José Colaço

José Colaço

10 de Abril de 202656 min 6 s

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Apresentação e infância

Hoje, no Olhos nos Olhos, senta-se à nossa frente um homem difícil de catalogar. Gestor, contabilista, empresário, evangelista, aventureiro, mas, sobretudo, um homem de ação. Viveu em três continentes, atravessou países de mochila às costas, atravessou o nosso Lambretta e acredita que dois minutos podem mudar o dia de alguém. Nasceu em Serpa, cresceu entre mudanças, regressos, recomeços, viveu em Angola, Portugal, Brasil, percorreu a América do Sul nos anos 80, chegou às portas do campo base do Everest e hoje soma milhares de pessoas que o seguem diariamente no projeto Dois Minutos com Ele. Mas por trás do viajante, do voluntário, do comunicador e do homem de fé, está uma história familiar intensa, feita de resiliência, cartas escritas à mão, sonhos interrompidos e escolhas corajosas.

José Manuel Pereira Colássio é o nosso convidado hoje. Olhos nos olhos. Bem-vindo, José Colasso. Posso tratar-te assim? Gostaste desta introdução? Acho que foi... demasiado. Demasiado? Não sei. Tu tens 68 anos, não é? 68 anos. 68 anos, tens uma vida riquíssima. E eu acho que até pecou por escassez tudo aquilo que eu disse, porque tu estiveste sempre envolvido em muita coisa. Eu podia dizer que és cozinheiro, enfim.

Foste diretor de um hotel, nos acessou, tanta coisa. Tu tiveste várias vidas? Eu tive uma vida cheia, vamos dizer assim. Deus colocou-me neste mundo e a vida foi correndo e nunca procurei, por assim dizer, muitas das coisas que me aconteceram. Elas vieram ao meu encontro, eu fui as aproveitando. Algumas outras, realmente, que foi por escolha própria. mas a maioria delas eu não sou pessoa de projetos. Eu vi alguns episódios de Olhos nos Olhos e vi pessoas com projetos de vida, pessoas que faziam anotações dos objetivos. Eu nunca tive muito isso. Algumas das coisas que tu referiste efetivamente foram planeadas, mas a maioria delas não.

Foi aquilo que Deus me deu, eu fui aceitando e fui trabalhando. És mais daquelas pessoas que espera que o telefone toque com um convite ou és tu que fazes o telefonema porque tu é que já estás motivado para fazer alguma coisa? Utilizando assim umas expressões esquisitas, ambas as duas coisas. Há algumas coisas que realmente sou eu que procuro promover, mas a maioria delas vão acontecendo. Vamos começar, se calhar, pela década de 50.

A partida para Angola

Eu já disse a tua idade. Acho que me perdoas por ter dito que tens 68 anos. Aliás, no teu caso, é um elogio dizer a tua idade, porque parece que tens muito menos, não só pela tua aparência, mas também por aquilo que tu fazes e já vamos perceber onde é que eu quero chegar. Mas, nasceste nos anos 50, 60 foi a tua infância, 57. A tua infância terá sido nos anos 60 em Portugal, em Serpa, não é? Ou foste muito cedo já para Angola? Eu, na realidade, em Serpa só nasci. Minha mãe foi meter ao Hospital de Serpa. Nós vivíamos numa aldeia chamada Vales Mortos. Não é Val dos Mortos, é Vales Mortos. É uma aldeia que fica entre Serpa e a Mina de São Domingos, no Alentejo Profundo. praticamente a cerca de 18 quilómetros da fronteira com a Espanha e com 6 anos o meu pai já tinha ido em 1961, se não estou em erro, para Angola.

Em 1964 nós fomos então, eu, a minha mãe e o meu irmão, fomos ter com o meu pai Angola. Então ficaste em Portugal até 64, ou seja, ainda tiveste ali uns 6, 7 anos. 6 anos, 6 anos. Eu fui fazer 7 anos já em Angola. Então ainda te recordas do tempo que viveste em Portugal antes de ir para Angola? Pouquíssima coisa. Lembro-me da aldeia, da vida ali na aldeia. Lembro-me de uma viagem até Angola. Lembro-me de um navio... Foi de barco. Foi de barco. No Kwanza. Um navio chamado Kwanza. Lembro-me de ter enjoado no caminho, de ter vomitado nos primeiros dias. Lembro-me de... de uma lua cheia que apanhámos quando atravessámos o Equador, uma lua enorme que me assustou, fez-me chorar, cheio de medo, fiquei cheio de medo no navio quando fizeram aqueles procedimentos em caso de naufrágio.

Lembro-me dessas coisas, lembro-me de ter chegado a Luanda. Incrivelmente lembro-me... Pronto, ficámos em Luanda, ficámos mais do que um dia. Ficámos em casa do patrão do meu pai e lembro-me do jantar. Caldo verde e carapaus fritos. Carapaus fritos. Como é que era essa viagem de barco? Era perigosa? Ou era muito cansativa? Havia lugares para refeições? Como é que vocês dormiam? Como é que eram essas viagens nos anos 60? Normalmente o navio tinha a primeira classe, a segunda classe e depois tinha a terceira classe. Nós íamos na terceira classe, não éramos pessoas abastadas, eu acho que até éramos aquilo que chamávamos os colonos, que tinham passagem subsidiada para irmos para Angola, neste caso, para o ultramar.

E eu lembro-me que nós dormíamos numa camarada, aquilo que se vê no Titanic, no fundo, era exatamente o que se vivia naquela altura no barco. Então, tínhamos os belis para dormir e é isso que eu basicamente lembro-me. Lembro-me de ter brincado com qualquer coisa que me deram, um trator ou uma coisa assim. Tu e o teu irmão. O teu irmão também foi. Sim, o meu irmão e a minha mãe. O teu irmão é mais novo do que tu. Um ano e meio mais novo do que eu. E pronto, e tínhamos o refeitório onde íamos comer. Pronto, não me lembro de muito mais coisa, não é? Eu tenho aqui duas imagens mais ou menos dessa altura. Ajuda-me aqui a perceber. Esta primeira fotografia que temos aqui és tu e o teu pai, não é?

