Falemos de Depressão – Parte 2

Falemos de Depressão – Parte 2

17 de Junho de 202527 min 41 s

Capítulos

Transcrição

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Abertura e apresentação

Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio deste que é o seu programa, Mentes, que sentem. É sempre um gosto poder estar consigo, eu não sei como está, mas Deus sabe como se encontra, como é que se sente. Espero que de alguma forma estes nossos episódios possam ir ao encontro das suas necessidades, poder refletir diferente sobre as coisas da vida, E estamos aqui, com todo o nosso carinho, para que Deus nos use para ser essa benção na sua vida. Não estou sozinha, como sabe. Temos a querida psicóloga Cristina Dias, que está connosco. E obrigada, Cristina, mais uma vez, por esta tua dedicação, este teu esforço, de realmente forma voluntária poderes aqui estar, poder trazer algum do teu conhecimento, a tua experiência, para poder ajudarmos todos estes que nos escutam e nos veem de alguma forma.

Obrigada, Melu. É muito bom estar aqui, é muito bom partilhar experiências, porque estamos todos no mesmo sítio, estamos todos nos mesmos desafios e estamos todos a lidar com

Riscos da depressão

situações que nos exigem conhecimento e que nos exigem atuação. É verdade. Nós, no episódio da semana passada, iniciámos este assunto tão pertinente, que é a questão da depressão, e se calhar referir, durante alguns momentos, aquilo que pensamos que também é importante ser abordado, que são. Os riscos da depressão. O que é que pode acontecer, se calhar, de mais grave nesta questão de situações de depressão? No episódio anterior nós abordamos um bocadinho o que é que se passa dentro do nosso cérebro e também sensibilizar um pouco as pessoas que às vezes isto não é apenas comportamental. Mas a verdade é porquê é que a depressão tem tanto impacto e porquê é que é tão importante falar nisto.

Vamos só elencar alguns discos. Um dos maiores riscos da depressão tem a ver com este senso de angústia profunda. Ou seja, eu tenho uma angústia que me acompanha, que me leva a não ter um propósito, a não ter um sentido para a vida. E quando nós não temos um propósito, um foco, um sentido para a vida, acabamos por desresignar, utilizando aquela outra expressão que tínhamos visto. Outro dos grandes riscos da depressão tem a ver com a destruição da nossa própria identidade. Nós deixamos de saber quem somos. Eu recordo-me de alguns anos atrás estar a falar com alguém que estava exatamente diagnosticada com este quadro clínico e a determinada altura perguntava à pessoa, mas quando não estavas a passar por isto, o que é que tu gostavas de fazer?

mas na perspectiva do que é que te dava prazer, o que é que te relaxava. A pessoa deu-me uma resposta tão honesta que ainda hoje ela me está gravada na mente. Ela parou uns momentos e disse-me, sabes? Eu não me lembro. Eu não me lembro do que é que eu... como é que eu era, do que é ser. Viver sem estar assim. Eu não sei. Eu não me identifico como sou agora. Eu não sei quem é que eu sou. Mas eu também não sei quem é que eu fui. E a pessoa sente-se absolutamente perdida. Este é um dos grandes riscos da depressão também. Outro dos grandes riscos da depressão tem a ver com esta perda da nossa autoestima e tornamos-nos extremamente autocríticos em relação a nós próprios. Um outro exemplo prático que eu gostaria de deixar tem a ver com uma situação de alguém que me diz que sempre fez as coisas.

Sempre fiz as tarefas, nunca tive problemas, mas eu agora estou em frente ao lavo-loiças, eu lavo três pratos e tenho que parar. Parar, esperar um bocadinho e depois voltar a lavar mais três. Parar, esperar um bocadinho. Tudo é um esforço absurdo. Vestir-me. Eu demoro 45 minutos a vestir-me. Como é que é possível? A culpa é minha. Sou eu. Se os outros fazem, se eu já fiz, então eu devo ser uma pessoa efetivamente muito má ou não faz sentido viver nestas circunstâncias. Outro dos grandes riscos da depressão tem a ver com o uso de estratégias erradas. Ou seja, recordas-te de termos dito, quando estamos a falar de depressões graves, de haver uma elevada probabilidade das pessoas estarem a lidar com pensamentos de suicídio?

