59:47Seja muito bem-vindo ao espaço Olhos nos Olhos, aqui na TV Novo Tempo Portugal, onde juntos vamos descobrir histórias de vida que nos podem inspirar e quem sabe até transformar. No programa de hoje recebemos Carmen Liliana Ferreira Maciel, diretora da ADRA, Associação Adventista para o Desenvolvimento, Recursos e Assistência. Natural do Barreiro, Carmen Maciel destacou-se academicamente com um doutoramento pela Universidade Nova de Lisboa que acabou mesmo por ser premiado pela Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Ela que decidiu deixar uma promissora carreira universitária para viver o chamado ao serviço social e humanitário na ADRA. Conheça olhos nos olhos a história desta mulher, mãe, líder e sempre dedicada a causas que podem transformar a vida dos outros uma de cada vez.
Carmen, muito bem-vinda, é muito bom poder contar contigo. Permites-me que te trate por tu, até porque já nos conhecemos há alguns anos, explicando também aos nossos telespectadores o enquadramento desta proximidade. Carmen, acreditas que a tua vida, apesar de ser jovem, poderá de alguma forma inspirar alguém? É uma pergunta interessante e eu, refletindo sobre ela, poderia dizer que sim, isso que é. Na medida em que, olhando para trás, e sem presunção, sem aquele orgulho que nos leva à vaidade, posso encontrar vários momentos em que sinto que houve a proteção de Deus, a orientação de Deus, e inclusive é o chamado, como referiste aqui, E, nessa circunstância, eu diria que sim. É possível encontrar em fragmentos da minha vida a mão transformadora de Deus e, nesse sentido, pela sua capacitação, sim, pode ser uma inspiração para alguém que nos esteja a ouvir.
Vamos começar pelo início. Ano de 1979. Nasceste numa família normal, no Barreiro, foi mesmo no Barreiro que nasceste. Foi no Barreiro. A minha família vivia no Seixal, mas no Seixal não havia maternidades e continua a não haver. E a minha mãe foi ao Barreiro para eu poder nascer numa maternidade e, portanto, sou só natural do Barreiro por lá ter ido nascer. Nunca vivi no Barreiro. Toda a minha vida eu cresci no Seixal, apesar de há 15 anos atrás me ter mudado para Lisboa, mas cresci sempre no Seixal. Na verdade, então, Margem Sul sempre fez muito parte da tua vida. Verdade. Alguma mística em relação à Margem Sul? Ou é só algo que... Eu sou do Norte, não sei o que é que acontece aqui em Lisboa. Ou não, ou é perfeitamente normal. Não há nada de especial.
Não há nada de especial, apesar de que, por vezes, as pessoas brincam que a Margem Sul é menos prestigiada do que a Margem Norte de Lisboa, ou o centro de Lisboa, porque a Margem Norte também leva ali algum preconceito nas franjas, nas periferias de Lisboa. Mas, para mim, sempre foi pacífico. O sítio onde vivemos é apenas o sítio onde vivemos, não nos define. E, por isso, completamente à vontade em dizer que cresci no Seixal, vivi, e lá guardo muito boas memórias. Cresceste nos anos 80. Era muito diferente a forma como tu foste crescendo, como tu brincavas na rua. Obviamente que é muito diferente dos dias de hoje, mas do que é que recordas? Que cara maneira é essa de crescer nos anos 80 ali nas ruas de Seixal? Era uma Carmen alegre, uma Carmen com muita liberdade, liberdade que não se dá hoje às crianças, como referias à pouco, essa possibilidade de brincar na rua ou até de brincar com as vizinhas, os vizinhos no prédio, em que tínhamos vários brinquedos, desciamos, a mãe chamava para o almoço, chamava para o lanche e, portanto, é uma liberdade que as nossas crianças hoje não conhecem.
Uma Carmen que gostava muito de andar de bicicleta, de saltar, de correr, era uma criança muito alegre. Estamos a ver algumas imagens tuas. És tu que estás ali de branquinho? Eu estou de branquinho. Com a tua irmã mais velha? A minha irmã mais velha. E a outra menina que está deste lado é a filhada da minha mãe, que me está a segurar a mim e à minha irmã. Aqui eu teria três, quatro aninhos. Três, quatro anos. Muito simpática já. Sempre fui muito sorridente. E aqui tinha sete anos, mais ou menos. No fundo, estas fotos revelam um pouco daquilo que eu fui conversando com pessoas que te conhecem muito melhor do que eu. Sempre disseram que tu eras uma pessoa muito certinha, muito independente.
Nasceste assim já ou foi necessidade que tu ias encontrando para seres assim independente? Talvez o facto de ser a segunda filha e a filha mais nova, que fui durante 11 anos até nascer o meu irmão. Sempre fui muito independente, sempre fui muito cuidadora, inclusive da minha irmã mais velha, que era um pouco mais reservada e eu recordo-me de alguns episódios na escola em que a defendia, em que eu estava por ela. Talvez alguma capacidade inata que eu tenha. Nunca pensei a sério nisso, mas sim, sempre fui muito autónoma, muito concentrada naquilo que eram as minhas metas de vida. Que tipo de coisas é que, se calhar, estou olhando agora para trás, tu fazias com sete...
Ah, esta é a estúdia da tua irmã. Eu e a minha irmã, naqueles casos que antigamente tinham alcatifa, papel de parede. Mas, voltando então, que tipo de coisas é que tu fazias com 7, 8 anos que hoje em dia praticamente nenhuma criança faz? O facto de ir para a rua brincar com a minha irmã, com os vizinhos, à frente de casa tínhamos um descampado, andávamos ali à vontade de bicicleta, subíamos os montes, desciamos os montes. Portanto, as crianças hoje em dia não têm essa possibilidade de interagir com os vizinhos. Às vezes vivemos no mesmo prédio e as crianças nem se conhecem. O do primeiro andar não conhece o do terceiro e por aí fora. E, portanto, eu creio que isso é muito diferente.
A forma como crescemos e socializamos é muito diferente dos dias de hoje. E eras também uma boa aluna? Sim, é verdade. Estudavas muito ou era fácil? Era fácil, mas eu também gostava de estudar. Sempre foi algo que, em mim, me despertou muito interesse. O conhecer, o saber. Às vezes, explicarem-me alguma coisa, eu não ficava satisfeita com aquela explicação e querer saber um pouco mais. E acabei por investir sempre muito na área académica porque é uma coisa que me fascina. Aprender e... E o que é que gostavas mais? Letras, números? Eu confesso que eu gostava das duas coisas. E como conseguia obter resultados bons nas duas coisas, acabei por nunca dizer gosto mais de Letras ou gosto mais de Matemática.