E o teu irmão. É o meu pai e o meu irmão. Isto foi num casamento... Aqui eu penso que já teria uns 10 ou 11 anos. 10, 11 anos, em Luanda. No Lubito. Nós saltitámos muito enquanto vivemos em Angola, porque o meu pai trabalhava em construção de estradas e durante os primeiros anos Nós vivemos em diversas localidades, conforme o trabalho dele. Só depois, quando nós chegámos aos 8, 9 anos, eles decidiram que era mais estável para a nossa educação ficarmos num único lugar. Viemos então para o Lubito, mas o meu pai continua a trabalhar em diversos lugares.

Eu, em Angola, vivi no Lubito, vivi... Enrique Carvalho, hoje Saurimo, vivi na Gabela, onde era, na altura, a maior fazenda de café no mundo, vivi em diversos lugares da Angola. Mas depois, com cerca de nove anos, fixámos-nos no Lubito e depois, pronto, a partir dali ainda tive três anos num colégio no Uambo, no Colégio Adventista, chamado da Nova Lisboa na altura, também fruto um bocado da vida que o meu pai levava, ele muito cedo ficou com trio de diabetes e a minha mãe tinha que o acompanhar, por causa, para cuidar um pouco da alimentação dele e nós fomos para o colégio. Temos uma outra imagem, onde aqui já podemos ver a tua mãe.

E o teu pai, não é? Esta é anterior ou é posterior à que vimos antes? Esta é mais ou menos na mesma altura no Lubito também.

Memórias maternas e regresso

Isto era num jardim que havia quando se passava, atravessava em direção à igreja, junto ao porto do Lubito. Mantendo esta imagem no ar, explica-me uma coisa. Há uma história que, vais me dizer se é verdade ou não, que a tua mãe fabricava calções porque ficava mais barato do que fazer calças. Então, nestas imagens que nós vemos, tu estás de calções, com o teu irmão precisamente para poupar no tecido. Isto é verdade? É verdade. Eu um dia perguntei à minha mãe porquê. Eu lembro-me que a primeira vez que eu vesti umas calças, foi num congresso que houve em Nova Lisboa, ou no Uambo, como queiramos chamar hoje, e fomos de comboio na altura do tempo chamado Tempo do Cacimbo, que era ali o meio do ano, portanto estamos a falar no Hemisfério Sul, então era na altura do tempo mais frio lá, e nós fomos de comboio para o congresso e ali fazia bastante frio.

E foi um rapaz também da igreja, lembro-me o nome dele, o Nelson Morgado, que me emprestou umas calças para eu vestir, porque eu utilizava calções e já, nesta altura, eu teria já 11, 12 anos. E a minha mãe, um dia perguntei à minha mãe, porque é que tão tarde é que nós começámos a vestir calças, e a minha mãe disse-me, o que o teu pai ganha não é muito, então eu prefiro dar-vos cuidar mais da vossa alimentação do que da vossa aparência ou da vossa vestimenta. Então, para poupar, eu faço-vos calções em vez de calças. Qual o maior ensino que tu recordas da tua mãe? Tinhas uma relação com ela muito próxima?

Eu sabia mais ou menos que esta pergunta ia ser feita e eu penso e digo muitas vezes que a minha vida, o meu percurso de vida foi muito marcado por mulheres, não é? E uma das mulheres, digo no bom sentido, pronto, houve uma altura em que não, realmente, mas no bom sentido foi diversas fases da minha vida foram marcadas por mulheres e uma delas foi, logicamente, a minha mãe. Mas aquilo que mais me chama a atenção na minha mãe, e ela tem uma grande culpa, entre aspas, no meu percurso de vida, foi o seu percurso de fé. O seu percurso de fé e o seu percurso de oração.

Só para te dar um exemplo, ela orou durante 40 anos pela conversão do meu pai. E durante 40 anos ela fez jejum todos os sábados. Então, muito do percurso foi feito, portanto, muitas das coisas que me aconteceram, positivas, logicamente, foram fruto das orações da minha mãe. É a principal coisa, para além sempre do cuidado extremo que ela teve conosco, que ela teve com os meus filhos, foi esse percurso de mulher de oração e de mulher de trabalho para Deus. E uma das coisas que me inspira, especialmente, é este espírito de missão que ela tinha.

E quando tu referias algumas das coisas que eu fiz, sem dúvida nenhuma que foram inspiradas por ela. E ela teve muito trabalho na educação contigo ou nem por isso? Teve. Há uma história por ali. É algo público e se calhar até sabes o que eu vou dizer. Ela usava uma colher de pau Ela usava uma colher de pau e que tu tiveste ali um momento... Entre outras coisas. E que tiveste um momento em que tu próprio pegaste na colher de pau e disse, não, isto não é... Recordas-te disso? Lembro-me, lembro-me. Foi Henrique Carvalho, hoje Saurimo. Eu tinha, nessa altura, 15 anos. E uma das coisas que impressionava a vizinhança é que tanto eu como o meu irmão íamos buscar o instrumento que seria utilizado para a correção.

fosse um pedaço de mangueira. Hoje em dia... Ela dizia que podes escolher com aquilo que eu te vou bater? Não, mandava ir buscar aquilo, ela dizia. Ah, ela dizia o que queria. É como naqueles filmes em que vão desenterrar através de uma pá, vão abrir uma cova e depois são mortos. Quase, era quase isso, não é? O meu irmão conseguia, entre aspas, safar-se melhor, porque corria à volta da mesa, ia lá atrás dele, até que ela se cansava, mas eu, como era o mais velho, comia primeiro. E, nessa altura, com 15 anos, eu disse, hoje chega. E eu peguei na colher de pau e parti a colher de pau ao meio, coloquei-lhe a colher de pau aos pés e disse, hoje foi a última vez que você me bateu. E foi, realmente. Ela passou a utilizar, provavelmente, outros métodos de correção, especialmente a oração, para me tentar corrigir.

