minha irmã, tenho o primeiro contacto com a Igreja Adventista em Luanda. Sendo que chega o 25 de Abril, um ano depois, a tua família percebe que tem mesmo que regressar a Portugal, que não havia outra hipótese, e vocês vêm para Viseu em 1975. E aí dá-se um choque, se calhar um outro capítulo na tua vida? Um outro capítulo na minha vida que é um choque a todos os níveis, não é? Um choque cultural. Dizer-te uma coisa, Ezequiel, que me parece importante. Em 75, Angola estava com um desenvolvimento brutal, brutal mesmo. Era uma realidade que, quando eu chego a Portugal e, sobretudo, quando eu vou viver para Viseu, há aqui um choque cultural incrível mesmo, incrível.

Eu não fiquei muito tempo em Viseu. Na altura, eu disse à minha falecida mãe, eu disse, eu não vou ficar aqui, não posso ficar aqui. Eu não me estou a ver a desenvolver e a crescer, portanto, quer do ponto de vista mental, psicológico, académico, eu não me estou a ver aqui nesta cidade. Não estou. Mas era rebelde? Ou como é que era o Júlio de 15 anos? Era aquele adolescente difícil? Era. Era um adolescente difícil. Ou seja, a tua mãe nem tinha a grande coisa que quisesse fazer. Não. Eu tinha proposto no meu coração... Eu sempre fui uma pessoa com uma personalidade muito forte. Portanto, bem vincada.

E, na realidade, eu tinha que sair, a minha mãe, coitada, portanto, a minha falecida mãe, como mãe, também se preocupava, porque ela queria ver também o seu filho, porque os mais velhos já estavam feitos, já tinham a sua vida realizada. Eras o mais novo? Eu era o mais novo, de cinco. E, se calhar, o mais difícil. E o mais difícil, sem dúvida. Realmente, eu reconheço que, de toda a família, eu era o rebelde, de facto, eu tinha Era um adolescente com uma personalidade colérica e sanguínea. Eu queria levar tudo à minha frente. Era, de facto, um adolescente muito determinado nas minhas ideias. E com apenas 15 anos dizes, vou sair de casa. Basicamente foi isto? Não, não tanto também.

Com 15 anos eu digo à minha mãe, nós temos que sair daqui para fora, eu não vou conseguir estar aqui muito tempo. Porque reparem-se que eu nunca tinha estado em Portugal, eu venho de um país tropical, venho de um país Enfim, é que tu tens mar, tens toda uma natureza espetacular e vais para uma cidade e para um país, nomeadamente uma cidade onde o frio é incrível. Estamos a falar de Viseu, que está ali perto de Serra da Estrela. E foi horroroso. A minha mãe compreendeu e disse, ok, então nós vamos fazer planos para tentarmos vir ou ir para, digamos, a zona de Lisboa. Porque em Lisboa era onde tudo acontecia, não é?

Portanto, ainda com o atraso devido, e porque havia ainda muito atraso, sem dúvida nenhuma, Mas Lisboa já era onde muita coisa acontecia do ponto de vista cultural, do ponto de vista... E vocês vieram para Lisboa então? Não, viemos para a linha de Sintra. Nós viemos viver aqui perto, portanto, de Lisboa. Alguém lá, o Meio Martins, foi para onde nós viemos viver. Não, ainda com, sim, com 16 anos, com 15 anos, de 15 para os 16 anos. Nós tivemos em visão num ano, talvez, um ano e pouco, não mais do que isso. Estamos a falar, afinal, dos anos 70, Portugal estava em ebulição. Em ebulição completa, sim. No final da ditadura, tudo era novo. Tudo era novo, sim. Isso afetou-te também na altura? Muito, muito, claro, afetou-me muito. Portanto, porque, afetou-me porque, na realidade, eu quando venho perco logo um ano de escolaridade.

portanto, nos meus estudos, porque não me deram equivalência ao oitavo ano, se não estou a erro, uma coisa assim, já não me dão equivalência, portanto, eu tenho que repetir o ano em Portugal no ano seguinte, portanto, e venho a repeti-lo aqui quando mudo para Algueirão-Mem Martins. E, portanto, esse momento, digamos, de ebulição política no país tem uma forte influência porque eu queria compreender muita coisa e eu não estava a perceber muito daquilo que estava a acontecer no país. E lembro-me de vários episódios, de ter constatado vários episódios que, pouco a pouco, não é?

Pouco a pouco, eu fui entretanto compreendendo e fui percebendo que alguma coisa estava realmente a passar-se e que seria, pronto, e que seria alguma coisa que seria para o presente e para o futuro deste país, que agora seria o meu país também, não é? E já vamos querer conhecer melhor esse teu novo capítulo. Vamos só fazer aqui uma curta pausa e nós já voltamos para conhecer mais um capítulo, talvez o capítulo mais complicado da vida do nosso convidado, o pastor Júlio Carlos Santos. Já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança.

A fase da toxicodependência

Segunda parte do programa Olhos nos Olhos. Estamos a conhecer a história inspiradora mesmo. Já vamos perceber melhor do nosso convidado, o pastor Júlio Carlos Santos. Júlio, estamos então em 1980, diria, se calhar, 79, 78, por aí. Falavas que Portugal estava em constante mudança. Estavas a estudar em Algueirão M. Martins. E em que medida que terá sido talvez a partir daqui a fase mais complicada da tua vida? Sim, eu diria que sim, embora já estivesse vindo de trás um pouco, não é? Portanto, eu não falei, mas dizer que na realidade, digamos, o ambiente familiar não era um ambiente muito estável, muito, digamos, convidativo.

