Hoje recebemos no Olhos nos Olhos um homem cuja vida é marcada por dor, fé, resiliência e, sobretudo, esperança. O nosso convidado nasceu no dia 5 de dezembro de 1950, em Coimbra, e desde cedo aprendeu que a vida é feita de lutas. Cresceu no interior do nosso país, aqui em Portugal, numa família marcada pelo alcoolismo do pai, mas também pela força e sabedoria de uma mãe que nunca desistiu. Casou com Maria Fernanda, juntos formaram uma família, mas enfrentou perdas irreparáveis, desde logo dois filhos que partiram demasiado cedo. Carrega também no corpo marcas do sofrimento devido a um acidente de trabalho que o levou a quatro cirurgias bastante dolorosas. Mas em cada capítulo da sua história, Fernando encontrou forças para se levantar, para perdoar e para continuar a acreditar.
junto com a sua esposa de uma vida. É pai de um pastor e de uma advogada, avô de três netos e tem uma vida de exemplo de como a fé pode transformar a tragédia em esperança. Vamos conhecer a vida de Fernando Esteves. Olhos nos olhos. Muito bem-vindo, Fernando.
Obrigado. Muito obrigado por nos dar a oportunidade de conhecer mais sobre a sua história. Começo logo assim por um breve resumo. Acredita que tem uma história que pode inspirar alguém que vai nos acompanhar ao longo da próxima hora? Eu acredito fielmente que sim, porque o homem tem uma necessidade muito grande de ter algum suporte e aqui, para poder aguentar com alguma mais facilidade as agruras da vida, E este suporte só pode vir de cima. E foi aí que realmente esteve toda a minha força. Nasceu nos anos 50, cresceu anos 50, anos 60, no interior. Podemos dizer que era o interior do país, apesar de ser uma vila bem perto de Coimbra. Há quantos? 20 quilómetros de Coimbra? Há volta de 15 quilómetros de Coimbra.
Ou seja, estamos a falar de Larçã. Larçã. Como é que foi a sua infância? A minha infância era a infância de todos os meninos da época. Tínhamos que ajudar os pais em casa, sobretudo a minha mãe, que era uma mulher de múltiplos ofícios para poder sustentar a família. E era uma dedicada educadora que educou bem os seus filhos e tornou-os realmente pessoas sociáveis. Eu fui trabalhar com 11 anos de idade e a minha formação começou aí. Ou seja, eram quatro rapazes e duas raparigas numa família mais matriarcal ou mais patriarcal? Quem é que mandava lá em casa? Tenho que dizer sempre matriarcal porque o meu pai não tinha condições para realmente ser uma pessoa que pudesse ser uma ajuda, sobretudo na educação.
Mais ligado ao alcoolismo? Mais ligado ao alcoolismo, era um funcionário público que criou problemas de toda a espécie, No entanto, fui eu que cuidei dele nos últimos tempos da vida dele, porque o Senhor Jesus colocou isso no meu coração e foi para a minha casa logo no primeiro tempo em que ficou viúvo. Ah, então a sua mãe morreu primeiro do que o Senhor. Morreu primeiro, sim. E como é que... aquilo que eu fui conversando com algumas pessoas e que sempre me disseram é que a sua mãe era dotada de uma grande sabedoria. A minha mãe praticamente não teve escola. Não frequentou escola. Creio que andou um mês. Ela tinha que transportar à cabeça pedra para os fornos de cozer a cal, que era o cimento da época.
E, nessa altura, ela teria talvez uns dez anos. Nove, dez anos. Então, não pôde ter escola. Mas ela era uma criatura muito sábia. Já tinha uma avó que sabia ler. E ela ensinou-nos matemática e foi a primeira pessoa que nos ensinou a ler, a mim e aos meus irmãos. Então ela, sem nunca ter andado na escola, sabia ler também? Sabia muito bem, muito bem. Lembra-me de um pormenor muito interessante. A minha mãe lia a Bíblia e chorava muito. Ficava muito melindrada com a história da cruz de Jesus e todo aquele aparato que envolvia, sozinho, com quem eu podia ajudar. os seus familiares não podiam fazer nada, e isso tocava-lhe muito o seu coração. Era uma mulher muito religiosa. Mas a Bíblia, então, fazia parte do vosso núcleo familiar.
Não era muito frequente, era sempre que ela conseguia ter tempo, mas quando ela era lida para nós. Os livros chamavam-se resumos bíblicos. Mas mais tarde, quando eu tive contacto com a Bíblia, verifiquei que muitas das coisas que ela lia eram exatamente a realidade que está na João Freire de Almeida, por exemplo, que é uma Bíblia muito conhecida. Mas só muito mais tarde é que o Fernando Esteves começa a interessar-se mais pelas questões religiosas? Ou já na adolescência já tinha, assim, alguma curiosidade? Sempre acreditei em Deus e sempre fiz orações diferentes. Com nove anos de idade, dez anos de idade, recordo-me de perder... Perdi um dia uma carteira que tinha lá dentro uns tostões. E então fui orar de joelhos para que o Senhor me ajudasse a encontrar a carteira.
Eu penso que fui adventista desde que nasci. Já agora um pormenor da minha mãe, quando lhe disseram, o teu filho é protestante, ela disse, graças a Deus, ela encontrou um caminho. Porque a família era católica? Era católica. A minha família era católica. Muito católica e pessoas com crença. Não eram pessoas, enfim, que recusavam conhecer a Deus. Antes, pelo contrário. Mas eram católicos. Então, apesar de ser uma família simples, digamos assim, era uma família que se interessava pelo conhecimento, mesmo sem, no caso da sua mãe, sem ter uma formação que lhe permitisse ir um bocadinho mais além, mas ainda assim ela aprofundava a sua leitura. Sim, sim. foi uma mulher incansável para procurar que os seus filhos pudessem atingir um grau de conhecimento superior o máximo possível.
Os meus irmãos estudaram, eu fui trabalhar muito cedo e não optei por essa... Hoje um pouco arrependido, não optei por isso, estudaram, mas as minhas irmãs tinham o 12º ano, tinha um irmão que era que tinha um curso em eletrotecnia e outro, penso que se diz assim, e outro é enframeiro, foi enframeiro. Portanto, foi uma família que se interessou realmente pelo conhecimento. Começa a trabalhar aos 11 anos. Hoje em dia seria proibido, na altura era normal. Era normal, sim. E o que é que fazia com 11 anos? Foi para uma metodologia. Mas, pela graça do Senhor, foram coisas boas para a minha vida. Eu sei que três meses depois de lá estar era profissional na minha máquina.