E quando abordávamos dados da Organização Mundial de Saúde, dizer que 60% das mortes por suicídio estima-se que tenham a ver com situações de depressão. E eu recordo-me de uma situação em concreto, de alguém que começou a ter um problema no seu local de trabalho. E a situação foi evoluindo e durante algum tempo não foi corretamente diagnosticada, efetivamente estava a lidar com uma depressão. A pessoa foi várias vezes parar às urgências do hospital, às vezes com alguma sintomatologia que poderia ser facilmente associada à ansiedade. Depois começou a aparecer com pequenos cortes no corpo, a pessoa começou a automutilar-se e, infelizmente, chegou a ter três tentativas de suicídio.

E quando nós conversávamos, e a pessoa já estava francamente melhor num processo de recuperação a todo o vapor, se é que podemos utilizar esta expressão, ela utilizava este exemplo. Sabes, Cristina, outro dia estava a passar a ferro lá em casa. sem querer, toquei com o braço no ferro e queimei-me. Foi estranho. Por um lado, fez-me lembrar o tempo passado em que aquilo me trazia um sentimento de alívio, porque eu tinha uma dor física superior à dor emocional que eu estava a sentir, nem que fosse temporária. Por outro lado, foi estranho porque eu pensei, não é este o processo, não é este o caminho que eu quero continuar a seguir. Mas trouxe-me reminiscências, uso de estratégias erradas.

E outro dos grandes riscos da depressão é que ela pode ser muito silenciosa. Há situações de pessoas que não são diagnosticadas, ou não são diagnosticadas porque não se apercebem que estão a lidar com isto, ou aquilo que está a ser diagnosticado é sintomatologia. E uma das grandes questões é que os sintomas que nós falamos no episódio anterior, eles são comuns a uma série de quadros clínicos. Portanto, muitas vezes não é fácil identificar numa primeira instância que estamos a lidar com a depressão. Então, muitas vezes nós lidamos com a sintomatologia, atuamos sobre a sintomatologia, mas não lidamos com a causa. E às vezes a depressão também é silenciosa porque nós temos vergonha. Porque nós percebemos que algo está errado connosco, não sabemos identificar muitas vezes bem o que é, mas temos vergonha de assumir isso, porque isso é como se fosse um roto, de que eu sou menos pessoa ou menos capaz.

Era melhor ter um braço partido do que... As pessoas têm mais empatia por um braço partido do que por uma coisa que não se vê. Arrebita, são coisas da tua cabeça. É o que normalmente nós dizemos, olha à tua volta, a vida é linda.

Tipos e causas da depressão

Exato. Falar da depressão, será que nós podemos falar de diferentes tipos de depressão? Será que elas podem ser identificadas de forma diferente e quais as causas, portanto, que podem estar por trás desses quadros clínicos de depressão? Vamos centrar um bocadinho nisso. Eu gosto muito de uma expressão, eu vou passar a citá-la do Augusto Cury, que diz assim, antidepressivos tratam a dor de pressão, mas não curam o sentimento de culpa e nem tratam a angústia da solidão. Ele não está a falar contra o uso da medicação. Ele está a dizer que se nós repousarmos apenas na medicação para o tratamento da depressão, nós estamos a tratar os sintomas, não estamos a tratar as causas.

E quando falamos em depressão, nós podemos classificá-la como depressão leve, moderada ou grave. O DCM-5, que é um manual utilizado pelos profissionais de saúde a nível internacional, que descreve as sintomatologias, os quadros clínicos no âmbito das várias patologias, fala, por exemplo, em depressão major, fala em distimia, fala em doença bipolar, mas a literatura também fala, nós não vamos entrar em cada uma delas, vamos levar um afloramento para percebermos que existem várias formas de manifestação. Falem de depressão psicótica, falem de depressão neurótica, falem de depressão minor, falem de depressão reativa, falem de depressão endógena, falem de depressão pós-parto, que é tão... ouve-se falar tanto nisso.

Falando de depressão afetiva sesonal, eu chego ali ao outono, eu chego ali à primavera, há muitas formas dela se manifestar e ser classificada. Agora, quais são as causas? Primeiro, temos que perceber que é uma doença complexa. Primeiro, é uma doença grave. Segundo, é complexa. Ou seja, nós não podemos olhar para ela com ligeireza e dizer, só há esta causa. Não, ela é multifatorial. Há uma série de causas genéticas, biológicas, sociais, ambientais, psicológicas, que interferem no potencial desenvolvimento de um quadro de depressão. pois ela tem uma elevada comorbilidade, ou seja, ela está muito associada a outros quadros clínicos também. Às vezes, por exemplo, eu estou a lidar com um AVC e estou a lidar com uma depressão também, mas eu não tenho percepção disso.