Sempre gostei muito das duas áreas, até de Educação Física, onde conseguia também ter bons resultados, de modo que eu gostava um pouquinho de tudo. Tinhas 5 a tudo, era isso? Quase. Não tinhas 5 a quê, diz lá? Não tinha 5 em inglês, porque eu cresci com a ideia de que o francês era mais bonito, mais elegante. e descorei um bocadinho do inglês. Era aquela coisa que eu não gostava muito e então aí eu tinha que fazer algum esforço. Coisa que não me aconteceu com o francês, que foi muito natural para mim aprender francês. Mas, assim, inglês era aquela disciplina que eu tinha as notas um pouquinho mais baixas. Mas divertias? Vias televisão? Tudo, tudo, tudo. Ou seja, eras de tal forma organizada que conseguias fazer tudo?
Sim, sim, sim. Era. Nunca deixei de fazer nada para estudar. E o que é que tu gostavas de fazer, além de estudar, na altura, quando eras criança, adolescente? Olha, gostava muito de passear. Nós não tínhamos as possibilidades de viagem que temos atualmente. E eu recordo-me que quando tínhamos períodos de férias, uma das coisas que mais gostávamos e vibrávamos era apanhar o comboio para ir ao Peso da Régua, visitar os meus avós. Era um dia inteiro de viagem. Ali no Porto, nós debruçávamos na janela para comprar gaifas. porque a senhora vendia do lado de fora do comboio e isto é uma alegria que trago, uma memória alegre que trago destas viagens que duravam um dia inteiro até chegarmos ao peso da régua e depois podermos estar na casa dos meus avós, saíamos para apanhar amoras, deixávamos nódoas no vestido.
porque as amoras vinham assim no vestido, depois a mãe chateava-se, mas fazíamos muitas coisas divertidas e foi muito engraçado poder crescer de uma forma assim. E para uma criança que era muito certinha, que estudava, muito responsável, já tinhas planeado todo o teu futuro, já sabias exatamente aquilo que querias fazer, aquilo que querias ser, tinhas os teus sonhos bem concretizados e com os pés a centro da terra? Sim, apesar de que os sonhos foram evoluindo. O meu pai muito cedo começou a trabalhar fora do país, por razões económicas, e quando ele contava histórias das viagens, eu lembro-me que em criança eu sonhava em ser hospedeira. Era assim que se chamava na altura, não se chamava assistente de bordo. Tive esse sonho de ser hospedeira. Entretanto, fui crescendo um pouquinho, passou, e recordo-me, nos anos 90, quando instalou a guerra, aquilo tocou-me de uma forma muito especial.
Eu era jovem, muito jovem, mas aquilo tocou-me e eu, nessa altura, quis ser jornalista. E mantive esse sonho até muito tarde e queria ser jornalista de guerra. Não consigo precisar porquê, mas toco-me o facto de pessoas se deslocarem àqueles territórios para ainda assim conseguirem reportar aos que estão em tranquilidade aquilo que se passava. E depois, mais tarde, abandonei esta ideia do jornalismo porque me apaixonei por Sociologia. Portanto, no secundário, no 11º e 12º ano, eu tive Sociologia. E achei que era uma área tão vasta, tão vasta, tão vasta que acabei por me candidatar à universidade nesta área, entrei e acabou por moldar aquilo que seria o meu caminho.
Nessa altura eu sonhei em ser professora universitária e toda a minha imagética sobre aquilo que eu seria no futuro estava na carreira académica. E depois há um grande volto fácil, nós já lá estamos. Até porque queremos descobrir melhor como é que tudo isto acontece. Mas ainda então, voltando a estes teus sonhos que tu tinhas em criança, houve algum professor que tu tenhas tido na altura que te marcou? Ou que lembres hoje dele com carinho? Sim. Há uma professora que me marcou muito, a professora Marisa. Era professora de História. Esta era uma disciplina que nem todos os professores sabiam dar, no sentido de cativar os alunos. E, durante algum tempo, eu e os meus colegas dizíamos que História era uma seca.
E, então, eu creio que foi ali por volta do sétimo, oitavo ano, eu cruzo-me com a professora Marisa e ela consegue dar aulas de História fazendo uma adolescente vibrar. E, portanto, eu recordo-me com muito carinho... Como é que ela faz isso para os professores que nos veem? Era a forma como ela sentia aquilo que explicava. Parecia que estava dentro da história e conseguia explicar-nos a história contando uma história para essa redundância, portanto, sem ser uma coisa longínqua, uma coisa de factos. E ela contava-nos a história, aquilo que aconteceu, com os pequenos pormenores do dia-a-dia, quando falava de guerras ou quando falava de catástrofes. A forma como ela conseguia cativar os alunos era realmente muito interessante.
E como é que entra a espiritualidade na tua vida?
Tu atualmente tens responsabilidades, mesmo dentro da Igreja Adventista do 7º dia, mas tu não nasceste numa família que incorporava a fé Adventista. Não, eu nasci numa família católica, aliás aquela fotografia que vocês passaram inicialmente foi no dia do meu batizado. Portanto, nasci numa família católica e uma família muito devota. Aliás, a minha irmã mais velha chama-se Fátima, exatamente porque a minha mãe tinha perdido o primeiro filho e quando a Fátima nasceu fez uma promessa e ela ficou com o nome. Portanto, uma família do Norte com tradição católica. Assim permaneci mais ou menos até aos 5, 6 anos. Acontece que no nosso prédio tínhamos uns vizinhos que eram Adventistas do 7º dia.
Nós morávamos no 4º andar e eles moravam no 5º andar. Isto no Seixal. Isto no Seixal. E a família Sousa. E, a dada altura, eles convidam-nos para irmos a casa deles. Numa sexta-feira à noite, fazer o pôr-do-sol. E nós achámos aquilo assim muito curioso, mas a minha mãe aceitou. E então... O teu irmão ainda não era nascido. O meu irmão ainda não era nascido, só tinha a minha irmã mais velha. O meu pai estava fora do país e a minha mãe aceitou e fomos fazer o pôr do sol, sem perceber bem o que era, mas na tentativa de compreender o convite dos nossos vizinhos. E quando chegámos, o ambiente era de tal forma tranquilo, limpo. Os vizinhos, portanto, limpavam a casa de uma forma exímia à sexta-feira.