Quer dizer, fazia produtos acabados, com menos de 12 anos. Foi muito giro. Profissional da sua máquina e isso significava que teve uma ascensão rápida. Uma ascensão muito rápida. Era uma máquina onde eu trabalhava e eu tornei-me profissional dessa máquina, fazendo produtos acabados, começava e terminava. Ainda não tinha 12 anos. Isso era um trabalho que exigia grande força física. Era, sim. Com 11 anos já era corpulento? Era, sim. Tinha força. Desde pequenino, então, que já conseguia... Tinha, tinha força. Conseguia dominar aquilo. Normalmente as pessoas que estavam ali eram tudo homens já casados. E eu fazia o mesmo... exatamente as mesmas peças. E a sua adolescência foi passada ali a trabalhar? Ali a trabalhar. Sempre exigendo grande força física? Sempre exigendo grande força física. E depois dali eu tive lá um problema porque a máquina feriu-me numa perna, no ilíco, junto ao osso do ilíco.
friou-me ali e a minha mãe não me deixou trabalhar lá mais. Então, depois fui para uma cerâmica e trabalhei numa cerâmica. Passado pouco tempo, era responsável por um dos trabalhos dentro da cerâmica. Fui um homem com muita sorte. Ou seja, mesmo a máquina friou, mas não teve indemnização, não teve... Não, não, nesse tempo isso não existia. Tinha tratado até por médico particular. Ou seja, teve que suportar os custos de uma adultão causada por uma criança no trabalho. Uma criança no trabalho, é. E a vida continuou. É, é. A vida continuou. Ela era uma grande mãe, realmente. E depois, estamos a falar da adolescência, sai desta empresa e vai para uma outra. Para uma outra, sim. Com que idade mais ou menos? Teria mais ou menos, aí na altura, provavelmente já 14 anos. Por aí assim, 14 anos.
E quais eram os seus objetivos nessa altura? Os objetivos nessa altura eram... Eu tinha sonhos. Isso eu tinha, mas tinha sonhos de criancinha já. Ter, por exemplo, um carro para conhecer o mundo. Era um sonho de criancinha. Mas chegou a realizar. Chegou a realizar esse sonho. Chegou a ter um carro e viajou bastante. Sim, quando eu vi a primeira vez um automóvel, fiquei encantado. Que idade é que tinha? Tinha para aí, sei lá, 12 anos, talvez. 12 anos? Desde 1962? Sim, um automóvel, perto de mim, ali na... A gente conhecia automóveis, mas ali na aldeia só havia... Duas pessoas tinham automóvel. E eu, quando vi uma primeira vez, fiquei encantado. E realizei um sonho que se concretizou. Porque pude visitar a Europa com os meus filhos.
E que sonhos é que tinha mais? O sonho era ver se era possível alcançar um trabalho melhor. Sempre alguma coisa que pudesse vir a tornar a minha vida e a vida dos meus filhos mais fácil. Mas ainda então, nos anos 60, o que era um bom trabalho na altura? Um bom trabalho na altura era... Eu, por exemplo, fui para uma empresa, mais tarde, fui para uma empresa que já me concedia o ordenado mínimo nacional. Qual era na altura? Era uma empresa que já desapareceu, era uma empresa sueca, que estavam instaladas em Souselas. O seu nome eram umas insígnias, SIAF. Nunca soou ao certo, queria dizer. Mas, no caso, o ordenado nessa altura mínima era qual o valor? Era pouco, 500 escudos por cada 15 dias de trabalho, de noite e de dia.
2,5 euros mais ou menos por mês, não é? 1 euro seriam 200 escudos. Por 15 dias, era fim de duas semanas, 500 escudos. Então, 1000 escudos por mês. 1000 escudos por mês. Cinco euros. Já considerava bom, porquê? Porque eu, sendo um jovem, ganhava a mesma coisa que um chefe de família com três e quatro filhos. E o que é que dava para fazer com mil escudos? Com mil escudos, naquela altura, dava para viver, comprar umas roupinhas melhores, dava para viver. Sobreviver, vá. Pronto. Porque já havia ordenados altíssimos, mas não era o nosso caso. Mas eu era... Era assim como era e eu era. Todas as pessoas da época. E depois continua. Ainda vive na casa dos seus pais, ainda nessa altura. Ainda vivi, sim.
Depois casei... Quando casei, é que saí de casa dos meus pais. Mas estamos, então, a falar anos 50, 60, até que depois vai para a tropa, porque é obrigado. Já vou para a tropa já casado. Ah, antes de ir para a tropa, casou com a Fernanda. Como é que conheceu a Fernanda? Era a sua esposa ainda? Era a minha esposa. Conheci a Fernanda num bailarico. Fomos ao bailarico e ela estava lá e eu a convidei para dançar, porque nós dançávamos, não é? E conheci aí e, pronto, e namorámos até casar. Foi fácil, ela não ofereceu resistência? Não, não, isso tem uma história que não se pode estar aqui contando. Também o facto de ser bem parecido e ser corpulento também ajudou, certamente.
E então foi uma história gira. Depois tivemos, então, o nosso primeiro filho que acabou por falecer. Mas isso antes do seu primeiro filho foi para a tropa? Não. Qual foi a cronologia? Quando fui para a tropa, esse filho já era nascido. Então o seu primeiro filho chamava-se Pedro Miguel, não é? Pedro Miguel, exatamente. E nasceu em que ano? Nasceu em 1970. Ah, ok. Ou seja, quatro anos antes do 25 de Julho. Exatamente. Ok. Sendo então que era um sonho realizado, acredito, a vida desta criança para uma família humilde, como seria a vossa, e que acabou por perder o contacto diário quando teve que ir para a tropa com a sua esposa e o seu primeiro filho primogénito, a ficarem sozinhos em casa na altura.
Ficou com a mãe, sim. Viviam sozinhos. Sozinhos, sim. E o serviço militar que prestou na altura. Foi em quem, em Portugal? Foi em Portugal, foi em... Fui motorista na Figueira da Foz e mais tarde houve uma grande necessidade de motoristas em Lisboa e eu tive que ir para Lisboa. E lá concluí. Mas mesmo assim ainda estive lá dois anos. Dois anos. E então onde é que estava naquele dia, enfim, muito marcado na história recente portuguesa, na noite de 24 para 25 de abril de 1974? No dia de 24 para 25 todos os cortéis estavam de prevenção, quer dizer, não abriam as portas os cortéis. Mas prevenção em que sentido? Já se suspeitava de alguma coisa ou não? Não, já no 24 para 25, é quando se dá, no dia 25 de abril, seria o grande dia.
