Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio deste que já é o seu programa Mentes que Sentem. É sempre bom estar na sua presença, quem sabe convidou um amigo, uma amiga para poder acompanhar este programa que foi idealizado, foi pensado com carinho em oração para poder ser uma benção na sua vida, naquilo que todos nós passamos e a vida aprende-se a cada instante adquirimos conhecimento que possam ser de grande bênção para a nossa vida e é para isso que nós aqui estamos, na graça de Deus, para continuar a colaborar consigo naquilo que nós desejamos que você tenha e nós também, que é a preciosidade da saúde mental.
Com certeza que não estou sozinha, já todos sabem e conhecem a querida doutora Cristina. Bem-vinda, Cristina, mais uma vez e que bom continuarmos juntas a pensar nestas coisas importantes. Obrigada, Milo, é sempre uma alegria estarmos aqui a pensarmos nestas coisas importantes e nestas coisas imprescindíveis. É verdade, é verdade. E quanto mais nós conhecemos, realmente acabamos por tomar consciência que há várias coisas que nós nem tomamos tempo para aprender, para saber, e depois, como se costuma dizer, vem a fatura, não é? E não sabemos por vezes dar resposta a muitas das nossas reações, mas por isso é que nós aqui estamos e obrigada uma vez mais pela tua presença. Muito bem, nesta questão da saúde, portanto da questão desta inteligência emocional, não é que todos estamos a aprender agora em alguns episódios transatos, fazer-te a pergunta, Cristina.
É importante, sem dúvida, estimular de forma saudável o sistema, portanto, de recompensa, que nós falamos particularmente no episódio anterior. Mas a pergunta é como? E como e porquê? Ok? Sabes que às vezes nós fazemos esta pergunta mas não gostamos da resposta que obtemos. E não é incomum às vezes nós darmos estratégias ou sugestões que as pessoas desvalorizam porque acham que não são suficientemente adequadas ou proporcionais à intensidade daquilo que eu estou a sentir, por exemplo, ou da expectativa que eu tinha. Portanto, relembrar. No episódio anterior falamos que um dos neurotransmissores-chave no sistema de recompensa e prazer é a dopamina.
E eu não vou dizer nada que já não tenhamos ouvido, ou aqui ou noutros contextos, variadíssimas vezes. Mas alguns dos comportamentos que estimulam a produção de dopamina e ajudam no equilíbrio do nosso sistema de recompensa e prazer, têm a ver, por exemplo, com a prática do exercício físico. Têm a ver com uma alimentação equilibrada. tem a ver com padrões de sono regulares, tem a ver com relações sociais positivas, seja no contexto de uma família ou no contexto das amizades. Tem a ver com a aprendizagem ao longo da vida, não importa se é uma coisa simples, se é uma coisa mais complexa, é importante que continuemos a aprender, a desafiarmos a nós próprios.
A criatividade, a expressão criativa, ouvir música são coisas que estimulam a produção de dopamina. Mas eu hoje em particular. Gostava de me centrar em dois que cientificamente estão comprovados cometendo interferência nesta produção da dopamina, mas que nós não valorizamos tanto assim. Um deles é o ato de ajudar outra pessoa. Atos de bondade provocam em nós a produção da dopamina. E o outro são práticas de gratidão e de compaixão. Em relação à gratidão, nós já tivemos a oportunidade de falar mais concretamente sobre ela num episódio. Mas a compaixão, nós já vamos tentar perceber o que é isto da compaixão, mas parece uma coisa tão teórica que nós temos dificuldade em perceber qual é o impacto que isso tem na nossa saúde.
E a pergunta que se poderia colocar é, afinal, qual é o impacto prático disto no dia a dia? e permite-me ir buscar alguns elementos da própria ciência. Então eu fui procurar alguns estudos e encontrei alguns estudos sobre a questão da gratidão da inteligência emocional e profissionais de saúde, nomeadamente na classe dos profissionais da enfermagem. Então gostava de trazer aqui isto só para responder à questão Mas isto tem efeito prático, isto tem um impacto no nosso dia-a-dia. Então gostava de partilhar muito rapidamente um estudo que foi publicado este ano, em 2025, mas cujo estudo foi feito em 2023. E foi feito num hospital na Índia, o Mahatma Gandhi Hospital, em Jaipur, na Índia, e envolveu 450 enfermeiras.
