28:05Que bom que estamos juntos. Mais uma semana, mais um encontro. Nós que aqui estamos no estúdio, vós que aí estáis em casa ou quem sabe até no carro a escutarmos, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda. Que bom podermos estar neste pouquinho à parte para refletirmos sobre assuntos que com certeza são desafiantes e desafiadores na nossa vida. na vida daqueles que nós amamos e este programa Mentes que Sentem foi criado nesta expectativa, neste desejo de poder ser uma mais-valia no conhecimento de si próprio, no conhecimento das suas emoções, dos seus afetos e no desejo de que junto com Deus e com a nossa pouquinha ajuda possa realmente ultrapassar esses desafios.
Como sabe, ou se não sabe, se é a primeira vez que está connosco, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda. Temos sempre aqui em estúdio a doutora Cristina Dias. Seja bem-vinda, Cristina, que Deus te continue a abençoar e obrigada por estes momentos que trazes de reflexão e de saber, pela tua própria experiência profissional, para a ajuda a termos a saúde mental que nós desejamos.
Obrigada, Milú. É sempre muito bom podermos estar juntas, podermos ter um local em que possamos abordar de forma prática, serena e sem filtro estas situações. Nós, no episódio anterior, nós iniciamos aquilo que era, ou seja, o cuidado na intervenção do trauma à resolução, ou seja, algum conjunto de estratégias que tu iniciaste a ensinar-nos como fazer face e como ultrapassar esses momentos menos bons. Foram sete as grandes áreas que tu aludiste. Só tivemos a oportunidade de falar de duas delas. A primeira, perceber como é que as nossas experiências na infância estão relacionadas com as nossas lutas enquanto somos adultos.
E depois a segunda área, como viver com as memórias intrusivas desses momentos traumáticos. Não sei se queres acrescentar mais alguma coisa em relação a este segundo aspecto, a segunda área, e depois prosseguirás nas restantes. Obrigada, Milu. Já agora, fazer uma ressalva. Esta informação que estamos a partilhar em conjunto com aqueles que nos veem e nos ouvem não substituiu uma intervenção clínica. São algumas estratégias que nós podemos pôr em prática dentro do âmbito do trauma informed care e que de alguma forma nos ajudam, puxam a nós próprios um senso de competência sobre a situação.
mas não substituem de todo uma intervenção clínica que poderá ser necessária nestes tipos de situações. Sabes que quando nós falamos das memórias intrusivas, e do tipo de pensamentos e de crenças que isso nos provoca, há uma que é extremamente comum. Tem a ver com o fato de nós termos uma postura interior e interna muito crítica em relação a nós próprios. Vamos imaginar que eu fui, por exemplo, a um determinado espaço comercial fazer uma compra e, de repente, começo a ter uma sintomatologia ansiosa, inserida neste quadro de estresse pós-traumático, muito intensa. é muito frequente nós termos um discurso negativo para connosco próprios.
Impressionante, como é que tu estás a passar por isto novamente? O que é que está a ocorrer? Tu nunca vais ser capaz. E a verdade é que se nós estivéssemos a falar, vamos imaginar, com uma criança de seis anos que estivesse a passar por isto, nós não estávamos a referir este tipo de situações. Ou à partida teríamos um filtro que nos permitisse não referir a este tipo de situações. Então, uma das questões que nós temos que aprender a reformular é o tipo de linguagem que utilizamos conosco. Quando eu estou a passar por uma situação em que a sintomatologia se agudiza, ou em que os pensamentos, as memórias intrusivas estão presentes de uma forma extremamente intensa, eu não posso deixar de me lembrar que isto é uma consequência, faz parte do processo de recuperação.
E o fato de eu estar a vivenciar isso significa que eu devo ser em primeiro lugar o meu principal aliado. Então, às vezes, parar para fazer determinado tipo de questões a mim própria. Se fosse o meu melhor amigo, o que é que ele gostaria a dizer neste momento? Se fosse uma criança pequena que eu percebesse que estava a passar por esta situação, o que é que eu lhe diria? Se eu estivesse com alguém que me visse a passar por uma situação destas, o que é que eu gostaria que esta pessoa me estivesse a dizer? Isto tem que ser perguntas que nós temos que fazer a nós próprios antes de estarmos numa situação. porque temos a capacidade de refletir nelas de outra forma. E vamos perceber que o nosso discurso interno normalmente é extremamente penalizador. Então nós temos que mudar um bocadinho esse discurso interno.