Mas vocês já sabiam, no caso do Fernando, já sabia que isso ia acontecer ou não? Não sabíamos. Ninguém sabia de nada. Só soubemos no dia 25 de abril, durante a noite, houve um colega que chegou ao cortel, às vezes saíam e vinham muito assustados porque havia uma revolução na rua. Ah, ok, então foi já numa fase muito posterior. Não foi muito posterior, foi no dia. Sim, sim, mas não no sentido em que vocês, enquanto Forças Armadas, não tiveram um conhecimento prévio antes da rua? Não, não tivemos absolutamente nada. Foi só um grupo muito restrito de oficiais, sobretudo capitães, e soldados preparados para o efeito. E eu não fui desses soldados. E depois o Fernando, o que é que teve que fazer nessa altura? No dia 26 de Abril, era o motorista mais velho que estava no acordelemento, e então sim, eu tive que ir para a rua com o carro.
e servi o exército naquilo que foi necessário. Também levava a comida para o quartel dentro desse carro e fiz outras coisas. Mas teve medo nessa altura ou encarou aquilo com maior determinatividade? Eu tive medo porque havia uns canhões na rua, um companharde que era equipado com um canhão e aquilo me assustava um pouco quando eu tinha que transitar pelas ruas da cidade de Lisboa com a carrinha, tínhamos que aproximar-nos ali com muito pouca velocidade. Havia alguns conselhos que foram dados para não haver riscos. Tive muita sorte, cumpri tudo à risca, mas tive a sorte de que ninguém nunca me mandou parar, mas eles podiam mandar parar e perguntar porque aquele carro militar ali estava, mas eu não sofri essa...
Esse problema. Ou seja, quem está a ver este programa e que não conhece bem a história portuguesa, sobretudo esta história mais contemporânea, o que aconteceu nessa altura foi uma transição de regime. Vivemos num chamado regime ditatorial e passamos por uma democracia. Mas foi um processo, a chamada revolução, mas uma revolução muito, muito tranquila. Foi muito tranquila. Na realidade, eu posso dizer que foi uma revolução de cravos, como eles diziam. Chegou a ver os escravos na rua? Cheguei, cheguei a ver, por exemplo, a ponta de uma arma poderosa, que era uma arma portuguesa, conhecíamos-la pela G3. com um cravo enfiado no cano da arma. Muito giro. E na altura não teve dimensão que isso era tão simbólico que 50 anos depois ainda se falaria disso, não é? Sim, mas na altura foi muito bom.
A liberdade que nos foi concedida foi bom. Havia opção, na verdade, sobretudo, não podíamos falar nada, nem reclamar, A liberdade foi bom, não posso dizer. Fez uma diferença grande. Os portugueses viveram mais em liberdade. E, sobretudo, eu que conhecia algumas atrocidades praticadas pela PIDE. Eu conheci pessoalmente. Digo bem da Revolução de 25 de Abril. Fernando, vamos só fazer uma curta pausa, é a nossa primeira pausa, e daqui a pouco já vamos voltar para conhecer, enfim, a primeira das grandes suas histórias e que acredito que pode marcar um pouco os nossos telespectadores, a história do seu primeiro filho.
Fazemos uma curta pausa neste Olhos nos Olhos com Fernando Esteves e voltamos já a seguir. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança. Olhos nos Olhos, a segunda parte aqui na TV Novo Tempo, este e outros programas que pode facilmente acompanhar no nosso canal do Youtube.
Estamos hoje com Fernando Esteves, ele que partilhou e vai partilhar ao longo deste programa algumas das suas experiências e das suas histórias. E eu diria, talvez, Fernando, introduzindo agora este que é um tema muito complicado, Muito, muito difícil, mas que acredito que pode inspirar outras pessoas. O ano de 1974, já o falamos devido ao 25 de Abril, no entanto, para o Fernando e também para a sua esposa, a Fernanda, terá sido talvez aquele o ano mais difícil, porque terá sido o ano em que perderam dois filhos, em circunstâncias diferentes. O primeiro foi mesmo, estamos a falar de setembro de 1975, não é? Sim, foi o primeiro.
Aliás, o primeiro foi em 1974, que terá sido o Nelson, não é? O Nelson foi o primeiro que faleceu, sim. No entanto, já falamos do primogénito, o Pedro Miguel, que nasceu em 1971. Tiveram um segundo filho, no caso do Nelson, em 1974, mas não sobreviveu. Não sobreviveu, não. A recordação que tenho desse nascimento é a única coisa que recordo dele, porque esteve muito pouco tempo connosco. Eu tinha que trabalhar, naturalmente, e quando chegava a casa achava-se sempre muito frio. E lembro-me de o encostar ao meu corpo. É a única recordação mais grata que tenho dele. É encostá-lo ao meu corpo para ver se conseguia aquecê-lo.
E falava com ele. Dizia, por exemplo, porque é que estás frio. Se falasses comigo, dizias. E era a única recordação que tenho. Ou seja, ele teria sido eventualmente vítima de algo que aconteceu durante a gravidez com a Fernanda. Ela foi atropelada por uma pequena caminhonete. Alguns dias antes do parto? Um mês antes, talvez. Um mês, dois, talvez. Nunca ficou provado, mas admitem que terá sido esta explicação. Foi o próprio médico que admitiu que foi a pancada que ela levou e foi julgada contra outra pessoa. A outra pessoa ficou muito doente e teve de ir para o hospital.
Onde a Fernanda bateu, ficaram as duas muito mal. Admite-se que tenha sido por causa disso. É interessante que esta criança despertou a minha vida que já era uma vida religiosa, digamos assim, não posso dizer que não era, sempre acreditei em Deus, como eu disse, mas para o meu batismo. Senti-me tão só, tão angustiado, na altura que... que quis me batizar pela primeira vez, eu senti o desejo de me batizar. Ou seja, esta criança, o Nelson, ele esteve convosco cerca de uma semana em março de 1974. Exatamente. E o batismo do Fernando foi em maio de 1975.