Então vamos tentar de uma forma relativamente rápida abordar algumas das potenciais causas. E a primeira que eu gostava de abordar é a genética. E quem possa estar a ouvir-nos neste momento pode já estar a fazer uma associação que pode não ser a mais correta. Foi o meu avô. Foi o meu avô. O meu avô ou a minha mãe, pronto, estou fadada a ter efetivamente uma depressão. A primeira coisa que eu gostaria de deixar claro é, não há uma transmissão genética da depressão. O que existe é uma maior propensão para vir a desenvolver. uma maior probabilidade para vir a desenvolver. Ou seja, o fato de vir ou não a desenvolver isso vai ter a ver, por exemplo, com aquilo que se passa à nossa volta também.

Portanto, aquilo que eu quero que fique claro é, efetivamente, a literatura demonstra que se eu tenho antecedentes familiares da depressão, eu não estou fadada à depressão, Não me foi transmitida geneticamente a depressão, foi-me transmitida a probabilidade de poder vir a desenvolvê-la. Mas isto é uma probabilidade. Pode ou não vir a ser desenvolvida. E aqui é muito importante nós termos em atenção os primeiros anos de vida. Eles são fundamentais na construção da nossa personalidade e na ativação ou não desta predisposição. Iremos futuramente ter a oportunidade de nos determos um pouco mais sobre isto. No episódio anterior, centramos um bocadinho no que é que se passa no nosso cérebro. Então, é importante dizer que uma das causas da depressão, ou podemos vir a desenvolver um quadro clínico desta natureza, pode ter a ver com os fatores bioquímicos no nosso cérebro.

E aqui eu gostava de fazer um alerta. Às vezes as pessoas têm alguma relutância, acho que são dois extremos, ou têm relutância em relação à medicação ou dependem apenas da medicação. Quer um, quer outro, não são saudáveis. Primeiro, a medicação pode, em alguns casos, vir a ser necessária para repor este equilíbrio bioquímico e ajudar-me a progredir de uma forma mais saudável. Por outro lado, a medicação só por si não resolve a situação. Agora, o tipo de medicações normalmente prescritas para estas situações, tem uma média de atuação, demora cerca de duas a quatro semanas a fazer efeito. Portanto, é importante que quando o psiquiatra ou o médico prescreve uma medicação, que a pessoa clarifique isto com ele, para ter esta noção de que, ok, eu posso ainda não estar a sentir nada, Mas o médico falou que pode demorar até 4 semanas.

Por outro lado, há medicações que neste período de tempo ampliam a sintomatologia que eu estou a sentir. Isto não é necessariamente, não é errada a expressão que eu gostaria de utilizar, mas não é necessariamente incomum. Então é também clarificar com o médico se há esta possibilidade e perceber que após este período de tempo aquilo vai entrar em velocidade cruzeira, se é que podemos utilizar esta expressão. E também às vezes já tivemos situações em que as pessoas dizem que o médico não acerta com a medicação, está sempre a trocar. Falávamos dos neurotransmissores. Algumas agem mais sobre uns do que sobre outros. Mas quando é prescrita uma medicação, muitas vezes nós não sabemos qual é o neurotransmissor que está mais afetado.

Então muitas vezes é preciso ajustar para ir mais de encontro à necessidade da pessoa. Outra das causas identificadas como potenciais para o desenvolvimento de uma depressão é o uso das drogas ou do álcool. Estão identificados como depressores do sistema nervoso central. Há também doenças cerebrais que podem predispor ao aparecimento de um quadro de depressão. Por exemplo, o Alzheimer, tumores, traumatismos cranianos. Lembram-se de termos falado na questão do episódio do Phineas Gates? Sim. Há alterações bioquímicas. Há também doenças crónicas que podem predispor ao aparecimento de um caso de depressão.

Por exemplo, lúpus, artrite reumatoide, a fibromialgia. Sabes que, entre outras, aqui há algum tempo atrás alguém que tem fibromialgia me dizia É importante que isto se fale, porque às vezes as pessoas não entendem o que é viver com a dor crónica. E viver com a dor crónica pode levar-nos a um estado de depressão. As pessoas não conseguem perceber que pode haver ali uma ligação. Há também situações de patologias físicas ou deficiências que nos podem levar a desenvolver uma sintomatologia semelhante à sintomatologia da depressão, mas cuja origem não é emocional. Por exemplo, uma deficiência de ácido fólico, problemas ao nível da tiróide, uma deficiência da vitamina B12.