Chegámos, aquilo tudo transpirava limpeza, um cheirinho incrível. Depois sentámos na sala e eles tinham um giradiscos com algumas músicas que eu hoje tenho o regozijo de ouvir na Rádio Clube de Sintra porque, entretanto, perdi a memória. Mas eles colocaram música. Eu estava na primeira classe e eles deram-me uma Bíblia para ler e aquilo para mim foi, uou, estão aqui pessoas que não se importam de me ouvir porque geralmente as pessoas não têm paciência. Não é quando uma criança está a aprender a ler, demora imenso a ler, sobretudo a Bíblia que tem uma linguagem complexa. Mas eles permitiram que eu e a minha irmã lêssemos a Bíblia, preparar um estudo simples, que nós na altura pudemos estar ali e ouvir e compreender.
A minha mãe achou interessante. e sexta-feira à pós-sexta-feira eles continuavam a convidar-nos, até que um dia a vizinha arranjou a coragem de nos convidar para ir à igreja do entista do sétimo dia de paivas. A minha mãe ficou assim um bocadinho mais receosa porque, pronto, ela tinha a sua fé, mas eu e a minha irmã, entusiastas como éramos, dissemos, mãe, deixa-nos ir. A vizinha explicou que as pessoas se vestiam de uma forma especial ao sábado e então lá a minha mãe preparou as roupinhas e nós fomos e tive o privilégio, digo o privilégio, de me cruzar com a esposa do pastor Chevarria, a irmã-irmã da Chevarria, que era a responsável das classes infantis. E ainda hoje eu me recordo que havia um canguru com uma bolsinha onde nós colocavamos pedidos e depois as moedas para a carta missionária.
E, portanto, era tudo tão bonito, tão organizado, as músicas, tudo o que ali foi feito encantou-nos. E quando nós chegámos a casa, a minha mãe perguntou como é que tinha sido, se tinha me gostado. A minha mãe não aceitou, mas deixou eu e a minha irmã irmos. E depois quando chegou perguntamos, filhos, como é que foi? Como é que é? Que sítio é que é? E nós mostrámos um entusiasmo incrível. Na sexta-feira seguinte fomos ao Porto Sol, à casa dos vizinhos, e pedimos à minha mãe que nos preparasse uma roupa e uns sapatos especiais para no sábado voltarmos a ir à igreja. E fomos vários sábados até que um dia a minha mãe disse, deixa-me lá ver onde é que elas vão, com tanto entusiasmo, e começou também a frequentar a igreja Adventista do sétimo dia.
E ficámos. Fomos tão bem acolhidas, gostámos tanto daquilo que ouvimos, da forma como as coisas eram ensinadas, da forma como nós tínhamos liberdade de pensar, ler, participar. Eu recordo-me que ainda não tinha 10 aninhos e já me pediam se eu podia colaborar a passar a carta missionária, que na altura não havia os vídeos e os boletins. E, portanto, tudo isso me fez sentir parte de uma comunidade e quando nós temos este sentimento de pertença, queremos ficar. E foi este o percurso que nos levou até a Igreja Adventista do sétimo dia. Demorou muito tempo entre o primeiro convite para subirem ao quinto andar dos teus vizinhos até realmente vocês aceitarem?
Não, foi uns meses. Foi rápido. Foi rápido, porque eu e a minha irmã crianças tínhamos aquele entusiasmo de querer conhecer e de querer ir ver. Só a ideia de podermos sair de casa, de irmos com os vizinhos, de termos que ir bem vestidas. Portanto, tudo isso nos entusiasmou e foi questão de meses. E para a tua mãe foi difícil largar uma tradição tão grande, de uma família tão enraizada na Igreja Católica? Abalou, inicialmente, mas eu sinto que a minha mãe abraçou a fé de uma forma extraordinária. De tal forma que passado muito pouco tempo de ela ter sido batizada, ela estava na escola sabatina, ela estava nos jovens, ela estava em todos os ministérios. e realmente foi algo que lhe trouxe ânimo e uma alegria diferente à vida porque, como te disse, o meu pai estava fora e nós passávamos muito tempo às três confinadas e foi algo que trouxe um novo ritmo à vida da minha mãe.
Mas houve algum tipo de resistência por parte de amigos, familiares ou foi um processo que... O meu pai nunca aceitou. O meu pai nunca aceitou bem. Foi algumas vezes conosco, mas achava que era algo que ele não deveria fazer. Mas ele tinha outro tipo de fé ou simplesmente não tinha? Não tinha. O meu pai nunca foi uma pessoa religiosa e, portanto, não se interessava e achava que era uma seita. Não se identificou com aquilo que era. Tão natural para vocês. Sim. Carmen, já vamos voltar. Vamos fazer só um pequeno intervalo. Estamos à conversa com Carmen Maciel, diretora da Adra Portugal, conhecendo um pouco o percurso de Vida Olhos nos Olhos aqui na Novo Tempo. Voltamos depois de uma curta pausa. Até já.
TV Novo Tempo. O canal da família. O canal da esperança. Segunda parte do programa Olhos nos Olhos, na Novo Tempo Portugal. Estas e outras conversas que encontra facilmente no canal do YouTube da Novo Tempo Portugal. Vá até lá, dê uma vista de olhos, partilhe com os seus amigos. Este e outros conteúdos encontra por lá. Estamos à conversa com Carmen Maciel, diretora da ADRA Portugal, a Associação Adventista para o Desenvolvimento, Recursos e Assistência. Mais à frente vamos querer conhecer um bocadinho melhor sobre esta associação. Para já estamos ainda a falar um bocadinho da tua infância, agora mais sobre a tua adolescência. Depois que tu entregaste, no fundo, a tua vida a Jesus, não sei se foi antes, foi depois, em que periódico terás sido, mas já tinhas uma grande relação com a Igreja de Paivas, a Igreja Adventista do 7º dia de Paivas.
Tinha muita gente na altura? Era uma igreja grande? Como é que era? Era uma igreja mais ou menos com 70, 80 pessoas, inscritas, e que iam com regularidade. E eu batizei-me, tinha 11 anos de idade. Eu quis batizar-me aos 9, mas o pastor Chevarria, na altura, achou que eu deveria amadurecer um pouquinho mais e aos 11 anos eu tive a felicidade de me batizar. Mas já, isso se calhar era reflexo do teu ímpeto tão determinado. Talvez. Sentias-te, e se calhar olhando para trás, estavas mesmo preparada para te batizar com 9 anos? Estava preparada. Sim. Estava preparada porque sentia aquilo que vivia e aquilo que eu via a minha mãe viver. A nossa família tinha uma alegria imensa em ter encontrado a Igreja Adventista e, portanto, eu estava convicta com os meus nove anos de que queria entregar a minha vida a Jesus.
