Seja muito bem-vindo. Hoje, no programa Olhos nos Olhos, sentamo-nos frente a frente com uma voz que escreve para curar, provocar e acordar consciências. A nossa convidada é Wilma Vieira, poetisa cabo-verdiana da nova geração, autora da Menina de Cor e o Silêncio dos Bons, duas obras onde a poesia não é ornamento, é sim denúncia, oração, abraço e, muitas vezes, espelho. Ainda autora do programa Pensar em Voz Alta, aqui com os nossos vizinhos da rádio RCS. O Wilma escreve sobre identidade, fé, infância, dor, amor, preconceito e silêncio. Silêncios impostos, silêncios escolhidos e silêncios que gritam. Esta conversa não será apenas sobre livros, é sobre vida, coragem, sobre aquilo que carregamos por dentro e muitas vezes não conseguimos encontrar as palavras certas para descrever o que sentimos.
A nossa convidada consegue. E
Wilma, muito bem-vinda, muito obrigado por estares connosco aqui no Olhos nos Olhos. Tu és talvez a convidada mais nova que já tivemos. aí Fazendo assim aqui um balanço, diria mesmo que és a convidada mais nova que nós já tivemos. Acreditas que dos teus, posso dizer a tua idade? Pode. 27? 28. 28 anos. Acreditas que a tua história de vida poderá inspirar alguém que vá ver este programa? Antes de mais, gostaria de agradecer pelo privilégio de estar aqui, realmente sendo a mais nova. Confesso que quando estive a ver por alto os convidados que tinham vindo nas edições anteriores, eu fiquei a sentir-me um pouco pequena. Ao ver essas pessoas com muita bagagem, com muita história, com muita experiência, perguntei para Deus o que eu viria aqui fazer.
Então ele fez-me ver que realmente eu tinha que vir aqui falar o que ele tem feito na minha vida e através dela. E pensando por este ângulo, a duração do programa começou a parecer pouca. Então, eu diria que sim, que a minha história é um instrumento nas mãos de Deus para inspirar vidas. Tanto por aquilo que faço, como por aquilo que sou. Uma mistura de conquistas e derrotas. Uma mistura de erros e acertos. E mais do que ser alguém conhecido, a minha maior missão é ser alguém que vale a pena conhecer. Então, eu digo que sim, De uma forma ou de outra acabo por inspirar alguém e graças a Deus até então espero que tenha sido de uma forma positiva. E é um grande privilégio poder estar nessa posição de ser usada por Deus para ajudar as pessoas a serem cada vez melhores.
E o privilégio também é nosso, porque vamos conhecer-te melhor, vamos conhecer também o que tens escrito. Posso já dizer, até porque acredito que os nossos espectadores já tenham visto, em cima da mesa temos dois livros, ambos escritos por ti. Já vamos falar sobre eles. Eu se calhar começaria pelo início. Tu nasceste há 28 anos na cidade da Praia, no Cabo Verde. Exatamente. Está correto? Está correto. Nós temos algumas imagens que nós conseguimos. Elma, tinha que ser, tinha que ser. Vamos ver algumas imagens tuas, ainda bem pequenina. Precisamente, onde é que é isto, Elma? Explica-nos. Acho que não sei, mas acho que na cidade da praia. Mesmo na... Terias o quê? Dois anos? Dois anos, sim. Foi no meu batizado, sim.
Foi na cidade da praia. Ou seja, isto foi em 1999. Por aí. Por aí, exatamente. Há mais duas fotografias tuas. Aqui, quem és? Aqui? Sou eu e o meu irmão, que nessa altura... És a mais velha? Sim, sou a mais velha. Acho que ele teria alguns meses ali nesta foto. E temos ainda uma terceira foto. Esta aqui, Wilma. Vocês pesquisaram mesmo? Nós temos uma equipa que trabalha. Esta foto, talvez teria seis anos, por aí. Tu, Wilma, daquilo que os vou saber, tu sempre foste boa aluna. Nunca tiveste dificuldade na escola. Aliás, até parece-me que tu eras exigente demais contigo mesma.
Tu sofrias quando não tinhas a nota máxima. Sofria. Eu acho que, do que eu me lembro, a partir do terceiro ano que eu comecei a ser assim uma boa aluna. Ligo isto ao facto de ter mudado para a Igreja Adventista o sétimo dia, o meu comportamento mudou, o meu aproveitamento também escolar. Ou seja, quando falas terceiro ano, do ensino primário. Do ensino primário, sim. Quando terias oito, nove anos. Oito anos. À volta disso, oito anos. E sentis que houve então uma mudança aqui, tornaste-te mais autodisciplinada, mais exigente. Sim, sim. O que é que muda? Tu tinhas alguma denominação religiosa antes ou não? Nós éramos católicos e depois, a partir dos meus oito anos, os meus pais começaram a conhecer o Evangelho da Igreja Adventista, então fomos mudando e houve assim essa transição que marcou ali um pouco a minha infância. E o que é que muda então para uma criança, aos oito anos, abraçar uma fé diferente daquela que tinha?
Os pais também, a família toda, presumo. Já agora como é que conheceram a fé Adventista? Foi através de uma pessoa que começou a... Eles faziam bastante evangelismo porta a porta. Então, bateram a nossa porta um dia. Primeiramente foi a minha mãe que começou a abraçar e depois toda a família foi atrás. Tu sentias então uma responsabilidade maior e era isso que te fazia também querer estudar mais e querer ser melhor naquilo que fazias? Sim, porque nós aprendíamos que os cristãos têm de ser bons alunos, que têm de se comportar de uma forma diferente. Então eu levei aquilo a sério e comecei a notar que o meu comportamento mudou, só que esta mudança eu comecei a perceber anos mais tarde, que foi nessa altura que houve assim essa transição. Porque, até então, eu lembro-me que, nessa altura, o que mais me chocou dessa transição foi...
Nós comíamos carne de porco e depois deixamos de comer. Todos os pequenos almoços eram... tinham, assim, uma coisa característica. Bacon, feiambre, alguma coisa. Linguiça e tal. E era eu própria que ia comprar, ainda bem pequenina, ia comprar para o nosso pequeno almoço. Então, aquilo acabou. Foi o choque maior que eu tive do que eu me lembro. Essa mudança de hábito foi fácil ou difícil para ti? Foi paulotinamente, sim, mas tenho que dizer que me fez um pouco falta na altura, para o meu lado da altura. Foi o que, como criança, foi a mudança que eu mais percebi. E quando tu regressas à Cidade da Praia, anos 90, mais ou menos, anos 90 e início dos anos 2000, não é?