Isto sobretudo por causa do meu falecido pai, pela sua personalidade, pela sua maneira de se comportar, de se relacionar com a minha falecida mãe e com os próprios irmãos. Olha-se que ela não tenho presente. Mas foi depois de voltar de Angola. Sim, foi depois de voltar de Angola. Portanto, era um ambiente muito agressivo, muito violento. Isso produzia reação em ti também de alguma agressividade. Eu não diria de alguma agressividade, mas havia as imagens que eu tenho, portanto, desses momentos relacionais do meu pai com a minha mãe, com os meus irmãos, de alguma maneira marcaram, digamos, o meu caráter.

Porque eu via coisas que eu perguntava, mas o que é que está aqui a acontecer? O que é que está aqui a passar? E é nessa fase, portanto, depois, quando nós mudamos para Luanda, que, na realidade, quando eu vou para a escola, não tanto na primária, mas já para a preparatória, que eu vou ter ali, ali é que eu vou perceber a importância de valores que me estavam a escapar, de valores que não faziam parte, na realidade, da construção do meu caráter, que teria sido muito importante. que era a estrutura necessária para tu teres um embate com a sociedade e com os grupos e com a influência dos grupos, que era bastante forte, não é?

Portanto, e aí eu vou, de facto, vou falhar nessa questão e há uma influência muito grande que eu não consigo resistir, não consigo dizer que não a várias situações e aí começa, digamos, a minha história da toxicodependência. Ou seja, ainda começa em Luanda. A experimentar coisas. Sim. A única coisa, portanto, porque em Luanda a única coisa que havia era a Maria Joana, portanto a erva, não havia canábis, não havia rigorosamente mais nada, era o que havia. Ou seja, relacionavas-te com pessoas que poderiam dar acesso a isso. Exatamente. Ou seja, há Há aqui lacunas que teriam sido importantes na minha educação, não é?

Há lacunas. Embora eu tivesse tido uma infância, como te disse, muito feliz, portanto, ok, mas há imagens que ainda hoje eu tenho dentro de mim, ainda hoje eu tenho essas imagens fortíssimas que eu até gostaria de evitar de falar delas porque elas são muito fortes, não é? E isso vai-se refletir, na realidade, vai-se refletir, no fundo dizer-te que eu, Isquiel, eu precisei de ter, eu tive muita necessidade de ter um pai muito presente, que não tive. Portanto, a determinada altura, o pai que eu vou ter é o meu irmão mais velho, que vai funcionar muito como portanto, como educador, como principal, mesmo junto das escolas e tal, é ele que vai funcionar. E, claro, na realidade, em Luanda, é aí que eu tenho o primeiro contato com os grupos, neste caso, na escola preparatória, sobretudo, depois ter feito a primária e começo aí a minha história, portanto, que o lado mais negativo da minha história começa aí com o tabaco e depois com a canábis, portanto, em Luanda, aí com idade tinha eu talvez 13 anos, por aí, 13, 14 anos.

Ou seja, algo assustador para a tua família que já percebia ou ainda conseguia se esconder? Eu acho que não. Eu acho que a minha família não percebia. Eu acho que eu conseguia esconder ainda nesse processo, porque não tenho presente que nessa fase, quer os meus irmãos, quer a minha mãe, tivessem conversado comigo sobre essa matéria, não é? E até que idade é que durou mais ou menos essa tua ligação? Ui, muitos anos, muitos anos, muitos anos, sim, muitos anos. Eu diria... Sim, eu diria que foram o quê? Não sei, oito ou nove anos. Sim, vai-se prolongar. E aí, exatamente, ou seja, quando tu dizes que o pior estaria na fase da adolescência, sem dúvida nenhuma. Portanto, quando eu venho para viver para o Algueirão, eu vou ter contacto, quer a nível dos grupos da escola, quer a nível mesmo onde eu vivia, portanto em Algueirão, vou passar a ter contacto com grupos aonde efetivamente o processo, no caso da droga, portanto já era muito mais do que a Maria Joana, não é?

Início dos anos 80, mais ou menos, era Marijuana, era tudo o que existia na altura. Era tudo o que existia na altura. Estamos aqui a falar da época, portanto, sim, de uma época dos anos 80, que era entre 78 Em 1979, 1980, estávamos a falar dos ácidos, por exemplo, as chamadas tripos, que era o que havia na altura, fortíssimo. Estamos a falar do AX, portanto, e ainda também da marijuana, com certeza, até chegar depois, obviamente, aquilo que foi o pior, que foi a cocaína. Ou seja, estamos a falar, então, como é que tu conseguias, no fundo, adquirir esse material? Como é que era?

Sem a família saber? Ou aí já a família já sabia? Não, aí a família já sabia. Aí a família já sabia. Aí já os alanos soavam? Aí já os alanos, sim. Toda a gente tentava demover-te, mas não conseguias. Não, porque não conseguia mesmo. Não conseguia mesmo porque, digamos, Quando eu saía de casa eu sabia que, na realidade, o que eu ia encontrar na sociedade eram os grupos com os quais eu já me identificava, portanto já tinha uma relação, e que era fortíssimo, tinha uma influência fortíssima, digamos, na minha capacidade de decisão, não é? No fundo, aqui continua a haver exatamente aquelas lacunas que estiveram ausentes, não é? Portanto, no fundo, o desequilíbrio interior, valores que eram importantes terem existido e que não existiram.

E a igreja, para ti, não existia nesta altura? Existia. Ou seja, conseguias... Conseguia, conseguia. Eu, apesar de tudo, Apesar de tudo, não sei se pela minha mãe, talvez pela minha falecida mãe, eu fui tendo contacto com a Igreja Adventista, portanto, de facto, frequentava a Igreja Adventista. E eu penso que isto foi importante. Eu penso que apesar de tudo isso que é o Deus, esteve, embora com este quadro negativo, eu penso que Deus esteve a conduzir todo o processo. Eu não tenho dúvidas nenhumas disso, porque sempre tive desejo no meu coração de ir à igreja, de manter contato com a igreja, de manter contato com os jovens, de ir aos acampamentos, É interessante, não é?