Depois, como é que ocorre essa tua relação com a Igreja? Eras uma pessoa que trabalhava muito para a Igreja? Sim, comecei a me envolver muito cedo, como disse há pouco, participando na escola sabatina, de tal forma que aos 15 anos eu era já responsável pelo clube de edições. Eu passei por praticamente todos os departamentos muito jovem, assumi a direção da escola sabatina dos adultos, Ministério Infantil, Muita coisa mesmo. Ou seja, cada comunidade local. Isto para aqueles que não conhecem bem o interior, ou pelo menos o funcionamento das igrejas adventistas, cada comunidade local tem diversas áreas e, no fundo, trabalhaste em todas elas. Desde jovens, o ensino da escola, da bíblia.
Há uma coisa que eu não fiz. Nunca fui diaconisa. Mas mais tarde depois fui anciã e o trabalho está muito relacionado. Mas envolvi-me sempre muito na missão da igreja, sim. E no trabalho com os jovens? Estavas muito ligada também aos desbravadores da igreja? Sim. Eu tive a felicidade de, aos 13 anos de idade, encontrar um clube, porque a igreja de Paivas era, maioritariamente, pessoas adultas e idosas. Crianças éramos uns 5 ou 6, talvez. Portanto, éramos muito poucos e não havia clubes de desbravadores. Mas isso te impediu de te sentires bem lá? Não. E foi engraçado que quando entrámos, como te disse, fomos muito bem acolhidos e quiseram que tivéssemos uma experiência integral.
E quando chegou o verão, convidaram-nos a participar no Acampamento Nacional de Tições, que na altura era a idade correspondente. As crianças dos 6 aos 9, mais ou menos. Dos 6 aos 12. Mais ou menos. E então, como não tínhamos clube, tive a oportunidade de ir com a igreja Lisboa Central, porque era a igreja de referência na região. E ainda hoje tenho memória da dirigente que cuidou de mim, da minha irmã, a Luzinha. Foi assim que carinhosamente sempre fiquei com o nome gravado. e foi realmente marcante de tal forma que eu quis continuar. E fiz todo o meu percurso. Portanto, fui tiçã, fui, na altura, desbravadora, chamava-se assim hoje, exploradora, e fiz todo o meu percurso até chegar à liderança.
Mas integrada em algum clube de desvertebradores de altura. Sim. Portanto, estava a dizer-te há pouco, estamos aqui a ver uma fotografia em Moura. Para além de certinho, eu sempre fui muito radical e então eu experimentava tudo. Não tinhas medo nenhum de fazer rapaz, nem nada do género. Cheguei a estar em Moura, num castelo com 30 metros de altura. Lembro-me que senti uns arrepios quando olhei para baixo, mas eu fazia sempre tudo. Gostava sempre de experimentar todas as aventuras. E estava a dizer-te então há pouco. Nós estávamos a passar uma fase difícil na nossa vida. Os meus pais tinham-se divorciado nessa altura. Eu tinha mais ou menos 13 anos quando conheci o clube, que foi uma âncora extraordinária. O grupo era liderado pelo Rogério Baltazar e a sua esposa, Eunice Baltazar.
E eles estavam a criar um núcleo, no fundo, com jovens praticamente todos fora de igreja. Portanto, eles começaram a convidar vizinhos, jovens da vizinhança, e depois tentaram se aproximar de algumas igrejas ali perto porque eles originalmente são do Valqueimado e portanto não tinham ali as raízes e começaram a convidar alguns jovens para integrarem aquele clube e foram às Paivas apresentar esse projeto e eu e a minha irmã e mais uma jovem chamada Carla e mais tarde a Patrícia. Abraçámos e começámos a ir e ele começou também a fazer o pôr-do-sol à sexta-feira e outras atividades e a partir dessa altura nós começámos a frequentar o clube de uma forma muito assídua e participando em muitas
iniciativas. Seja olhando para o teu trajeto de vida, acreditas que aquele terá sido eventualmente o momento chave da tua vida para ainda hoje teres a fé que tens? Sem dúvida, sem dúvida. Um clube de desbravadores, clube náutico, não é? Eu sei que tinha-se especificidades diferentes. Sim, na altura o Rogério por gosto pessoal e porque estávamos ali numa zona ribeirinha que teve essa particularidade de criar um clube náutico em Portugal e isso foi para nós também motivo de muita alegria porque tínhamos sempre a canoagem e outras atividades no rio que nos estimulava bastante. Mas estavas-me a perguntar se foi marcante e há pouco eu estava a dizer que comecei e depois não terminei que sim porque os meus pais estavam a divorciar-se e nós estávamos a passar por um momento difícil e no fundo eles foram a segunda família.
Encontrei ali naqueles jovens e nos líderes um apoio extraordinário e eu creio que isso foi uma forte âncora para eu me manter agarrada aos princípios e aos valores da fé cristã. O Rogério Baltasar terá tido um papel importante. Tão importante que é um dos meus melhores amigos hoje. Foi padrinho do meu casamento com a sua esposa, Nisse. Eles foram e são amigos especiais. E ele resolveu gravar uma mensagem para ti. Oh! Olá, Carmen. Lembro-me que eras uma adolescente quando entraste na nossa vida, na nossa casa e no nosso coração. Muito tímida, mas com todo o teu doce encanto, foste fazendo o teu percurso e caminhando connosco em aventuras, desafios, sobretudo.
Foste uma peça fundamental no nosso maior projeto de vida, que foi o Grupo Náutico Seixal de JA. Com boas memórias guardamos e cuja experiência nos fortaleceu e uniu. Hoje, tenho o maior orgulho em tudo aquilo que te tornaste e, sobretudo, o maior respeito e admiração pelo trabalho que desenvolves com a serenidade própria que te caracteriza. Perante os desafios que te possam surgir, nós estaremos sempre aqui para te acompanhar e apoiar até em breve podermos dar a nossa missão como concluída para a glória de nosso Deus. Eu não sabia que eu ia surpreender.