E valeu a pena, sem dúvida. Ficaram até que ano em Angola? Presumo que vocês regressaram todos juntos? Não. Eu e o meu irmão viemos em 1975, na Grande Leve, foi um pouco antes da independência. Eu lembro que nós chegámos a Portugal no dia dos anos dela, 23 de outubro de 1975, a independência depois foi em novembro. Vim eu e o meu irmão sozinho. E para tu veres como as orações da minha mãe dão frutos, eu e o meu irmão viemos sozinhos, viemos sozinhos em termos de família, viemos na companhia de uma família de um colega, deixou a partir dali, deixou de ser colega do meu pai, mas a minha mãe pouco antes de vir escreveu a uma tia minha, a dizer-lhe que nós vínhamos, não sabíamos exatamente quando é que nós chegaríamos a Portugal, porque foi naquela altura em que havia o movimento dos retornados a voltar da Angola, e ela diz, olha, eles estão acima de uma fotografia nossa.

E orava para que a minha tia nos conseguisse encontrar. E no dia em que as minhas tias foram a aeroporto levar uma fotografia, a primeira pessoa a que elas mostraram a fotografia perguntando, se no meio tu podes imaginar, a quantidade de pessoas que existia no aeroporto de Lisboa, a chegarem de Angola, naquela altura, e também de Moçambique, a chegar naquela altura, ela mostra a fotografia e a primeira pessoa a quem ela mostra a fotografia era alguém que me conhecia, que tinha sido meu colega de escola, a irmã dele tinha sido minha colega de escola, e...

eles colocaram-se à porta do aeroporto para que cada avião que chegasse com retornados estivesse à minha espera, para me darem o contato da minha tia, para depois ela me indicar como é que nós poderíamos chegar à casa dela. E, sem dúvida nenhuma, Não existem coincidências. Existe trabalho de Deus e existem respostas às orações. Ou seja, na altura terias à volta de 20 anos, quando regressas a Portugal. Tinha 17 anos, fiz 18 uma semana depois. Ah, exato, 75, exatamente. E vão morar, vais morar para que cidade aqui em Portugal? Fiquei a morar, inicialmente fiquei a morar na Quinta do Conde, em casa da minha tia, mas a minha tia ficou muito transtornada com a...

com os acontecimentos do 25 de Abril, porque o marido perdeu algumas coisas, porque trabalhava para uma pessoa na área da construção, que depois essa pessoa fugiu de Portugal, e ele acabou por perder bastante com isso. Embora tu também, desculpa interromper, também perdeste o Macado, aliás, o Macado, muitas coisas em Angola, não é? Perdemos, meu pai, perdemos três casas que nós tínhamos lá, eram umas casas geminadas que nós nem chegámos a utilizar nunca. E isso deixou-te transtornado? Regressaste revoltado a Portugal? Isso nunca te assaltou, esse pensamento de revolta? Não, nunca, não. A única coisa que me incomodou, realmente, quando eu cheguei a Portugal, é que cheguei a um país, cheguei em outubro, começo do outono, começo do inverno, vinha de um país tropical, não tinha roupa suficiente para vestir.

Só calçais. E lembro-me, nessa altura não, já tinha calças. As minhas primeiras calças, depois que eu tive, eram umas calças de ganga do que aquilo que existia, muitas vezes, que existia naquela altura em África, que eram fardos que vinham dos Estados Unidos com roupa, portanto, de beneficência, e que depois eram vendidas a preços parados. Eles chamavam roupa de fardex. Eram umas calças de ganga da Levis, não é? E pronto, foram essas as primeiras calças. Mas na altura eram roupas... já eram calças, mas eram calças muito finas, eram aquelas calças de boca de sino que nós tínhamos, que nós tínhamos na altura, utilizávamos num clima mais tropical.

E eu lembro-me do primeiro inverno, porque depois de ter estado Em Lisboa, na casa da minha tia, a minha tia, entretanto, fez uma tentativa de suicídio e eu tenho que... fui para o Alentejo, fui para Vales Mortos, para a casa de uma outra tia minha, da irmã mais nova da minha mãe, e ali foi terrível, foi um inverno. Eu lembro-me do primeiro programa que vocês fizeram, Olhos nos Olhos, com a entrevista com o Júlio Carlos, ele a falar de Viseu, e eu ia no carro, ia para Viseu, por acaso, ia ouvir o programa, E eu disse assim, olha, uma história igualzinha à minha, só que deslocada aqui um pouquinho mais, ele enviseu e eu em vales mortos, no pior inverno que eu já passei na minha vida. Mas sentiste português? Quando regressas a Portugal, sentiste português?

Sentiste em casa? Eu lembro que naquela altura havia sempre aqueles olhares para quem tinha vindo e estava na cara, pela maneira como nós vestíamos, aquilo tudo estava na cara que nós éramos os chamados retornados. Fora isso, eu sentia-me português. Nunca me senti outra coisa que não português, apesar de ter vivido aquele tempo todo em Angola e em Angola sempre me senti português. Viveste em Angola e também no Brasil. Já lá vamos, já quero saber daqui a pouco um pouco sobre a tua história no Brasil. Vamos para o nosso primeiro intervalo, no Olhos nos Olhos desta semana, com o nosso convidado José Manuel Pereira Coulas, o convidado do programa de hoje.

A aventura no Brasil

Segunda parte do programa Olhos nos Olhos, este e outros programas que encontra facilmente no canal do Youtube da Novo Tempo Portugal. Estamos a conhecer um pouco o trajeto de José Colasso. Tens um ministério muito interessante na internet, já vamos falar dele mais à frente. Para já quero perceber um pouco como é que surge esta tua ideia de ires para o Brasil. Tu ficas em Portugal durante quanto tempo até dizeres, não, eu quero ir para o Brasil, até começaste a te interessar por este país, por várias razões? É quase isso, mas não é bem isso, não é? Aí novamente aparece outra mulher, não é? Mas aí também aparece a minha mãe, ao mesmo tempo, não é? Durante o último período que eu tinha estado no Brasil, no último ano, ano e meio, antes de vir embora para Portugal.

Eu comecei a namorar com uma colega do colégio e venho para Portugal e deixei de saber da colega. Os olhos não veem e o coração não sente, como a minha mãe muitas vezes dizia. Nunca mais me preocupei. O primeiro tempo que viemos, depois que a minha mãe veio, em 1976, nós ficámos a viver na zona da Almada. E eu tive um tempo ainda que tentei trabalhar porque preocupou-me o facto de eu e o meu irmão estarmos a depender dos meus tios unicamente. O dinheiro que vinha da Angola não tinha valor absolutamente nenhum e eu queria trabalhar de alguma maneira.