E depois em setembro de 1975 é que acontece algo que era absolutamente imprevisível e devastadora, e foi muito devastadora. Claro que a perda do Nelson também, mas estamos a falar de uma criança de seis anos, sensivelmente, o Pedro Miguel. Não tinha ainda seis anos. Não tinha ainda seis anos, pois ele nasceu em 71, e isto acontece em setembro de 1975. Exatamente. O que é que aconteceu, Fernando, em setembro de 1975? Em setembro de 1975, nós deixávamos o nosso menino com a avó, que foi uma mulher muito generosa, Maravilhosa. Criou os netos todos. Foi uma criatura... É uma criatura como fui eu. Ela e o marido, o meu sogro. Que consentiram tomar conta dos nossos filhos. Criaram-nos todos. Até eles irem para a escola.
Todos os netos, estou eu a dizer. Não foi só os meus. E ele... Eu andava numa motita pequena. Transportava a Fernanda do trabalho. E quando chegámos à casa, o nosso filho, quando ouviu a moto, correu para mim. Entretanto, vinha uma outra moto, aí sim uma moto poderosa, muito grande, que vinha com uma velocidade tremenda e apanhou o nosso filho na cabeça. E o Fernando e a Fernanda assistiram a tudo? Assistimos a tudo, ele corria para nós. Ele ia na vossa direção fluir? Fluia, sim. Porque vocês estavam a chegar. Era assim. E o que é que aconteceu? Foi...
Perceberam logo que não havia nada a fazer na altura? Eu, pelo menos eu. A mãe ainda teve alguma esperança, mas eu não. E essa pessoa que atropelou o seu filho? Essa pessoa que atropelou o meu filho tem uma história que, se quiseres, eu conto, que é uma história de perdão muito interessante, muito rapidamente. Mas ele ainda está vivo hoje em dia? Está sim. E de vez em quando ainda o vê? Vê, ainda há muito pouco tempo. Encontrei-o num supermercado, o trato muito bem, a ele e à esposa. A esposa, ele nunca mais conseguiu olhar para a Fernanda, nos olhos, mas a Fernanda estima ou não. Ah, ele, mas ele não era casado. Não era ainda casado, penso que não era ainda casado, não era de certeza. A esposa dele tem alguma dificuldade quando nos encontramos, mas é uma boa senhora. E eles têm filhos? Têm filhos, sim.
Moram num sítio ali, um pouco além de nós, uns dois ou três quilómetros. E não é muito frequente vermos-nos, mas vemos-nos. Ou seja, ele que era um jovem na altura e que ia com uma moto em excesso de velocidade, presumindo, pouco importa agora... Não é excepto, era muito acima e aí é que vem a história do perdão, porque depois o pastor... Perguntou-me... Ele estava no funeral do menino. Ele foi ao funeral? Foi, sim, senhor. Foi ao funeral. Da Igreja Adventista? Porque o Fernando já era batizado na altura. Foi o próprio pastor da Igreja Adventista que fez o funeral. Foi ele que fez o funeral. Nós batizámos-nos logo a seguir à morte o Nelson. E o pastor não estava...
Acho que nem estava no país. Veio quando soube disto. Ficou muito preocupado. E então ele perguntou-me lá, o Rui estava junto de mim, e ele perguntou-nos, nós lhe perdoámos e dissemos que sim. Seis meses depois, a judiciária chamou-me. Pouca gente sabe disto. E eu fiquei muito preocupado, porque eles me enviaram uma carta. E a judiciária? Eu não fiz mal a ninguém. O que é que a judiciária quer de mim? E então havia um... Havia todo um processo, uma capa grande, um processo grande, sobre este acidente que eu desconhecia que havia o processo. E foi por causa da entrada dele no hospital e o motivo da morte.
Despoltou o processo na judiciária. E eu, dali, é que tive que lhe perdoar verdadeiramente. Aí é que eu lhe perdoei verdadeiramente, não a prova, a prova mais do que verdadeira. É porque o agente não queria que eu o fizesse. Não, isso nós temos que resolver aqui de uma outra maneira, porque vocês perderam um filho. Eu disse, não, eu já perdoei esse homem uma vez. Não lhe vou perdoar a segunda vez, não é preciso. Está perdoado, está perdoado. Ou seja, o próprio Fernando fez questão de garantir que não houvesse consequências. Nada, nada, nada. É o Rui e ainda hoje não sabe nada disso. E eu vim para casa aliviado, porque eu não sabia porque é que a judiciária me chamou. Ou seja, ele poderia facilmente ter sido detido, ter ficado preso durante algum tempo, alguma coisa...
Eu não sei o que é que poderia vir a acontecer, porque ele não... ele, digamos que não o fez por mal, não é? E a criança também... Correu, afastou-se do lugar onde estava. O excesso de velocidade. Ele foi parar muito longe. Ele nem a moto conseguiu parar. Era uma velocidade louca mesmo. Ou seja, mesmo todos estes anos, ou seja, 50 anos depois, Acredito que o Rui já seja um senhor também. Sim, sim. Até já tem netos, não sei. Provavelmente. E ainda se cruzam e ainda tem aquele marco daquele dia fatídico de 29 de setembro. Tenho o cuidado de o tratar pelo nome, com muita delicadeza.
Não o acuso de nada. Mas ele também teve coragem de ir ao funeral, não é? Teve, sim. Porquê que ele foi? Como contrição? Eu estou convencido que ele achou que tinha que estar ao nosso lado. Isso ajudou ao Fernando e à Fernanda de alguma forma? Sobretudo, foi gratificante. Saber que aquela criatura que estava ali em sofrimento por causa daquele acontecimento. Não limpou todas as culpas. A criança realmente deslocou-se. Foi a velocidade. E era aí que se agarrou certamente as autoridades. Porque depois teria havido testemunhos de alguém que eu nunca cheguei a saber quem era. Para as autoridades.
Nunca cheguei, nem quero saber quem era, mas teria havido, porque eles sabiam tudo. Mas está com paz sabendo que perdoou este Sr. Rousseau? Muita paz. Muita paz. Ainda assim, o sofrimento nos dias seguintes, acredito, nos dias, nos meses, nos
anos seguintes... Vinte anos depois. Foi atrás. Se tivéssemos a ver um programa de televisão que houvesse crianças, chorávamos, chorávamos, chorávamos. E hoje é o medo de não o ver na Nova Terra. Mas todos estes anos depois, ou seja, o Fernando e a Fernanda, de alguma forma, tentaram recuperar e agarraram-se muito também a uma comunidade, no caso a Igreja Adventista em Coimbra, que vos apoiou bastante, não é? Totalmente. Como é que uma comunidade pode apoiar dois pais que perderam dois filhos em meio ano, sensivelmente, ou num ano? Nós estamos perante uma congregação de pessoas que tem os mesmos princípios, acredita nos mesmos valores.