Carmen, já sabes, eu ando sempre com um lincinho aqui comigo. Eu já sabia que tinha que o trazer. Então é um para ti e outro para mim. Carmen, se não fosse este homem, se calhar não estarias aqui sentado nesta mesa a esta hora. É verdade. É verdade. O Rogério foi realmente de uma dedicação extraordinária para todos os jovens e espiritualmente foi alguém que nos trouxe muito conforto, muita paz e um amigo, sobretudo um grande amigo. E foi também através dele que acabaste por conhecer o teu marido. Verdade. Porque ele também pertencia, ou seja, quando há bocadinho falavas neste núcleo de pessoas que não tinham nenhum tipo de fé, o teu marido era uma dessas pessoas, se calhar um vizinho dele, era isso?
Ainda não. O meu marido entrou um pouquinho mais tarde no clube. Outro jovem Adventista acaba por convidar o Tony. O meu marido chama-se António, mas nós... Temos fotos. Podemos mostrar aí as fotos. Ora, aqui estamos. Aqui vocês ainda deviam ser namorados, não é? Éramos namorados e estávamos no acampamento de evangelismo em Guimarães. Aqui nesta fotografia. Ou seja, em 96, 97, 98. Talvez. Aqui no casamento de um dos amigos. do Clube Náutico do Seixal e aqui no outro casamento de amigos também. Nós éramos como uma família, estávamos sempre juntos e foi ali uma altura cheia de casamentos. Ou seja, conheces-te o Tony precisamente integrado neste tipo de atividades.
Sim, portanto, o Tony, passado mais ou menos dois anos do clube ter sido fundado, foi convidado por uma amiga adventista a participar e ele veio e foi daquelas experiências assim extraordinárias de absorver todo o conhecimento. Ele também vinha de uma família católica e eu nunca vi nada assim. a determinada altura ele conseguia conversar de praticamente todos os temas, porque lia e lia e lia e lia os livros mais complexos que possamos imaginar para uma pessoa que não está enquadrada no Adventismo. Fala do grande conflito, já de todas as nações. O Tony leu muitos livros. E dentro do clube ele fez todas as classes sempre com a nota máxima. E aquilo era realmente inspirador.
Mas é engraçado que eu não notei automaticamente no Tony. E hoje eu acredito que foi Deus que o escolheu para mim. como jovem, olhava para outros lados. Sabes que o meu pai era um homem alto e eu cresci com aquela ideia de que um dia ia ter um marido muito alto. O meu pai tinha um metro e oitenta e três. Cresce uma escada. Eu sonhava com um homem alto. O Tony tem mais de 5 centímetros do que eu, aproximadamente, e eu não estava para ali direcionada, mas a forma como ele me tratou, o encanto que eu via nos olhos cada vez que ele se dirigia a mim, o respeito, foram-me cativando e, a determinada altura, aceitei namorar e hoje acredito que foi Deus que escolheu o Tony para estar na minha vida.
Atualmente vocês têm duas filhas. Verdade. A mais velha já tem 18 anos. Tem 18. E a mais nova? Tem 6 aninhos. Está prestes a fazer 7. E a educação delas? Também teve muita ligação com clubes, etc? Sim. A mais velha começou a acampar na minha barriga. Porque eu estava muito empenhada, era dirigente. Eu e o meu marido fizemos praticamente 15 anos na Costa de Lavos, nos acampamentos. Começámos com os exploradores, depois fomos para os tições, depois voltámos aos exploradores. Costa de Lavos é o centro de atividades dos jovens da Igreja Adventista de Portugal. Exatamente. Portanto, elas habituaram-se a esta vida e desde a barriga que frequentam atividades.
E ainda hoje vocês acampam ou já não? Acampamos, com certeza.
Ainda fazes coisas radicais? Se me convidarem, aceito. Ainda há pouco tempo fiz um rafting. Eu só não faço mais, porque entretanto, os anos passaram e tenho aqui duas hérnias na coluna e agora faço coisas com mais calma, mas continuo a ser aventureira. Carmen, voltando então a Desbravadores, eu conheço o Tony, tens uma ligação muito grande com tudo aquilo que está ligado ao ensino, não é? Estavas na Universidade, na Universidade Nova de Lisboa, a fazer o curso de Sociologia. Um curso com uma média alta, que era difícil de entrar, e com várias saídas no fundo. Mas, enquanto estudavas, aquilo que tu querias era ser professora. Exatamente. Eu, quando entrei em Sociologia, disseram-me que era um curso difícil e que a média normal dos alunos era 13.
E eu disse, ok. Então, no primeiro ano... Ou seja, sair. Do curso com média de 13 já era extraordinário. Era extraordinário. E eu disse, ok, vou tentar superar-me. Estabeleci para mim, eu lembro-me que ainda hoje guardo as minhas agendas e, portanto, eu tinha uma agenda onde eu colocava os meus objetivos e eu, quando entrei no curso, disse média de 14 no primeiro ano, média de 15 no segundo ano, média de 16... Portanto, eu tinha os meus... os meus objetivos bem traçados e eu sabia que eu conseguia superar e superei. Como é que tu fazias? Fazias, por exemplo, se havia uma nota que não te satisfazia, fazias melhoria de nota? Eras muito exigente contigo própria? Sempre fui muito exigente comigo própria. Felizmente não tive que fazer muitas melhorias.
Eu recordo-me de um episódio em que eu, na universidade, tive a minha primeira negativa e eu vou explicar-vos o que aconteceu. Portanto, eu estudei o mês para aquela prova, era Sociologia Histórica, e saiu a pauta e eu tinha sempre boas notas, vejo um 9 e digo, não, eu não aceito isto. Não, não entrei. A indignação total, nada a desespero. Porque eu sabia que não merecia e fui bater à porta da professora Virgínia Coelho E disse, professora, preciso falar consigo. Eu estudei, eu sei que respondi às questões, gostaria de entender o porquê desta minha negativa. E então ela começa a abrir as folhas de ponto, as porque eu escrevi muito, e a dada altura ela diz assim, vê aquela cruza ali.
E eu, sim, professora. Então, a partir daquela cruza, eu não li mais, porque a Carmen escreveu muito. E eu disse, olha, professora, se não ler o resto e não me classificar de acordo com o que está para a frente, acho que terei que fazer alguma coisa e então a professora aceitou fazer a revisão da prova e eu não tive efetivamente negativa, mas lembro-me que cada vez que eu tinha uma nota abaixo daquilo que eu esperava, eu fazia melhorias e tentava sempre, não numa tentativa de concorrer com os outros colegas, porque nunca tive. Aliás, sempre fui uma aluna bastante solidária com os meus colegas, sempre prestava sempre os apontamentos, estava disponível para estudar com alguns colegas.