Então, o primeiro ano Eu tento ir à procura de trabalho, mas um garoto com 18 anos, num país que tinha sido, de um momento para o outro, tinha recebido um avalanche de pessoas vindas das colónias, era extremamente difícil encontrar trabalho. Eu ainda depois, já tarde, consigo entrar num colégio em Almada, colocado pelo Ministério da Educação, mas em 1976 a minha mãe vem, E eu, em 1976, começo a ter contacto com uma outra colega que morava, que tinha sido colega minha em Angola, no colégio, que aliás tinha sido a minha primeira namorada, não é?

E que me deu o contacto da Alcina. Era assim que ela se chamava. Agora, desculpando os continuais, temos algumas fotos tuas desta altura para também lá em casa perceberem o porquê de teres tanto sucesso. Quantos anos tinhas aqui? Aqui já devias ter 20 e alguns, não? Não, aqui já tinha... Isto já foi depois de 1985. Temos ainda uma outra foto. Esta aqui também está... É da mesma altura. Na altura eu estava a fazer um curso de fotografia. Qualquer uma destas fotos foi feita pelos colegas do curso de fotografia. Desculpa interromper-te, mas era importante ver estas fotos para percebermos de quem estamos a falar. Não era exatamente aquele galã.

Chegou ao contacto da Alcina, ou da Mitzi, que na altura era a mais conhecida, que tinha ido para a África do Sul, da Angola para a África do Sul e da África do Sul tinha ido para o Brasil. Conseguimos o contacto e começámos a correspondermos. E naquela troca de correspondência, eu sempre fui um bocado... deixava as cartas ali e a minha mãe apanhava as cartas. E a minha mãe apaixonou-se mais por ela do que eu propriamente. Até que chegou um ponto em que eu disse, olha, despeço-me essa desculpa, mas isto não vejo fruto para o nosso relacionamento. Tu estás aí, eu estou aqui. Eu na altura ainda estudava, ainda não tinha começado a trabalhar, nessa altura já tinha 21 anos, por aí.

mas ainda estava a estudar, não vejo muito futuro nisto, pá, vamos interromper. E aqui começa a pressão da minha mãe, mas tu tens que voltar, ela gosta tanto de ti. Os olhos não veem, o coração não sente. Se calhar se tu fores lá, as coisas podem reatar. Ela é uma moça da igreja, ela pode ter um bom futuro para ti. Ela vivia no Brasil, mas era portuguesa, é isso? Sim, ela era portuguesa. Portanto, ela até tinha nascido em Angola. Portanto, os pais eram portugueses, ela tinha nascido em Angola. Depois foi à África do Sul, Brasil e foi para o Brasil. Exato. Houve pessoas que vieram para Portugal e naquela altura ela foi para a África do Sul e da África do Sul foi para o Brasil.

E a minha mãe começou a insistir comigo. Eu disse, mas eu não tenho condições de ir para lá. Eu comecei agora a trabalhar, ganho salário mínimo, não tenho condições de ir. Aí eu pago da passagem. Eu comecei a ponderar e comecei a pensar naquilo e disse, olha, Tens 22 anos, sempre viveste às custas do teu pai e da tua mãe, sempre viveste em casa, quem sabe esta seja a oportunidade de tu aprenderes alguma coisa a mais na vida. Vai. E aceitei a proposta da minha mãe e em 1979 fui para o Brasil. As coisas não funcionaram e eu acabei e disse pronto, vou ficar aqui. Não devolvi a passagem de volta, mas perdi a passagem de volta.

E decidi ficar no Brasil para tentar ver o que é que custava a vida. Aquilo que o meu pai tinha feito no fundo. O meu pai, em 1961, vai para Angola, deixa-nos em Portugal, vai para Angola à procura de algo melhor. Pronto, logicamente, o meu pai tinha muito mais experiência de vida quando foi para Angola. Eu não tinha muita experiência de vida e disse assim, mas eu vou. e vou aprender. Ou seja, com 22 anos estás sozinho no Brasil, sem nenhum relacionamento, porque entretanto não funcionou, e resolves lançar-te à vida no início dos anos 80. É assim que acontece, mais ou menos. Nessa altura, exatamente isso. Nesse mesmo ano, em 1979, ainda eu começo a trabalhar, arranjo um emprego.

O pai da Mítia arranja-me trabalho numa empresa brasileira, uma empresa brasileira que até era de um português e ali eu começo a trabalhar. Trabalhei um ano nessa empresa e depois fui trabalhar para uma outra onde estive a trabalhar durante os tantos sete anos que tive no Brasil, uma empresa grande na área de produção de papel. Ou seja, ficaste até os 27 anos no Brasil. Dos 20, mais ou menos, até os... Não, dos 22. Dos 22, exato. Até os 29, 30. Sim, sim. Passaste-se sempre no Brasil, década de 80, sensivelmente. Sim, sim. Eu voltei do Brasil para Portugal a meados de 1987.

A dor e a perda

E como é que foram esses 7 anos no Brasil? Foi uma experiência... Em termos de Brasil, o Brasil era diferente de viver em Portugal. Mas, pronto, logo a seguir, em 1980, 80 e pouco, eu começo a namorar com a Zezé. Tivemos casados dois anos, não chegou a três anos. Ela faleceu de maneira tanto quanto trágica e isso deu-me uma volta... faz-me dar, ou então eu escolho dar, por assim dizer, uma volta bastante grande na minha vida.

Mas consegues recordar-te desse tempo? Quando olhas para trás, preferes nunca falar disso, nem falar desse período com ninguém, por ter sido muito violento ainda hoje? Como é que tu olhas para trás em relação a essa altura? A minha mãe queria que eu voltasse para Portugal e ela continua orando por mim. No meio daquilo que acontece, eu penso que não choco ninguém, algumas pessoas sabem, ela suicidou-se em casa, comigo em casa, e eu não me recordo. Eu sei que fui eu que a encontrei e eu, por assim dizer, o choque que eu tenho faz com que eu me esqueça da maior parte das coisas que acontecem naquela altura.

