Vivências de Infância e Trauma

Vivências de Infância e Trauma

08 de Julho de 202527 min

Capítulos

Transcrição

Gerada automaticamente

Abertura

Olá, seja muito bem-vindo a este que é o seu programa, Mentes que Sentem. Estamos aqui uma semana para mais um episódio. Desejamos que o Senhor o tenha abençoado, a tenha abençoado. Estamos aqui nesta intenção de sermos usados por Deus, usadas por Deus, para que o Senhor possa trazer até si a informação ou, quem sabe, até a ajuda que precisa para si ou para algum amigo ou algum familiar. Mais uma vez estou com a doutora Cristina Dias. Olá, Cristina. Se é bem-vinda, é sempre bom poder estar contigo e ver-te mais uma semana para mais um programa. Obrigada, Milu. Mais uma vez estamos no nosso espaço seguro para podermos refletir e pensar em conjunto sobre alguns temas que nos tocam a todos.

Que bom, muito obrigada. Cristina, nós no último episódio, no anterior, nós estivemos a ver como é que se pressupõe que seja um desenvolvimento saudável do nosso cérebro e em que medida o trauma acaba por trazer realmente alguma dificuldade e alguns desafios que impactam exatamente o nosso cérebro. Tu falavas que em muitos casos as pessoas acabam por desenvolver quadros que são definidos por perturbação de stress pós-traumático. Se puder desenvolver um pouquinho esta ideia, por favor. Já houve episódios anteriores em que nós, de uma forma muito sucinta, abordamos ligeiramente esta questão. Mas, associada ao trauma, creio que é extremamente pertinente conhecermos um bocadinho melhor isto.

Mesmo porque no episódio anterior, tu estavas a dizer, há situações que, às tantas, ao sermos confrontados com este tipo de informação, nós apercebemos que, afinal, estamos a vivenciar, ou alguém na nossa família está a vivenciar aquilo. Então, que seja olhado como uma perspectiva de alerta.

Perturbação de stress

Essa é a nossa intenção. O Centro Nacional para as Desordens de Perturbação de Stress Pós-Traumático nos Estados Unidos estima que 70% dos adultos irão passar pelo menos por um evento traumático na sua vida. E o que é isto da perturbação de stress pós-traumático? Em primeiro lugar, eu gostava de fazer uma alerta. E esta alerta refere a quê? Regressão. Quando ocorre o evento traumático, seja ele continuado no tempo ou não, começa a haver o desenvolvimento de sintomatologia que nos permite fazer o diagnóstico de uma perturbação de stress pós-traumático. Mas isto não é linear em todos os casos. Há situações em que o evento ocorreu e não houve a manifestação aparente de sintomas.

E anos mais tarde, a pessoa começa a vivenciar uma série de sintomas que não consegue relacionar frequentemente com aquilo que ocorreu anos passados. Daí que é importante percebermos que somos uma relação de causa e efeito. Também há situações em que as pessoas vivenciam um conjunto de sintomas durante um determinado período de tempo. E aparentemente eles entram em remissão, se é que pudéssemos utilizar esta expressão. E uns tempos depois, não importa se estamos a falar de semanas ou meses, voltam a ocorrer. É como se fosse cíclico. Eu gostaria de alertar para estas três hipóteses, para que as pessoas tenham noção de que existem estes cenários.

Nós não vivenciamos exatamente da mesma forma a sintomatologia. Então, nós vamos falar de quatro grandes grupos de sintomas, sempre com esta ressalva, não são standard. Ou seja, tu não vives e não experiencias da mesma forma como o vivo que não experiencia. Um primeiro grande conjunto de sintomas tem a ver com reviver ou re-experienciar o evento. Isto pode ser traduzido em termos práticos de várias formas. A pessoa pode, por exemplo, começar a ter pesadelos. Pesadelos com aquela situação, pesadelos que se tornam difusos e que envolvem algumas referências àquela ou àquelas situações. Não estou a falar de um pesadelo de um ato isolado, estou a falar de uma situação continuada no tempo.