Deus foi trabalhando a passar tudo. E esta sementinha que está aqui, eu nunca apaguei. Ou seja, ela nunca chegou a desaparecer desde o primeiro contato que eu tive com a Igreja Adventista em Luanda. Ele sempre me perseguiu. É curioso. Gostavas da igreja, gostavas do ambiente da igreja, mas não te conseguias libertar, no fundo, de tudo aquilo que era a influência que tinhas. Não, gostava das atividades dos jovens, gostava, portanto, de ir aos acampamentos, gostava de tudo isso, mas não me conseguia libertar. No fundo, eu estava numa luta tremenda, não é? Era isso. Eu sabia, estava consciente que aquilo ia, se eu continuasse, aquilo ia ser o meu fim. E em que momento, e talvez esta seja a pergunta mais importante que as pessoas que estão a acompanhar esta história colocam, em que momento é que tu te libertas das drogas sem recorrer a clínicas, digo eu, nem nada do gênero?

Eu cheguei a ir à clínica, estive três vezes numa clínica de profilaxia e desintoxicação em Coimbra. Portanto, estive lá três vezes. Só que o processo era o seguinte, Ezequiel, cada vez que eu regressava, ok, eu tinha recaídas. E, sabes, eu vou-te dizer uma coisa que é muito importante nestes processos todos de toxicodependência. Uma recaída é pior do que quando tu inicias. E, portanto, das três vezes que eu fui ao centro de profilaxia e desintoxicação, cada vez que eu saía eu tinha uma recaída. E isto era tremendo. Foi importante, atenção, a minha passagem pela clínica foi importante, foi determinante todo o trabalho técnico. Foi fantástico com os médicos, os psicólogos, foi muito importante para eu descobrir determinados valores, os tais valores, digamos, ou alguns dos valores que eu tinha necessidade, foi muito importante.

Eles ajudarem-me a fazer uma caminhada comigo mesmo. Mas, no fundo, não tinhas ninguém que te obrigasse, entre aspas, que te fizesse algo que te impedisse de ter contato com os amigos, Ou seja, tu conseguias ter, continuavas a ter a liberdade para poderes te relacionar com quem quisesse. Sim, sim. E era isso que te acabava por levar à frente. Exatamente. E quero também aqui frisar uma coisa. Eu estou muito reconhecido porque a minha família sempre adotou um comportamento de proximidade. Eu nunca senti na minha família, portanto, uma atitude de marginalização. Uma atitude, aliás, a minha mãe, a minha falecida mãe, ela tem, digamos, ela tem uma história de experiência de oração brutal pela minha conversão, a favor da minha conversão.

Eu só venho a saber isto mais tarde, ok? Porque a minha mãe trabalhava muito, em relação a mim, trabalhou muito pelo silêncio, não é? Obviamente que ela falava comigo, ela aconselhava-me, ela, sem dúvida nenhuma, que vi muitas vezes a minha falecida mãe com lágrimas nos olhos, porque para ela era um impacto extraordinariamente negativo, não é? E aquilo também me gostava, aquilo tinha um impacto em mim também incrível, não é? Mas era um adolescente e então, amigo, eu seguia em frente e, na realidade, isso que é, passei por esse centro, mas, e que foi importante, eu quero frenizar isso, a parte técnica foi extraordinariamente importante, foi necessária, E o volte-face vai acontecer, na realidade, vai acontecer num dia em que eu lembro-me esse dia, portanto, no Algueirão, um domingo, eu estava a sair de casa, saí de casa, tinha um maço de tabaco no bolso do meu casaco e, portanto, tirei o maço de tabaco quando ia a caminho da estação do Algueirão, porque a estação do Algueirão era o sítio onde nós nos encontrávamos, o grupo encontrava-se, não é?

Há bocado fizeste uma pergunta que eu não respondi, Isguel, porque era importante. Obviamente, como é que eu conseguia a droga, meu amigo? Não há muitas maneiras, na altura não havia muitas maneiras de se conseguir a droga. Ou realmente tu roubavas, não é, para conseguir, ok? e era... ou então conseguias contar histórias e adubriar a tua família para te conseguirem dar algum dinheiro para comprares a droga. Isto era o que havia, portanto, ok? E era isso que fazias, no fundo? Era isso que eu fazia e também traficava, portanto, ou seja, também dali vinha algum dinheiro do tráfico que eu fazia, portanto, eu conseguia alguma droga para traficar e, portanto, era daí que eu conseguia, na realidade, os dinheiros. Ou seja, no fundo, te movimentavas numa espécie de submundo que havia naquela região.

Sim, sim. E conhecias as pessoas. Conhecias as pessoas, claro. Conhecia todas as pessoas e as pessoas conheci. Nós sabíamos, não é? Portanto, sabíamos como é que não... Numa altura em que, na realidade, não havia a liberdade que há hoje para o consumo de marijuana e de axis, etc, etc. Ou seja, a relação com a polícia era alguma coisa que fazia parte do teu dia-a-dia. Era violentíssima, portanto, eu corri ao risco de ser preso. Porque ali não era só a questão da quantidade de produto que pudesses ter nas tuas mãos quando fosses apanhado, era a próprio consumo, portanto, ou seja, nós consumíamos às escondidas, nós tínhamos que procurar realmente locais próprios para o fazerem usar. E agora olhas para trás e a maioria desses teus amigos já devem ter partido de alguma forma. Muitos morreram, sim. Muitos morreram. Morreram ou com overdose, ou morreram porque se mataram, ou morreram porque os mataram, porque na toxicodependência dizem que ele não há amigos, não é?

