Seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio Mentes que Sentem. É sempre um prazer poder estar consigo. Sabemos que Deus está a cuidar de si, da sua vida, dos seus queridos. Sabemos também, porque nós também aqui estamos, que por vezes a vida não é fácil, tem os seus desafios, seja a nível pessoal, a nível familiar ou profissional. E por vezes damos-nos conta de estarmos em situações que não esperávamos e nem compreendemos. E esta questão da saúde mental, sem dúvida, que é um dos grandes desafios no século que vivemos. E pedimos a Deus que nos use para trazer um pouquinho de informação e de ajuda à sua vida. Eu não tenho estado sozinha, como sabe, já é habitual nos nossos programas, que realmente estou com a Cristina Dias, a nossa psicóloga.
Bem-vinda, Cristina. Obrigada. E obrigada uma vez mais por esta semana estares connosco a trazer mais informação sobre estes temas. Obrigada, é um prazer estar aqui. É bom poder estar a contar contigo e com aqueles que possam ser já regulares conosco ou com aqueles que nos visitam pela primeira vez. Muito bem. Então, no episódio anterior, nós iniciamos este tema tão pertinente que é a questão da depressão. Eu gostava só de ir um pouquinho buscar esta questão, que é como é que nós, que estamos à volta, que somos família, que somos amigos e que acompanhamos alguém e que vemos alguém que conhecemos ou que é nosso familiar, que está a passar por esta dificuldade que é a depressão, esta doença que é a depressão, como é que nós podemos ajudar, Cristina?
A primeira noção que nós temos que ter é que nós não vamos curar ninguém da depressão. Isto porquê? Porque muitas vezes é-nos difícil perceber que, apesar de haver estratégias simples que estão ao nosso alcance e que podemos pôr em prática, nós achamos que não são suficientes e que não são válidas. Deveríamos poder fazer algo muito maior e muito mais proporcional à intensidade do desafio e do sentimento que a pessoa tem. Mas, eu costumo utilizar esta expressão variadíssimas vezes, o todo é mais do que a soma das partes. Portanto, o já intervir de alguma forma, já é positivo. E a primeira, não vão ouvir nada de novo, não vamos falar de nada de novo, mas mais uma vez desvalorizamos as coisas porque achamos que elas são simples.
Deus é um Deus de soluções simples para problemas complexos. É algo que eu aprecio particularmente no caráter dEle. Então a primeira característica que nós temos que ter noção é que a depressão é um problema de saúde pública, dissemos isto no episódio anterior. Então, mesmo que eu não esteja a lidar com ninguém próximo de mim, que esteja a passar por esta situação, eu não deixo de ter um papel interventivo na forma como eu me posiciono em relação a isto. Às vezes alguém comenta, às vezes alguém faz uma crítica, às vezes alguém tece um comentário mais leve sobre a situação. Intervir, no sentido de não termos o direito de julgar, temos o direito de ser uma sociedade que se trabalha para. Por outro lado, é importante sabermos mais sobre a doença, pesquisarmos, obtermos informação, perguntarmos aos profissionais de saúde que lidam com isto, porque tal como estivemos a ver a multiplicidade das causas, tal como estivemos a ver a variedade de manifestações, são coisas que demonstram que nós estamos perante uma doença complexa.
Portanto, não podemos ter uma abordagem de classificar apenas por um ponto de vista. Por outro lado, é extremamente importante ser um bom ouvinte. Nós somos muito bons a queremos dar soluções aos problemas dos outros. Mas muitas vezes o outro, mais do que uma solução feita, que pode não ser válida para a situação que ele está a passar naquele momento, precisa de ser ouvido. E o ouvir é importante porquê? Porque à medida que eu sou ouvido, eu estou a reformular e a posicionar-me em relação àquilo que se passa na minha mente. E muitas vezes o fato de eu estar a dizer em voz alta ajuda-me a perceber, calma, será que é bem assim?