O que é que os investigadores tentaram descobrir? Tentaram avaliar a relação entre a inteligência emocional, a compaixão e o burnout. O que é que eles descobriram? que a inteligência emocional e a autocompaixão têm uma relação positiva direta, ou seja, quem tem maiores níveis de inteligência emocional tende a ter maiores níveis de compaixão, ou seja, autocompaixão para comigo próprio, seja para com o próximo. E que a inteligência emocional e a compaixão atuam como fatores protetores em relação ao burnout. Ou seja, o fato de tu teres isto significa que poderás estar menos predisposto a desenvolveres um quadro de burnout.
Um segundo estudo, que foi feito na Arábia Saudita e publicado em 2024, que envolveu 734 enfermeiros do Taif Health Cluster, em que eles avaliaram a inteligência emocional autopercecionada, a percepção que eu como pessoa tenho sobre isso, e a perceção do stress no meu contexto de trabalho. O que é que descobriram também? Que há uma evidência robusta que a inteligência emocional funciona como um fator protetor contra o stress no trabalho. Estamos a falar de uma classe de profissionais que tem níveis elevadíssimos de stress. Entretanto, só para aguçar aqui um bocadinho mais a curiosidade, há vários estudos científicos que abordam esta questão, a relação entre inteligência emocional, autocompaixão, compaixão e burnout, cuidados de saúde prestados, entre outros.
E eu vou só elencar aqui alguns muito rapidamente. Em 2023 foi publicado um estudo que foi feito na Turquia e que fazia uma pergunta, uma observação do género. Qual é a relação que existe? entre os níveis de compaixão e de inteligência emocional que os enfermeiros têm e o processo da pandemia do Covid-19. Primeiro, outro estudo, já vamos ver as conclusões, outro estudo foi feito em 2021 nos Estados Unidos, foi feito num contexto de hospital pediátrico e a pergunta era, será que a inteligência emocional e a compaixão no contexto dos profissionais de enfermagem está associada à própria segurança dos enfermeiros e à qualidade dos cuidados prestados aos pacientes?
É uma pergunta pertinente. Um outro estudo, que foi publicado em 2022 no Reino Unido, mas é um estudo internacional, que envolveu 799 enfermeiros, pergunta, será que a autocompaixão tem influência no burnout e promove o bem-estar entre os enfermeiros? E, finalmente, um outro estudo, há vários, mas esses foram alguns que selecionei. Um outro estudo publicado no Reino Unido, em 2021, perguntou qual é a relação que existe entre a autoestima, a autocompaixão e a resiliência psicológica entre os enfermeiros durante o COVID-19. Algumas das conclusões a que estes estudos chegaram.
Primeiro, a inteligência, uma alta inteligência emocional está associada a maior autocompaixão e compaixão. Isto funciona como um fator protetor contra o burnout e facilita a prestação de cuidados compassivos. em contexto de crises sanitárias, como foi o caso da crise pandémica COVID-19, ou, por exemplo, em contextos como foi aquele que nos Estados Unidos avaliaram o contexto pediátrico, a inteligência emocional e a compaixão estão diretamente associadas à qualidade do cuidado prestado ao paciente e à própria segurança do paciente. Então, a pergunta que se coloca é, mas afinal, a compaixão tem ou não tem uma relação direta com a inteligência emocional e elas têm ou não têm um impacto direto na nossa saúde.
Lembrando-nos que falamos nesta questão da compaixão porque é um dos fatores que estimula a produção da dopamina e ajuda no equilíbrio do nosso centro de
recompensa e prazer. É muito interessante o que estás a dizer e é impossível a gente não levar logo o pensamento para as coisas bíblicas, não é? E para o ensinamento de Jesus. Porque realmente o exemplo que o Senhor Jesus deu no seu próprio ministério, de ser essa pessoa de tão grande compaixão para com os outros, e também apelar a nós, de nos dar este convite, sermos compassivos uns com os outros, no fundo suportando-nos uns aos outros, mas se calhar fazer a pergunta, Cristina, Porque para alguns ouvintes ou para alguns telespectadores, não sei se para cada um de nós a compaixão poderá ser coisas diferentes. Então fazer a pergunta, mas o que é que é isto da compaixão? Será que é ter piedade?