Que imagens é que te vêm à memória? Lembro-me da Wilma, que brincava sempre nas ruas, com os amigos, com os vizinhos, e era quase que um momento sagrado de irmos às ruas e enchermos de terra, de lama, inventarmos brincadeiras, como os recursos não eram tanto, então nós inventávamos os nossos próprios brinquedos e as brincadeiras, e depois ir para casa tomar aquele banho e dormir aquele sono perfeito, que hoje se desconhece. Temos uma imagem que eu gostava que comentasses. Esta um bocadinho mais velha, mas retrata uma realidade de Cabo Verde, que infelizmente aqui em Portugal já não se vê muito. O que é que está a acontecer aqui? Explica-nos. Ali eu estava bem em frente à escola onde a minha mãe dá aulas.
E é uma coisa muito característica nossa, que é essas vendas assim na rua, de coisas que as próprias pessoas fazem e acabam por ganhar as suas vidas dessa forma, ao fazer essas vendas. E depois de lá comprar alguma coisa. Sim. Chegaste a fazer também tu própria estas vendas quando eras criança? Mas tu cresceste já rodeada de livros, num ambiente que já te levava muito à leitura, a de querer explorar mais e conhecer mais. Sim, porque os meus pais são professores, então a nossa casa tinha sempre muitos livros. Professores de que áreas? A minha mãe é professora de literatura portuguesa e o meu pai é professor de matemática. Então sempre te inclinaste mais para a área das ciências exatas ou das ciências humanas? Das ciências humanas, por incrível que pareça, sim.
A verdade é que depois acabaste por fazer algo ligado à saúde, não é? Exatamente. Mas antes de nos debruçarmos sobre isso, explica-me então.
Tu resolveste sair de Cabo Verde com apenas 17 anos, nem sequer eras maior de idade. 17 anos. Porquê que isto acontece? Sentiste necessidade ou foste influenciada? É uma coisa muito comum que é nós terminarmos o secundário e migrarmos então para darmos continuidade aos estudos. Tem muito a ver com talvez a não existência de vários cursos, de uma diversidade de opções em Cabo Verde e também porque há muita essa associação de que quem estuda fora tem mais bagagem, o que é verdade porque vamos ter que nos adaptar a uma outra realidade, a um outro país, e como seres humanos mesmo vamos crescendo, porque deixamos o aconchego da nossa família, da nossa terra, lugar que nos é confortável. Então há muito essa associação ao crescimento e algo que vai ser adquirido para depois trazer uma mais-valia para a nossa própria terra.
Então é algo que é muito comum nós deixarmos a nossa terra para virmos estudar fora. Mas, paradoxalmente, tu escreves muito sobre a tua infância e muitas vezes classificas ela como o lugar de verdade. Porquê que atribuis então a tua infância como sendo este lugar de verdade? É cabe ver deste lugar de verdade ou é a infância de qualquer um que é o lugar de verdade que tu falas? No meu caso, as duas coisas, tanto o Cabo Verde como a infância em si. Uma das coisas que eu mais falo, não sei se já posso ir falando nos livros, mas falo no livro, pelo menos no segundo, é sobre a infância, sobre a importância dessa fase ser vivida da forma como é adequada para que as crianças vivam nessa fase, não é? Agora o segundo livro é este, o Silêncio dos Mortos.
Exatamente, um dos temas mais predominantes é esse mesmo, o da infância. Porque eu pude brincar bastante, eu pude ser criança, apesar de ser a filha mais velha, tive também a responsabilidade de cuidar dos meus irmãos, mas também tinha os meus momentos de brincar, de aproveitar essa fase da forma como ela deveria ser. E é uma das coisas que mais me indigna hoje, que é o facto de ver que talvez as crianças não estejam a poder aproveitar isso, talvez estejam a ser expostas a situações que não era suposto estarem a ser expostas por causa da sua idade, da mentalidade, da maturidade que têm. Então, eu diria que a minha infância foi um lugar onde eu pude Descobrir um pouco de quem era Wilma, pela forma como eu a vivi, pelas pessoas que me rodeavam, foi uma fase também um pouco desafiadora.
Claro, tem coisas que nós vamos adquirindo na infância, que vão nos acompanhar durante toda a nossa vida. Então, eu digo que tanto a infância em si, como o ter vivido aquilo em Cabo Verde, de poder brincar nas ruas, de ter tido essa segurança, Também explorar a minha imunidade, brincar com bichos, com terra, essas coisas todas. Tudo isso influenciou para a minha identidade e, sim, foi um lugar de verdade para mim. Apesar de seres muito jovem e da tua infância ter sido numa era onde já, de alguma forma, havia telemóveis ou não havia como hoje, mas já havia acesso a certas coisas que, por exemplo, na minha geração e nas gerações anteriores não havia. Tens esta visão de que está, de alguma forma, a suprimir-se ou até a amputar uma parte muito importante das novas gerações, que é precisamente a sua infância.
Sentes isso? Tens essa visão? Uma visão muito mais próxima do que nós, que somos mais velhos? Sim, completamente. Porque eu, na minha fase, tive muito das telas, porque uma coisa que era muito recorrente era a falha de energia elétrica. Então, o que acontecia nessas fases? Depois de brincar, nós juntávamos com os vizinhos e o nosso pai contava-nos histórias que nós ficávamos completamente fixadas, tal qual as crianças ficam fixadas nas telas hoje. Nós ficávamos completamente ali, atentas, a ouvir a história, sem perder nenhuma parte. E algumas histórias eram engraçadas, outras eram assustadoras. E era uma coisa até engraçada porque No meio da história, alguém pedia, ah, pode ir lá dentro buscar um copo de água para me trazer e estávamos sem energia elétrica e era aquele medo, pânico, quem é que irá se levantar para ir buscar o copo de água para trazer?