Ou alguém que me ouve, que não me julga, que me aceita, isto traz-me algum senso de alívio também. E nós podemos fazer algumas perguntas simples. Olha, quando é que tu te começaste a sentir assim? Aconteceu alguma coisa para tu te sentir assim? Isto poderá dar um mote de saída também para a pessoa poder partilhar. Agora é verdade que é assim. Nós poderemos ter uma pessoa que naturalmente fala e temos outra pessoa que naturalmente se reserva. Então, não é interferir na esfera privada da pessoa, mas é, de alguma forma, acabar por dar espaço para que isso possa ocorrer. Algumas das coisas que nós poderemos dizer é, olha, tu não estás sozinho, eu estou aqui.
Mesmo que eu não consiga perceber na totalidade o que é que tu estás a passar, naquilo que tu precisas, eu estou aqui. Sabes que eu recordo-me, nós falamos já em variadíssimos episódios da importância das relações humanas na questão do tratamento das doenças emocionais mentais. Eu recordo-me de uma situação em concreto de um homem que estava a passar por uma depressão profunda, um jovem adulto, na faixa dos 20 e poucos anos, e ele dizia, uma das coisas que mais impacto teve positivamente na minha recuperação era saber que o meu pai estava lá. O meu pai podia estar na sala ao lado ou o meu pai podia estar como tantas vezes esteve sentado aos pés da minha cama quando eu estava deitado porque não me conseguia levantar. Ele não me dizia nada às vezes, mas saber que ele estava presente ajudou-me a passar por este buraco escuro em que às vezes nós não conseguimos ter solução.
Então não é tanto ter soluções para as pessoas, mas ajudá-las a perceber que este trajeto pode ser feito em conjunto. Aqueles chavões que nós muitas vezes dizemos que são só coisas da tua cabeça. Pois, são da cabeça deles e da minha também. A qualquer momento aquela experiência que a pessoa está a ter, aquele desafio que a pessoa está a ter, poderei eu passar por isso também. Portanto, não desvalorizar, não desmercer o sofrimento que a pessoa está a ter. É também importante sermos diretos. Olha, o que é que eu posso fazer por ti? Às vezes temos receio de fazer esta pergunta. O que é que eu te posso ajudar? O que é que eu posso fazer por ti? E neste ser direto, também procurar promover um equilíbrio. Se a pessoa efetivamente tem dificuldade, um dos sintomas da depressão era a lentificação motor ou cansaço.
Eu posso ajudar em situações concretas. Eu vou te fazer as compras. É preciso ajudar aqui em casa. Eu venho cá, eu trago uma comida. Esta situação de presença e de acautelar algumas necessidades básicas por parte da pessoa é importante. Agora, nós não nos devemos substituir à pessoa. Então, isto depois depende naturalmente de com quem é que estamos a lidar. Vamos imaginar algo do género. É preciso ir fazer compras, eu vou contigo, combinamos e vou contigo fazer as compras. Mas a pessoa está com dificuldade em vestir-se. A pessoa veste-se. Veste-se sozinha. E depois nós vamos os dois às compras. Não vou substituir, não vou tornar a outra pessoa incapaz naquilo em que ela ainda tem a capacidade de vestir. E mais dependente. Por outro lado, é encorajar a pessoa a procurar ajuda.
Muitas pessoas não procuram ajuda, primeiro porque não assumem que estão a passar por aquilo. Segundo, porque têm vergonha, muitas vezes. Terceiro, porque às vezes não sabem com o que é que estão a lidar. Então é importante procurar ajuda profissional. Encorajar os tais hábitos de autocuidado, que nós falávamos dos hábitos de saúde, não me apetece andar. Ok, vamos só 10 minutos. Às vezes só o simples fato de eu conseguir tirar a pessoa de casa já é uma vitória. Ser paciente, ser preservante. Mas, sobretudo, naquelas situações de depressões mais graves, em que às vezes a pessoa verbaliza que não quer viver. que já pensou em morrer, é preciso estar muito atento a estas situações, afastar objetos que possam predispor ao uso, facas, outros tipos de situações.