as pessoas podem ter o que nós chamamos de flashbacks. Então, imagina, estou aqui sentada a conversar contigo e, de repente, vem-me à mente, com uma intensidade profunda, avassaladora, aquele episódio ou fragmentos daquele episódio. E as pessoas são muito elencadas para esta situação através de gatilhos, o que nós chamamos de triggers. Eu posso ver, eu posso ouvir, eu posso cheirar algo que faz com que o meu cérebro faça uma associação àquele episódio e me remeta novamente, como se isso estivesse a ocorrer neste preciso momento. Por exemplo, eu posso estar com a televisão ligada a ver uma notícia e naquele momento aquilo remeter-me para aquela situação. Eu posso ter vindo de uma zona de conflito armado, por exemplo, na minha infância, e a determinada altura, na zona onde eu resido, nas festas da aldeia, lançam foguetes.

Automaticamente, é como se eu estivesse a sentir-me novamente desprotegida e desamparada. Portanto, este é um conjunto de sintomas que se inserem no reviver o episódio. Outro conjunto de sintomas tem a ver com, e é muito característico nas situações de perturbação de estresse pós-traumático, tem a ver com o evitamento. É uma estratégia de coping, uma estratégia de resolução, mas é uma estratégia de coping que não é positiva. Então, nós evitamos estar com pessoas, estar em ambientes, estar em contextos que nos façam lembrar aquele episódio em concreto, ou aqueles episódios em concreto. Nós, inclusive, evitamos falar sobre o assunto.

Isto pode traduzir em atos como evitar um determinado espaço, evitar estar junto de multidões por casos que são potencialmente perigosos, evitar até procurar ajuda, Porque assim eu não tenho que falar sobre a situação em concreto também. E há também pessoas que acabam por tornar-se extremamente ocupadas no seu dia-a-dia, porque assim não têm o que pensar. Não há espaço para vir uma potencial memória intrusiva. Outro conjunto de sintomas tem a ver com um aumento da negatividade da forma como eu penso em relação a mim e em relação aos outros. A percepção que eu tenho acerca de mim e dos outros torna-se mais negativa.

Em alguns casos, a pessoa desenvolve uma aparente insensibilidade de afeto para com os outros, como se nós tivéssemos dificuldade em demonstrar ou em receber esse tipo de afeto. As pessoas, muito frequentemente, têm perda de interesse em coisas que anteriormente eram algo que lhes despertava atenção. e também não é incomum a pessoa ter memórias residuais, ou seja, fragmentadas do episódio. Há situações em que a nossa mente acaba por, aparentemente, obliterar aquilo da nossa mente. aquele episódio, aqueles episódios. Eu efetivamente não me recordo ou eu tenho memórias esparsas, difusas.

Eu consigo associar uma ou outra situação, mas não consigo visualizar a cena por completo. O que não deixa de ser um mecanismo de defesa do nosso cérebro também. Mas a verdade é que enquanto isto não for trabalhado, vai continuar lá de fundo, a agir. Outra característica também, ainda neste conjunto de sintomas, é sentir, esta questão que já temos falado nos outros episódios, que o mundo é algo potencialmente perigoso. E é muito comum as pessoas sentirem culpa ou vergonha em relação à situação. um exemplo concreto. É como aquele homem adulto que cresceu num ambiente de violência doméstica, neste caso do pai para com a sua mãe, e que sempre que o pai fechava a porta do quarto do casal, ele já sabia o que é que iria ocorrer.

E este homem hoje adulto dizia, mas eu deveria ter feito alguma coisa, eu deveria ter impedido que aquela porta do quarto se fechasse. A pergunta que eu coloco é, como é que tu com cinco anos tens intervenção nisto? Mas é muito comum, inserido nesta característica deste tipo de sintomas, as pessoas sentirem culpa ou vergonha, como se elas tivessem tido a capacidade de agir de uma forma diferente e intervir para que aquilo não ocorresse. Se fosse com elas, se fosse com outros. E recordas-te que no episódio anterior falamos daquela pessoa que dizia que parece que eu estou constantemente a sentir-me à beira do abismo. Este é outro conjunto de sintomas. A pessoa sente-se constantemente em perigo, mesmo que efetivamente não tenha uma situação de perigo.