Eu sei de algumas coisas que aconteceram naquela altura porque pessoas me contam. Eu comparo isto aquilo que me aconteceu em 2024, quando eu tive um acidente de moto, em que eu sei que eu tive um acidente de moto, mas eu não me lembro exatamente como é que ele acontece. E eu penso que Deus me preservou pelo amor que eu tinha e pelo cuidado que eu tinha com ela, Deus apiedou-se de mim e fez-me com que eu esquecesse aquilo que aconteceu ali exatamente naquela noite. Eu comecei-me a questionar, depois disso eu comecei-me a questionar, mas porquê, Deus? Porquê? Porque aqui isto acontece. Eras um jovem de vinte e poucos anos, casado há pouco tempo, muito apaixonado, como todos os jovens acabados de casar, e que te viste viúvo de um dia para o outro, assim, de uma forma que presumo que não conseguias explicar, nada fazia sentido.

E isso fazia-me perguntar muitas vezes a Deus porquê, porquê, porquê. E no meio disto tudo eu acabo, na altura eu continuava, sempre tive uma ligação bastante grande com a igreja, um envolvimento bastante grande com a igreja. Eu era tesoureiro da igreja, da igreja era um pequeno grupo. Em São Paulo. Em São Paulo, no bairro do Cangaíba, curiosamente, uma vez aqui conversando com um pastor, ele era meu vizinho, pastor que está aqui em Portugal, pastor que está em Porto Alegre neste momento. O pastor Hernani. O pastor Hernani, era meu vizinho, a gente veio a conhecer-se aqui.

Eu era tesoureiro da igreja, eu pregava na igreja. Mas, naquela altura, vi-me sozinho, vi-me sozinho, porque eu tive que cortar a ligação com a família, porque foi pesado demais, porque a família tentava, especialmente a parte da mãe dela, tentava-me culpar por aquilo que tinha acontecido, eu tive que tomar uma atitude um pouco drástica, utilizando diários dela para lhes mostrar que a culpa do que tinha acontecido não era efetivamente minha. E eu, a cortar com estas ligações, acabei por começar a afastar-me da igreja, a fazer amizades com os meus colegas de trabalho.

e entrei no álcool. Nessa altura, logo no início, não foi de uma maneira com grande abuso, mas aquilo foi aumentando e comecei a ter uma vida muito promíscua. Senteste-te perdido na altura e quase que encontravas justificação para te sentires perdido, porque tinhas atravessado um trauma imenso. Passados alguns anos, isto já depois de 1900, de eu ter voltado para Portugal... Eu, olhando para isso e olhando bem para aquilo em que eu sempre tinha acreditado e acredito e em que eu fui ensinado, eu comecei a ver o meu percurso de vida, eu venho para a igreja, eu tinha aproximadamente 9 anos, estou na igreja até aos 27, 28 anos e De repente, eu afasto-me da igreja tentando culpar Deus por isso.

E eu chego à conclusão que, na realidade, Deus não tem culpa rigorosamente nenhuma. Aquilo foi uma escolha minha. Eu, durante todo este tempo, tinha estado na igreja. Se calhar, tinha desejado fazer muitas das coisas que eu via as outras pessoas fazerem. E ali, eu tenho quase que o ensejo para começar a fazer. E há como que uma descarga. Isto, às vezes, compara aquilo que aconteceu. em Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril. Era um tempo de repressão e, de repente, passamos da liberdade quase à libertinagem. E foi isso que acaba por acontecer comigo. Mas houve ali algum processo terapêutico que tentaste encontrar ali, ou rodear-te de pessoas, ou fazer algum tipo de terapia, seja espiritual, seja de ordem de saúde mental, para conseguires superar um trauma tão violento, que não

Viagens pela América Latina

há outra palavra, como aquele que tu passaste. Não, não cheguei, não fiz isso. O que eu procurei fazer nessa altura foi, portanto, em 1985 é quando ela morre, em 1987 eu venho para Portugal. Nesse meio tempo eu começo a viajar, não é? Eu costumo dizer muitas vezes, a brincar com... com alguns amigos que eu conheço mais do Brasil que muito brasileiro. Eu conheço o Brasil, por assim dizer, e nessa altura, entre 1976 e 1987, como os brasileiros dizem, do Iapoc ao Chuí. Ou seja, o Iapoc fica lá no Rio Grande do Sul e o Chuí fica no Amazonas, ou vice-versa.

Esta foto que nós temos foi tirada nessa altura? Ajuda-me a perceber se esta foto aqui foi tirada nessa altura que tu falas. Nessa altura, exatamente, isto é no Peru, isto é em Cusco. Portanto, Cusco é aquela cidade mais conhecida perto de ruínas de... Ah, agora fugi mesmo. Machu Picchu. Machu Picchu, exatamente. Ou seja, a tua fuga consistia em viajar, em conhecer a América Latina e tentar... ias sozinho com uma mochila e foi assim a tua fuga para a frente, digamos assim, ou se calhar para o lado, que não era bem para a frente. Sim, foi em 1987 já, eu comecei, começo o processo de procurar recuperar, embora não tivesse sido totalmente, e começo a fazer, começo a viajar.

Viajo dentro do Brasil, E em 1987, durante o ano de 1987, trabalhei para aí dois ou três meses. Portanto, do resto, gastei, fui gastando, viajando. Mas eram viagens que tu ias, que é, à beleia? Não, não, neste caso aqui eram viagens de autocarro. Nesta viagem que eu faço, eu saio de São Paulo, atravesso o Brasil todo até o Mato Grosso do Sul, do Mato Grosso do Sul vou para a Bolívia, da Bolívia para o Peru, vou para o Chile, deixo o Chile todo e entro pela Argentina e entro pelo sul do Brasil. E sozinho com uma mochila? Sozinho com uma mochila, pronto, alguns dólares, uns quantos dólares, uns quantos dólares no bolso e poupando, tentando, ficando em pensões, em lugares baratos e fazendo alguns percursos, uns percursos de autocarro, outros de comboio.