Inclusive, tenho uma história engraçada que estava no meu curso uma aluna que era enfermeira e ela chegava tarde às vezes e quando chegava vinha com muito sono porque tinha feito algumas noites, o turno dela era da noite E eu sempre lhe emprestei os meus apontamentos e dizia, olha Lara, eu estou disponível para te ajudar se precisares esclarecer alguma coisa que está aqui nos apontamentos. E a dada altura, houve um congresso jovem na Expo e estávamos cá fora assim todos a conversar e ela aparece ao pé de mim. E eu disse, Lara, o que estás aqui a fazer? E ela disse, tu és adventista do sétimo dia? E eu disse, sim, sou. e então ela é cunhada do Daniel Galaio, da Rádio Clube de Sintra, e ela não sabia que eu era adventista, ela naquela altura também estava um pouquinho afastada, e foi muito engraçado que eu pudesse testemunhar desta forma de ser solidária, compassiva, de explicar, de estar disponível, e depois ela vir a descobrir que eu era adventista do sétimo dia, e eu vali um match entre aquilo que era o meu comportamento e os valores que ela tinha conhecido da igreja.
E, portanto, como te dizia, eu tentava sempre ter bons resultados, não para me destacar ou ser concorrente, mas porque isso faz parte de mim. Então, na verdade, nunca soubeste o que era o amargo sabor de uma negativa. Efetivamente. Entra a negativa. Não tens nenhuma negativa para te mostrar como é. Ainda bem. Mas as tuas filhas também são boas alunas. As minhas filhas também são boas alunas. Eu tento dizer-lhes que o suficiente não chega e que nós devemos sempre primar pela excelência e por fazermos o melhor que podemos e sabemos. Mas deixa-me imaginar, tu nem sequer era daquelas que estudavas até tarde. Devias ser tão organizada que tu tinhas aquele teu horário específico. Sim. Conta-nos então a receita. O que é que é preciso para ser bom aluno?
Para mim, o que funcionava em SQL eram os apontamentos. Eu sempre fui muito atenta àquilo que os professores diziam. Esclarecer dúvidas na sala. Eu nunca ia para casa com uma dúvida. Às vezes, os colegas, se me viam levantar a mão, podiam dizer, olha, lá vai ela. Mas eu fazia as perguntas que tinha. Que fazer, esclarecia o que havia a esclarecer e depois eu, muitas vezes, afixava no meu quarto tópicos. Portanto, eu sabia que aquela matéria ia sair e estava esquematizada por tópicos. E aqueles tópicos ficavam gravados na minha cabeça e quando eu discorria nos testes, aqueles tópicos vinham e eu conseguia desenvolvê-los. Portanto, este sempre foi o meu método. Fixar tópicos e, a partir dali, poder desenvolver aquilo que era o meu pensamento.
E devia ser uma pessoa muito focada. Ainda hoje é, certamente. Era uma pessoa focada. Carmen, temos algumas imagens também que eu gostaria que nos explicasses o que é que é isto, que são imagens tuas e de outras amigas numa espécie de cerimónia de finalistas, acredito eu. Verdade. Onde é que é isto e em que consiste esta cerimónia? Então, esta fotografia foi tirada na igreja adventista do sétimo dia de Santarém, numa cerimónia organizada pela pastora Milú Cordeiro, na altura.
Sim, já era, já era cordeiro. E ela quis organizar uma benção de pastas, poderíamos chamar assim, e vieram alguns alunos de vários pontos do país que tínhamos concluído o ensino, portanto, da faculdade. E aqui estamos eu a mostrar as minhas fitas à minha irmã. Ainda temos uma outra imagem. Exatamente. Esta aqui também. Ou seja, no fundo alguns jovens. Acho que é só meninas, não é? Não, não. Também está o Hugo Mártires na fila de trás. e foi engraçado que eu fiz a benção de pastas com aquela que seria a esposa do João Martins, a Lusenda. Ou seja, porque esta era uma cerimónia marcadamente católica e houve aqui uma espécie de transposição, no fundo, porque não deixa de ser uma cerimónia importante, o fim da parte académica de uma pessoa para depois entrar na vida profissional.
Sim, foi marcante e foi mais marcante para mim e eu gostava de partilhar contigo aqui este episódio porque é um episódio onde eu sinto a mão de Deus. Eu estava a concluir o meu curso, estávamos numa altura de exames, janeiro, e eu tive a infelicidade de me cruzar com um indivíduo que me queria assaltar. Pediu-me o telemóvel, eu não tinha telemóvel na altura, mas sem esperar resposta, ele picou-me na mão com uma seringa, imediatamente depois de se ter picado a si próprio. E eu passei ali um momento muito angustiante. Eu estava à porta do Hospital Corrigo Cabral, e há ali também vários hotéis, e dois ou três segurança testemunharam aquela cena, porque foi em pleno dia, e o rapaz foi apanhado automaticamente.
Foi levado ao hospital, onde lhe fizeram testes e ele foi diagnosticado, na altura, portanto, com sida e hepatite B. E eu tinha acabado de ser picada por ele. Portanto, ele picou-se e picou-me. Ele foi preso e eu passei um momento muito difícil da minha vida. Eu estava a fazer exames. E por que é que eu vos conto isto? Porque eu não tive nenhuma nota abaixo de 19. E... mesmo ultrapassando todo esse drama que acredito que deve ser... Eu defendi a minha tese de licenciatura porque na altura eu optei por fazer uma tese e no fim da minha tese os professores disseram que a tese estava ao nível de um mestrado.
E aqui eu conto-vos isto para dizer-vos que esta cerimónia que tu aqui falas teve um impacto ainda maior. porque eu senti que em todos os momentos Deus me protegia. Eu tive que fazer a profilaxia que uma pessoa com sida faz para atacar os glóbulos brancos de modo que ele não ficasse infetado e durante três meses a minha concentração, a minha visão baixaram consideravelmente. E ainda assim, eu consegui fazer todos os exames, todas as frequências com excelência e defender uma tese com excelência. Por isso, quando fiz a benção das pastas, eu tinha a certeza que Deus estava abençoando o meu caminho.