Isto pode-se demonstrar em quê? Por exemplo, a pessoa ter dificuldade em dormir. em ter o padrão de sono equilibrado. A pessoa ter dificuldade em concentrar-se nas suas tarefas. A pessoa ficar extremamente alarmada perante um ruído ou perante alguma situação que a ti e a mim provavelmente nos alertariam, mas não nos poriam em modo hipervigilante. E, muito frequentemente, a pessoa ter comportamentos que não são de todo saudáveis. Ou seja, a pessoa pode ter comportamentos autodestrutivos. Sejam eles através do consumo de substâncias, para me ajudar a lidar com este desconforto. Seja, por exemplo, até de atitudes. Portanto, eu vou conduzir rapidamente, porque quanto mais rápido eu conduzo, menos eu estou atento ao que se passa à minha volta.

Estavas a falar e particularmente do primeiro grupo de sintomas, do reviver ou re-experimentar o evento e falaste aí da questão de uma guerra, basta estar numa festa e ouvir uns foguetes e reviver todo esse passado. Eu recordo-me quando eu era pequenina. E a minha mãe conta e o meu pai. O meu pai esteve na guerra, portanto das antigas colónias e tudo isso. E nos primeiros anos foi muito complicado. Aliás, a minha vida ficou mesmo em causa. Quando a meio da noite o meu pai tem aqueles pesadelos horríveis mesmo e a minha mãe conta que era... Portanto, ele estava a reviver mesmo aqueles momentos de guerra.

E foi por ajuda da minha mãe que ele não colocou alguma coisa em cima de mim. Eu era bebezinha no berço. no sentido de proteger ou de agarrar ou de colocar sobre si esta responsabilidade da proteção. E, portanto, coisas vividas anteriormente de forma tão traumática poder ainda trazer consequências para o presente e depois até para o futuro e inclusive para a família. Não é? Porque a pessoa depois tem que, como família, também amparar isso. Sabes que é curioso o exemplo que tu estavas a dar. Eu acredito que muitas pessoas se vão identificar com esse exemplo. É muito comum no nosso país isso ocorrer também. Mas nós, como famílias, família que tem alguém que passa por isto, acaba por ser uma família que precisa de ajuda para saber como intervir.

Nós, neste episódio, iremos abordar um bocadinho, mas mais para a frente iremos abordar algumas estratégias concretas. Mas, efetivamente, o reconhecermos que estamos perante uma situação destas ajuda-nos a não nos sentirmos tão desorientados. É um bocadinho essa a situação. E lembras-te no episódio anterior de como é que reage um cérebro traumatizado? O exemplo que tu acabaste de levar, o teu pai estava literalmente em modo de cérebro sobrevivente. Lutou fuga. Portanto, eu tenho que proteger, porque aquilo que eu estava a viver naquele momento era uma realidade efetiva. Mesmo que o meu contexto atual já não fosse. Para ajudar-se neste assunto de experiências pós-traumáticas e outros, neste programa nós temos colocado ao vosso dispor, à vossa disponibilidade, poder-vos receber na vossa casa, aí, de forma gratuita, este manual de estudo, os sentimentos, a ciência do existir, E basta contactar-nos, mandar uma mensagem pedindo exatamente este manual gratuito para o 933-939291, que é o contacto que já conhece e que passa aí, portanto, no rotapé da nossa televisão.

E poder encontrar aqui realmente muitos assuntos, inclusive este que a doutora Cristina hoje está a reviver connosco ou a ensinar-nos. de tantos assuntos como este do stress pós-traumático. Então, entre em contato conosco e receba em sua casa, de forma gratuita, este manual de estudo. Cristina, falar destes assuntos, com certeza, o peso que eles têm quando nós somos adultos e fazer face a eles quando adultos, mas em relação às crianças, aos mais pequeninos, para aqueles que talvez possam ter uma realidade de ver os seus filhos a passar por situações que até não sabem como agir perante elas.