É ter pena de alguém? Ok. Obrigada pela tua pergunta, Milu. E é uma pergunta extremamente pertinente, porque nós trazemos muitas vezes uma formatação cultural, não é? Nós achamos que ter compaixão de alguém é ter pena de... E parece prejurativo. Exatamente. Eu não quero que sintam compaixão de mim. Nós muitas vezes usamos esta expressão. Quando nós percebemos o sentido lato, da compaixão e quando nós percebemos o impacto que isto tem na nossa saúde, provavelmente já não vamos olhar para as coisas da mesma forma. Então, vou responder essa pergunta colocando uma pergunta prática. Então, imagina o seguinte cenário. Imagina que estás num parque, por exemplo, e tens crianças contigo, que tu levaste, e uma das crianças está a brincar e, entretanto, cai e magoa-se.
Hipótese A, tu chegas à beira da criança, baixas-te ao nível dela e dizes com carinho, ah, isso deve ter mesmo doído, eu também choraria. Hipótese B, tu fazes exatamente isto, mas depois pegas na criança, colocas a criança no colo, tentas ajudar na limpeza da ferida e dizes, estamos aqui, vai correr tudo bem. Ok. São exatamente iguais estas duas atitudes? Não são. Não são? Nós temos esta percepção. A primeira evidencia uma atitude de empatia. Ou seja, tu demonstras que entendes o sofrimento da criança. A segunda demonstra uma atitude de compaixão. É não só entender, mas agir para aliviar.
Vamos focar num segundo exemplo, para tornar isto mais claro. Imagina que tu estás num contexto de trabalho e percebes que um colega próximo anda desanimado, bastante sobrecarregado e desanimado. Tu percebes o desânimo do colega, hipótese A, percebes o desânimo do colega e pensas, se fosse eu também me sentiria mal. Acho que lhe vou dar aqui algum espaço, tentar não sobrecarregá-lo. E pode-se ver. Tu percebes o desânimo do colega e pensas, se fosse eu também me sentiria mal. Mas vais-te ir com o colega e dizes, olha, eu notei que tens estado muito bem ultimamente. Queres falar sobre isso? Posso ajudar-te de alguma forma? Estamos a falar do mesmo comportamento? Pois não. Não. O primeiro comportamento em que tu compreendas, empatizas com o estado em que a outra pessoa está, ok?
O segundo, ages, envolves-te de uma forma construtiva. Sabes que existe uma... Há vários pensamentos, mas há um pensamento que me é particularmente querido, da autoria de um médico, Alfred Adler, um médico austríaco e psicoterapeuta também, que ele diz o seguinte, e passo a citar. Empatia é ver com os olhos do outro, ouvir com os ouvidos do outro e sentir com o coração do outro. E nós dizemos, que bonito. É bonito, mas é difícil de pôr em prática. Porque isto implica que, mesmo que a realidade do outro seja diferente da minha, eu esteja disponível para tentar perceber como é que ele vê o mundo, como é que ele se vê a si e como é que ele vê os outros à sua volta.
E isto implica uma coisa muito difícil para o ser humano, que é ouvir sem filtro. Mas nós temos sempre os nossos filtros ativados. Compaixão. O que é que é compaixão? Há um outro autor, Paul Gilbert, é um psicólogo britânico, que desenvolveu uma terapia focada na compaixão, e ele diz, eu vou fazer uma tradução livre para o português, e ele diz o seguinte, a compaixão é a coragem de descer à realidade da experiência humana. Esta frase é amplamente profunda. Vamos tentar meditar nela com um bocadinho mais de cuidado. Coragem. Porquê que é coragem? Porque te exige sempre coragem, tu aproximaste do sofrimento alheio.