Então, são memórias que eu tenho assim, bem vívidas na minha mente e que... Opa, foram coisas que realmente me marcaram, porque não é o que nós vemos hoje em dia. Então, eu vejo que essa parte de não ter sido muito exposta a telas... Eu lembro-me também da época em que a nossa TV só tinha quatro horas de emissão. Então, tinha a hora certa para começar, a hora certa para terminar, então nós ficávamos naquele período só a assistir e depois não tinha mais nada, tínhamos que inventar... E o que é que dava nessas quatro horas? Havia desenhos animados, um programa de música, jornal e depois tinha telenovela. Ou seja, em 2003, 2004, deve ter sido por volta destes anos, vocês tinham uma TV em casa que só tinha um canal que dava quatro horas.
Era só um canal e eram quatro horas de emissão. Começava tipo às seis da tarde, terminava às nove da noite e era isso. E vocês reuniam-se nessa altura? Era um momento alto ou era algo importante? Exatamente, era toda a família junta ali a assistir aquilo. Quando não tinha energia, inventávamos outras coisas, então havia sempre algo que fazer e era uma coisa muito saudável. E até que anos é que se mantinha assim? Presumo que agora não seja assim, naturalmente, mas até que anos é que só havia quatro horas de emissão? Não sei precisar, mas talvez 2006, 2007. Foi durante algum tempo. Sim. Creio que foi por aí. Agora já temos quase mais período que 24 horas. Sim, normal. Sendo então que, com 17 anos, resolves sair de lá.
Vieste sozinha para Portugal? Vim sozinha. Não conhecias ninguém? Vim sozinha, mas tenho cá alguns familiares. Então, fiz a viagem sozinha, mas tinha aqui algumas pessoas para me receberem. E chegando a Portugal foi complicado para ti, foi um mundo diferente, ou tu já vinhas de alguma forma preparada, muito por ver todos os livros que tu tinhas lido na tua infância. O facto de termos a mesma língua oficial, isso ajudou bastante, mas eu tive lá os meus desafios. O mais crítico de todos é as saudades de casa, porque era a primeira vez que eu estava saído perto dos meus pais, ainda mais por um tempo assim tão longo. Depois, outros desafios, que era adaptar-me ao clima.
O meu primeiro inverno foi muito difícil. Porque eu venho de um país onde nós temos verão o ano todo e não sabia o que era esse frio de verdade e chuva. Que era um casaco grosso, no fundo. E em Cabo Verde, às vezes, quando temos muita chuva, aquilo é desculpa para não termos aulas, para não termos que trabalhar, essas coisas. E aqui a chuva não é desculpa para nada. Esse ter de adaptar e ter de fazer as coisas independentemente do clima. E também eu lembro-me que no início eu me perdia bastante quando eu ia para as aulas. Eu acredito que os professores ficaram com uma má impressão minha por causa de chegar atrasada, mas era porque eu me perdia pelo caminho mesmo. E até conseguir-me acertar com o GPS e chegar às aulas era mesmo um desafio.
Porque todos os caminhos me pareciam iguais. E até conseguir lembrar como é que era e depois acostumar-me aos transportes, que nós não temos assim tanto em Cabo Verde, nem precisamos. Mas todos esses desafios aqui foram... Eu acho que esses até são secundários, o do clima e tal, mas as sociedades de casa foram mesmo desafiadoras. Há dores que só ganham nome quando são escritas, Wilma. Quando chegaste a Portugal, descobriste novas dores e começaste a escrever sobre
elas. Exatamente. Falando do meu primeiro livro, Menina de Cor, foi precisamente de algo que eu vim a descobrir aqui em Portugal, que é realmente o racismo, porque em Cabo Verde, por razões um pouco fáceis de se compreender, não havia como eu perceber que Até tinha uma noção teórica do que era isso, mas aqui comecei a ver um pouco na prática que realmente aquilo existia e comecei a sentir a dor que aquilo representava. Mas era explicado, quando eras criança, era explicado isso nas aulas, o que era o racismo, ou não, era algo tão transcendente que nem sequer era falado. Sim, era algo que era explicado, mas era um pouco por alto.
É como nós falarmos dos flutuantes que vão à Lua, algo assim, ou não? Ou mais concreto? Sim, porque não era algo que fazia tanto parte da nossa realidade. da nossa realidade em si. Até em programas de televisão falava-se alguma coisa, mas são coisas que só quando se vive mesmo na pele é que se começa a ver que aquilo realmente existe e as dores que aquilo causa. Então, quando eu comecei a trabalhar, precisamente durante os meus primeiros meses de trabalho, porque, enquanto eu estudava, não me recordo de ter tido nenhuma situação que eu possa dizer que isso foi uma discriminação ou algo do género. Mas quando eu comecei a trabalhar foi quando eu comecei a notar algumas coisas diferentes. Tu chegaste a Portugal em 2015?
2015. Fizeste o teu curso de saúde na área de audiologia. Exato. Até que anos, mais ou menos? Terminei em 2019, foram quatro anos. E sempre uma alunizinha, muito preocupada, muito atenta, não tinhas problemas nenhums. De que alguma forma então é que a poesia aqui entra, não é? A poesia acabou por te salvar de alguma coisa que tu estavas a viver. Exatamente. Sempre eu usava a escrita como uma forma de desabafo. E, à medida que eu fui crescendo, começou a deixar de ser simplesmente um instrumento de desabafo para ser algo para outras pessoas, nesse caso. É claro que, ao desabafar, as pessoas podem se identificar com aquilo que nós escrevemos, mas também começamos a escrever porque começamos a ter esse compromisso com a escrita, de saber que, de alguma forma, o que nós escrevemos inspira outras pessoas e podem até começar a representar realidades que não são nossas, porque nem tudo o que eu escrevo é sobre mim.
mas eu acredito que Deus deu-me uma sensibilidade ao escrever. Até algumas pessoas pensam que a Wilma viveu isso e tal, mas não necessariamente. Pode ser que eu esteja a interpretar tão bem aquilo que outra pessoa viveu. Então, eu digo que... É uma forma de eternizar algumas dores, não no sentido de que ela seja eterna, mas para me mostrar que ela existiu, mas que houve uma solução, que ela acabou por amenizar, por ter a sua solução em algum momento. Nós já vamos então começar por folhear este primeiro livro, Menina de Cor, livro que foi lançado em 2021, mas fazemos isso depois de um curto intervalo e voltamos já a seguir. Estamos olhos nos olhos com a nossa convidada de hoje, a mais jovem de sempre
aqui no programa, Wilma Vieira. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança. Segunda parte do programa Olhos nos Olhos com uma jovem autora poética cabo-verdiana, Wilma Vieira, a nossa convidada de hoje. Wilma, eu iria propor-te para vermos mais algumas fotos que nós temos aqui de tuas. Ok. Queria que comentasses a próxima foto que nós aqui temos. Que momento é este? Este é um momento muito especial que teve o seu acontecimento no final de 2025, onde uma das minhas melhores amigas se casou. Foi bem recente.