Como é que nos podes ajudar?

Impacto nas crianças

Obrigada por teres abordado isso, Milu, porque sabes que nesta temática muitas vezes nós estamos focados nos adultos. E esquecemos-nos que as crianças e os jovens também vivenciam estas situações. Aqui há dias eu ouvi uma pedopsiquiatra, e eu vou permitir-me citar aquilo que ela estava a dizer, que fez uma observação que achei muito interessante. Ela dizia assim, se uma criança está a ser sistematicamente abusada por um familiar, ou a sofrer de bullying pelos colegas, ela não está mentalmente doente, ela está a ser traumatizada. Então, embora os sintomas, o conjunto de sintomas que nós elencamos até este momento também sejam vivenciados pelas crianças, eu gostava de referir mais especificamente a que é que nós temos que estar atentos, o que é que poderá ser um sinal de alerta, sobretudo nas crianças mais pequeninas.

Então, muitas vezes uma criança que está a passar ou passou por uma situação que para ela foi traumática, agora também temos que, vamos fazer aqui um parênteses mais uma vez, Não quer dizer que pelo fato de eu estar a passar por uma situação de bullying, todas as crianças vão reagir da mesma forma. Há algumas para quem isto vai ter um impacto mais prolongado no tempo, há outras que vão gerir, administrar isto de uma forma diferente. Portanto, não estou a dizer que tudo nos vai traumatizar. Mas também não posso, de maneira nenhuma, aligerar a situação e dizer isso passa. Não é bem assim. Há uma série de condicionantes que podem contribuir para que isso não passe na vida de uma criança ou de um adolescente.

Então, sobretudo, quando nós estamos a falar de crianças mais pequeninas, temos que estar atentos ao comportamento da criança. Estamos, portanto, uma criança que A determinada altura começou a ter muito mais birras. Começou a ter muito mais tristeza. É uma criança que fica muito desconfortável quando os pais ou os cuidadores não estão próximos. Poderá ser um indicador de alerta. Não estou a falar de um episódio isolado. Estou a falar de uma situação continuada no tempo. Podemos, de repente, ter uma criança que, sem explicação aparente, começou a ficar muito dependente. Aquilo que nós vulgarmente dizemos, olha, tenho aqui uma criança que é uma cola, está constantemente agarrada a mim. Mas ela não era assim esta criança. O que é que ocorreu? Crianças que demonstram dificuldade de sono, em dormir, no padrão de sono, estarmos muito atentos às brincadeiras.

As crianças regras são, sejam elas crianças pequeninas, até aos 6 anos, sejam crianças um bocadinho mais velhinhas, até aos 9, 10 anos, embora estas idades não sejam estanques, elas introduzem nas suas brincadeiras, muitas vezes, fragmentos dos episódios. Portanto, imagina que eu fui, experienciei, junto com alguém, um assalto à mão armada que se tornou violento. De repente, nas minhas brincadeiras, estou a integrar, por exemplo, o uso de armas. Não quero com isto dizer que as crianças não brinquem a usar armas. Estou a falar de situações que fogem do padrão da normalidade no comportamento daquela criança.

E não é pelo fato dela estar a fazer isto que eu agora assumo que ela está traumatizada. Eu vou tentar é perceber porque é que agora isto aconteceu. Foi porque na escola e a todos os meninos começaram a fazer a mesma coisa? Ou aparentemente de onde é que isto vem? Nós temos que questionar. Outra questão que é muito característica são as crianças começarem a ter comportamentos regressivos. Ou seja, uma criança que passa a ter um comportamento que já não é próprio para a sua idade. Imagina, eu de repente passei a fazer xixi na cama com frequência, com regularidade, quando eu era uma criança que já não fazia isso há um, dois ou três anos. Ou sou uma criança que agora quero voltar a pegar na chupeta, por exemplo. A criança pode elencar através de sintomas físicos.