Existe sempre coragem de tu teres uma atitude ativa para tentares aliviar esse sofrimento, mesmo quando isso te causa desconforto. diz também que é descer à realidade, realidade humana. E a realidade humana é feita de quê? De desafios. A realidade humana é feita de dores, de lutas, de tristezas, de vulnerabilidades, de falhas, mas também de superação e de resiliência. Tem momentos de altos e baixos, mas nós estamos muito disponíveis para estarmos com alguém no seu momento de alegria, já temos mais dificuldade em estar com alguém no seu momento de desafio e dificuldade. E também reconhece, a compaixão também reconhece que todos em algum momento da sua vida passam por isto.
Ou seja, se nós pudéssemos resumir, nós iríamos numa frase. Empatia é sentir com a outra pessoa. Compaixão é sentir pela outra pessoa e querer ajudar. E há uma frase muito engraçada que diz assim. Empatia é o vechouro, a compaixão oferece o lenço. Portanto, se nós olharmos para a compaixão nesta perspectiva, uma perspectiva de ação, apesar do desconforto que isso nos causa, apesar de poder ser uma realidade estranha e diferente da realidade com a qual eu vivo neste momento, Então nós já estamos a falar de algo que me liga diretamente e me vulnerabiliza diretamente em relação àquela pessoa.
E vulnerabilidade neste contexto não é de todo pejorativa. Exatamente. Já agora estavas a falar, eu estava a pensar assim, olha, aqui está um bom momento para nós sentirmos compaixão pelas outras pessoas, porque é querer fazer o bem, não é? Não só a empatia pelo sofrimento do outro, mas algo de prático em que podemos fazer demonstrando essa compaixão. E aqui está, um momento prático de podermos oferecer este manual de estudo, Temos aqui de forma gratuita para si ou para alguém que você conheça, algum amigo, algum familiar, o 933-939-291 está disponível para enviar mensagem, para realmente fazer esse pedido, enviar os seus dados do vosso endereço, da vossa morada, para que realmente possa receber aí em casa ou na casa dos seus amigos ou familiares este manual que seguramente será uma grande bênção na sua vida.
Durante todos estes episódios temos falado de tantas coisas tão importantes à nossa saúde mental e aqui está um resumo muito interessante escrito para ficar consigo, para partilhar com alguém que pode ser, sem dúvida, uma grande bênção. Portanto, 933 939291 disponível gratuitamente para si, para si e para os seus queridos. Cristina, como então podemos nós então perguntar, e realmente é muito
interessante esta questão da diferença entre a empatia, entre a compaixão e uma forma muito prática de, no fundo, até nos ajudarmos a nós próprios, porque é isso que tu estás a mostrar, que às vezes nós não pensamos nisto, mas esta dimensão de autoajuda através de coisas de fazer o bem, de sentir-se no lugar do outro e ajudar o outro, mas como é que nós podemos então desenvolver esta autocompaixão, portanto, para connosco próprios também? E esse é o primeiro caminho. Pois é. Antes de... Exatamente. Nós já em episódios anteriores enfatizamos isso. Portanto, o desenvolvimento da inteligência emocional parte pelo mecanismo da autoconsciência e quando falamos da questão da compaixão nós temos que aprender a desenvolver algo que não é comum na nossa vida e que até pode causar algum senso de estranheza.
E, mais uma vez, nós não vamos dar estratégias extraordinariamente difíceis. Vamos falar de coisas muito simples. Mas sabes uma coisa que eu aprecio profundamente na palavra de Deus? É que as estratégias que Deus tem na sua palavra são simples. Isso. Mesmo para problemas complexos. Então, nós devemos começar a olhar para a simplicidade das coisas, validando a simplicidade das coisas, mas tendo a persistência de as colocar ao longo do tempo em prática. Porque isso é o que fará a diferença. Não adianta de nada, se o médico me disser que precisa de caminhar, caminhar um dia e desistirmos hoje. Portanto, mais uma vez, persistência, consistência e foco num determinado objetivo.
Primeira questão para desenvolvermos a nossa inteligência, a nossa auto-compaixão. Estarmos atentos ao nosso diálogo interno. O que é isto do diálogo interno? É a forma como falamos connosco próprios. É a maneira como interagimos até nos nossos próprios pensamentos. E aqui permite-me dar três exemplos. Eu tenho noção disto, quer por formação profissional, quer até pelo contexto onde vou desenvolvendo a minha atividade. Mas há alguns anos atrás, eu comecei este caminho da autorreflexão e da autoconsciência e comecei a perguntar, mas como é que eu dirijo a mim própria? Como é que eu falo comigo própria? E comecei a perceber coisas muito simples.