Temos uma outra imagem que eu também gostaria que pudesses comentar. Aqui é a tua família, não é? Aqui é a minha família. Ou seja, o professor de matemática, que é quem está mesmo do lado direito, não é? Sim. É muito jovem o teu pai. Quantos anos tem o teu pai? Ele tem... É de 79? Então tem... É, jovem sim, 79. 40 e... Sim, sim, sim. Mas ele tem um aspecto muito jovem. E é jovem, é verdade. A tua mãe é que está ao teu lado direito, não é? Exatamente. Tu estás com o telemóvel e depois são os teus irmãos? São os meus irmãos. A tua irmã e o teu irmão. Sim. E ainda mais duas fotos que eu também gostaria que pudesses comentar. Esta aqui é onde? Em Cabo Verde também. Isto foi o lançamento do segundo livro, O Silêncio dos Bons, em Cabo Verde. Isto foi em 2025, o final também.
Esta será a que melhor te caracteriza? Sim, eu diria que sim, num momento reflexivo. E foi nos dias em que eu tinha recebido o livro da editora. Ah, ok. Então estava a 26 de Março. Qual é a sensação de receber o livro impresso pela primeira vez? O cheiro, todos os detalhes são muito, muito especiais. Gostas mais de ler ou de escrever? Pergunta difícil. Sinceramente, não sei. Não sabes? Cinquenta ou cinquenta? Mais ou menos por aí. Eu gostava de partilhar agora com os nossos telespectadores um vídeo. Este vídeo é, no fundo, uma apresentação que fizeste, creio que numa feira do livro. Vais-me ajudar a perceber.
e aí e aí Estamos a falar na apresentação deste livro, não é? O Silêncio dos Bons. Explica-nos então qual o roteiro, o que é que aconteceu ali?
Aquilo em Cabo Verde, Portugal, é onde? Foi aqui em Portugal, nos Jardins do Palácio do Cristal, no Porto, e foi uma sessão de autógrafos que aconteceu em agosto de 2025. Ou seja, ainda nem há um ano passou, muito bem sucedido. Havia ali muita gente que queria conhecer-te e queria conhecer um pouco mais sobre a tua poesia. Sim, grande parte eram os meus amigos que foram lá também comprar o livro e também ouvir um pouco sobre ele. Como é que recordas aquele dia? Eu estava muito feliz. Foi um dia muito feliz. Até ganhei um bolo e tal. Ganhei muitos presentes, flores, que eu gosto muito. E os abraços, com certeza, são os mais marcantes daquele momento. Vamos então agora debruçar-nos sobre o teu primeiro livro, Menina de Flores.
Já falaste sobre ele. Esta menina existe? É foto dela ou é apenas um banco de imagens? É um banco de imagens. Ah, ok. Então, antes de começarmos sobre o livro, como é que tu consegues ter uma
editora tinhas contactos ou esta editora, Cordel Prata, que escrevesse, que editasse os teus livros? Então, foi assim, eu participei de um concurso que a editora tinha lançado para novos autores. Não ganhei o concurso, porque o prémio era eles publicarem a obra por conta deles. Como eu não ganhei? Eles depois entraram em contato comigo a dizer, apesar de não ter ganho o prémio, nós temos interesse em publicar na mesma o teu livro. E foi o que aconteceu. Dali em diante demos início ao processo. E serviu. Terá sido aquele telefonema, não sei se foi um telefonema ou se foi alguma reunião presencial, que acabou por mudar esta tua ideia de escrever para mim e para os meus amigos e escrever para pessoas que eu não conheço.
Eu acho que tinha sido um e-mail. Acho que tinha sido um e-mail que eles enviaram-me. O que é que pensaste quando recebeste aquele e-mail? O que é que tu pensaste na altura? Provavelmente eu pulei da alegria. Porque eu já tinha participado noutros, anteriormente, que eu não ganhei. E por ser uma coisa que tem muito o meu coração, devo ter ficado um tanto triste por causa de não ter ganhado e tal. Então, quando finalmente, e no momento em que eu estava bem descansada, tranquila, e talvez não tanto a espera... Conformada, se calhar. Sim. Receber essa notícia foi tirar-me do meu estado de equilíbrio para um estado de euforia. Então, lembro-me que sim, que foi um momento muito feliz também. Eu li o teu livro, vou confessar que não li todo, mas li alguns dos poemas que tem aqui e são lindíssimos.
E o que é que eu fiz? Eu fiz aquilo que qualquer preguiçoso faz, que é coloquei o teu livro na inteligência artificial para pedir para ele me dizer alguma coisa. E aquilo que ele escreveu foi, Menina de Cor é um livro de afirmação identitária. Tu vais me dizer se concordas com o que ele escreveu ou não. A obra percorre temas como racismo, pertença, deslocação, feminilidade, fé e humanidade comum. A voz poética move-se entre a menina que observa o mundo com espanto e a mulher que enfrenta olhares que os magam. E depois gostei muito daquilo que ele escreveu, que é um livro que não grita, mas também não se cala, escolhe a dignidade da palavra. Concordas? Concordo. Não gritas num livro. Fez um bom trabalho. Não gritas, mas também não ficas calada. Não grita, não grita, porque falando um pouco do processo de escrita deste livro, eu lembro-me que normalmente quando eu escrevo, a primeira coisa que eu tenho é o nome do livro.
Curiosamente, eu acho que os meus colegas que também escrevem pensam no título depois de já ter o livro e tal. Vão ver qual é o título que mais se adequou. Mas eu tenho primeiro o título e depois vou desenvolvendo o livro. Neste caso de Menina do Corpo, tem algumas coisas que eu já tinha escrito na adolescência. Depois, claro, fui reformular, escrever de outra forma. Mas já tinha algumas coisas que eu vinha escrevendo. Sempre com aquele sonho de um dia eu vou ser escritora. Vocês fizeram um excelente trabalho de pesquisa. Não sei se encontraram o vídeo que eu disse que eu queria ser escritora. Eu tinha 14 anos na altura. Então, eu tinha esse sonho de ser escritora, mas era uma coisa que me parecia assim, bem longe. Até porque os escritores com quem eu tinha contato eram bem mais experientes, eram com mais idade, com mais história, então eu sentia que para eu escrever alguma coisa, teria que ter também mais idade, mais experiência, talvez lá por volta dos 40 ou algo assim.