E zangado com Deus nesta altura? Ainda, ainda com a cabeça a ferver, ainda continuando a consumir muito pisco, pisco sour, que é água ardente que eles utilizam ali nos países da América do Sul. E a turma é preocupada contigo, ora por ti, em Portugal. Em Portugal, exatamente. Muitas vezes sem saber onde é que tu andavas, porque não havia comunicação fácil de dizer, olha, estou no Bolívar. Ela sofria com isso também. Havia os cartões postais que a gente ia mandando de vez em quando de alguns lugares. Eu nesta viagem tive aproximadamente 40 dias a fazer esta viagem. Foi uma das viagens mais incríveis estar nesses lugares, que muitas pessoas têm vontade, muitas vezes, de visitar e eu ter a oportunidade de lá estar, ver aquelas civilizações antigas, ver...

ainda esta semana falava com uma pessoa que recentemente vem para a igreja, que é do Peru, e conversávamos sobre o Peru e que algumas coisas ainda me lembro.

Recomeço e novo casamento

Embora já se tenham transcorrido quase 40 anos. E o momento é que tu fazes as pazes com Deus, no fundo, em que tu percebes que isto assim não vai lá. Depois de tanto a tua mãe orar por ti. Eu volto para Portugal e aí volta a aparecer outra mulher. Era uma mulher que eu já conhecia há bastante tempo, que me foi até apresentada pela Zezé. Nós nos conhecemos logo no começo do meu namoro com a Zezé. Um dia ela vai visitar a casa de uma colega de faculdade e diz à irmã da colega de faculdade, olha, Clélia, vai lá para a sala tocar piano e fica lá a fazer companhia ao meu namorado.

E a Clélia, muito acanhada, vem para a sala, toca piano, eu estou ali, trocamos meia dúzia de palavras. E pelo facto, depois de se ter mantido este relacionamento com a família da Clélia, com os pais da Clélia, com a irmã da Clélia, nós não tivemos, nessa altura, não tínhamos relação absolutamente nenhuma, cruzávamos esporadicamente. Nesta altura em que eu estou afastado de Deus... Como é que eu vou dizer? Quando eu senti a necessidade de Deus, não é? Eu já não ia à igreja, eu vivia a 200 metros da igreja central de São Paulo, eu vivia atrás do hospital que eu conheço em São Paulo, não é?

Penso que há muitos brasileiros de São Paulo que devem ver a TV O Novo Tempo. Eu vivi imediatamente atrás do hospital Adventista de São Paulo, que fica a 200, 300 metros da igreja central de São Paulo. Mas quando eu senti a necessidade de ir e de ir da igreja, porque caía em mim que realmente... Eu continuava a acreditar em Deus e continuava a acreditar na mensagem da Bíblia, na mensagem da igreja. Ou seja, nunca puseste Deus em causa, punheste era mais a ti em causa o papel que tu poderias ter no plano de Deus. Nesta altura ainda, estava nesta guerra com Deus, mas sentia necessidade. Eu simplesmente nunca disse, não, a partir de agora eu não quero mais saber de Deus.

Isso nunca aconteceu. Eu simplesmente... como que colocava as culpas em Deus para me tentar, no fundo era aquilo que a conclusão a que eu chego posteriormente, que era uma desculpa que eu encontrava, como se diz em bom português, uma desculpa esfarrapada que eu encontrava para querer levar a vida que levava. E eu ia, quando sentia esta necessidade, eu ia à procura da casa dos pais da Clélia, íamos juntos à igreja do colégio, passava lá o dia, às vezes dormia de lá de sábado para domingo e pronto, e depois no dia seguinte voltava à minha vida normal. Num passeio que nós vamos, organizado pelos jovens do Colégio e da Igreja de Moema em São Paulo, nós vamos fazer uma caminhada a descer de São Paulo para Santos pela mata, pronto, por um trilho que havia na mata.

E durante essa caminhada, Houve alguém que fez rolar umas pedras que uma das pedras cai em cima da mão da Clélia e parte-lhe a mão em cinco ou seis lugares. E a Clélia, filha de um obreiro, é tratada no hospital Adventista, que ficava ali pertinho da minha casa, como eu disse há bocado. Eu trabalhava, na altura, numa empresa grande, trabalhava na área de informática, já, não é nada do que eu hoje, eu trabalhava com mainframes, e trabalhava seis horas por dia. Então, se eu trabalhava das seis ao meio-dia ou do meio-dia às seis da tarde, eu tinha muito tempo livre. E quando a Clélia ia fazer o tratamento no hospital, muitas e muitas vezes eu ia até com ela, conversava com ela.

Eu sentia que naquela altura não estava capaz de ter um relacionamento estável com alguém, com os princípios que uma pessoa que tinha sido criada na igreja tinha. Mas gostava de entrar com ela, gostava de conversar, gostava de conversar com ela. Sendo que daí até esta foto, que também gostava agora que visses, terá sido um processo relativamente natural. Vocês acabaram por se apaixonar até que chegaram ao dia do vosso casamento e fez toda a diferença este dia na tua vida? Sem dúvida nenhuma. Isto era o dia 30 de julho de 1989. Porque em 1988, um dia recebo uma carta da Clélia, a perguntar-me, olha, eu vou para a Itália, eu posso passar aí a tua casa, visitar-te, não há problema nisso?

Não, não há problema, podes vir, naturalmente. E, antes disso, eu tinha escrito ao bocado, falaste numa certa carta, não é? Eu tinha descrito, porque quando olhava para a Clélia, para os princípios que a Clélia tinha, para a pessoa que ela era, eu olhava para mim mesmo, eu pensava, um dia, quando eu estabilizar, Penso que é contigo que eu posso ter um bom relacionamento. Mas enquanto estive no Brasil eu nunca quis ter esse relacionamento porque eu sabia que a minha vida, que se eu tivesse provavelmente esse relacionamento com ela naquela altura, a coisa ia funcionar, ia correr muito mal.

O regresso a Portugal

Então eu não quis. A minha mãe continuava orando por mim porque eu continuava mesmo já em Portugal, depois voltei para Portugal em 1987, ainda tive um tempo fora de Portugal, em França, andei a fazer Vindima, andei a tentar estabelecer-me em Paris, porque na altura eu tinha feito, há um bocado falámos do curso de fotografia, tentei procurar trabalho na área de fotografia em Paris, mas não consegui e voltei. E o dinheiro estava a acabar, eu tinha dito que em 87 eu trabalhei três meses, o dinheiro estava a acabar e eu precisava de voltar. E é incrível, eu chego a Portugal, quando eu venho de Paris, eu venho para Lisboa, e fui encontrar-me lá com um colega meu, um colega de trabalho, que tinha vindo comigo para Portugal em 1987, e estão em Lisboa, a tentarem arranjar trabalho também em Lisboa, quer na área de fotografia, quer na área de informática e não conseguem arranjar trabalho.