Portanto, é importante acautelar estas situações também. Ainda no âmbito das causas da depressão, nós temos também os fatores emocionais. Temos aquilo que são considerados os eventos stressores. Tu podes ter as nossas circunstâncias de vida que podem predispor ao aparecimento de... Às vezes nós olhamos para as circunstâncias de vida e identificamos muito bem a morte de alguém que nos é querido pode efetivamente predispor. Legitimamos que pode predispor ao aparecimento de uma depressão. Mas, por exemplo, e a perda de um trabalho? Eu recordo-me da situação de um homem que, a determinada altura, perdeu o seu trabalho. Não estava a prever que isso pudesse acontecer e ele não conseguiu partilhar isto com a família e deprimiu profundamente por esta situação.

Passou a sentir-se inútil, incapaz. E durante um mês ele foi mantendo as mesmas rotinas. E no mês seguinte é que as coisas começaram a perceber-se, a volumar. Então isto não é legitimado, nós não legitimamos uma situação destas. Ou seja, há forma como nós interpretamos e vivenciamos os acontecimentos da nossa vida também. Há às vezes um contexto familiar disfuncional. Há às vezes um divórcio. Há também situações de eventos traumáticos na infância. Negligência, o abuso, o bullying. Por isso é que é tão importante nós falarmos sobre vínculos emocionais. Sabes que um dos mecanismos que a nossa mente tem para nos proteger é recorrer em algumas circunstâncias ao esquecimento.

Portanto, não é incomum nós estarmos a lidar com alguém que efetivamente passou por algo traumático alguns anos atrás. Percebe isso, mas não consegue se escrever, não se lembra. E não deixou de ser um mecanismo protetor que foi desenvolvido pelo atuamento. Agora, a verdade é que é assim, o esquecimento do evento não te leva a solucionar a causa. Então, há muitas situações, a forma como nós organizamos as nossas experiências de vida, há muitas situações que nos levam, muitas vezes, a ter quadros depressivos e que nós não conseguimos identificar naquele momento. Eu não sei porque é que estou assim. E há também poderá também contribuir para o aparecimento da depressão. O próprio tipo de personalidade da pessoa.

Há pessoas que têm uma tendência uma predisposição para olharem para as dificuldades à sua volta, para vivenciarem a vida apenas na perspectiva das dificuldades. E alguns até antecipam. Exatamente. Aliás, todos nós antecipamos de alguma forma, mas alguns de nós antecipamos, vivemos em função disso. Sabes que estas são algumas das causas elencadas, por isso é que nós dizíamos que a depressão é uma doença multifatorial. Não podemos simplesmente dizer, ah, perdeste a tua mãe e tens uma depressão. Perdeste o trabalho, não podes ter uma depressão. Mas a nossa, já insisto, a literatura científica tem estado a alertar para algo também muito interessante. A literatura diz que neste momento nós estamos a viver numa sociedade pressogénica.

O que é que eles querem dizer com isto? Ou seja, nós estamos numa sociedade que estimula a dependência excessiva de relações virtuais. E a parte do relacionamento interpessoal é algo fundamental para o equilíbrio ou para o desequilíbrio do ser humano. Por outro lado, também dizem que nós estamos numa sociedade que atribui uma responsabilidade individual pelo sucesso ou pelo insucesso. E aqui eu vou dar um exemplo muito simples. Imagina que tu tens o teu filho que chega à casa. e tirou uma nota que não foi positiva num determinado teste. Regra geral, a maior parte de nós, o que é que vai fazer? Vai dizer à criança, tens que estudar mais, a culpa foi tua, porque é que tu não te esforçaste, não pode ser assim.

E atenção, eu não estou a retirar a legitimidade disto, mas a verdade é que é assim. Alguma vez nós questionamos, será que a criança estava com dores de barriga e não conseguiu isso? Será que o professor se enganou a corrigir o teste? Porque é que o atribuo especificamente à criança? Mas este pendor é um pendor que nós trazemos também na nossa postura pessoal. As próprias desigualdades sociais crescentes e esta necessidade absurda de projetar para o exterior que está tudo bem. Está bem em não estar bem. É saudável não estar bem. Não quer dizer que eu agora vá projetar para o exterior um momento em que esteja menos bem, mas eu não tenho que achar que eu só sou digna ou legítima quando está tudo bem, porque a vida não é feita só de estar tudo bem.