Foi então compilar aquilo que eu já tinha e outras coisas que eu fui escrevendo, ainda mais depois que eu soube que eles queriam publicar, também fui escrevendo outras coisas. E culminou com essa situação que foi um dia desafiador, de ter passado por uma situação um pouco complicada, onde a pessoa precisamente utilizou essa expressão, menina de cor, então aproveitei e peguei neste gancho. Talvez a pessoa não tenha feito com a intenção de ferir, mas acabou por acontecer. mas eu peguei naquilo, talvez uma pedra bruta, e transformei em algo de valor. Mas foi alguém então que, numa conversa contigo, atribuiu-te esse nome, Menina de Cor, a ti, Wilma? Foi isso que aconteceu? Foi no ambiente de trabalho, e pronto, foi utilizada essa expressão de uma forma não muito agradável.
E nesse dia eu escrevi o poema que deu nome ao livro, Menina de Cor, era um poema mais intenso. Depois tive que reformular, precisamente para que o chato CPT pudesse dizer que não grita. Ou seja, o intenso era mais violento, se calhar era isso, ou não? Era, era mais visceral, era algo mais... Sim. Ainda tens esta versão, ou não? Não me sentindo de atacar a pessoa. A versão maiores do dezoito. Podes ler este poema? Claro, claro que sim. E depois eu gostava que o comentasses. Com certeza. Então. Menina de cor. Cada conceito carrega uma história. Cada preconceito marcas na memória. Menina, por que choras?
Exclui-me pelo tom que repousa em mim. Não dá para ser forte todos os dias. Abelidar-me menina de cor. Menina de cor? Cor se faço for nos meus sonhos. Sim, enchi meus sonhos de cor e tornei-me uma menina de sonhos. Quem sonha não perde tempo nas palavras de um coração confuso, a tentar convencer de fora para dentro que o que os olhos veem é apenas um detalhe. Não sou racista, dizê-lo pronto para um debate. Mal sabe que a cada rejeição, com olhares, palavras ou ação, surge um novo tema, que aos poucos dá forma ao meu poema. E esta pessoa nunca soube que tu escreveste este poema. Não, nunca soube.
Provavelmente nem sobraram. E agora a nossa produção trazia a pessoa. Não fizemos isso. Mas é lindíssima a forma como tu aqui refletes sobre este assunto. Foi no próprio dia à noite? Foi no próprio dia. Foi no próprio dia que eu escrevi. Provavelmente ainda estava no trabalho. Às vezes costumo rabiscar algumas coisas. e tu sofres mais com o preconceito, ou escreves mais sobre o preconceito, melhor dizendo, ou no fundo, quando tu aqui escreves, cada conceito carrega uma história, cada preconceito marcas na memória. O que é que significa isto, no teu entendimento? Quero dizer que as nossas atitudes podem marcar profundamente uma pessoa, ainda mais, eu estava numa fase que era delicada, porque eu estava com os meus 21 anos, era o meu primeiro emprego da vida.
Eu já estava com aquela coisa de que todos os estudantes, quando saem da faculdade, não vão conseguir emprego, não vão dar conta. Então, eu já tinha toda essa pressão, todas essas expectativas, esses desafios de ser uma boa biologista, de, ok, agora eu tenho um paciente real, já não são os meus colegas que estão à minha frente, tenho um paciente real à minha frente, eu tenho que saber o que é que eu vou fazer. saber lidar com os imprevistos e depois eu tinha esse acréscimo que era essa situação de racismo que às vezes acontecia mas hoje eu olho para trás e eu vejo que realmente aconteceram essas coisas mas eu percebo que às vezes as pessoas tinham um certo preconceito por causa da minha cara juvenil e por nós estarmos a falar de um contexto de saúde eu sei que as pessoas Querem confiar a sua saúde a uma pessoa experiente, quanto mais idade tiver a pessoa melhor.
O meu patrão tem 87 anos e as pessoas só querem ter consultas com ele. Porque associam sempre a experiência, a idade, a confiança a um lugar onde podem realmente estar tranquilos porque vão ser vão ter a solução para o seu problema. Então acredito que foi sim racismo, em algumas circunstâncias, inclusive nesta que deu origem ao livro, sobre o qual eu sou muito grata até hoje, mas também houve situações em que a pessoa talvez ficou assim um pouco incomodada por eu ser muito nova e eu estar ali para cuidar da saúde dessas pessoas. E, se calhar, para outra pessoa, apenas irei pensar, eu sou simplesmente muito nova e acham que eu possa ser inexperiente, mas, na verdade, poderá haver, vítima deste preconceito que falamos, um entendimento um bocadinho mais profundo do que foi o que aconteceu no teu caso e daí ter escrito este poema.
Exatamente. Foi um conhecimento que ajudou-me a dar o ponto a pé num grande sonho que eu tinha, que era de escrever. E já que falamos, há bocadinho eu fiz o trabalho do preguiçoso que era pedir aos 7 GPT, desta vez fiz o trabalho, acho que melhor, de perguntar a quem sabe sobre a tua obra, que no fundo também não foi assinada por aí além, mas foi ler o prefácio escrito por Ailton Moreira, quando ele também é um poeta escritor cabo-verdeano. E ele diz, a autora comestria se apropria de sentimentos como um instrumento delicado com que opera mudanças cirúrgicas em todos nós. Sim, estimado leitor, diz ele, através destes versos a Wilma operou profundas mudanças no meu eu, inconsciente e inerte, pelas intempérios dos tempos atuais, também conseguiu captar as sutis mudanças que a sua arte de poetizar operou em sua própria vida.
A poesia se tornou um subterfúgio para os seus dilemas pessoais, que teve de experimentar num país novo, longe de um aconchego do seu amado e saudoso larcave verde. Nesta dualidade entre uma menina moça que luta contra os seus próprios desafios longe de casa e uma mulher de fé que educa com a sua forma de ser e viver, respingam-se em nós, leitores, a sua ineserável arte personificada, que é este livro. Exato. E como é que tu traduzes a fé com temas tão difíceis como aqui nós encontramos? Enfim, eu vou-te pedir para leres ainda um outro, mas como é que tu tentas introduzir a fé nestas temáticas?