Outra das áreas em que é feita a intervenção no processo de recuperação de cura, sempre que esta questão da cura está, tal como nós tínhamos dito, relativizada à situação de cada um, no âmbito do processo do trauma, tem a ver com a identificação dos nossos gatilhos, dos nossos triggers, do que é que despoleta. Nós, muitas vezes, achamos que as situações ocorrem aleatoriamente, o que não é verdade. Então, vamos imaginar que eu estou a ter um dia banal, comum, e vem uma memória, ou tenho um flashback, ou eventualmente tenho uma sintomatologia muito acentuada, ou deitei-me e tive um pesadelo. É importante depois da situação ter ocorrido, quando eu recupero um bocadinho mais a serenidade, eu tentar escrever, identificar quando é que aconteceu, o que é que estava a ocorrer à minha volta, em que circunstâncias, porque nós achamos muitas vezes que é aleatório, ou identificamos que possa haver, por exemplo, até ter sido por aquela situação.
Mas quando nós pomos isto por escrito, nós vamos começar a perceber um padrão. Então vamos ver algo do género e este exemplo que eu vou dar corresponde a exemplos reais que funcionam como triggers e que a maior parte das vezes nós desvalorizamos porque dizemos que não faz sentido. Imagina que eu sequencialmente me deitei mais tarde. Aquilo pode funcionar como um trigger para despoltar uma situação que me predispõe à ocorrência da memória. Vamos imaginar que naquele dia eu percebo que sempre que eu tenho que fazer tarefas com prazo limite no tempo, eu estou mais nervosa, estou mais predisposta a que isto ocorra. Vamos imaginar, sempre que eu tenho que fazer uma viagem longa, Vamos supor que naquele dia eu percebo que comi algo fora do comum.
Vou dar um exemplo. Eu não costumo beber aquele tipo de bebida antes de me deitar, mas eu filo. Eu começo a perceber, sempre que eu percebo, eu vou ter noção de que há situações padronizadas que despoletam em mim este tipo de memórias. Isto ajuda-me a agir sobre elas. Ajuda-me a agir sobre o controle da situação. Eu posso não conseguir evitar, nem é isso que é desejável fazer aquela viagem, mas se eu sei que isto poderá potencialmente despoltar-me, eu posso precaver-me na forma como eu o vou fazer. Será que eu tenho que levar o carro? Não poderei ir de comboio, por exemplo? Ou eu tenho de levar o carro? Às tantas, sair meia hora mais cedo vai me ajudar a evitar aquele trânsito.
Pequenas situações que nós desvalorizamos, porque até dizemos, eu acho que fui aquilo, fui eu estar cansada. Mas o que é que contribui concretamente para? Então, se eu quero agir sobre a questão da memória, Não no fato dela aparecer ou não. Eu tenho que agir naquilo que predispõe a que essa situação ocorra. Porque eu posso não evitar a memória, mas eu posso reagir em relação à intensidade com que ela vem e não ficar desprotegida. Apanhou-me de surpresa. Ok, ocorreu, mas eu consigo compreender porquê. Ah, está acontecendo.
Identificar a causa. Exatamente. Outra situação, outra dimensão que é muito importante, tem a ver com a identificação das estratégias de coping, que na realidade são estratégias de intervenção sobre fatores de stress que de alguma forma nós utilizamos. Mas já vimos em episódios anteriores. que, regra geral, o fato de nós termos estratégias não significa que elas sejam todas adequadas para aquela situação. Aliás, um dos conjuntos de sintomas era o evitamento. Então, uma estratégia é nós evitarmos. E o que nós estamos a dizer é que, clinicamente, o evitar não remete para o processo da cura. Então, à medida que eu olho para as estratégias, eu vou começar a identificar, quando eu estou nesta situação, o que é que eu normalmente faço?