Ninguém é mais do que o outro, E num momento destes eu ouvi vozes atrás de mim e eu vou contar-te uma. Que é incrível. Estava uma senhora atrás de mim que disse assim, você chora por ter o seu filho morto e eu choro por ter o meu vivo. Veja o sofrimento que era causado no caso dessa pessoa, também era um sofrimento difícil. Era porque ela tinha um filho que lhe causava muitos problemas. E ela achava que se ele tivesse desaparecido mais cedo, uma vez que ela era uma cristã, aquele menino teria, aquele rapaz que agora já tinha 40 anos, não é?
Poderia ter sido outra pessoa. E o Fernando, a este distanciamento, quando olha para o Fernando da altura, o que é que pensa agora com esta distância? Olha, eu vou dizer-te o que é que eu penso. Penso que nós com a idade, por vezes, devíamos melhorar muita coisa, e eu não consegui melhorar. Sou um homem que... digo a oração do Pai nosso muitas vezes durante o dia, para ter Deus perto de mim. E então, como é uma oração que Jesus também disse e ensinou, Eu agora habituei-me a falar nela.
A dizer, a falar, a fazer oração. Por mim, pelos outros. Por todos. A comunidade foi acolhedora maravilhosa. Eu vivi muito mal. A igreja tinha na altura um departamento que chamavam de Orcas. E uma querida irmã, quando via alguma coisa boa, dizia logo, isto é para o Fernando. Botas... Eu orgulho-me muito disso. Não tenho orgulho nenhum a dizer isto. E onde é que entra o papel da fé, da esperança na superação de algo assim tão aposentador?
Na Bíblia. Na Bíblia. Até Jesus perguntou porquê. Na cruz. A uma certa altura, ele faz ideia A agonia que lhe ia na alma quando ele diz, pai, porque me abandonaste. Depois, João Batista. A crueldade com o João Batista. E aquele homem... Desculpa agora o nome, aquele homem, aquele grande acno. Ah, como é que se chama? Diz-se pai no meu nome, não lhe impute este poema. Eu fiquei... Estas três situações na Bíblia destruíram completamente tudo aquilo que poderia ser a minha rejeição do poder da Palavra de Deus.
Ou seja, nunca se revoltou contra Deus? Não, Senhor. Em nenhum momento? Em nenhum momento. Nunca perguntou porquê eu... Não. Nunca. E eu vou dizer-te, Ezequiel, e o Senhor levantou Uma vez ouvi dizer que o Senhor levanta o véu aos necessitados. E quando ele quer dizer levantar o véu, deixa ver mais um pouco. Eu vivi experiências muito incomuns. Uma delas foi numa empresa onde trabalhava, em que, de uma forma sobre-humana, consertou uma máquina sozinho, não é? É verdade esta história? É, sim. Ou seja, quando todos, de alguma forma, ridicularizavam a sua fé. E foi mais ou menos nesta altura. E fez um homem chorar. Tudo aconteceu mais ou menos nesta altura, não é? Quando foi despedido. Que história é essa, um bocadinho surreal, Fernando?
Surreal porque partiu uma peça de uma máquina E era preciso. Ela partiu e dividiu-se em duas, certo? E ela devia ser apenas uma. Então há um cabelhão que tem ali ao meio, muito grosso, que devia ter resistido e não resistiu. Era possível arranjar outro elo. Aquilo era um corrente, do tamanho das minhas mãos, dos meus braços. Eram coisas muito fortes. E foram lá várias pessoas tentar uni-la e não conseguiram. Com alabancas, ela nem se mexeu. e este tolo, por assim dizer, isto eram mais ou menos quatro horas da manhã, desceu por um buraco que havia para a parte de baixo da máquina, onde havia muita serradura de madeira, de uma serra que serrava, e eu ali fiz dois buracos com os joelhos na serradura.
E eu digo, meu Deus, eu preciso que Tu me mostres qualquer coisa, quem sou eu, para ti, o que é que tu podes fazer por mim nesta altura, é só para te dar glória, não quero nada para mim. Nunca pedi ao Senhor dinheiro ou valores. Sempre alguém me dava quando eu necessitava e muita gente deu. E não aconteceu nada, eu apareci mais rápido e então eu voltei para cima da máquina e não acontecia nada. E eu, meu Deus, mas eu não tenho ideia nenhuma, não sei o que fazer. Voltei lá abaixo e ajoelhei-me outra vez. E aí gritei com mais força. Ajuda-me! Tinha pessoas à volta ou estava sozinho?
Não tinha ninguém à volta, estava sozinho. Foi tudo embora porque ninguém queria estar ali porque chovia. Uma chuva calma, mas chovia. E então, quando eu saio a segunda vez de lá, eu coloquei tudo no sítio. Tudo. E o serralheiro responsável pela máquina, eu fui chamá-lo. Olha, podes vir, é só meteres a cavilha. Está tudo no lugar. É só meteres a cavilha. E ele, então, ficou pasmado a olhar para aquilo monstro que tinha milhares de quilos de... Aquilo era uma força de tração para puxar toneladas. E ele viu ali uma peça... Era só enfiar realmente um cabelhão muito grande e meter-lhe um prisioneiro. E a máquina continuou a andar.
Foi muito interessante. E a qual reação foi depois dos seus colegas? Os colegas ficaram todos abismados, porque depois ele é que fez a publicidade. Ele é que fez, olha em que ele pôs tudo a andar. Foi o seu evangelista. Foi, foi, foi. Eu tive sempre... Evangelizar era um sonho também. Na igreja já. Quando cheguei à igreja eu vi um pastor, pastor Graça. Posso dizer o nome, não posso? Claro que sim. Posso. O pastor Graças fez um culto e naquele culto contou um pouco da minha vida. E eu disse assim, meu Deus, é como se eu fosse um infiel. Não tenho feito nada por Ti. E então ia sozinho. Havia uns folhetos, que eram 15 folhetos, verdades eternas. E eu andava de porta em porta na cidade de Coimbra a deixar os filhetes aqui e ali, ao hospital.