Então, falar de menina de cor é falar sim dos seus desafios, mas essa menina encontrou um lugar onde esses desafios foram foram resolvidos, por assim dizer. É um tema que eu exploro um pouco mais no meu segundo livro, que é a questão da fé, a questão de onde essa menina de cor encontrou realmente um lugar de refúgio, de solução para os seus dilemas, porque quando eu saí da casa dos meus pais, Eu até então servia ao Deus dos meus pais, posso assim dizer. Eu ia à igreja porque os meus pais me levavam. Podia ter até algum prazer em fazer isso. Não me lembro nunca de ter ido à igreja forçada, nem nada disso.
Mas quando eu vim aqui e eu fiquei na casa dos meus tios por algum tempo, os meus tios não são cristãos, Então eu tive que decidir o que eu iria fazer com a minha fé. Foi então que eu digo que eu tive os meus encontros com Deus e pude conhecê-Lo verdadeiramente. E eu digo que todos estes desafios que a menina de cor ultrapassou foi graças à sua fé, que eu louvo ao Senhor porque eu poderia de estar no outro caminho hoje, mas eu estou no caminho dele ainda. Continuo a seguir aquilo que os meus pais me ensinaram e que agora fazem sentido para mim, porque eu fui pesquisar, fui por mim mesma tentar conhecer. Então, foi aí que a menina de cor encontrou o seu refúgio. Hoje mesmo, Wilma, tu publicaste nas tuas redes o poema Incomoda, e tu escreves assim, continua a fazer sentido, dizias, escrevi aos 21 e continua a fazer sentido.
Este poema incomoda. Posso pedir que o possas ler também? Posso. E que no final gostavas de saber porquê que, enfim, sete anos depois, este poema ainda incomoda. Incomoda? Se incomoda, então por que não falar à pessoa certa? É que o coração já se acostumou. É preferível o disse-me-disse. E assim vai. Sim, incomoda. Mas para que falar se não há mudança? A maior mudança acontece na mente de quem não se cala, de quem não é indiferente ao injusto. O caráter é maldado, a alma descansa e quem sabe, um dia alguém é contagiado. Tem um contexto? Este poema?
Uma história por trás? Ou foi apenas uma necessidade de exteriorizar algo? Não me lembro do contexto específico. Infelizmente já se passaram vários anos e já não consigo me lembrar. Mas por alguma razão hoje publicaste nas tuas redes sociais que fazia todo o sentido ainda hoje, não é? Fazia todo o sentido, porque eu fui ler... Às vezes quando eu vou ler as coisas que eu escrevo, eu fico assim, uau, eu escrevi isto. Mas há momentos que eu penso assim, ok, eu escrevi isto. Sim, é uma mistura de sentimentos que dizem que o nosso primeiro livro normalmente é o nosso pior livro, não é? Convém que assim seja porque significa que vamos evoluindo. Este texto continua a fazer sentido para mim porque eu continuo a pensar que se
algo incomoda nós devemos falar com a pessoa, dentro daquilo que é possível, e que mesmo que não haja mudança na outra pessoa, em nós alguma coisa irá acontecer, não é? Alguma mudança irá acontecer em nós. Vamos agora para um outro livro, que é o Silêncio dos Bons, Notas de um Coração Inconformado. E este livro não tem apenas poemas, tem também notas e cartas. Queres nos explicar o porquê de teres diferenciado em três formatos, digamos assim, de escrita, entre estas cartas que tu escreves, cartas dirigidas a entidades diferentes, algumas até a Deus, não é? Sim. E estas notas e depois os poemas. Neste livro eu fiz este mix porque mostra um pouco dessa minha intenção de transitar para o prosa, embora eu acredite que sempre vai haver poesia.
Na minha forma de escrita, sempre, mesmo escrevendo em prosa, eu acabo por incutir o poema lá dentro, a poesia lá dentro, acredito que seja a minha essência. Então, além de demonstrar esta transição do poema para outras formas literárias de escrever, mostra também essa diversidade que existe dentro do mundo da literatura. Há coisas que eu consigo expressar através de um poema, mas há circunstâncias que eu É um texto corrido que eu consigo expressar aquilo que eu quero dizer. É uma carta que talvez eu gostaria de ter enviado a alguma pessoa em específico, mas que eu tenha chegado à conclusão que poderá fazer sentido para mais pessoas. Então, acabei por utilizar essa diversidade que a língua portuguesa nos concede e aproveitar para tentar expressar de formas mais profundas e da forma como melhor se adequa cada verdade que aí está.
Queres ler o que é que o Chet JPT disse sobre este livro? Quero. No caso, ouvi. O silêncio dos bons notas de um coração inconformado é uma obra mais madura. mais densa e mais espiritual, precisamente aquilo que disseste há pouco. Aqui a poesia convive com cartas e notas flexíveis, já vimos. O livro fala de silêncio cúmplice, hipocrisia social, dor emocional, fé, saúde mental e responsabilidade moral. É um livro que questiona quem somos quando escolhemos não falar. Ou seja, isto é o que eu dizia na introdução, a questão dos silêncios, o silêncio dos bons. Isto é uma expressão que vem de Martin Luther King. Exatamente. Foi a inspiração do livro. Eu vejo o silêncio como algo que é uma resposta, em várias circunstâncias, mas noutras pode até ser um cúmplice de algo que nós poderíamos fazer alguma coisa para mudar e nós não fazemos porque preferimos o comodismo do nosso conforto.
E quando eu falo do silêncio não falo só das palavras em si, mas também das atitudes. Há circunstâncias que não vou mudar alguma coisa falando, mas demonstrando um comportamento diferente, acabo por ter uma influência no sentido positivo naquela circunstância. Antes de folhearmos este livro, que eu vou querer fazê-lo contigo daqui a pouco, é uma pergunta que, enfim, no fundo é quase um pedido que eu te faço. Sentes mudança na sociedade portuguesa? Tu que já estás a viver aqui em Portugal desde 2015. Sentes uma mudança nos últimos anos, em relação quer ao silêncio, quer se calhar ao barulho ensurdecedor em contraste com o silêncio dos bons? Eu diria que sim, também no meu país eu diria que sim. Eu acho que nós temos visto várias coisas acontecerem e às vezes, como não é connosco, preferimos então estar no nosso cantinho.