Portanto, e isto é importante. Portanto, quem nos está a ouvir, perceber exatamente esta questão. Não há amigos na droga. Na droga, o conceito de amizade não existe. Portanto, muitos desses meus amigos, da altura, não é? Portanto, muitos que eu tenho conhecimento, alguns morreram, ou, como te digo, ou por overdose, ou porque se mataram, ou porque... Tens contacto com algum dele ainda? Não, nunca mais tive contacto, porque, entretanto, uma das coisas que foi determinante para a minha recuperação, e já lá vamos à história, portanto, foi o facto de eu sair do sítio onde eu estava, porque era determinante, era

O momento da viragem

importante que eu saísse daquele mundo, ou daquele submundo em que eu convivia, não é? Tínhamos que sair. Mas antes de sair estiveste que tomar a decisão de como é que estivesse. Essa decisão dá-se exatamente nesse domingo. Eu saio, vou buscar o tabaco, meto um cigarro na boca e lembro-me que ocorre em mim uma vontade imensa de, portanto, de vomitar. Foi estranho. Eu não te sei explicar muito bem, Ezequiel. Ao fim de 10 anos a fumar, do nada veio esse... Exatamente. Exatamente. Não te consigo explicar. Lembras-te que eu há bocado dizia-te que em tudo eu acredito que Deus esteve em todo o processo. Isto pode parecer estranho, mas eu acredito que Deus esteve a conduzir todo o processo da minha vida.

Todo. Mesmo. Portanto... E, na realidade, eu tenho vontade de vomitar. Eu lembro-me que deitei fora todo o maço de tabaco no lixo, veio, regresso para casa. Já não fui ter com o grupo à estação do Algueirão. Eu volto para casa e é curioso que eu estou em casa, eu estou em luta, E, nessa madrugada, eu vou buscar, entretanto, a minha mãe, minha falecida mãe tinha-me oferecido uma bíblia, que ainda hoje guardo, e com muito carinho, e tenho usado com frequência em encontros com jovens, em atividades, exatamente para falar quando eu falo da minha história, não é um bocadinho? para valorizar a importância que a Bíblia tem, digamos, na vida das pessoas, pelo personagem que ela encerra em si, não é?

E eu lembro que eu fui buscar, nessa madrugada, mais ou menos às quatro da manhã, por ali eu fui buscar a Bíblia da minha mãe, e é ali que começa, é nessa altura, nesse dia, nessa hora, que começa o processo da minha transformação. Porque é que foste buscar a Bíblia, tens ideia? Não há explicação. Não, há explicação, porque a influência que a minha mãe teve junto de mim foi sempre uma influência direcionada... Eu lembro-me dela me falar muitas vezes, ela tratava-me por Carlos ou Carlitos, portanto, ela dizia-me, porque este é um nome familiar, não é o do Carlos ou do Carlitos. Ninguém me trata por Júlio, é curioso na família. E ela foi buscar aquela bíblia... Foi ela que me ofereceu aquela bíblia. Ela ofereceu-me aquela bíblia.

E no dia em que ela me ofereceu, ela disse-me que o autor daquele livro que me amava. Ela sempre mostrou muito o lado, este lado de amor de Deus, por em cima de todos os juízes de valor por o qual eu passei, por o qual eu passava. Enfim, de comentários que faziam ao meu respeito, comentários que eram fortes e que tocavam negativamente o meu caráter. Cheguei a um ponto, Ezequiel, de pensar que eu já não tinha mais dignidade, que já não era um ser humano digno de viver. Sobretudo pelos comentários que faziam ao meu respeito. Cheguei a um ponto em que eu disse algumas vezes à minha mãe, disse, mãezinha, eu já não quero viver mais, eu já não estou aqui a fazer nada, eu não tenho valor nenhum, absolutamente nenhum.

Para todos os efeitos, tu não abandonaste o teu círculo de amigos dentro da igreja, não é? Ou seja, as pessoas dentro da igreja sabiam, no fundo, um pouco o que o Carlitos estava a fazer, não é? Sim, sim. Nunca escondeste, no fundo. Não, eu assumi. Era aquilo que eras. Era aquilo que eu era, portanto... Com. As consequências que isso acabava por ter... Exatamente, exatamente. E, portanto, aquele livro, eu vou buscá-lo exatamente pelo... pelo carinho e pela maneira como a minha mãe me apresentava a Cristo e me apresentava a Deus, não é? Portanto, ela nunca me apresentou a Deus pelo lado negativo, ela nunca me apresentou a Deus pelo lado destrutivo, ela nunca me apresentou a Deus no sentido, tu vais morrer se continuares ou se... os tais ses, não é? Portanto, ela, no fundo, ela conseguia olhar para mim, mas conseguia-me ver diferente.

era o desejo que ela tinha, ver-me diferente. Então, quando me oferece aquela Bíblia, ela tem essa esperança, ela diz-me, Carlitos, aqui tens um livro, e o autor deste livro pode ser importante na tua vida. E o que é acontece? Entre essa noite e o momento em que tu depois és pastor, não é? Acontece muita coisa. Mas, na verdade, é uma decisão que tu tomas... É, naquela madrugada. E que decisão é essa? O que é que aconteceu? Essa decisão, por mais incrível que te pareça, Ezequiel, é uma decisão que eu tomo num período de síndrome de abstinência. Porque nessa altura eu já estava, portanto, com dependência da cocaína. E é brutal isto. E naquela madrugada, eu lembro-me, eu grito a Deus, é um grito de...

no fundo para mim era... era a última oportunidade, eu encarei como a última oportunidade que eu estava a dar a Deus para eu sair definitivamente deste problema. Eu tinha consciência clara de que se eu continuasse eu ia morrer. Eu tinha consciência disto, ou porque alguém me mataria, ou porque de facto eu passaria por uma situação de auto qualquer coisa, ou por uma overdose, ou qualquer coisa do género. Eu tinha consciência disto, porque eu era, eu era, sabes, isso que eu amo. Eu, quando vejo as minhas fotografias hoje daquela época, eu não acredito no ser humano que eu era naquela altura. Eu não era um ser humano, eu era um ferrapo humano. Completamente. Completamente. E, de facto, naquela madrugada, eu tomo as duas decisões mais importantes da minha vida.