O que é que tem funcionado? Acalma-me, sim ou não? Mas será que o fato de me acalmar, olha, eu vou fumar um cigarro, ou eu bebo qualquer coisa para ficar mais relaxado, mas será que esta efetivamente é a estratégia mais adequada para esta situação? Não poderei fazê-lo de outra forma? E aqui eu gostava de utilizar dois chavões que são muito utilizados por nós, mas que a literatura e a comunidade científica têm de ainda intervir de forma mais consciente sobre isso. Quando nós passamos por uma situação potencialmente traumática, ou ficamos com essa evidência no nosso historial de vida, nós dizemos que fomos vítimas de uma determinada situação.
Não deixa de ser verdade. Mas nós congelamos nesta designação, só neste papel. E quando nós falamos nas estratégias de coping, quando falamos nas estratégias de intervenção, a pergunta que nós devemos colocar a nós próprios é, eu sou apenas uma vítima ou eu sou um sobrevivente? Porque mudar o padrão, o foco, ajuda-me a perceber. Uma vítima é uma pessoa que deixou de ter capacidade de intervir sobre. Um sobrevivente é uma pessoa que, apesar de ter dias melhores ou piores, e apesar de muitas vezes estar a ser confrontado com uma realidade que não desejaria, tem posto em marcha algumas coisas que ajudam a lidar com a sobreviver.
Então, chamar a mim esta capacidade de perceber que eu ainda consigo intervir sobre, que é a capacidade atribuída a um sobrevivente, é extremamente importante. Não estou com isto a querer aligerar a situação, estou com isto a querer dizer que rotularmos apenas como vítimas de uma situação e sem querer faltar ao respeito a ninguém, nós efetivamente poderemos ter sido vítimas de uma situação, mas ficarmos presos a esse papel Não é terapêutico. É a tal questão que eu dizia, é deixar-nos entregar às circunstâncias e não, na graça de Deus, poder ultrapassar essas circunstâncias.
E sabes que nós temos variadíssimos episódios de experiências, por exemplo, de pessoas que estiveram em campos de concentrações. E porque é que umas conseguiram agir de uma forma e outras conseguiram agir de outra? Porque reconheceram que apesar das circunstâncias serem extremamente difíceis, nós ainda podemos intervir em algo. E olhando para trás, neste processo de como é que eu tenho sobrevivido a esta situação, mesmo não sendo ela desejável para mim, não quer dizer que tudo aquilo que eu tenha feito tenha tido sucesso. Mas o fato de eu agir apesar de ter medo, isso só em si é um indicador de sucesso.
E é importante nós transmitirmos esta noção às pessoas. Deixe-me dar aqui um exemplo que pode até parecer um bocadinho descontextualizado. Há tempos alguém me dizia, em contexto clínico, a pessoa dizia-me assim, se eu não gosto de mim mesma, como é que eu posso amar os meus filhos? Mas dizia-me aquilo em tom de desabafo. E eu estava a ouvir a questão e a pergunta que lhe coloquei foi, mas porquê é que tu dizes que não te amas a ti própria? E o que é que o fato de tu não te amares a ti própria, onde é que foste buscar essa ideia de que o fato de achares que não te amas a ti própria significa que não amas os teus filhos? Ou seja, vamos desconstruir esta ideia que temos na nossa mente.
E eu colocava a questão, mas só o simples fato de que tu estás a fazer uma pergunta Em relação ao amor para com os teus filhos, não significa que os amas. Porque se tu efetivamente não os amasses, não estavas preocupada. Então, não está em causa o amares. O que pode estar em causa é a forma como tu expressas ou como demonstras esse amor. E essa questão de não gostares de ti. O que é que é gostar de ti? Qual é o teu exemplo de comparação? Aonde é que tu foste buscar esta situação? Portanto, esta pessoa classificava-se como não sendo uma pessoa com sucesso na dimensão da autoestima e na dimensão do amor para com os filhos, mas partia de um pressuposto que era errado.
E é o que ocorre nas situações do trauma. Nós muitas vezes temos que olhar para o passado, perceber que até aquele momento fomos pôr em marcha algumas estratégias. Elas não têm que ser todas brilhantes, nem todas funcionais no sentido positivo. No entanto, o simples fato de eu as pôr em marcha já é um indicador e volta a repetir de sucesso. É importante as pessoas terem esta perceção, terem esta noção também. É também importante ainda nesta dimensão, Milu, perceber que eu devo intervir sobretudo no alívio da sintomatologia. Então, já falamos em episódios anteriores.