Estávamos numa pensão, ele, completamente liso, Eu é que tinha que privar-me um pouquinho, fazer uma alimentação mais frugal, o almoço, para poder à noite, irmos os dois jantar juntos, comer uma sopa e um prego no pão, ali numa tasca ali da Baixa de Lisboa. para o poder ajudar. Mas depois foi nesse processo que tu acabas por voltar ao contacto com a Clélia e acabam por casar. Já vamos conhecer melhor a tua história, Colasso. Temos que ir para o último intervalo e já vamos saber ainda, nesta tua vida de aventureiro, como é que chegas ao Everest. Já vamos saber melhor isso na terceira e última parte do Olhos nos Olhos.

TV Novo Tempo, o canal da família,

A expedição ao Everest

o canal da esperança. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos com José Manoel Pereira Colasso. No fundo, um aventureiro que nós já percebemos por todas as tuas histórias, por tudo aquilo que tu nos contas, que viveste sempre uma vida de forma muito intensa e resolveste, sem dizer praticamente a ninguém do que eu sei, a tua família soube muito pouco tempo antes que tu, com 66, 67, 60, olhe, eu vou até o Everest. Obrigado. Vemo-nos daqui a duas semanas. Não foi bem assim, mas foi quase. O que é que te leva a com 60... Quantos anos tinhas? 60 e... A minha proposta inicial era ir fazer os 67 lá. O que é que te leva a ires para os ginásios, a teres um personal trainer, a fazeres, enfim, a gastares, eu nem te vou perguntar quanto dinheiro é que terá custado algo deste género, para, o teu objetivo era ir até ao campo...

Campo base. Ao campo base do Everest, que eu presumo que não deve dar para ver o Everest de lá, dá para ver de lá? Ok, então chegaste a ver o Everest. Há dois momentos em que nós conseguimos ver o Everest. É uma das fotografias que eu tenho. Eu estou sentado, aliás, acho que está na minha página. Eu creio que temos duas. Vais-nos ajudar, então, a comentar as duas fotografias que nós temos que tu tiraste lá no Everest. Essa fotografia. Ele está coberto, um pouquinho coberto. Eu tenho uma outra que é feita num momento depois e lá bem atrás aparece ele. É deste momento aqui. E o outro é depois em Calapatar. Era um lugar onde eu deveria ir e eu acabei por não conseguir, antes de lá chegar e tive que voltar. Temos um pequeno vídeo que tu publicaste nas tuas redes onde dá para perceber o drama que é.

Este é o melhor momento do dia. Libertar-lhe, libertar-lhe, libertar-lhe aquilo que teve oprimido durante tantas horas, que sofreu subir e descer com a inclinação das minhas pedras. Já inventaram muita coisa.

Felizmente ainda não inventaram a TV com cheiro, porque senão ela não devia estar fácil. Como é que te dizes libertar, libertar, libertar? No fundo era uma metáfora à tua ideia de ires para o Everest. Também te querias libertar de alguma coisa quando foste para o Everest? Não, o que me faz ir para o Everest é um pouco desafio, mais um desafio pessoal, não é? A gente vê... há um filme que eu gosto muito, que chama-se A Lista da Bota. É um filme muito interessante, onde existem... e eu me identifico um pouquinho com algumas coisas que acontecem nesse filme, mas... Não é exatamente que eu tenha a minha lista da bota, como se costuma dizer, como no filme é relacionado, mas há alguns lugares que são desafiantes até certo ponto e coisas que gostaria de fazer.

Ter estado em Machu Picchu foi uma delas e depois começou a aparecer esta ideia do Everest. E o engraçado nestas coisas, e não tem graça nenhuma, se calhar, é que quando a gente começa a falar, começam a aparecer coisas na Facebook. E começaram a aparecer postos de João Garcia. Eu já tinha lido um bocado sobre, portanto, as coisas que o João Garcia fez. Para aqueles que não sabem, o João Garcia é o maior alpinista português. E o único português, creio eu, que subiu mesmo aos 14... Sim, e também que subiu a Evres, presumo que depois dele não houve mais ninguém. Há mais pessoas que o fazem, mas ele tem a característica de ter subido aos 14 cumes com mais de 8 mil metros sem oxigênio.

É realmente desafiante. Quem já lá esteve e teve praticamente 5 mil metros de altitude sabe o que é de repente, como me aconteceu no dia em que eu decidi vir-me embora, fazer oximetrias de 60%. Foi difícil essa decisão. Tu acordares de noite e tens de estar ali a fazer, a respirar tipo cãozinho, como as senhoras que estão para dar à luz. A decisão foi tua ou tinhas alguém que te disse, não, é melhor não avançar mais porque isto pode realmente... Não, foi minha. Foi tua. Foi minha porque na altura Eu senti que podia colocar-me em risco. Eu mando, troco umas mensagens com a minha mulher.

Tinhas internet lá na altura? Sim, sim. Mais ou menos, não é? Porque a gente tem que comprar localmente. Eu comecei a me sentir, passei a noite toda, uma das coisas que me aconteceu por causa da altitude foi estar Duas semanas praticamente sem dormir, eu dormia uma, duas horas, que é uma característica que Deus coloca no nosso organismo de quando o nível de oxigênio baixa nós despertarmos para não morrermos. E eu dormia, estava a dormir muito pouco. E naquela noite, então, foi terrível, depois cheguei à conclusão que eu tinha contraído Covid, quando volto, chego à conclusão, pelos sintomas que eu trazia, que tinha contraído Covid, e troco mensagem com a minha mulher, a minha mulher troca mensagens com o médico de viagens, consegue, uma das características da Clara é que ela é persistente, mais persistente muitas vezes do que eu, E consegue chegar e o médico diz-me que ele que comece imediatamente a tomar a medicação de emergência, que era a medicação para embolia pulmonar ou embolia cerebral.