E, se for necessário, ligar para as linhas de apoio, a linha SEO é suicídio, e pedir ajuda para intervir nesta situação. Quem lida mais proximamente com alguém que está com uma depressão, está efetivamente numa situação de risco também. Então eu tenho que ter noção de que eu também preciso cuidar de mim e eu não preciso me sentir culpada Ou não é saudável essa culpa, não é uma culpa real, baseada num evento real, o fato de eu poder também ter que sair, poder ter um momento para estar comigo, poder estar com outras pessoas que não esteja sempre focada no tratamento ou na cura ou no apoio a uma pessoa.
Porque senão daqui a algum tempo, em vez de uma pessoa deprimida, nós temos duas pessoas deprimidas. Com crianças e adolescentes é muito importante conversar com eles, tentar perceber porquê. O que é que se passou? O que é que ocorreu? Vou dar um exemplo pessoal. Quando foi a questão da pandemia, passámos a ter que fazer as escolas online, eu recordo-me de um dos meus filhos, a determinada altura, A professora ligou-me a dizer que ele estava a faltar às aulas. Eu fiquei estarrecida. Como é que ele falta às aulas se ele está aqui em casa, não é? E é óbvio que naquele momento acabei por ficar aborrecida e fui ter com ele para tirar algumas satisfações. E neste momento o miúdo começa a chorar. E eu fiquei surpresa. Mas por que é que estás a chorar, filho? Porque estávamos apenas a conversar.
Mamãe, olha, eu não sei o que é que se passa comigo, mas eu sinto aqui um peso no peito, uma vontade de chorar que eu não sei explicar. Naquele momento foi um momento de tristeza, de adaptação a uma rotina diferente daquela que era normal. Mas muitas vezes nós precisamos ter este tipo de conversas. Perceber o que é que se passa. Mesmo que a criança não consiga definir de outra forma. Isto ajuda-nos a posicionar. Tentar perceber se há alguma situação que está a provocar estresse ou violência, do qual nós podemos proteger a criança. Não a vamos tirar dos contextos. Não vamos meter a criança numa caixinha e fazer as coisas por ela, porque a criança precisa de resolver problemas. Mas uma coisa é minimizar o impacto e a criança sentir que tem ali o meu apoio.
estar atento às mudanças de comportamento, estar atento às mudanças de escola, estar atento à entrada na pobredade. Tudo isto pode predispor ao aparecimento de situações em que a criança lide com um quadro depressivo. E acima de tudo, investir no tempo de qualidade. Investir em atividades em conjunto, em que a criança perceba que tem ali uma fonte de apoio, de afeto e de referência também. Nós já vamos prosseguir e eu queria te fazer uma pergunta que creio que é
pertinente também, mas eu gostava de apresentar aquilo que já é comum, que é o nosso manual de estudo, que temos para oferecer, para poder enviar para a sua casa. Basta contactar-nos através do 933 939291. Este manual de estudo fala desses sentimentos, a ciência do existir, E nós aqui neste programa, Mentes que Sentem, estamos a tratar disto mesmo, portanto aquilo que muitas das vezes não sabemos como traduzir em palavras aquilo que é o nosso sentir. Então aqui é um manual que realmente fala de vários aspectos sobre a questão da saúde mental, que temos muito gosto. em enviar para si. Já sabe o 933 939291 e teremos muito gosto em poder fazer chegar até a sua casa este manual para si e se quiser peça mais para dar aos seus queridos e àqueles que vocês acham que será também pertinente.
Cristina, estavas a falar e deste o exemplo do teu filho e pensamos nós nas crianças e na nossa infância, não é? E todas as experiências que nós vivemos. E, ao falar sobre isto, também referiste a questão da importância dos afetos, também, e que todos nós, de uma forma ou de outra, também sentimos essa
necessidade, tanto de receber como de poder dar. De que forma, pergunto eu, e será que isto é pertinente ou não, a nossa infância possa estar ou não relacionada com a nossa saúde mental? Faz algum sentido isto? Realmente há razão em acharmos que qualquer coisa lá no passado ainda nos possa estar a incomodar agora, passados tantos anos? O que é que podes dizer sobre isto? Essa pergunta é extremamente pertinente e nós não a vamos responder na totalidade neste episódio, mas não a vamos deixar sem resposta. Essa pergunta demonstra algo que a ciência tem vindo a comprovar repetidamente. O impacto da nossa formação, da nossa vinculação, do nosso contexto familiar na saúde, na promoção da saúde ou no desenvolvimento das doenças.