Eu acredito também que, sobretudo um dos temas, como eu já tinha dito, que é a infância, que eu falo bastante ali da infância, eu acredito que Às vezes parece que os pais já desistiram, já deixaram os filhos agora. Sejam educados pelas redes sociais, sejam educados pelas telas. Um pouco também pelo cansaço, talvez. É um tema que às vezes eu sinto-me um pouco tímida em falar porque não é um tema que eu vivencio, que é a maternidade. Ainda não tive esse privilégio. Mas do que eu observo e escrevo, eu percebo que realmente Talvez estejamos a desistir de dar esse exemplo positivo para as nossas crianças, de dar esse exemplo positivo também para as outras pessoas, para os jovens, que é uma coisa também que eu falo no livro, sobre o que eu acredito na minha geração, apesar de muitos nos colocarem como os mais fracos, eu acredito que dentro dessa nossa geração também sairão pessoas que que farão toda a diferença, por isso, apesar desse silêncio que em todas as eras nos englobou, que é de queremos não interferir em determinadas circunstâncias para não causar problemas a nós próprios ou porque pensamos que não vamos fazer diferença nenhuma, eu acredito que também existem ainda pessoas que fazem o contrário, que vão na contramão e que acabam por exercer a sua influência.
Estamos a folhear este silêncio dos bons e daqui a pouco quero perguntar quem são estes bons que tu falas aqui no livro. Vamos para o nosso último intervalo do programa Olhos nos Olhos com Wilma Vieira e voltamos já a seguir. Terceira e última parte, onde estamos olhos nos olhos com uma autora
cabeverdiana, Wilma Vieira. Tu que também tens um programa aqui, nos nossos vizinhos da RCS. Rapidamente, como é que funciona esse programa para quem quiser ouvir? É um programa semanal que tem a duração de mais ou menos 5 minutos, onde todas as semanas exploramos um pensamento que irá acompanhar a pessoa durante o seu dia e irá ajudá-la nas reflexões, engloba experiências, engloba frases, entre outras coisas. Já vamos falar também no teu terceiro livro que estás a preparar. No entanto, queria agora folhear um bocadinho o silêncio dos bons. Quem são então, afinal, estes bons que ficam em silêncio? Esses bons são pessoas que... que sabem que tem algo que pode trazer uma influência positiva e acabam por se calar.
São pessoas que carregam consigo uma verdade que pode transformar, mas que também podem, em alguma circunstância, preferir não falar. São pessoas que olham para a vida e sentem-se inconformadas com algumas coisas que têm acontecido e também, ao invés de tomarem alguma atitude, preferem o comodismo. E, sobretudo, esses bons são pessoas que são agraciadas com a bondade de Deus em seus corações e que têm um discernimento espiritual de ver as coisas por outros ângulos e que também têm essa responsabilidade de transmitir isso aos outros. Neste livro, tu és um bocadinho mais intensa. Ou não?
Sim. Pode ser visto desta forma também. Acho que sim, que foi mais... Como diz o título, notas de um coração inconformado, eu estava mesmo inconformada. Este livro é bem mais recente, este já é de 2024, tem um ano e pouco, mais ou menos. Porquê que estavas mais inconformada nesta altura? Já estavas mais habituada à cultura portuguesa, já estavas aqui há bastante tempo, há dez anos, nove, nove anos, sensivelmente. De onde é que nasce esta inconformidade com aquilo que estavas a viver? Na verdade, não surge só da observância da cultura portuguesa ou da vivência aqui em Portugal, mas no geral, do mundo no geral. Eu quis escrever porque os temas que aí eu abordo são temas que são universais, que não se referem só a mim.
Como já disse, eu às vezes interpreto as coisas que vejo e me inspiro nas coisas que eu vejo ali. acontecerem. Eu falo ali, acredito que de uma forma mais madura. A minha forma de escrever também, o meu vocabulário, diferenciaram-se um pouco ali neste livro. Por isso, eu digo que é um livro que teve a sua inspiração numa observância geral do panorama do mundo, não só daqui em Portugal. Dás-me autorização para ler o Festival de Hipocrisia? Claro, claro que sim. O Festival de Hipocrisia é um poema que nós encontramos aqui na página 57, que diz o seguinte. Vi com os meus olhos, os meus próprios, mas não posso falar, senão perco amizades. Ouvi com os meus ouvidos, minha mente pensou, não nego, mas não posso falar, senão perco o emprego.
Que a injustiça aperto da minha necessidade de comer. manter-me no topo e na frente, pagar as contas e comprar as minhas coisas. Então calme, não fale. Eu sei. Há coisas que eu sei, são cruéis até de se pensar. Vi a senhora maldade passear por aí, deixaram-na entrar em quase todas as salas, conversei com ela, dela discordo plenamente, arrepia-me a sua metamorfose, mas peço perdão por aquele momento. Eu tive de fingir ser sua aliada. Ela berrava e eu calada, e eu sei, sei que os seus efeitos foram pousar noutra parada. Corpo ileso, consciência dilacerada. Peço-te perdão, adolescente abusada. Peço-te perdão, mulher discriminada. Peço-te perdão, varão injustiçado. Peço-te perdão, idoso trapaceado. Peço-te perdão, pobre jovem, agora desempregada.
Se precisares de alguma coisa, diz, mas a ninguém posso dizer que sei e o que sei, senão fico a perder. Sinto muito que a tua vida já seja um martírio e o meu silêncio o apertar do gatilho, mas não posso, não posso. Até porque se eu falar, quem em mim vai acreditar? Quem sou eu para destruir? Essa dinastia de podridão que não para de fruir. É duro! Intenso! É duro! Porquê que escreveste este festival de hipocrisia? É uma realidade que acontece no interior de vários lugares. Há sempre alguém que é injustiçado e há sempre aquele que vê essas injustiças acontecerem. E como eu escrevi ali, muitas vezes a pessoa sente-se realmente incapaz de fazer alguma coisa e outras vezes prefere não fazer nada porque não tem pode ter consequências que não gostaria de ter.