Na questão de criar um plano para agir quando eu estou numa situação de crise. Olha, eu estava no centro comercial, comecei a ter aquela sintomatologia, comecei a se sentir muito mal, ok. Mas o que é que eu posso fazer, regra geral, quando eu estou a ter um ataque de pânico, uma situação de ansiedade, ou fiquei bloqueada? Que tipo de estratégias é que têm funcionado? Olha, tem funcionado a estratégia da respiração, tem funcionado a estratégia de desviar o foco da atenção, por exemplo. e ao mesmo tempo alimentarmos previamente a capacidade de resposta do nosso organismo, do tal ou de condições para isso. Por exemplo, já falamos na questão do estilo de vida, enfatizamos a questão do exercício físico, é extremamente importante.
Enfatizamos a questão do contacto com a natureza. E para aqueles que concedem esta opção, a questão de oração também. questão de um momento de partilha em que nós podemos fazer com que a nossa mente se serene. Isto, feito previamente, ajuda a intervir nesta dimensão também. Já agora, Cristina, e intervindo agora, para além da oração, a leitura, creio que também é bastante pertinente. E aqui, neste que é o seu programa Mentes que Sentem, já sabe que temos o hábito de lhe poder oferecer, para si ou para algum querido, para algum familiar ou amigo, este manual, este guia de estudos, que trata exatamente destes assuntos, da saúde mental, das emoções, dos afetos e com certeza será uma mais-valia para si.
Então, entre em contacto conosco através do número 933 939 291 e nós teremos muito gosto em poder enviar de forma gratuita para si este exemplar que com certeza será uma mais-valia na sua vida ou na vida daqueles que você ama e que você conhece e que realmente deseja esta saúde mental. Enfim, na cura, como tu dizias, Cristina, o que vale no sentido de sabermos que não é ficarmos amnésicos, não é desaparecer completamente as experiências vividas. Aliás, cada marca que nós temos no nosso rosto ou no nosso corpo conta a nossa história, a nossa vida. de vida que seja, na graça de Deus, de superação e de ultrapassar, e daí tu estás a dar algumas orientações e continuares nas diferentes áreas que agora,
por favor, queres continuar. Uma das dimensões que nós falávamos era aquela questão de intervir no trazer-me ao presente. Já falámos que ficamos presos do passado, condicionamos o futuro. E há coisas muito, muito simples. Eu já tenho utilizado esta expressão mais do que uma vez e perdoem-me a repetição porque eu irei repetir isto imensas vezes. Nós desvalorizamos estratégias simples porque achamos que para problemas complexos temos que ter uma estratégia igualmente complexa. Mas é na simplicidade posta em prática com coerência e com persistência que os resultados vêm. Nós é que muitas vezes temos intolerância à espera. Pessoas impacientes. Mas, por exemplo, é extremamente importante trazer-nos ao presente.
Vamos imaginar algo como eu estou a dormir e tenho um pesadelo. Quando eu estou a acordar do pesadelo, eu não tenho ainda a perceção se eu estou na realidade, ou se aquilo é um pesadelo, ou se isto é a minha situação presente ou não é a minha situação presente. Às vezes coisas tão simples como eu ter uma luz de presença, por exemplo, ou eu ter uma lanterna ali ao lado que me permita ligar e dar-me ali aquele compasso de espera que me permite olhar e dizer isto não é a minha realidade atual. Eu recordo-me de alguém que tinha uma estratégia muito interessante, por isso é que eu dizia, isto é muito individualizado, é descoberto com cada pessoa em concreto, porque a realidade de cada um é diferente.
Eu recordo-me de uma pessoa que vivia sozinha e que tinha um cão. E o cão dormia no quarto da pessoa. Ela dizia, o cão funciona como a minha chamada ao presente, porque quando eu estou num pesadelo e acordo ainda estremonhada, sem saber o que é que eu tenho, eu olho para o tapete e o cão está lá. O cão faz parte da minha realidade atual, não faz parte da minha realidade anterior. E aquilo automaticamente puxa-me ao presente. Portanto, encontrar pequenas estratégias. Outras pequenas estratégias têm a ver com o socorrer nos dar ajuda de alguém. Imagina que eu estou a ter um flashback. Ou que eu estou a ficar extremamente alterada com alguma situação. Eu posso ter combinado previamente. com uma pessoa da minha confiança.