Eu digo a Deus, se tu existes, de facto, tens de me salvar. Tens de me tirar da lama em que eu estou. Tens de me tirar deste processo. Tens de me tirar. Não consigo mais. E, simultaneamente, eu estive cerca de quatro horas, entre três e quatro horas, a lutar com Deus, naquela madrugada. Desde as quatro até às oito da manhã. Lembro-me quando a minha mãe vem à sala, me encontra completamente esgotado. Esgotado. Parecia que eu tinha estado em luta física com alguém, a transpirar, completamente cansado. Cansado. mas naquela madrugada eu consegui ler os versículos mais importantes que a Deus me vai colocar para as minhas decisões.

E a tua mãe percebeu, quando te encontrou naquela manhã, o que tinha acontecido? Ela percebeu. Ela percebeu. Ela entendeu. Porque ela viu a Bíblia que me tinha oferecido aberta. Minha mãe não sabia que eu estava na sala. Ninguém sabia. Fui sozinho. Eu levantei, fui buscar a Bíblia e fui sozinho para a sala. E estive sozinho, a lutar com Deus. E quando a minha mãe viu a Bíblia aberta, ela percebeu que alguma coisa estava a acontecer comigo, do ponto de vista espiritual. E é naquela madrugada Eu lembro-me que ela dá-me um abraço, ela beija-me, e eu digo-lhe, mãezinha, eu não quero mais, eu quero sair disto, não quero mais. E, de facto, eu tomo as duas decisões mais importantes. Foi naquela madrugada em Siquiel que eu tomo a decisão de me preparar para o batismo.

Eu digo a Deus, Senhor, eu quero conhecer-te. quero conhecer-te, e quero conhecer-te por experiência própria, portanto eu quero saber quem tu és, eu quero conhecer qual é o teu projeto que tu tens para mim, e tomei a segunda decisão que foi o de querer então um dia preparar-me para ser um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Naquela madrugada eu tomo estas duas decisões mais importantes. E assim foi, portanto, eu comecei a estudar a Bíblia e levei um ano, isso que é, foi um ano a estudar a Bíblia, portanto, por mim próprio. Eu nunca estudei a Bíblia com alguém em particular, portanto, eu quis fazer a minha caminhada e eu mesmo disse a Deus, Senhor, eu quero que Tu neste processo eu quero que tu te reveles de forma muito clara sobre aquilo que tu tens para mim.

E é nessa fase então que tens que largar Sintra e vais para outra cidade para conseguires realmente largar tudo aquilo que te estava ainda a aprisionar? É curioso isso que é, é curioso que... É nessa fase que eu saio, eu ainda tenho contacto, para mim foi muito importante, foi muito importante, antes de sair da cidade, ou de sair do contexto, digamos ali, de Sintra, concretamente, eu tenho contacto, eu passo a ter contacto com a Amadora. Ou seja, em vez de eu desconcentrar a minha história, digamos, no Algueirão, a partir dessa altura, passo a ter a concentrar-me com Amadora. E aí vai ser muito, vai ser determinante, no contacto com a igreja da Amadora, portanto, os jovens da Amadora, portanto, o ambiente foi determinante do facto de eu ter saído dali do Algueirão Mãe Martins.

E eu, essa influência foi extraordinariamente positiva no alicerçar portanto, de valores, com decisões pessoais a serem tomadas, portanto, decisões a apelos que foram feitos e que eu vou começando a cada vez mais alicerçar. E foste batizado em que ano? Em 1977. Foi batizado na Igreja de Cascais em 1977. Júlia, nós já vamos voltar. Fazemos só mais uma curta pausa. É mesmo o último intervalo desta conversa inspiradora com o nosso convidado, o Júlio Carlos Santos. Ele é pastor e está a partilhar um pouco connosco das suas vivências. E agora vamos, nessa terceira parte, conhecer mais sobre o trajeto do nosso convidado enquanto pastor.

Voltamos já. TV Novo Tempo. O canal da família. O canal da esperança. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos, aqui na TV Novo Tempo. Este e outros programas pode acompanhar também no canal de YouTube da Novo Tempo Portugal, outras conversas que temos tido ao longo dos últimos programas. Hoje connosco temos Júlio Carlos Santos, pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que é também o secretário executivo que, na prática, é uma espécie de vice-presidente da União Portuguesa dos Adventistas do 7º dia, e estamos aqui a conhecê-lo melhor. Júlio, já falamos do teu trajeto desde a infância, também da adolescência, vamos agora um bocadinho para o teu percurso ministerial, que acho que também é importante os nossos telespectadores conhecerem.

Percurso ministerial

Disseste que a decisão que tomaste para ser pastor ocorreu mesmo naquela noite, onde há bocadinho contaste... Daquela madrugada. Daquela madrugada, no fundo, exatamente. Depois vais estudar para Espanha, não é? Sim, sim. Só um pequeno detalhe, isso que é o que me parece que é muito importante, porque no dia do meu batismo há um momento que para mim é extraordinariamente marcante para o resto da minha vida, que é eu, portanto, quando saio do batistério, depois quando saio da igreja, quando chego ao olho da entrada, a primeira pessoa que eu encontro, efetivamente, é a minha falecida mãe. E isto, para mim, foi muito importante, porque aquele abraço, o beijo que ela me deu e o que ela me disse, portanto, foi ali que eu fiquei a saber que ela tinha sido uma mulher de intercessão.