E aqui permite-me dar um exemplo pessoal. Uma das memórias que eu guardo com mais carinho da minha infância era quando ia à casa dos meus avós paternos. O meu avô paterno, ele era agricultor e tinha um tanque de rega dos terrenos e ao lado do tanque de rega tinha uma laranjeira. Nós, os netos, amávamos empolerar-nos no tanque para ir comer as laranjas. E o nosso avô não gostava nada daquilo, estava sempre a ralhar connosco e a tirar-nos dali. Eu ainda hoje não sei se o gosto daquelas laranjas me ficou pela parte afetiva ou porque elas efetivamente eram boas. Há tantas é que aquele velho editado conseguiu tirar uma e comer. Mas a verdade é que o meu avô dizia muitas vezes, filha, eu tive que dar uma coça nessa laranjeira. E eu não percebi o que era dar uma coça na laranjeira, para ela dar boas laranjas.
Mais tarde percebi que o meu avô teve que apudar várias vezes para permitir que ela tivesse as condições de poder a desenvolver as laranjas da melhor forma. Por outro lado, eu já vou dizer, já vou explicar porque é que estou a dar este exemplo. Por outro lado, outra das minhas memórias de infância aí também. Eu hoje gosto muito de avencas e eu sei porquê. Porque eu tenho uma ligação afetiva. Cada vez que eu entrava em casa dos meus avós no quintal, a minha avó tinha dois latões enormes com avencas lindíssimas. E davam aquela sensação de beleza, de serenidade. E quando eu penso nestes dois exemplos, eu penso sempre, a minha avó nunca mudou as avencas de sítio. Elas estavam por baixo de uma ramada. Eu olho para isto e penso. Ambos tiveram um cuidado estratégico.
O meu avô teve uma intervenção estratégica para permitir a produção das laranjas. A minha avó teve um acautelar das condições para permitir o florescimento. E a verdade, a sabedoria, falhou-me agora o termo, a sabedoria popular traduz isto de uma forma muito simples. É de pequenino que se torce o pepino. Ou seja, nós reconhecemos que há uma intervenção naquilo que nós somos como adultos do que trazemos do nosso background. Mas a verdade é que a ciência demonstra. Porque uma das necessidades emocionais mais básicas do ser humano é a necessidade de amar e de ser amado, de pertencer a algo ou de pertencer a alguém. E quando nós não temos esta necessidade satisfeita de forma adequada, ela vai ter uma intervenção direta na forma como nós desenvolvemos e no processo de adoecimento também.
Na década de 1960 foi desenvolvida uma teoria, a teoria da vinculação, por John Balby e Mary Ainsworth e eles vieram trazer ao lume a importância da infância. E o que é que eles acabaram, em linhas muito gerais, por mostrar? A importância das relações humanas no desenvolvimento da criança e no desenvolvimento afetivo. Desde o nascimento, a criança procura a relação com o próximo, ela procura vincular-se com alguém. A forma como ela se vai vincular e a forma como a figura de vinculação, pode ser o pai, a mãe, pode ser o avô, a avó, vai reagir, vai ter um impacto direto, não só na formação da personalidade da criança, mas vai ter um impacto direto na forma como a criança se vai vincular posteriormente a outros e vai desenvolver as suas relações interpessoais também.