Eu vou dar um exemplo. Imagina que eu estava a fazer qualquer coisa e deixava cair, imaginamos, um garfo ou uma faca ao chão. Era muito espontâneo. Eu dizia, ó, que burra. Deixei cair o garfo ao chão. Se tu me perguntas se eu me sentia burra, claro que não. Mas eu estava tão habituada a ter desde menina esta expressão, que eu nunca refleti se esta expressão tinha impacto ou não em mim. Claro, sob o peso dela. Exatamente. Porque a verdade é que as palavras traduzem o que nós pensamos, mas as palavras alimentam o que nós pensamos, agem retroativamente. Comecei a perguntar a mim própria se eu agora reformulasse um bocadinho isto. Imagina, deixei cair o talher ao chão.
Que disparate. O talher caiu. Eu já não estou a falar em relação a mim. Eu estou a falar em relação ao acontecimento. E é verdade, meu amor. é que à medida que eu fui implementando, não quer dizer que consiga fazê-lo sempre, mas estou mais consciente um bocadinho. À medida que eu fui implementando isto, eu comecei a sentir uma leveza em relação a mim própria. Segundo exemplo. Eu conheço alguém que é uma pessoa que tem sérios desafios ao longo da sua vida, significativos, e uma das coisas que ajuda esta pessoa a lidar com isso é o seu sentido de humor. Uma pessoa que tem um excelente sentido de humor. Mas quando se refere a ela, ela é extremamente sarcástica e fala mal dela.
Acaba por dizer, esta pessoa trabalha na área da docência, e acaba por dizer que nunca vai dar nada na vida, que é uma péssima professora, que não conseguiu atingir os objetivos. Tem um diálogo interno que derrota logo à partida. E derrota a partida porquê? Porque uma das tais estratégias defensivas que ela foi criando, e que foi muito no contexto da família, não podes falhar. Se falhares, não és uma boa pessoa. Então eu não sou uma boa pessoa, não importa se eu falhei a tirar a fita cola, ou se eu falhei, por exemplo, a dar uma aula. Então estar atento a este diálogo. E sabes que aqui há dias, um terceiro exemplo, estava almoçar e tinha um dos meus filhos comigo e a comida era uma comida que tinha um bocadinho de molho, pronto.
E eu lá, devo ter pousado mal o talher ou qualquer coisa, aquilo salpicou para a toalha. E eu tive uma reação muito espontânea. Eu disse, ora bolas. Foi a minha reação espontânea. Deu-me imensa vontade de rir a resposta do miúdo. Ele virou-se para mim e disse-me assim, olha mamã, esse ora bolas foi porque sujaste a toalha, não foi porque sujaste o meu braço, não foi? E aquilo deu-me vontade de rir, mas levou-me a refletir. E levou-me a pensar no impacto que as nossas atitudes têm, mesmo que engraçadas, em relação ao outro. Claro que ali foi um sentido de humor, quer da minha parte, quer da parte dele. E não estou a dizer que agora nós não vamos dar espaço para a liberdade no meio disto tudo. Mas isto ajuda-nos a termos reflexão.
Então, a pergunta que se deve colocar é, quando eu começo a ter noção do meu diálogo interno, das respostas que eu dou, faz uma pergunta a ti própria. Se eu estivesse a falar com um amigo querido, eu falaria assim. Eu utilizaria exatamente estas expressões. Deixaste cair o talher ao chão. Que burro que tu és! ou acabaste por fazer uma coisa que não está tão bem feita. Nunca vais dar ninguém na vida. Nós não reformulávamos isto. Então a primeira pessoa com quem nós temos que reformular tem a ver connosco próprias. Uma segunda estratégia, de uma forma relativamente simples, porque depois iremos abordar isto com mais cuidado. Um dos passos-chave para desenvolver autocompaixão, e nós temos batido nesta tecla imensas vezes, tem a ver com a aceitação das nossas emoções.