Enfim, e ela disse-me há tanto tempo que eu orava por esta tua decisão. E foi marcante, foi um momento extraordinário. Enfim, depois vou estudar, de facto, vou para a Espanha, vou para Sagunto. Estamos no ano 1985. Não, 1983. Portanto, e estou em Sagunto três anos, de facto, a estudar Teologia. Entretanto, em 85 conheço aquela que hoje é a minha mulher, portanto a Nani, não é verdade? Não em 85, um bocadinho antes até, conheço a Nani um bocado antes. Da Nani para mostrar aos nossos telespectadores. Daqui a pouquinho já vamos vê-la. Cá está. Conheceste a Nani em Portugal, naturalmente?

A Nani é portuguesa? Olha, vou-te dizer onde é que a conheci. É portuguesa e é do Norte, portanto, é do Porto. E eu conheci a Nani num congresso de jovens, exatamente no Algarve. Eu tinha participado numa, na altura participei numa estafeta, Lisboa-Faro, e eu vou conhecer a Nani nesse congresso de jovens, na realidade que houve nessa altura. E depois casam antes de terminares os estudos? Sim, casamos antes de eu terminar os estudos. Em 1985, nós casamos. Sim, casamos. Depois ainda vais para a França, terminas. Os estudos em França. Termino, estou em Cologne, portanto em França. faço mais dois anos em França e termino, portanto, digamos, o curso de cirurgia em França. Tu sempre foste uma pessoa muito ligada aos jovens, não é? Temos também algumas imagens que vamos mostrando, ligada a atividades de montanha, de sobrevivência, etc.

Mas a minha questão é, esta tua vocação ligada aos jovens prende-se também pelo

Atividades e projetos com jovens

facto de tu teres tido uma infância quer em Luanda e que também nunca teres largado no fundo da Igreja Adventista. porque aquilo que me parece é que tu sempre tiveste uma proximidade muito grande com as atividades da igreja, porque isso, além de gostares muito, quiseres também transmitir isso para as novas gerações. Sim, sem dúvida, sem dúvida. Exatamente isso, portanto, realmente a paixão... Eu queria só falar aqui de uma... de alguém que me parece que também foi, parece não, foi muito importante, desculpa Ezequiel, mas eu era, era, não ficava bem se eu não mencionasse. Numa determinada altura, antes mesmo de eu ir para Sagunto, eu vou ter alguém que vai ser muito importante no meu processo de, também, de recuperação. E é com essa pessoa que eu faço imensas atividades.

Numa época em que no mundo jovem da juventude adventista, digamos em Portugal, este tipo de atividades não acontecia, como tu falaste. Não se falava de sobrevivência. No fundo um precursor. Sim, no fundo acabei por... por realizar, na altura, com esta pessoa e com o grupo de Malta, na altura, atividades que estavam muito à frente daquilo que se fazia, portanto, no mundo da juventude adventista. Estou a falar aqui de alguém que me aceitou em sua casa, portanto, isto é importante, de um amigo meu, que é o José Duarte, eu tinha que o mencionar, é um companheiro, é um irmão, é um amigo especial, e com ele nós vivemos grandes aventuras, portanto, na montanha, grandes aventuras de sobrevivência, grandes aventuras que vivemos juntos, e é onde, à volta da fogueira, os diálogos que nós tivemos foram determinantes e foram importantes para a construção do meu caráter, no fundo, também, não é?

Portanto, tinha que o mencionar porque faz parte deste processo. No fundo, ele acaba por te influenciar também, ou já gostavas muito deste tipo de atividades? Não, eu já gostava muito destas atividades. Encontrei alguém que me acompanhasse, portanto, e que foi extraordinário. E que hoje em dia, aliás, os teus filhos, tens dois filhos, que também eles continuaram a acompanhar-te nestas atividades. Nós também temos aqui algumas fotos. Cá estão eles, o Pedro e o João, ainda pequeninos. Sabes onde é este? Isto é na Costa de Lavros, sim. No Acnac de Tições, na altura, não é? E aqui estão eles, sim. São os dois por nós. E depois eles o que é que te acompanham? Em atividades que fazes montanhismo? Temos também imagens que vamos ver, ligadas. A, enfim... Sim, isto é em Chamónic, portanto, é uma preparação de uma atividade para irmos ao Mont Blanc.

na altura, e aqui estamos, portanto, a fazer, digamos, em altitudes, aquilo que nós chamamos de um ambiente, de ambientação, para altitude. Isto foi nos picos da Europa, portanto, é uma atividade que nós fizemos na altura, portanto, nos picos da Europa. Aqui isto é Pirineus, isto é Pirineus, exatamente, isto foi numa atividade que nós fizemos nos Pirineus, exatamente, aí está. Portanto, o Aneto, a subida ao Aneto, na altura. Ou seja, para as igrejas onde tu ias, tu acabavas por levar os jovens contigo, no fundo. Sim, normalmente eu fui sempre, nas igrejas por onde eu passei, eu procurava desenvolver este tipo de atividades com eles.

porque eu entendi... Isto é no Xerês, portanto, aqui é... Isto é Penha ou Binha? Penha ou Binha, também. Sou eu e o Pedro. Ok? Isto é montanhismo a sério, não estamos. A falar de... Isto é alpinismo. Isto é alpinismo. No caso, alpinismo. Isto é alpinismo, sim. E, na realidade, é interessante que, neste tipo de atividades, muitas das decisões de jovens por Jesus ocorriam exatamente aqui, porque neste ambiente estamos muito mais à vontade para dialogar, para falar, para... abrir o coração sobre todas as coisas sem tabus, sem rigorosamente qualquer preconceito. Mas além desta tua vertente do alpinismo, do contato com os jovens, aquilo que eu também conheço de ti é que tu és uma pessoa de projetos. Ou seja, pelo menos três projetos eu sei que, das pessoas com quem eu fui falando, que são muito marcantes.