E então, esta cerimónia em que nos chamam à frente, em que nos pedem que depositemos o nosso percurso nas mãos de Deus, foi marcante. Desconhecia completamente essa história, Carmen. Obrigado por teres partilhado para nós. E vamos só fazer aqui uma curtinha pausa para respirar. E já voltamos. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos com Carmen Maciel, diretora da ADRA, em Portugal, Associação para o Desenvolvimento de Recursos e Existência. Nesta segunda parte, Carmen, estivemos a conhecer esta história impressionante
que partilhaste connosco e que nos emocionou a todos, mas a tua história é feita de vários capítulos, de vários eventos, de vários momentos marcantes e um outro é o momento em que Tu estavas com uma carreira académica perfeitamente integrada na Universidade Nova de Lisboa e, a dada altura, tu resolveste largar isso tudo. Mas, antes de percebermos como é que tu resolveste largar isso tudo e o impacto que isso teve para ti e para a tua família, o que é que, na verdade, tu estavas a fazer? Então, Ezequiel, eu estava no terceiro ano da minha licenciatura quando, no final de uma apresentação de um trabalho, o professor me aborda e me convida a integrar um grupo de investigadores que trabalhavam sobre diversas temáticas e aquilo para mim foi o início, a chama de todo o percurso académico que eu sonhava ter.
E eu comecei, aprendi muito com eles, tive a oportunidade de participar em estudos, de fazer alguns artigos e isso deu-me algum arcabouço para que eu, quando estive a fazer a minha tese de licenciatura, passasse muitas horas na Biblioteca Nacional, em Lisboa, e desenvolvesse o trabalho de tal forma que eu, quando vou defender na presença da diretora de um centro de investigação da Nova, me convida a ficar e a desenvolver um projeto de doutoramento, passando da licenciatura para o doutoramento. E, apesar de eu tremer um pouco com a ideia, aceitei o desafio, fiz uma proposta de projeto de doutoramento, candidatei-me à Fundação da Ciência e Tecnologia, ganhei uma bolsa para poder fazer esse doutoramento.
Com 21, 22 anos por aí, 23. Sim, 22. 22, exatamente. Portanto, aceitei esse desafio. Começo a desenvolver a tese com um dinamismo incrível, estudando se existiam algumas ligações dos países de língua oficial portuguesa a Portugal para além da língua. Isto porque na altura se falava muito e havia muitas críticas sobre o termo de lusofonia e o paternalismo que Portugal tinha. e eu, naquela altura, gostava de entender que laços é que, efetivamente, ainda ligavam estes territórios e, então, parto para uma tese de doutoramento a trabalhar estas questões.
Estive há algum tempo a fazer trabalho de terreno em Cabo Verde, tentando ali, junto dos institutos culturais e de outros relevantes, perceber este tipo de ligação. Venho, termino a minha tese e, a dada altura, eu percebo que existe uma associação, que referiste no início, a Associação das Universidades de Língua Portuguesa, que tinha um prémio internacional para as pessoas que estudavam estas temáticas. Concorro, sabendo que são centenas de pessoas que concorrem. Mas já tinhas terminado a tua tese de alteramento quando concorres. Sim, sim. Tive que terminar e, portanto, a tese defendida foi aprovada. Com 19, eu sei. Por acaso, eles não davam o equivalente.
Possivelmente, eles disseram nota máxima, portanto, porque eles no doutoramento já não dão a classificação. Portanto, concorro e tenho a felicidade de ser nomeada, portanto, para a edição de 2013. O que implicaria a publicação da tua tese de Doutoramento em Livro. Exato. Foi publicado pelo Instituto Camões da Cooperação e da Língua e foi algo muito bom. Dali, eu já pontualmente colaborava com a responsável investigadora do centro em algumas atividades pontuais de docência, mas ao criar o doutoramento e ao doutoramento ter sido premiado, eu ganho ímpeto para criar um curso de verão sobre o doutoramento que acaba por ser atrativo para vários jovens que tinham interesse a nível internacional sobre estas questões.
Desenvolvo o primeiro curso, corre bem, no ano a seguir pedem a segunda edição, portanto, crio dois cursos com base no doutoramento que fiz. Recebo alguns convites para ir aos Estados Unidos, para ir à Alemanha, fui assim a alguns sítios. A Macau também? A Macau também, portanto, poder partilhar os resultados desta tese e estava felicíssima da vida. Estavas profundamente lançada para continuar por lá. Exatamente. Portanto, é um gosto para mim aprender, mas é um gosto ainda maior ensinar. Eu tenho uma alegria muito grande em partilhar aquilo que sei e consigo interagir felizmente com as pessoas e, portanto, ensinar. Para mim era E a tua capacidade de comunicação também denuncia essa facilidade que tens em ensinar.
Mas como é que aparece a Adra aqui no meio disto tudo? Então, a ADRA foi uma surpresa muito grande para mim. Eu estava completamente integrada no mundo académico, como tu referes, e a dada
altura surge um anúncio nas igrejas locais pedindo aos responsáveis que pudessem anunciar que era necessário uma pessoa para desenvolver uma estratégia pioneira em Portugal, que seria a criação de delegações locais. uma vez que geralmente as ADRAs em países desenvolvidos funcionam para angariar fundos e fazer projetos de cooperação em países em vias de desenvolvimento. Mas Portugal, por iniciativa da União Portuguesa dos Adventistas do 7º dia, nessa altura decide que era importante que as igrejas que tinham um trabalho social um pouco descoordenado, muito espontâneo à medida da boa vontade dos membros, que era necessário estandartizar procedimentos e, portanto, passam todo o trabalho social para a alçada da ADRA e a ADRA precisa de uma pessoa nessa altura.
Então, o concurso vai, começa a ser divulgado, eu não tive conhecimento, mas o pastor que estava na minha igreja aparece-me com o anúncio e diz, Carmen, isto é a tua cara. E eu disse, não, pastor, não é a minha cara porque eu quero fazer uma carreira académica, eu estou feliz com aquilo que faço, eu não estou à procura de trabalho. E o pastor diz, mas pelo menos vai à entrevista. E já estavas casada na altura e com uma filha? Não, não, só estava casada, não tinha filhos. E então eu mandei o currículo para satisfazer, entre aspas, o pastor, mandei o meu currículo e chamam-me para a entrevista. Foram selecionadas seis pessoas à entrevista e eu fui a terceira pessoa a ser entrevistada. Na altura, o presidente da ADRE era o pastor Rubem de Abreu e o diretor executivo, João Martins, e eles estavam os dois a entrevistar-me.