Tornei-me um missionário. Sozinho. Mas ainda assim, esta história, por exemplo, desta máquina, era no fundo também um pretexto que o Fernando usou para falar da força de Deus, digamos assim. Sim, fui convidado a ir a igrejas aqui e ali. Cheguei a ir ao lentejo. porque depois muitas pessoas queriam saber, na realidade, o que tinha acontecido. A questão é que aqui não há uma explicação que seja muito... No fundo, não sei. É um milagre e milagres não se explicam. É um milagre e não se explicam, porque eu, nesta... Numa das meditações matinais por onde eu escrevi, contei a história de uma mulher que pediu ao Senhor que levantasse uma oliveira ou que baixasse uma estrada.
E isto é muito estranho, porque toda a gente a conhece. Toda a gente sabia quem era na igreja. Ela era mãe de uma cooperadora. E era muito minha amiga. Ensinou-me muito e vivi muito com ela. Sobrevivi até muitas dificuldades com ela. E essa senhora fez este pedido e toda a gente viu. Muita gente viu. Inclusive o motorista que levava as mobílias. que foram transportadas de Lisboa para Coimbra. Eram as mobílias e as filhas que, entretanto, tinham vindo da África. E o caminhão não passava. E o motorista recusou-se. E o caminhão passou. Como é que isto foi? Ninguém explica.
Ninguém explica. Não há explicação nenhuma. Fernando, quando eu olho para todos estes milagres que aconteceram na sua vida, acredita que de alguma forma Deus tinha algum plano especial para si e para a forma como depois chegou a tantas pessoas? E neste programa também está certamente a chegar a muitas pessoas. Isso eu acredito fielmente para cada pessoa. E não acredito que a missão de uma pessoa seja apenas folhetos, seja apenas pregar o Evangelho sem vergonha. Há pessoas que são mais dotadas do que outras. Eu sou um homem que comunico com muita facilidade e tive o privilégio de ter uma profissão, a minha última profissão, falei com centenas e centenas de pessoas sobre a minha fé.
Eu ia a um lugar onde eu vendia um produto e eu ia a um lugar onde a dona da loja dizia, o senhor vem sempre de manhã porque é para ficar aqui o dia todo. E assim era. Era só para falar de Jesus. É o que mais gosta na vida. É, muito. Eu enlouqueço. Quando eu digo enlouqueço, é uma expressão de eu gosto muito, muito, muito. Porque teve várias áreas onde trabalhou, áreas mais físicas. Depois, mais recentemente, trabalhou como empresário na área do calçado. Sim. No entanto, de tudo aquilo que já fez na vida, o que mais gosta é de partilhar o amor de Deus. O amor de Deus. E trabalhei seis anos para o Estado como técnico de equipamentos braile. Reparava as máquinas de escrever dos cegos e as fotocópias deles.
Tornei muito bom a fazer aquilo. Cheguei a trabalhar no Ministério da Educação em Lisboa. Era convidado a vir cá. Fernando, já vamos voltar para a terceira e última parte do nosso programa Olhos nos Olhos, com o nosso convidado Fernando Esteves. Voltamos daqui a pouco ainda para conhecer mais histórias incríveis que aconteceram na vida do nosso convidado. Até já. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos, com Fernando Esteves, o
nosso convidado, que ao longo deste programa já partilhou connosco histórias incríveis, histórias de milagres, também histórias de grande sofrimento, como a perda dos seus dois filhos. E agora queria falar um bocadinho sobre os vícios, que acredito que seja algo também que diz muito aos nossos telespectadores, porque certamente ou têm ou conhecem alguém que, no fundo, são prisioneiros, são escravos de algum tipo de vício. E o Fernando também tem uma história muito radical com um vício, que acaba também por ser algo que ainda atinge muitas pessoas, que era o vício do tabaco. O Fernando fumava de forma compulsiva. Quantos cigarros, quantos matos, como é que eram? Porque é que eu me habitei a fumar tanto? Porque eu fui viciado em jogo, ainda na tropa, e como eu ficava a noite sem dormir, fumava muito, muito, muito.
Que jogos é que se faziam na altura? Nós jogávamos a dinheiro. E depois eu jogava com gente grande, eu jogava com oficiais. E ganhei, ganhei dinheiro. Ganhei dinheiro. Mas era cartas? Era cartas. Era uma... chamávamos-a lerpa. Lerpa. Chegávamos àquilo e eram noites inteiras. E isso fez com que eu apanhasse um vício estúpido, porque eu chegava a acender um cigarro ou outro. Ou seja, é viciada em nicotina para manter-se acordado. Para manter-se acordado. E era assim. Então, eu agora estava preparado para o batismo após a morte do Nelson. Eu queria me batizar. Começámos a ser preparados para sermos batizados. Sabia que não era possível batizar-se e continuar a fumar.
Não. Eu vou dizer-te uma coisa. Eu, hoje, se uma pessoa se batizar e ainda anda a lutar com o tabaco, e se desejar batizar-se, eu não lhe diria que não. Mas eu não era capaz de fazer isso. Não era capaz. Mas fumou até ao dia do batismo? Até ao dia do batismo. Até à sexta-feira. Foi batizado no sábado. O último cigarro foi na sexta-feira. Na sexta-feira. Eu estava tão desesperado. A Fernanda não estava em casa e eu estava em casa sozinho à tarde. E eu pus o braço numa mesa que tinha uma sala que tinha uma perna quadrada. Eu estou com este pormenor porque eu fiz tanta força a puxar aquela mesa para mim e a gritar.
Eu vou batizar o amanhã. Eu vou batizar-me. Tu é que tens que resolver isto. Sabes que eu já fiz tudo. Ou seja, sentiu-se impotente de conseguir largar a nicotina. Impotente. Impotente. Completamente. Eu fiz tudo. Eu cheguei a comer meio quilo de reboçados e fumava os cigarros todos. Na mesma. Eram 60 cigarros... 60. Eram 3 massas de tabaco de 20 cigarros cada um. Por dia? Por dia. Ou seja, em 10 dias eram 600 cigarros. Era uma coisa... uma loucura. 60 cigarros. Não, 60 por dia, ou seja, 10 dias, 600 num mês, eram quase 1000 cigarros por mês. Sim. É claro que a gente deixa sempre uma grande ponta no cigarro, a tirá-mo-lo fora às vezes a meio, mas eu era demais.