E aquilo que provaram também é que problemas no estabelecimento destas relações emocionais, destas relações de vinculação, trazem duas circunstâncias específicas. A primeira é dificuldades na regulação emocional da criança. O que é que é isto traduzido em termos práticos? Como é que eu lido com frustração? Como é que eu lido com o não? Como é que eu lido com uma perda? Como é que eu lido com algo que não está a correr bem? Regulação emocional pode ser feita de forma adequada ou inadequada. E também na forma como nós desenvolvemos comportamentos que podem ou não ser problemáticos. Portanto, isto acabou por demonstrar, em termos científicos, essa relação direta. E esta teoria acabou por demonstrar, entre outras coisas, uma coisa muito interessante também, o que eles chamam de efeito base segura.
Ou seja, se eu como criança consigo perceber que a minha figura de vinculação acaba por me trazer um espaço de afeto, de segurança, que me permite explorar o espaço à minha volta, mas sempre que eu percepciono algo que eu considero ameaçador, eu volto para essa minha figura de vinculação, Isto permite-me olhar para o outro como uma figura responsiva, ou seja, ele atende às minhas necessidades e como uma figura confiável. E permite-me olhar para mim própria como uma pessoa merecedora de atenção e como uma pessoa merecedora de cuidado e de amor. Mas quando a criança não tem esta figura responsiva de forma adequada em termos de vinculação, ela vai olhar para o mundo como algo ameaçador e vai olhar para o adulto como alguém de quem eu tenho que ter cuidado.
Mas mais do que isso, o impacto mais nefasto no desenvolvimento emocional da criança é que ela começa a achar que ela não é merecedora de atenção, de investimento e de afetos. Então nós temos uma série de pessoas que cresceram com esta componente que muitas vezes não é clara e que leva a que a pessoa procure atenção sobre si mesma para compensar esta necessidade emocional, mas que sentem-se vazias, desprovidas de valor ao longo da vida. O que é que faz com que a criança torne-se insegura e a criança torne-se hipervigilante? Quando nós estamos hipervigilantes, o que é que é desencadeado em nós? O mecanismo de stress.
Quando, nós já vimos em episódios anteriores, o que é que o mecanismo de stress faz? Quando é desencadeado de uma forma que pode não ser adequada, adaptável, ele predispõe-nos ao adoecimento. E, aqui, se me permites, gostava de falar de um estudo que foi feito na década de 1990, nos Estados Unidos. Foi feito pelo CDC, é o Centro de Controlo de Doenças Norte-Americanos, e por um outro laboratório, Kaiser Permanente, em que eles perceberam que tinha a ver especificamente com esta questão das crianças e eles perceberam que houve exposição a algo que aumentou potencialmente o risco de 7 das 10 principais causas de morte nos Estados Unidos.
Disseram também, em doses elevadas, a exposição a isto afetava o desenvolvimento do cérebro, a reacapacidade de resposta do nosso sistema imunitário, do nosso sistema endócrino e até a forma como o nosso ADN é lido e replicado. E por incrível que pareça, a exposição não é um tóxico, não é um material pesado, é aos traumas de infância. Eles chamaram-lhe Adverse Childhood Experiences. Portanto, experiências adversas na infância. E o que é que são isto dos traumas? São ameaças tão severas e tão penetrantes que literalmente mudam a fisiologia da resposta do nosso organismo e do nosso cérebro. Então, estamos a falar do quê?
Quais foram as que eles elencaram? Entre outras, elencaram como traumas, como ameaças severas, a violência sexual, física ou emocional. A negligência física ou emocional, doenças mentais por parte dos pais, dependência química por parte de alguns dos progenitores, prisão por parte de alguns dos progenitores, separação ou divórcio dos pais, violência doméstica ou instabilidade familiar. bullying, lutas de gangues ou outros problemas sociais, desemprego, dificuldades econômicas. Então, na década de 1985, ainda para tentar responder também ainda no contexto destas problemáticas, foi feito um estudo em que a pergunta que pretendiam responder era como é que a exposição a adversidades afeta o cérebro e o corpo das crianças em desenvolvimento.