Sem juízos de valor. É muito frequente nós dizermos, ah, eu não devia sentir-me assim, Ou eu não estou a agir corretamente, ou isto ou aquilo. E às vezes, em vez de eu utilizar a expressão, eu não devia sentir assim, eu deveria reformulá-lo e dizer, é humano sentir isto agora, embora não seja confortável estar a passar por esta situação. Estou frustrada, é humano sentir-me assim. Agora, é isso que eu desejo? Não. E nós podemos dizer, isto é muito bonito na teoria e na prática, quando nós estamos a lidar com emoções que nós percepcionamos, mais uma vez faço aquele parêntese, que as emoções não são boas nem más, são funcionais, mas que nós percepcionamos como desagraváveis.
Emoções, por exemplo, com uma vergonha, com uma culpa, até a questão do perdão. Então, de uma forma muito rápida, agora só quero dar aqui um cheirinho em relação à questão da vergonha, depois iremos falar de outras. A vergonha é uma emoção complexa. Quase que diríamos que ela é uma mistura de raiva com ansiedade, com nojo. Está tudo ali à mistura. Mas é uma emoção que está ligada diretamente à forma como nós nos vemos a nós próprios. Quais são alguns dos efeitos típicos ou das reações típicas que nós temos quando temos vergonha? Queremos fugir, fechar-nos ou escondermos ou ter um comportamento de submissão. E nós sentimos vergonha quando acreditamos que os outros nos menosprezam ou nos veem como inferiores.
Então agora vamos aqui a um exemplo. Imagina que o João e a Ana são um casal e estão a jantar. E a Ana diz assim para o João, e estou aqui a citar. Oh João, não achas que estás a exagerar nas batatas fritas? Olha que já estás gordinho que chega. E o João tem uma reação como nós temos, defensiva automática. A ação provoca a reação. Bom, com a tua comida, achas que eu tenho culpa? Ou seja, eu tenho um ciclo. Eu fui envergonhada, eu envergonho o outro. Agora, como é que nós poderíamos ter uma atitude mais compassiva numa situação destas? O João, tendo consciência, poderia dizer algo do género. Oh Ana, eu sei que tu te preocupas, fizeste esse comentário com boa intenção, mas deixaste-me envergonhada. Eu também sei que é importante cuidar da nossa saúde, estou a tentar.
A Ana, como é que poderia reagir? João, eu reparei que tens comido muitas batatas fritas ultimamente. Preocupo-me com a tua saúde. Olha, e se nós tentássemos os dois ter uma alimentação equilibrada? E nós dizemos, isso é fácil de falar, mas não é fácil de fazer. Só te vou dar um último exemplo. Há uns anos atrás, eu me recordo de um dos meus filhos estar zangado com alguma coisa que eu lhe fiz e que ele não concordava. Fui-lhe dar o beijo de boas noites. Ele disse-me, não gosto de ti e não te dou beijo de boas noites. A minha reação automática era, gostas de mim o quê? Se a tua mãe faz sabor de respeitinho pela tua mãe. Naquele momento, eu consegui travar e perguntar qual é uma resposta mais adequada, mais compassiva, mais empática. Olha, filho, eu tenho muita pena que tu te sintas assim, mas eu quero dizer que eu gosto muito de ti.
Portanto, olha, fica bem.
E virei costas e vim-me embora. Foi fácil fazer isto? Não. É um treino, é um dia-a-dia. Sem dúvida. Obrigada, Cristina, mais uma vez. O tempo voa quando nós falamos nestas coisas tão interessantes, mas fica a promessa, na graça de Deus, de nos encontrarmos no próximo episódio, onde vamos dar continuidade a estes assuntos tão importantes e, acima de tudo, nós sabermos que, mais do que o valor que nós possamos dar a nós próprios, há alguém que é o nosso Criador, o nosso Salvador, deu a entender que nós temos muito valor, somos muito preciosos. Então, porque não um dia destes deixar de nos focarmos em nós próprios apenas e só na nossa performance, mas acima de tudo naquele que nos deu um grande valor. Que o Senhor o abençoe, abençoe também e até o próximo episódio, se Deus quiser.