Um amigo, um familiar. Olha, eu vou te mandar uma mensagem, eu vou te ligar. Se eu insistir duas ou três vezes, é porque eu estou mesmo em SOS. E às vezes simplesmente falar coisas corriqueiras do tempo. O que é que eu estou a fazer? O que é que eu estou a fazer mais uma vez? Estou-me a puxar ao presente também. Recordo-me de uma outra pessoa que me dizia que tinha muito receio. Num episódio anterior, utilizei o exemplo dessa pessoa em relação à questão de atravessar pontes. Tinha muito receio em relação a isso. A pessoa dizia, por exemplo, eu contava carros brancos, ou eu dizia quantas palavras é que eu poderia começar a lembrar, começadas por uma determinada letra.
Mas às vezes o facto de eu ter uma playlist, de eu saber que vou passar por aquilo, ok, qual é a música que normalmente me acalma, vou me concentrar na letra, são coisas que parecem simplistas, mas são coisas que fazem toda a diferença.
A outra área, a outra dimensão, que só por si daria vários episódios, nós não vamos abordá-la exaustivamente, vamos só dar um cheirinho, tem a ver com este aprender a regular as minhas emoções. E aprender a regular as minhas emoções passa por saber identificá-las, atribuir-lhes nomes, saber expressar as minhas emoções de forma adequada, as minhas necessidades de forma adequada, Saber também, para isso eu poderei ter necessidade de me envolver com algumas estratégias específicas como estratégias de gestão de estresse, estratégias de gestão de raiva, treinos de assertividade, treinos de resolução de problemas. Tudo isto tem a ver, são estratégias que são feitas em conteúdo clínico, mas que têm a ver exatamente com este treino, com esta administração das nossas emoções.
especializada no âmbito do trauma informed care, que dizia que no início da sua carreira profissional teve uma paciente, uma cliente relativamente jovem e que foi a situação com a qual ela mais aprendeu. E ela dizia que esta jovem vinha para o nosso espaço, para o nosso momento e ela não abria a boca. E eu fiquei sem saber o que fazer. Então, ainda fiz uma outra pergunta, ainda partilhei uma outra experiência, mas fiquei completamente perdida, sem saber o que é que eu tinha pela frente. A verdade é que esta jovem não abria a boca, mas a verdade é que todos os momentos em que estava marcada, ela aparecia. Até que eu comecei a perceber, por que é que esta jovem não fala?
O que é que acontece? E ela disse-lhe, perguntou-lhe, Tu não precisas de falar, eu posso te fazer só perguntas e tu só acenas com a cabeça sim ou não. Então, à medida que o tempo foi passando, foi-se criando um vínculo de confiança. E o acenar com a cabeça passou para monossílabas. E as monossílabas passaram para outro tipo de processo, o que é que ela acabou por constatar? Esta jovem tinha crescido num ambiente em que ela não podia falar. de cada vez que ela falava, a reação do lado dela era agressiva. Então ela, para além de estar a avaliar se aquele era um espaço seguro, ela tinha medo que no momento em que ela abrisse a boca e falasse, ela iria deixar de ter aquele apoio. Então foi preciso tempo para começar a administrar as nossas emoções, perceber e dar-lhes nomes, para criar, ultrapassar este receio incapacitante naquele
momento, para que eu pudesse Permite-me a expressão, desabrochar um bocadinho também. Finalmente, outra dimensão que é extremamente importante tem a ver com voltar a adquirir confiabilidade no mundo e naqueles que estão à minha volta. Sabes que aqui entram muitas vezes os grupos de apoio. Entram também uma relação de amizade com alguém. Entra a noção de segurança. Não é em relação a esta situação, mas eu me recordo de alguém que sofria de transtorno obsessivo compulsivo e que participava num grupo de apoio no âmbito desta temática. Ela dizia-me que é tão libertador. É tão libertador estar num sítio onde as pessoas estão a passar exatamente pela mesma situação e nós acabamos por nos regirmos Porque é ridículo.