Um deles, no fundo, é esta casa, onde nós aqui estamos, que na altura tu conseguiste criar sem grandes meios. Um outro terá sido a Igreja de Santa Maria da Feira, onde tu foste pastor e que também impulsionaste bastante esta igreja, pelo menos o edifício para ele ser aquilo que é hoje, e outra talvez tenha sido uma campanha que, se calhar, foi o começo mais da forma como organizaste e como também mudaste um pouco a forma como as coisas eram organizadas dentro da igreja, que foi a campanha Paz para Viver em 2001, que temos também uma imagem. Foi a NET. É, foi a NET, sim. Era na altura o coordenador, portanto, deste projeto. Sim, eu penso que foi o maior projeto de evangelismo realizado, alguma vez realizado, em Portugal. no estilo, não é? Que era o que havia na altura, na época.

Sim, esse é um projeto brutal, é brutal mesmo, portanto eu lembro-me que quando terminei este projeto eu perdi 5 ou 6 quilos, portanto foi assim uma coisa... foi a coordenação de uma grande e vasta equipa, não é? Hoje teria sido muito mais fácil porque com os recursos humanos que nós hoje já temos de técnicos e etc., já não teríamos necessidade de ir buscar ninguém fora, não é? Porque a qualidade que temos hoje permitiria fazer uma coisa dessa. Mas considera-se um nome... Consideramos, sim. O seu ministério é à base de projetos que vais até o fim, não deixas nada a meio. Não, não consigo deixar nada a meio e a minha personalidade isquiel em termos de trabalho, eu só consigo funcionar com muitas coisas ao mesmo tempo, não consigo estar só com uma coisa. É normal, é mim, portanto, ok. Eu pensava que tu ias falar de outros projetos, quando falaste de dois ou três.

Desde sim, portanto, hoje que é novo tempo, obviamente, o início foi duro. Foi logo a seguir praticamente à NET, passado alguns anos, quando assuma a coordenação do Departamento de Evangelismo, Ministério Pessoal e Escola Sabatina, é verdade. Mas eu pensava que tu ias falar do Projeto Aliança, por exemplo, que foi outro... Ela ia, ela ia. Temos imagens daquilo, da Aliança. Então vamos deixar. Não, não, mas fala do Projeto Aliança, porque foi também algo muito inovador. Sempre foste uma pessoa à frente do teu tempo, ou seja, conseguias ver aquilo que se calhar mais à frente iria já ser uma realidade e se calhar conseguias ver antes. O Aliança, por exemplo, o Digital Wait, são alguns exemplos disso. Sim, eu não queria ser pertencioso de maneira nenhuma. Não fica bem a ti, mas eu posso dizê-lo.

Tu podes dizê-lo. Eu não queria dizê-lo. Penso que ficaria mal estar a dizer e não queria de maneira nenhuma. Mas consegues ver se calhar um bocadinho mais além. Um poema nos tentas, isso? Pelo menos tanto, sim. Por exemplo, o Projeto Aliança é um caso desses. Há outra atividade na altura dos jovens, que eu não sei se tu chegaste a ouvir falar, que na realidade também veio mexer muito, sobretudo com os companheiros e os embaixadores, portanto, na altura não havia embaixadores, não havia esta terminologia, não é? que foi o Decathlon à Nossa Maneira. Portanto, o Decathlon à Nossa Maneira era uma espécie de jogos sem fronteiras que, na realidade, eu vou desenvolver com uma equipa e que foi uma grande novidade no meio da juventude.

Portanto, eu tinha a preocupação de atingir ali uma faixa etária de jovens que eram determinantes e, então, digamos, o decátlum, o decátlum à nossa maneira, apareceu num momento também inspirador, não é? Deu realmente muito trabalho, mas que foi um projeto também que, na altura, digamos, Deus permitiu que eu tivesse desenvolvido com uma equipa extraordinária. Julio, estamos a chegar ao fim da nossa conversa, no entanto, nós já falamos. Aqui... Santa Maria da Feira, sim, Santa Maria da Feira, foi a construção de uma igreja quando eu passei por ali, quando eu fui pastor ali naquela região. Estamos aqui a falar da forma como a tua história de vida acaba por inspirar as

Um novo estilo de vida

pessoas. Já falamos num desses episódios. A tua ligação, no caso, não vamos esconder as palavras, à toxicodependência. Foste um toxicodependente. No entanto, há também uma outra que inspira atualmente as pessoas, que é a tua paixão pela corrida, mas não só, é por um estilo de vida saudável. Nós temos duas fotos que vamos querer mostrar. Esta é o Júlio antes, aqui com o teu filho. É, quando ele foi no final do curso dele, portanto, quando ele fez engenharia no Porto. E temos a seguir uma outra foto, que é o Júlio agora. Ou seja, metade. Esta imagem não está esticada. A imagem é mesmo assim. É mesmo assim. É interessante, de facto, quando tu dizias há bocado que os meus filhos acompanham-me nas atividades que eu faço. Portanto, eles são... Eles hoje são...

Aliás, eles sempre foram, mas mais do que nunca eles são dois filhos inspiradores. Portanto, eles são os meus principais críticos. Eles são os meus principais conselheiros. Eles são os meus principais... São aqueles que eu, quando eu preciso, eu vou ter com eles. Nunca falham. Nunca falham. A família para ti é sempre a. Coisa mais... Aquele valor que eu precisei de ter quando, no início da nossa conversa, dos meus pais e do meu lar, eu... é aquilo que eu quero hoje, é aquilo que eu tenho hoje. A família para mim hoje é tudo, não é? É tudo. E de facto, e agora perdi-me um bocadinho. Procuras acontecer o pai que se calhar não tiveste para os teus filhos. Procuro ser o pai para os meus filhos que eu não tive e de facto A corrida, pois, exatamente, eu estava a querer falar da corrida.