E para isso eles entrevistaram 17.500 adultos e o seu histórico da exposição àquilo que eles chamam de experiências adversas na infância. por cada experiência adversa identificada no historial de vida daquele adulto na sua infância, era classificado como um determinado ponto. E depois fizeram a correlação entre estes dados e os resultados na saúde. E descobriram duas coisas espantosas. A primeira é que as experiências adversas na infância são incrivelmente mais comuns do que aquilo que nós achamos. Ou seja, 67% 8% da população neste estudo tinha pelo menos uma experiência adversa na infância. E 12,6%, uma em cada oito pessoas, tinham quatro ou mais experiências adversas na infância.
E a segunda coisa surpreendente que eles descobriram é que havia uma relação direta entre quanto mais experiências adversas na infância eu tinha sido exposto, pior o meu índice de saúde. e foram dar alguns dados concretos, se me permites, para tornar isto ainda mais perceptível por parte daqueles que nos acompanham. Pessoas a quem foram identificadas quatro ou mais experiências adversas na infância, face à população a quem não tinha sido identificado isto, tinham duas vezes mais probabilidade de vir a desenvolver doença obstrutiva crónica dos pulmões. Duas vezes mais probabilidade de desenvolverem hepatite. Três vezes mais probabilidade de desenvolverem problemas de ansiedade.
E quando eu digo probabilidade é porque foram identificadas neste grupo de estudo. Quatro vezes mais probabilidade de desenvolverem depressão. Doze vezes mais probabilidade de desenvolverem suicídio. E pessoas a quem foram identificadas sete ou mais experiências adversas na infância, estas pessoas morriam três vezes mais por morte por cancro do pulmão. ou três vezes mais por doença arterial coronária. Ou seja, isto são números que nos devem levar a refletir. Então, na realidade, o que são os traumas psicológicos? São a incapacidade de superarmos algum acontecimento adverso que se torna doloroso para nós. Estes traumas vão exercer uma influência direta no meu comportamento e na visão de mim próprio.
Trazem uma carga emocional tão intensa que muitas vezes retém a pessoa naquele contexto e não permite que a pessoa reaja de forma adequada diante do evento traumático. E o trauma pode impedir o desenvolvimento normal da criança e condicionar o seu estado de saúde enquanto adulto. Mais do que isso, meu aluno. tem algo extremamente perverso. É que frequentemente coloca a vítima no papel do culpado. É muito comum nós termos situações, e agora vou dar um exemplo até um bocadinho desagradável, forte. Eu recordo-me de uma situação de alguém que viveu num contexto de violência doméstica e presenciava isto entre os pais.
Não presenciava diretamente, percebia que estava a ocorrer porque os pais fechavam a porta do quarto. E adulta, esta pessoa dizia frequentemente, lidava com uma carga de culpa que a consumia por dentro, e dizia frequentemente, mas a culpa é minha, a culpa é minha porque eu deveria ter conseguido abrir a porta do quarto e impedir aquilo. Tu tinhas quatro anos quando isto aconteceu, como é que tu fazias isto? Só para nós termos noção que, efetivamente, o nosso passado, mesmo situações que não foram elencadas com tanta gravidade como estas que eu acabei de dizer, há situações que são interpretadas ou vivenciadas por nós como eventos traumáticos que nos paralisam no tempo e que têm um impacto naquilo que pode vir a
desenvolver-se em termos de patologia no dia de hoje. O tempo passa, mas com certeza nos próximos episódios nós voltaremos a este assunto, que é sem dúvida muito pertinente. De alguma forma desejamos que seja a sua vida que agora esteja a recordar alguma coisa do passado, que ainda aí esteja, ou então também, e a doutora Cristina estava a falar e eu estava a pensar, quão importante é nós passarmos tempo de qualidade com os nossos filhos. aqueles que ainda os têm pequenos, aqueles que ainda podem acompanhar os seus filhos na sua tenra idade para deixar exatamente uma herança futura de força, de uma firmeza que, sem dúvida, para o futuro lhes traga boas memórias e não traumas de infância.
Foi bom estar consigo, estaremos juntos, na graça de Deus, no próximo episódio. Até lá e que Deus o abençoe.