Sem dúvida. E já agora, se não estiver tudo bem, tudo bem. E nós temos outras formas de podermos ajudar e chegar até si. E sabe, se é ouvinte e se é nosso espectador, já nos nossos programas, que nós temos este manual de estudo para poder oferecer-lhe, para si e para algum querido seu, que pode pedir-nos e que de forma gratuita lhe será enviado através deste número, o 933-939291. E pode também, porque não, fazer-nos uma pergunta, se tem uma dúvida, se realmente há algum assunto que você acha que é pertinente e gostava de ser esclarecido sobre ele, use este mesmo contacto, 933 939 291 e envie-nos, portanto, a sua dúvida ou até a sua partilha da sua própria experiência.

Nós teremos muito gosto de ir a um encontro daquilo que você mais precisa.

Estratégias de intervenção

Cristina, esta questão que estavas a falar, portanto, como tu disseste, é uma palavra muito grande, depressogênica, não é? Depressogênica. Estes aspectos exatamente que facilitam a depressão e que nós os temos todos à nossa volta. A depressão pode não estar associada a acontecimentos ou circunstâncias da vida presente. Pode haver aí mais qualquer coisa que pode explotar isso mesmo? A depressão pode não ser identificável. Ou melhor, pode não ser identificável porque é que eu estou assim. Mas há sempre algo que conduziu a... Que esteve na causa. Que esteve na causa. Eu posso é não ter perceção disso.

E muitas vezes nós culpabilizamos porque dizemos eu tenho tudo para ser feliz, porque é que eu não sou? Porque é que eu não sou? Sabes que, se me permites, eu gostava de falar de algumas... O que é que nós podemos fazer? Vamos, de forma relativamente rápida e simples, abordar alguns aspectos. Eu gosto muito de uma citação do Víctor Franco, em que ele diz o seguinte, e passa a citar, quando nós não somos, quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos. Isto é muito bonito no papel. Mas fazer na prática, como é que nós fazemos isto? Basicamente precisamos de pedir ajuda. Precisamos de nos informar como é que nós vamos agir perante uma situação que está a ser demasiado avassaladora.

Como é que nós podemos intervir na depressão? Uma das coisas, quando falamos em pedir ajuda, uma das estratégias mais adequadas tem a ver com a psicoterapia. Isto deve ser feito por profissionais qualificados, por isso é importante pedir ajuda. Pode ser feito individualmente, pode ser feito em grupo, mas a psicoterapia é o quê? A maior parte das psicoterapias tem como objetivo chegar à causa do problema. E vai, na realidade, perceber como é que a pessoa está a vivenciar esta situação. É a devolução à pessoa da sua própria narrativa. Esta é uma das ferramentas mais poderosas. E vamos imaginar algo do género. Eu não consigo lavar mais do que três pratos por dia. Eu sou uma incompetente.

Não há outra forma de ver isto? Por que é que eu me classifico como uma incompetente? Porque é que é um avalio dessa forma? Será que o fato de eu ainda conseguir lavar três pratos não é uma forma que demonstra que eu não desisti totalmente? Então, ressignificar as coisas, ressignificar a vida. A questão positiva, o aspecto positivo. E não só o aspecto positivo, é o aspecto realista, que nós não vemos. Vemos muito em crianças pequenas, por exemplo, quando há uma separação dos pais, as crianças sentirem-se culpabilizadas por aquilo. Mas será que efetivamente a criança é culpada daquela situação? Como é que nós significamos isto? Não vamos dourar a pílula, não vamos dizer que é tudo positivo, porque a vida não é toda positiva, mas vamos tornar isto mais realista e perceber que a perspectiva na qual eu estou a sentir e vivenciar as situações nem sempre é aquela que é a mais adequada.

Por outro lado, outra forma de intervenção tem a ver com a medicação, ela poderá ser necessária. Outra forma de intervenção tem a ver com a orientação da família. Se não tivermos a oportunidade agora, no próximo episódio, vamos meter-nos um bocadinho mais sobre isto. É importante que aqueles que estejam à minha volta compreendam com o que é que eu estou a levar. Para perceberem como intervir também. Temos falado, acho que é transversal a quase todos os nossos episódios, a promoção de um estilo de vida saudável. É uma das ferramentas mais poderosas de intervenção na depressão, bem como em outras patologias. Estamos a falar do quê? Do exercício físico. Ah, olha Cristina, quando eu sentir melhor eu vou caminhar um bocadinho. Não, não. Tu tens de caminhar um bocadinho para te sentires melhor.