Portanto, a corrida acontece exatamente pela influência do meu filho mais novo, do Pedro, que me coloca, como nós já gostamos muito de montanha, já gostamos muito de alpinismo e de excursionismo na montanha, ele desafia-me e diz-me, papá, olha, porque é que não tentas aqui esta atividade, o trail, etc, etc. E começas a correr com 60 anos? Sim, com 60 anos. Com 60 anos é quando eu comecei. Perde 20 quilos quase, mais ou menos. 17, 17 quilos. Com a ajuda de uma amiga nossa, comum. Nutricionista. Nutricionista. E, portanto, e até hoje, não é? Até hoje. Até hoje nunca mais larguei este gosto. E, claro, o estilo de vida para mim é importante. e comecei a incluir esta prática do exercício como algo determinante, como algo importante.

E acabas também por ser uma inspiração de que nunca é tarde para começar, na medida em que estiveste, se calhar, 20 anos sem fazer grandes exercícios. Nunca é tarde para fazer o que quer que seja. A idade não pode ser uma limitação para aquilo enquanto tu tens clara evidência e enquanto a tua cabeça realmente está lá e tem clareza, nunca é tarde para começar o que quer que seja, portanto, de projetos. Julio, no final desta conversa, assim, numa frase, como é que tu gostarias de ser lembrado? pelas pessoas que te conhecem, pelos seus amigos, ou por quem apenas te ouviu pregar? Um apaixonado de Cristo. Julio, muito obrigado. Muito obrigado por esta história inspiradora.

E acreditamos que se calhar vamos, daqui a algum tempo, estar aqui a falar no teu livro. Porque acredito que é, sem dúvida, algo que merece ser escrito. E pelo menos temos esta conversa. Obrigado pela oportunidade que me deram de partilhar esta história. Muito obrigado. Júlio, mesmo para terminarmos, eu tenho aqui um convite para te fazer. Nós, no genérico final, queremos que tu cantes uma música que é uma composição tua, que é precisamente o tema Sonho, que está no Pesaltero.

Momento musical

Para aqueles que quiserem, basta escreverem no Google Pesaltero e vão encontrar Música e Letra por Júlio Carlos. Eu não sei se tu te recordas completamente. Não precisas cantar a música toda, mas eu vou pedir à Erika que pudesse, por favor, trazer aqui a guitarra. Guitarra que é tua, Júlio. Esta guitarra é tua. O nosso trabalho de produção fez com que esta guitarra chegasse aqui hoje. Doze cordas, não é? É, doze cordas. E já agora dizer que foi uma prenda da Nani. É verdade. Da tua esposa. Foi ela a nossa cúmplice neste programa. Um beijinho para a Nani. Julio, ficamos então com este tema que tu composeste em que ano? Recordas-te mais ou menos? Não faço ideia. Não faço ideia, mas foi nos anos... E é a tua única composição. É a minha única composição, é verdade. E vamos ouvir-lhe no final do programa.

Obrigado, Jalito. Obrigado, Will. Obrigado, Isquel. Do meu sonho, eu faço esta canção. Meu desejo, abraçar o meu irmão. Pelas ruas do jardim, Eu passo a cantar, estendo a mão E começo a falar Com o jovem, com o velho, com a criança a chorar. Meu olhar, meu sorriso, eu vou-lhes deixar ficar. Seguirei e não volto para trás.

Se és jovem, não te canses de sonhar. No teu mundo, tu precisas de amar. Não critiques, não destruas A paz que tu procuras Assim juntos vamos caminhar. Se. És jovem como o velho Com a criança a chorar Meu olhar, meu sorriso Eu vou-lhes deixar ficar Seguirei e não volto para trás Se és velho e o sentes no dizer Nos teus olhos eu vejo o sol nascer Tem lugar no coração Um desejo a renascer Primavera, Cristo é o teu viver Com o jovem, com o velho Com a criança a chorar Meu olhar, meu sorriso Eu vou-lhes deixar ficar Seguirei e não volto para trás Se és velho e o sentes no dizer Nos teus olhos eu vejo o sol nascer Tem lugar no

coração um desejo a renascer Primavera, Cristo é o teu viver De um jovem com o velho, com a criança a chorar. Meu olhar, meu sorriso, eu vou-lhes deixar ficar. Seguirei e não volto para trás. Do criança com a gaivota a voar. Esperança é certeza neste mar. Liberada tu serás Por do sol na minha vida Finalmente, quando Cristo regressar Jovem com o velho, com a criança a chorar.

Meu olhar, meu sorriso, eu vou-lhes deixar ficar. Seguirei e não volto para trás. Seguirei e não volto para trás.

Sobre este episódio

Assista a uma entrevista intimista com o Pastor Júlio Carlos Santos. Acompanhe a sua incrível história de vida, desde a infância numa roça de café no interior de Angola, rodeado pela natureza e animais, até ao choque cultural da chegada a Portugal no pós-25 de Abril.

Ouça as memórias vívidas de uma infância no mato, as brincadeiras ao ar livre, a relação com os animais e a educação católica que moldaram os seus primeiros anos. Perceba como a sua família, em Luanda, teve o primeiro contacto com a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Sinta o impacto da vinda para Portugal, a surpresa de uma realidade tão diferente em Viseu e a determinação de um adolescente que procurava o seu caminho. Conheça a personalidade forte e o espírito rebelde que o levaram a desejar sair de Viseu em busca de novas oportunidades.

Esta é uma história de adaptação, fé e superação, partilhada olhos nos olhos. Não perca este relato inspirador de uma vida marcada por desafios, paixões e uma busca constante por significado.

Série
Olhos nos olhos · 30 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 2
Estreou
16 de Maio de 2025
Categoria
Outros
Apresentação
Ezequiel Duarte