E era muito caro. Era muito caro. O tabaco começou a ser muito caro. O outro dia fui para a igreja com o coração desfeito. Ou seja, no sábado, foi de manhã ou tarde o batismo? Foi de manhã. E sentia um grande... Foi de manhã. Não, foi de tarde o batismo. E eu fui de manhã, não levávamos comida naquele dia. O pastor ofereceu-nos a refeição. Ele gostava muito de mim, o pastor, todos gostaram, mas aquele foi o meu primeiro pastor, era um homem muito particular. Hoje vocês almoçam connosco. E eu lá fui e eu estava à mesa e estava a pensar. Ai, se eu não consigo, meu Deus. E gritei muito para o céu. Nunca mais tive vontade de fumar. Perguntei à Fernanda. Ou seja, depois do batismo... Nunca mais.
Nunca tocou num cigarro, nem sequer vontade teve. Eu deixei um maço de tabacos em cima de uma estante, que eu próprio tinha feito, para colocar os primeiros livros da irmã White que comprei, e das Bíblias, que andava a juntar livros na altura, e fui eu que fiz a estante ver lá o dinheiro que eu tinha, não é? E em cima daquela estante, por cima, aquilo era um género de uma tampa, e eu metia o maço de tabacos. E a Fernanda disse, tira isso daí. Não. Eu preciso da tentação. Mais tarde, quando nós mudámos de casa, o tabaco tinha caído para trás da estante e rimos os dois lá em casa. Olha a tentação! Nunca mais fumei até hoje. E para quem tem um vício como o Fernando teve, de quantos anos é que fumou? Acredito que terá sido ainda bom. Eu não fumei muitos anos. Mas foi muito intenso, não é?
Foi uns 12 anos. Foi intenso. Começou na tropa... Muito intenso. Eu cheguei a aproveitar metades dos cigarros do meu pai. É lá como eu fiquei. E para quem nos vê que tem um vício, seja ele qual for, e que o Fernando tanto lutou contra vencer esse vício pelas suas forças e não conseguiu, o que é que teria a dizer quem nos vê? Ah, eu teria a dizer, se crê em Deus, procure Deus. Ele é o Senhor de todos os poderes. Eu nunca podia contar aqui algumas experiências que vivi que não poderia ter sido de outra maneira, mas nem o tempo dá e é muito difícil por vezes contar coisas que torna-se quase impossível de uma pessoa acreditar, mas que passaram-me para mim, e quase sempre com testemunhas.
Uma coisa que o PP sempre me disse era, quando contas as tuas experiências, vê se há testemunhas. O Pepe é o seu filho, Pedro. Esteves, que veio depois de nascer o primeiro Pedro Miguel. Também chamavam o Pepe ao Pedro Miguel? Não, o Pepe foi com ele só. Mas o Pepe, que é o Pedro Esteves, é também Pedro Miguel. É, sim. E porquê terem dado o mesmo nome? Fui eu, não foi a mãe. Não foi a mãe, quero dizer, estou a falar mal. Foi a mãe também, mas eu pedi-lhe. Ah, ok. Mas por alguma razão específica? Eu senti toda a vida que o meu filho ia passar por qualquer coisa. Porque a última semana de vida dele aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido.
Eu ia todos os dias com ele, ele tinha um capacete pequenininho, que o metia na cabeça, e eu ia todos os dias com ele à Coria, a um parque lá na Coria que tem um lago. Eu alugava uma gaivota por 10 tons e andava com ele na gaivota, ríamos nos dois, havia patos lá dentro. Ainda lá fui há pouco tempo, a recordar aquele sítio. Havia umas pontes, nós passávamos por baixo, isso nunca tinha acontecido. Foi aquele tempo que vivi com ele e a seguir aconteceu isso. E como é que foi depois a educação? Voltou a ter dois filhos, no caso o Pedro Esteves, que atualmente é pastor da
Igreja Adventista, e depois uma menina, que atualmente é advogada. Como é que depois foi esta fase de tanto sofrimento dos anos 70, para depois de tantas alegrias na década de 80, quando nascem os seus filhos? Bom, eu vou-vos dizer, os meus filhos foi... A Fernanda ganhou muitas vezes na igreja o prémio da mamã mais nova, sem filhos. Então o Pedro foi planeado muito por causa dela, porque eu já não tinha filhos há uns anos e eu não me importava de continuar. Tinha medo. Quando o Pedro nasceu, foi uma rosa, como um jardim inteiro. Lembra-me desse amor profundo que havia entre mim e ele.
Ele era muito agarrado a mim. Ele tirava... Se a mãe estivesse sentada no sofá, ao meu lado ele não queria. Metia-se no nosso meio para ficar ele do meu lado. Foi assim uma coisa muito partilhada e muito sofrimento para ele. Não os deixava ir a lado nenhum sozinho. Ou seja, tinha um trauma que se calhar nunca ficou resolvido, não é? Alguma coisa, algum acidente pode ter acontecido. Ainda hoje eu sofro com a Eva, que vocês não querem saber por ela. A Eva é a sua neta? A minha neta por ela viver em Lisboa é uma tragédia para mim. Imaginar que algum imprevisto pode acontecer. Vou sempre a pensar coisas ruins, Deus me ajude. Deus me ajude. E no caso, o seu filho, Pedro Esteves, é pastor da Igreja Adventista. Teve influência para que ele pudesse ser pastor? Ou como é que surgiu isto, ter um filho pastor, no fundo?
Eu tentei abrir, e abri com outras pessoas, uma pequena salinha na Pampilhosa, e eu já entregava ao PP, na altura, coisas que eles faziam nessa pequena igreja onde nós íamos de tarde. Mais tarde o pastor Brito achou que naquele sítio não tinha condições. A gente fechamos a sala, que ainda esteve aberta há anos, para depois um dia se pensar novamente. Mas não se pensou. A sua prioridade, é sempre os seus filhos poderem e manterem-se com a fé que o próprio Fernando tinha. Sim. Por essa razão é que vai e emigra até para fora do país, mas percebeu, não, isto pode acontecer daqui, o facto dos meus filhos não terem, enfim, perderem a fé ou de alguma coisa acontecer e por isso regressa a Portugal.
Regressei a Portugal. Eu não suportava também a falta da presença do PP na minha vida. Era muito difícil, chorava muito por lá. Mas sentia muitas saudades do caso do seu filho. Era muitas saudades dele, sim. Muitas saudades e estava habituado a ele. Era muito difícil quando é assim. E eu viria mais tarde ou mais cedo. Mas depois lá na empresa, um emprego bom que eu arranjei lá, eles queriam que eu trabalhasse ao sábado e eu é agora. e vim embora. Os meus filhos depois sofriam porque eu não os deixava ir para lá sozinhos. Eles não gostavam lá muito. O Fernando teve, como já vimos ao longo desta nossa conversa, teve várias áreas onde trabalhou, seja mais a nível físico, seja até como pastor, porque esteve à frente de igrejas e enquanto líder espiritual dessas igrejas.