E no fim da entrevista, eles conversaram um pouquinho entre eles e dizem, se tu quiseres ficar connosco, nós não entrevistamos mais ninguém. E eu abri o jogo e disse, sabem, eu só vim à entrevista porque se passou isto, isto e isto, eu na realidade não estou à procura de trabalho. E eles disseram, mas era tão importante para nós ter uma pessoa que pudesse fazer investigação, compreender o que foi feito na ação social, montar toda uma estrutura, criar manuais de procedimentos. E eu ali senti o chamado de Deus. E disse, preciso de uma semana para pensar e orar. E eles aceitaram. Entretanto, eu fui à universidade, conversei com a diretora do centro de investigação. Ela ficou estupefacta, olhou para mim e disse, a Carmen está doida.
Vai pôr em causa a sua carreira académica para trabalhar numa organização da sociedade civil. Mas ela não conseguia compreender a dimensão do chamado. E ela, lembro-me de ter dito, isto vai abolar profundamente a sua capacidade crítica, analítica da realidade. Isto porquê? Porque os sociólogos sempre foram treinados para estudar a realidade e depois entregar os dados para que técnicos da área social possam transformar a realidade. Portanto, os sociólogos não foram formados para transformar a realidade social. E ela dizia-me, a Carmen, ao envolver-se nos projetos, vai envolver-se de tal forma que perde a capacidade crítica e analítica. Irias perder o distanciamento.
O distanciamento. Irias deixar de ser socióloga. E eu disse-lhe, sabe, eu preciso de experimentar. Porque eu nunca trabalhei fora da universidade e isto eu sinto que há aqui uma capacidade de poder interferir na transformação de vidas. E então eu fui, continuei ainda ligada, portanto não me desliguei automaticamente da academia e fui para a ADRE e criei toda esta estrutura com a orientação do João Martins. E a ADRE era uma estrutura frágil e eu lembro-me que a dada altura eu fiz todo o trabalho e o João Martins queria conversar comigo para me dizer que não havia dinheiro para me pagar.
E quando o João Martins me chama para conversar comigo, ao fim de um ano e meio, dois anos, a dizer que eu era uma peça fundamental mas que não havia dinheiro para me pagarem, eu sou chamada pela Universidade para um projeto em que a Universidade Princeton faz uma parceria com a Universidade Nova de Lisboa e querem estudar o funcionamento das instituições em Portugal. e a professora orientadora da minha tese e a diretora do centro chama-me para fazer parte do corpo de investigadores que iriam participar naquele projeto.
E, sendo patrocinado pela Universidade Princeton, o salário era bom. E tudo isto se conciliou e eu falo com o João Martins e disse, podes continuar a contar comigo como sempre até aqui, mas o meu salário virá de outro rendimento. Eu tenho que partilhar agora as minhas horas de trabalho, mas eu continuo na ADRA sem receber nada e, portanto, enquanto eu puder ser útil, aqui estou. Como uma verdadeira voluntária, como há milhares por todo o país. Exatamente. E, portanto, continuei a fazer o meu trabalho num regime laboral mais reduzido, porque eu tinha que investir também no envolvimento do projeto para o qual fui chamada. O projeto durou tempo suficiente para o João Martins ser convidado a sair do país e precisarem de uma pessoa que o pudesse substituir.
E, portanto, tudo se conjuga. E é por isso que quando no início me perguntava se há momentos da vida que possam inspirar, eu olho para trás e agradeço a Deus, porque Ele foi conduzindo e foi encaixando todas as peças. E quando nós nos colocamos verdadeiramente ao seu serviço e ao seu dispor, tudo acontece. Mesmo que venham as dificuldades, mesmo que não haja dinheiro, haja obstáculos, Deus põe e dispõe quando o nosso coração está ao seu dispor. Faça redundância. Carmen, o que é que tu dirias àquela jovenzinha que nós vimos no início com 10,
11 anos? Se pudesses lhe dizer alguma coisa agora, o que é que lhe dirias? Eu diria a essa jovem, ainda bem que prestaste atenção à forma como foste educada. Porque, apesar de não sermos uma família rica, eu sempre observei a minha mãe a ajudar as outras pessoas. Vi na minha mãe uma fonte de generosidade, de compaixão. Algumas pessoas necessitadas procuravam a sua ajuda e a minha mãe integrava as pessoas, às vezes punhadas a passar a ferro, para que elas pudessem ter um rendimento. Ainda lhes oferecia um avio de compras no final. E eu, como sempre fui muito observadora, aquilo ficou-me gravado. Só que eu mal sabia que Deus estava a trabalhar, a moldar o meu caráter para a solidariedade.
E, portanto, eu diria a essa jovem, ainda bem que prestaste atenção, porque Deus tinha um propósito para ti na tua vida. E esse propósito, e é o que me faz estar onde estou hoje. Há uns tempos eu estava a ser entrevistada, e o entrevistador dizia o que faz uma pessoa com doutoramento numa ONGD. E eu dizia-lhe, transforma vidas. E, portanto, é exatamente isto. Enquanto continuar a fazer sentido, esta socialização que eu tive preparou-me para o sítio onde eu estou hoje. A pessoa que mais te preparou para a ADRA acabou por ser a tua mãe. Sem saber. Carmen, como é que tu gostarias de ser lembrada? Olha, nunca tinha pensado nisso. Mas...
Eu gostaria de ser lembrada Sobretudo pelas minhas filhas, como alguém que serviu sem esperar nada em troca. Carmen, obrigado por te ter juntado a nós e que Deus te continue a abençoar.
Neste episódio de "Olhos nos olhos", mergulhe na inspiradora jornada de Carmen Maciel, uma mulher multifacetada cuja vida é um testemunho de propósito e dedicação. Desde uma infância marcada pela liberdade e curiosidade nos anos 80, em Seixal, até uma carreira académica brilhante que culminou num doutoramento premiado, Carmen parecia destinada a uma vida de ensino e investigação. Contudo, um chamamento maior a conduziria por um caminho inesperado, transformando radicalmente as suas ambições.
Este episódio revela os momentos-chave desta trajetória, onde a excelência académica se cruza com uma profunda vocação de transformar vidas. Prepare-se para conhecer: a sua transição da academia para o serviço humanitário; a influência de uma infância marcada pela liberdade e disciplina; a sua jornada de fé, desde a tradição católica ao adventismo, e o impacto na sua família; a história por trás da sua dedicação à comunidade, desde cedo nos clubes juvenis; como a sua resiliência a ajudou a superar desafios pessoais e profissionais; a revelação surpreendente de como um evento traumático se tornou um catalisador para a sua inabalável determinação; e o papel crucial da fé e da solidariedade na sua vida.