Dói-me a barriga, dói-me a cabeça, dói-me qualquer parte do corpo. Por isso é que estas questões da área da saúde mental, da saúde emocional, às vezes não são assim tão lineares porque o conjunto de sintomas poderão ser associados a vários quadros clínicos. E é muito frequente as crianças não se lembrarem do episódio ou lembrarem-se do episódio por uma ordem incorreta. Imagina, eu vou com o meu filho no carro, tenho um acidente perigoso, grave. Os acidentes não são sempre perigosos, mas tenho um acidente grave. Imagina que a ordem dos acontecimentos foi, eu ia a conduzir, entretanto, Um carro meteu-se à minha frente, batemos com violência, a criança...

Ficamos encarceradas, chamaram ajuda, vieram os bombeiros, veio a ambulância, pronto. E tu podes perguntar à criança e a criança pode dizer, eu estava presa e estava magoada. E depois o que é que aconteceu? Eu estava no hospital. E no hospital o que é que aconteceu? Eu estava presa e estava magoada. Mas e o carro? O carro foi depois do hospital. Ok? Portanto, pode ocorrer com muita frequência esta situação. Há situações em que as crianças literalmente bloqueiam a memória traumática. Mais uma vez, um mecanismo de defesa da sua mente, que não quer dizer que seja um mecanismo correto, é um mecanismo protetor. Naquele momento, por causa da intensidade emocional. Mas, por outro lado, a criança pode se lembrar fragmentada do episódio e é muito comum lembrar-se dele por ordem incorreta.

Quando são mais velhinhos um bocadinho, as crianças podem começar a ser mais agressivas no seu comportamento, a terem recusa em irem para a escola, a terem dificuldade de relacionamento com os colegas ou com os seus pares e agirem de uma forma muito desamparada. Normalmente uma criança tem alguma esperança em relação à vida. As crianças naturalmente têm isto. Quando nós começamos a ver uma criança agir de uma forma desesperançosa, é um sinal de alerta. E as crianças, poderá também ser um sinal de alerta, as crianças agirem de forma muito controladora. O que vais fazer? E quanto tempo demoras? E depois o que é que vamos fazer?

E o que é que vamos comer? E com quem vamos estar? Uma coisa é a curiosidade, outra coisa é o comportamento constante de querer controlar o que é que eu tenho pela frente. Quando falamos da pré-adolescência, adolescência e jovens adultos, a sintomatologia já é muito mais próxima do que aquela que nós descrevemos no início deste episódio. Tem uma característica que nos deve chamar a atenção. É que os jovens têm comportamentos mais impulsivos, de risco, mais autodestrutivos, com uma maior intensidade que os adultos. Se eu conduzo, eu conduzo de forma mais inconsciente. Se eu bebo, eu bebo de uma forma mais extensiva.

E aqui permite-me introduzir um assunto que se torna um bocadinho delicado, mas que é importante alertarmos. Os jovens têm, e as crianças, é muito mais comum do que aquilo que nós achamos, que terem comportamentos de automotivação. Porque muitas vezes é a forma que encontram de libertar uma tensão emocional que não conseguem gerir de outra forma. Então, pais, mães, avós, famílias, aqueles que nos escutam, aqueles que nos ouvem, estejam atentos a isto. estejam atentos, por exemplo, às dobras da pele, estejam atentos àqueles locais, a barriga ou outros locais que não são tão visíveis. E se perceberem que isto está a ocorrer, não penalizem o vosso filho ou a vossa criança. Percebam que ele está a gritar por ajuda sem palavras.

E isto é um indicador de que poderemos não saber o que fazer, mas é um indicador que está na altura de procurarmos ajuda. Só para terminar ainda esta reflexão sobre a questão dos mais velhinhos dos jovens, uma das outras características da perturbação de stress pós-traumático é que a criança ou o jovem sente como se ele não se encaixasse, como se ele não conseguisse pertencer a um espaço, a uma realidade. Aqui, às vezes, eu vi uma imagem que ilustra muito bem este pensamento. Tu vias uma cabeça de alhos e tinham tirado um dente de alho e no espaço do dente de alho puseram um gomo de tangerina.