É isso. Faz-me ficar cheio e ajuda-me a tomar decisão. Eu estava praticamente a 5 mil metros, no dia seguinte eu chegava a 5 mil e podia chegar até os 5.300, que é o que se vai mais alto, depois retorna-se aos 5.100, que é onde fica o campo base, e eu decidi, disse, não, pronto, não vale a pena, cheguei até aqui, estar-me a pôr em risco, ainda fiquei mais um dia para tentar decidir se ou não ia, mas vi que não havia condições. Eu ainda tinha três dias de caminho para voltar, porque o percurso em si, o trekking, são 130 quilómetros. 60 para cima, 65 para voltar. Para cima nós demoramos sete dias, para voltar nós demoramos três.

De maneira que, pronto, o que me leva lá, por um lado é o desafio pessoal, por outro lado é a expectativa de alguma coisa que... para de um lugar completamente diferente daquilo que a gente está habituado. E foi isso que acabaste por encontrar também. Exatamente. Quer dizer, tu vês as pessoas, tu apanhas o avião até o aeroporto mais perigoso do mundo, não é? O aeroporto de Lucla, um aeroporto com uma pista de 200 metros, inclinada, não é? Onde há muita gente que não vai de avião, procura outra maneira para chegar lá para depois fazer o trekking. Pronto, eu fui no avião e disse assim, olha, Isto é a mesma coisa que viajar daqui para Londres ou viajar daqui para outro lado.

É um avião. Acabou-se a conversa. É feito do mesmo material e aqui vamos nós. E depois encontrares o que tu vês lá. pessoas que vivem numa dimensão completamente diferente da nossa.

O projeto digital

Tudo é carregado às costas das pessoas. E pronto, isso muitas vezes questiona-nos a nós próprios, nós que pagamos para ter alguém que carrega as nossas coisas e ali estamos a passear e eles têm que fazer aquela vida e é uma vida muito, muito, muito dura. E faz-nos pensar. Tu tens um ministério muito conhecido aqui em Portugal e não só, tens, creio que, há volta de 13 mil seguidores, que é o projeto 2 Minutos com Ele. Temos também aqui uma imagem, creio que esta é em Conímbrica, onde tu estás a gravar, enfim, tu gravaste em vários lugares do país e do mundo e esta aqui é uma das imagens. creio que é possível, exatamente, esta imagem onde tu estás a gravar. Tenho também um pequeno vídeo que eu gostava que visses, um vídeo muito engraçado, em que um bocadinho dos dramas que tu vais enfrentando cada vez que tentas gravar um destes vídeos do projeto, dois minutos com ele.

Mas há daqueles que mesmo de noite, deitados, Seja-lhe completo ali na tua gravação. Para aqueles que nos estão a ver, basta rapidamente procurarem no Facebook e escreverem dois minutos com ele e vão encontrar este teu projeto. Agora mesmo para terminar, Colássio, eu queria te perguntar o seguinte. Já viveste tanto, já experimentaste tantas coisas, já tiveste várias vidas dentro da tua própria vida.

Sonhos e legado

O que é que tu sonhas, se é possível ainda de teres algum sonho depois de teres vivido tanto? Falavas daquela, A Lista da Bota, eu por acaso não conhecia esse filme. É A Lista da Bota que se chama? Em português é A Lista da Bota. É um filme com o Morgan Freeman. Ah ok, já sei qual é. Acho que é The Bucket List em inglês. Sim, sim. Que sonhos, que aspirações é que tu ainda terias? A minha aspiração maior é conseguir manter-me fiel a Deus para um dia poder, quando Jesus voltar, poder viver na eternidade. Até lá. a viver o dia-a-dia e procurar servir, servir a igreja, servir o próximo, um pouquinho como aquilo que eu tenho feito até aqui, indo a encastos, uma série de coisas que eu fiz e no meio dessas coisas sempre teve o meu desejo de ajudar a levar o Evangelho, cumprir a missão que Jesus Deus, o Irmão White, diz que todos nós nascemos como missionários e eu durante muitos anos procurei envolver-me na igreja, especialmente cozinhando, ainda estivemos juntos aqui há quase três anos, num acampamento, etc.

E comecei a envolver-me por isso, ajudei em campanhas de evangelização, fazendo isso. Quando começaram os netos, procurei incutir na minha igreja isso. Ou seja, tu estás sempre muito envolvido. em muitos projetos e isso alimenta também, e alimenta um pouco aquilo que tu também és, uma pessoa muito ativa. Se alguém algum dia quisesse escrever um livro ou fazer até um filme sobre a tua vida, qual era o título que tu gostavas que tivesse? O homem que serviu, o homem que procurou servir. Eu, neste momento, continuo a estar envolvido com a igreja, continuo envolvido e todas as semanas, duas vezes por semana, ajudo no refood, portanto, fazendo recolha de alimentos nos supermercados para depois serem distribuídos.

Porque penso que é isto que nós podemos fazer, especialmente nesta época em que nós vivemos, com as coisas que estão a acontecer em Portugal. Se cada um de nós não der um pouquinho de si para poder ajudar o próximo, o nosso mundo seria muito pior do que aquilo que é. E aquilo que eu procuro fazer é minimizar um pouco. o sofrimento dos outros e procurar, e é o que eu procuro fazer, acima de tudo, num projeto de dois minutos com ele, é levar esta esperança que Jesus pode dar e que está expressa na Palavra de Deus. Uma vida cheia de aventuras, mas sempre ao serviço. José Clássico, foi muito bom poder ter-te aqui connosco no programa Olhos nos Olhos e que Deus te continue a dar essa energia e esse espírito de serviço que sempre manifestaste e que continuas a ter.

Obrigado.

Sobre este episódio

Conheça a história inspiradora de José Manuel Pereira Colaço no Olhos nos Olhos. Gestor, aventureiro e missionário, José viveu em três continentes e superou tragédias pessoais para encontrar um propósito maior. Dos trilhos de Angola às portas do Everest, descubra como a resiliência e a fé moldaram a vida deste homem de ação que hoje inspira milhares com o projeto "Dois Minutos com Ele". Uma conversa profunda sobre recomeços, superação e serviço ao próximo.

Série
Olhos nos olhos · 30 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 21
Estreou
10 de Abril de 2026
Categoria
Outros