Eu tenho que dar três passos à frente e dar três passos atrás antes de poder sair de casa. Eu tenho que verificar não sei quantas vezes a fechadura. Eu tenho noção de que isto não faz sentido, mas eu não consigo ultrapassar isto. Estar num espaço em que nós conseguimos regirmos destas situações, conseguimos olhar sem tabus, é libertador. E nós precisamos de criar estes momentos seguros. Como últimas notas da Roda Pé. O sentido do humor, nós já o referimos. Mas aprender a ter sentido do humor, até em relação a nós próprios, é algo que é importante, é algo que é libertador. Brincarmos com a situação. Às vezes somos demasiado sérios com as coisas. No caso das famílias, aconselhamento de casal, aconselhamento familiar, terapia familiar, pode ser importante.
Emilu, se me permites, eu gostava só de deixar aqui uma última nota. Para aqueles que possam estar a passar por isto. Para aqueles que tenham alguém a passar por isto. Eu gostava, em primeira instância, de dizer a essa pessoa que não se menosprece. É uma pessoa com desafios na sua vida. Mas é uma pessoa com conquistas. É uma pessoa com valores. É uma pessoa que tem, sem dúvida, uma partilha extraordinária. E algo para dar. Um dos melhores processos de cura passa também quando nos descentramos de nós próprios e damos para com o outro. Às vezes um comportamento de alguma amabilidade, às vezes um voluntariado.
Isto vai ter um retorno fundamental do meu processo de cura. Em última instância, lembre-se que o seu passado não define o seu presente. Não permita que o seu passado lhe roube o seu presente. E tanto mais, Cristina, estavas a falar e eu estava-me a recordar deste episódio do apóstolo Paulo, que vem no livro de Filipenses, quando ele diz uma coisa e eu faço. Eu esqueço-me das coisas que estão para trás e avanço para aquelas que estão diante de mim. E sem dúvida que esta é uma atitude positiva. Nem sempre as coisas presentes são aquelas que nós mais almejávamos, ou até as passadas, e que nos vêm, de alguma forma, perturbar o nosso presente.
Mas, como diz o Senhor através da Sua Palavra, encontre nele a graça, a força, o alento, uma nova perspectiva de vida, para que, ao esquecer-se das coisas, não no sentido da amnésia, porque a gente sabe que não é isso, mas é deixar de valorizar ou de permitir que essas coisas perturbem o seu presente. E isso é possível. É possível no estudo, no acompanhamento que possa ter com alguém. a mesmo título médico, mas também com momentos assim em que nós partilhamos o saber e sobretudo a palavra do Senhor, que essa sem dúvida liberta de qualquer receio e nos cura na graça de Deus. Que bom foi estar consigo mais uma semana. Ficamos na esperança de revê-lo na próxima semana. Até lá.
Neste episódio, continuamos a explorar as complexidades do trauma e como as experiências do passado moldam o nosso presente. Desvendamos estratégias cruciais para compreender a fundo as memórias intrusivas e a forma como a nossa infância influencia as lutas da vida adulta. Prepare-se para uma viagem de autodescoberta que o desafiará a mudar a sua perspetiva, transformando o papel de vítima numa postura de sobrevivente, com o poder de intervir ativamente na sua recuperação e bem-estar.Descubra as ferramentas essenciais para enfrentar os desafios da sua saúde mental, através de uma abordagem prática e inspiradora. Este episódio oferece conhecimentos valiosos e caminhos para a ação, que o ajudarão a redefinir a sua narrativa interna e a construir um futuro de maior equilíbrio. Explore os seguintes tópicos e prepare-se para repensar a sua jornada: - Reestruturar o diálogo interno e a autoperceção. - Identificar 'gatilhos' (triggers) que despoletam memórias intrusivas. - Estratégias práticas para "trazer-nos ao presente" em momentos de crise. - A importância da regulação emocional: identificar, nomear e expressar emoções. - Reconstruir a confiança no mundo e nos outros, incluindo o poder dos grupos de apoio. - A superação de experiências passadas sem ser refém delas.