E, efetivamente, o gomo de tangerina cabia lá. E a mensagem era qualquer coisa do género. Não é pelo fato de tu encaixares que tu pertences a. Exato. Então, isto ilustra o que frequentemente estas crianças, estes jovens sentem, e até os adultos. Eu não pertenço a. E eu olho para aqueles que estão à minha volta sempre na perspectiva de quando é que eu potencialmente vou estar numa situação de perigo novamente. É também muito comum terem comportamentos sexuais inapropriados ou descontextualizados. Isto só para dar aqui um alerta de que é que nós podemos e devemos estar atentos como indicadores se tratamos de crianças ou jovens.

É verdade, o tempo passa a correr.

Caminhos para a cura

De todas as formas, nós daremos continuidade no episódio que virá, mas se calhar dar só uma ou outra ideia neste sentido. Como é que nós poderemos agir em situações como essa? Seja na vida das crianças, na vida dos jovens. Como é que eu posso ajudar alguém que eu possa identificar que tem exatamente estes problemas? ou até ter identificado em mim próprio e como saber ajudar-me a mim mesmo. Algumas dicas, Cristina, brevemente? Brevemente mesmo. Gostava só de deixar duas ideias que nós depois iremos explorar mais à frente com estratégias concretas. Mas a primeira é reforçar aquilo que já temos dito noutros episódios. Normalmente o trauma ocorre num contexto de uma relação.

A cura ocorre no contexto de uma relação. Portanto, o começarmos a desenvolver relações equilibradas com outra pessoa, ou seja, percebermos que existe alguém do outro lado que é confiável, Uma pessoa que não muda, uma pessoa que está disponível. Às vezes é um professor. Às vezes é um amigo da escola. Às vezes é um vizinho. Às vezes é um colega de trabalho. Portanto, o nós darmos espaço gradualmente para perceber que existe uma relação confiável do lado de lá é um processo fundamental para a cura. E sabes que nós vamos ter a oportunidade de abordar no próximo episódio um conjunto de intervenções que se inserem no que nós chamamos de trauma informed care.

Mas a primeira coisa que nós temos que mudar é a nossa perspectiva. E a perspectiva em relação à pergunta que nós fazemos. Muito frequentemente nós olhamos para alguém que está a lidar com isto e a pergunta básica que nós colocamos é o que é que tu tens de errado? O que é que está mal contigo? Essa não é a pergunta que nós devemos fazer. A pergunta que nós devemos fazer é, o que é que te aconteceu? O que é que ocorreu que ainda hoje está a ter um impacto em ti na forma como tu vives e na forma como tu perspectivas as coisas? Porque quando tu perguntas o que é que tens de errado, o que é que está de mal contigo, tu estás a assumir que o problema está com aquela pessoa, que é a incapacidade e a incompetência daquela pessoa. Isto é o mesmo que tu me dizeres, Cristina, vamos mudar a lâmpada, ok?

E olhares para mim e dizeres-me, mas tu nunca vais conseguir mudar a lâmpada, vê lá se tens jeitinho. Tu assumes logo. o pressuposto de que eu não vou ser capaz, portanto cortas imediatamente a capacidade de intervenção da própria pessoa. Quando tu tentas genuinamente mudar a perspectiva, o que é que te aconteceu e de que forma é que isso ainda hoje está a impactar, tu estás a tentar perceber a história de vida daquela pessoa. E ao perceber a história de vida daquela pessoa nós temos capacidade de intervenção. Sem dúvida que temos muito mais para conversar em conjunto e convidamos a estar junto no próximo episódio connosco, mas queria deixar um versículo que acho muito interessante e que será pertinente também nos próximos episódios, quando o senhor diz através do profeta Isaías, não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas, eis que faço coisa nova que está saindo à luz, porventura não o percebeis.

E nós oramos sempre, a cada episódio, neste mesmo programa, para que realmente este momento que sentem possa ser essa pequenina luz que o possa ajudar a poder resolver alguns dos assuntos da sua vida ou da vida daqueles que você ama. Encontramos-nos, na graça de Deus, no próximo episódio. Até lá.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 14
Estreou
08 de Julho de 2025
Categoria
Saúde