Olhando agora para trás, quais aquelas características que acha que alguma pessoa deve ter para ter sucesso? E este sucesso é uma palavra muito ambígua. Eu sei, eu sei. Quais essas características que entende ao longo da sua experiência de 75 anos? Na igreja onde eu estive, que estive cinco anos como pastore, é termos ao nosso lado as pessoas que já lá estão. Eu não posso dizer o nome de uma pessoa, não será bom porque são muitas pessoas, mas houve uma pessoa ali que ajudou a abrir todas as portas. A igreja tornou-se conhecida, íamos a reuniões da Câmara, coisa que nunca tinha acontecido. Davam-nos rotundas para nós enfeitarmos como igreja adventista. Deixavam-nos fazer as festas de Natal da biblioteca municipal.
Nunca lá tinha entrado igreja nenhuma. Por causa das pessoas que já lá estavam e não por minha causa. E a bênção de Deus. Porque batizámos lá famílias inteiras. Num batistério que estava fechado há muitos anos. E fora do âmbito da igreja, uma pessoa que nos esteja a ver, que características é que identifica que sejam mesmo muito importantes para alguém conseguir ter sucesso, seja lá o que isso quer dizer? Eu penso que o sucesso, que essa palavra realmente é uma palavra muito difícil para colocarmos em matéria religiosa, o sucesso, mas eu penso que aqui, a responder mesmo àquilo que tu queres, penso que é dedicação. Dedicação, naquilo que for possível exemplo.
Nós nunca somos de exemplo, fazemos sempre coisas boas e coisas más. Mas eu dou este conselho em absoluto. Esqueçamos aquilo que nós fizemos mal e avancemos como o Senhor diz. para as coisas novas e as propostas novas que nos estão feitas. E é isso que eu diria, por exemplo, a uma pessoa que um dia tomasse, numa igreja como Leigo, um lugar como o meu, que eu estou muito agradecido a Deus por ele. Conheceram uma igreja maravilhosa, uma igreja pequena, mas com muito boas pessoas, pessoas dedicadas.
Fizemos o melhor que pudemos. Fernando, e se pudesse falar individualmente para alguém que nos esteja a ver e que tenha tido assim uma vida um pouco à semelhança da sua, como se fosse uma espécie de montanha russa com altos e baixos, com momentos de grande sofrimento e dor, mas também com momentos de grande alegria e de grande regozijo por ver os seus filhos naquilo que se tornaram, o que é que diria alguém que se calhar esteja agora na fase de maior sofrimento, seja por vícios ou por perdas? Eu vou dizer algo que me acompanhou até aos dias de hoje. Eu até diria a alguém que não é um crente adventista como nós somos, seja qual for a igreja, que é nos joelhos que o ser humano tem mais força.
Nos joelhos. A joelhar. orar ao Senhor, olhar para dentro de si próprio e ver o que está certo e o que está errado, combater o que está errado dentro de si, não segurar uma coisa que tem em discussões, que sabe que não está certa, que sabe que não é bem feita, não segurar a opinião, meditar antes de falar, Todos nós nos arrependemos, muitas vezes, daquilo que dizemos. Se eu tivesse que dar um conselho, era isso, uma introspeção. Todos nós precisamos dela. Quando se é mais velho, nós continuamos a fazer as neiras. Mas quando se é mais velho, há esta possibilidade de nós fazermos uma introspeção mais poderosa, mais pura até.
Ver isto podia ter sido feito de outra maneira. Eu faria muitas coisas ainda hoje de outra maneira. Mas é o conselho que dou. Nunca duvidar que Deus está lá. Nunca. Porque realmente acontecem coisas na nossa vida que só podem ser milagres. Não há explicação para eles, não é? Só podem ser milagres. E cada um tem que reparar naquilo que é o seu dia-a-dia para ver se, na verdade, aconteceu durante esta semana alguma coisa de que eu estou feliz porque aconteceu, porque devia acontecer. Não é? Eu sei lá, até eu, olha, eu pensava que este ano não ia apanhar nenhum azeite nas minhas oliveiras. E disse a toda a gente que não ia ter. Estava com um péssimo pressentimento.
Agora que a azeitona cresceu, vi que há azeitona lá nas oliveiras. E, afinal, a gente não sabe nada. A natureza pertence a Deus. Fernando, se algum dia alguém quiser escrever um livro sobre a sua vida, qual o título que gostaria que esse livro tivesse? Eu... Eu gostava deste título. Deixem as redes e venham. Fernando, como é que gostaria que os seus netos, os seus filhos, as pessoas que tiveram contacto ao longo de toda a sua vida, como é que gostaria que eles se lembrassem de si? Eu gostava que eles se lembrassem de mim exatamente como eu sou, naquilo que eu sou melhor. Eu sou um homem que creio firmemente em Deus e penso que não há nenhum motivo para termos desequilíbrios na fé.
desequilíbrios na fé, eu não acredito nisso. Porque isso pode levar-nos, eu ainda ontem tive uma experiência dessas, de uma pessoa que está à beira de poder deixar a igreja por causa do mal, coisa que lhe aconteceu. E isso é por dúvidas naquilo que Deus pode fazer por nós. E ela não pode ter dúvidas naquilo que Deus pode fazer por nós. Muitas vezes Ele não faz porque não deve ser ou porque não pode ser, porque eu não melhoraria, ficaria pior. Nós não sabemos nada. O conselho pertence a Deus e o Senhor disse a Paulo um dia, a minha graça te basta. Ele tinha um problema e o Senhor disse, a minha graça te basta. E eu aconselho que a pessoa pense neste eterno homem.
Eu acredito que ele vai para a eternidade. A graça de Deus basta-nos, não é? Fernando, muito obrigado por ter estado connosco, comigo, tê-lo esse privilégio de estarmos aqui olhos nos olhos neste programa, pela sua vida incrível, sobretudo pelo seu ministério e pela forma como chegou a tanta gente ao longo da sua vida, que de forma tão simples, mas tão profunda, conseguiu tocar o coração das pessoas que conviveram com o Fernando e também de todos os nossos telespectadores aqui no Novo Tempo. Muito obrigado, Fernando. Foi um prazer. Obrigado, porque compito que me fizeram.