Não é para causar nenhuma revolução, às vezes eu escrevo para demonstrar uma realidade e levar cada pessoa a refletir sobre o que está ao alcance dela, para ela fazer, nas circunstâncias que ela está. Eu entendo que nem todas as circunstâncias nós poderemos enfrentar assim de frente, Mas o que é que está ao meu alcance para eu fazer para que eu não faça parte ou não seja cúmplice de algumas coisas que realmente se passam? Sentes-te mais vulnerável quando publicas estes textos que de alguma forma nós olhamos e naturalmente que identificamos o autor, no caso és tu, sentes que
tornas-te mais vulnerável por publicares estes textos? Quando nós escrevemos, a partir do momento que o livro sai das nossas mãos, já não temos quase nenhum poder sobre ele, já está escrito, e uma coisa que é boa ao mesmo tempo, não é assim, como é que eu posso dizer, é um pouco difícil, é que o leitor Vai ler e vai interpretar à sua maneira. Com a sua bagagem, com as suas experiências, vai fazer uma leitura que pode ser que se distancie um pouco daquilo que foi a motivação, a inspiração de quem escreveu. Isso é bom porque cada um tem que explorar a sua... a sua interpretação, a sua leitura, mas ao mesmo tempo, se nós formos associar tudo aquilo que está escrito ao autor, Vemos ali uma diversidade de Wilmans que não sei se cabem todos em mim.
Então, é ter essa consciência. O leitor escreve sobre aquilo que vê, sobre aquilo que experiencia. Há situações em que realmente está a falar de si, mas há situações em que está a falar de outra pessoa. O objetivo é que cada leitor possa realmente pensar consigo própria, refletir e trazer aquilo para a sua própria vida, caso faça sentido. Se assim for. Há um conjunto de pessoas, e uma que te conhece bem, e que gostaram também, e que quiseram gravar uma mensagem para tu, vez horas. Olá filhota, tudo bem contigo? Quero-te dizer que és o meu orgulho. Eu te amo muito. Estou aqui deste lado, longe, mas estou perto do teu coração. Estou orando para que Deus realize todos os teus sonhos.
Beijo. Olá Willy, não tenho palavras para expressar a pessoa quem tu és, mas só tenho dizer que te amo muito, que és o amor da minha vida e que tenho orgulho de ser teu irmão. Te amo. Olá filha, bom dia. Tudo bem? Estamos aqui a torcer por ti. Tu és o meu coração falha do peito. Sabes que podes contar comigo sempre. Te amo. Beijinhos. O mais curioso, Wilma, é que o das ciências exatas foi o que disse a frase mais bonita. És o meu coração fora do peito. O teu pai. Se calhar herdaste essa sensibilidade do teu pai. Eu o herdei de tudo.
Eu herdei um pouco de tudo. Desculpa. Eu que peço desculpa por fazer isto, Wilma. Não era a minha intenção. Era a minha maior saudade. Eu herdei um pouco de tudo da minha família, tanto de forma hereditária como a partir da convivência. Então, eu sou o resultado de uma mistura deles todos. Para encerrarmos, Wilma, ninguém melhor do que tu conhece tudo o que está aqui dentro. Há algum poema que tu gostarias de partilhar connosco agora, para encerrarmos este programa? Algo que esteja aqui escrito? Silêncio, todos vamos. Deixa-me ver aqui o que eu posso partilhar.
O silêncio que é o teu último livro. Ainda quero que me digas do que é que vai falar o teu próximo livro. Ainda temos algum tempo para isso. Mas gostava que fosses tu a selecionar assim, sem ter nada previsto. O que é que tu gostarias de partilhar connosco? Pode ser este. Eternamente endividados. Eternamente endividados com a natureza, com os seus infinitos tons de verde, que não nos deixam ser sem esperança, e aos seus afinados sons, que são verdadeiramente canções, e os seus traços, bem delineados, que são verdadeiramente poesia. Há sim, natureza, contigo sim, eternamente endividados.
Endividados com o sol que nos acorda e com a lua que nos cobre a noite. Endividados com o mar que nos banha, com o vento que nos arrasta na dança com as folhas, com o fogo que nos aquece, com a terra que nos alimenta. Eternamente endividados com o mistério das florestas, com o zumbido das abelhas, com o encanto das montanhas. Há sim, natureza, contigo sim, eternamente endividados, e a nossa dívida com o teu autor não cabe em poesia. Sentes-te endividada? Sinto-me endividada. Wilma, o que é que nós podemos esperar do teu próximo livro? No meu próximo livro, já não vai ser tanto paesia, embora acredite que sim, vai ter sempre paesia, eu decidi escrever sobre algo que nasceu de uma inquietação pessoal, mas que eu percebi que é algo também que é um tanto universal.
Vou falar sobre uma das relações humanas que recebe pouca atenção, podemos assim dizer. em detrimento daquilo que é relação romântica, ou daquilo que é relação familiar, ou daquilo que é a nossa carreira. Vou falar sobre amizade, sobre... É como se eu fosse dar um mapa às pessoas que, assim como eu, já em algum momento disseram não tenho sorte com amigos. Então, é um livro que tem sido muito, muito bom escrevê-lo. Tenho discorrido sobre alguns autores, sobre o que eles pensam sobre o tema, então vai ser mais em prosa. Posso incutir ali alguma poesia no meio, mas vou falar de temas como o que é a amizade, o luto da amizade, tipos de amigos, entre outras coisas nesse sentido.
Wilma, muito obrigado por teres estado aqui connosco. São estes os dois livros que tu já lançaste, da editora Cordel de Prata, que qualquer pessoa que queira pode encontrá-los nas livrarias e através da internet. O Silêncio dos Bons e a Menina de Cor. E agora, Wilma, a última pergunta que eu te faço, que eu faço a todos os nossos convidados. Se algum dia alguém quisesse escrever um livro sobre ti, qual o título que tu gostarias que tivesse? Sobre mim? Uma jovem aprendiz. Pode ser. E nós também aprendemos muito contigo com esta jovem que escreve também. Obrigado, Ilma, que Deus te abençoe. Foi um prazer termos estado aqui olhos nos olhos contigo. Igualmente.
Neste episódio, conhecemos a inspiradora história de Wilma Vieira, uma jovem poetisa cabo-verdiana que transforma dor em palavra, silêncio em reflexão e fé em propósito. Com apenas 28 anos, Wilma partilha uma jornada marcada por desafios, identidade e uma profunda ligação com Deus.