O teu cérebro vai agradecer. Esta questão da cronoterapia, que é a higiene do sono, regular os nossos padrões de sono para uma produção mais equilibrada da própria melatonina. Esta questão de ter cuidado com a minha própria alimentação, evitar abster-me daquilo que é prejudicial, abster-me daquilo que é excitante e investir naquilo que é mais saudável. Apanhar luz solar, a vitamina D é algo que é fundamental para a nossa estabilidade emocional. Termos o cuidado de fazer uma avaliação médica. Recordas-te de termos falado da deficiência da vitamina B12 ou vitamina D ou do ácido fólico? Às vezes não é importante fazer análises e exames, porque às vezes a causa está aí.

Uma das coisas que é mais poderosa na intervenção na depressão, mas que as

Descentralização e espiritualidade

pessoas têm uma grande resistência, tem a ver com descentrar-se na imprópria e colaborar com o outro. Ajudar o outro, não é curar o outro. Ajudar o outro em alguma tarefa é algo que me faz muito bem. Aqui, se me permite, vou dar um exemplo real de alguém que tem depressão e que me dizia assim, olha, eu não tenho muita dificuldade em estar com pessoas neste momento, mas nós insistíamos em algo. algum objetivo que a descentrasse dela própria. Esta pessoa dizia, eu gosto muito de animais. Então acabou por ir fazer voluntariado num canil. E aquilo que fazia era algo tão simples como todas as semanas ia passear os cães. E ela dizia, é dos melhores momentos do meu dia. Eles compreendem como é que eu me estou a sentir.

E isto tem-me feito muito bem. Por outro lado, uma das formas mais poderosas de intervenção, temos falado nela repetidamente porque acreditamos, tem a ver com a palavra de Deus. É curioso, iremos ter a oportunidade de falar posteriormente, mas é curioso perceber que a ciência tem vindo a demonstrar o impacto da espiritualidade na nossa recuperação. E perceber que isto é importante e que nos ajuda a recuperar e investir naquilo que nos pode trazer uma solução é algo também que é muito importante. E se me permites, eu gostava de deixar aqui um versículo que eu acho que traduz de forma prática isto.

Às vezes nós nos sentimos absolutamente incapazes em relação às situações. Mas em Lucas 1.37 Deus diz, porque para Deus nada é impossível. O meu impossível é a oportunidade de Deus. Isaías 41.13 diz, porque o Senhor, teu Deus, te toma pela tua mão direita e te digo, não temas que eu te ajudo. A tua impossibilidade é a minha oportunidade. A tua impossibilidade é a minha presença pessoal. Amém. Estamos aqui porque acreditamos que não tem que fazer o caminho sozinho. Porque acreditamos que seja qual for o desafio que esteja a atravessar na sua vida, não há impossíveis para Deus, como escutamos. Então estamos aqui também para ser usados por Deus, para ser essa esperança, esse alento na sua vida.

Não desanime. É um dia que está mais chuvoso, mas amanhã fará sol. porque Jesus compreende a sua vida e o Senhor sabe aquilo que você precisa. Estamos aqui hoje, estaremos aqui na próxima semana, se Deus quiser, e marcamos o encontro consigo. Até lá.

Sobre este episódio

Neste episódio, mergulhamos na complexidade da depressão, desvendando porque é tão crucial falar sobre esta condição que vai muito além do que se mostra. Exploramos os riscos profundos que se escondem na sombra da depressão, desde a angústia avassaladora e a perda da própria identidade, até ao perigoso uso de estratégias de coping inadequadas e o sentimento de profunda inutilidade. Descubra como a depressão pode manifestar-se de forma silenciosa, muitas vezes camuflada pelo estigma social que nos impede de procurar ajuda e reconhecer que não estar bem, também está bem. Analisamos ainda as suas múltiplas causas, que vão desde fatores genéticos e bioquímicos até doenças físicas, eventos traumáticos da infância, contextos familiares disfuncionais e até mesmo o tipo de personalidade. Compreenda a noção de uma "sociedade depressogénica" e o seu impacto na nossa saúde mental. Mais importante, este episódio oferece um raio de esperança, detalhando estratégias de intervenção e recuperação que abordam a pessoa de forma integral. Não perca a oportunidade de aprender sobre:

  • Os riscos da depressão e as suas diversas manifestações;
  • As múltiplas causas, incluindo fatores biológicos, sociais e emocionais;
  • A importância de "ressignificar" a vida e as suas experiências;
  • Como a psicoterapia, a medicação e um estilo de vida saudável são cruciais;
  • O poder da espiritualidade e da ajuda ao próximo na recuperação.
Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 11
Estreou
17 de Junho de 2025
Categoria
Saúde