Pedro Campos

Pedro Campos

13 de Fevereiro de 202654 min 56 s

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Há histórias que começam com rebeldia e terminam com propósito. Hoje, no Olhos nos Olhos, recebemos um homem que percorreu um caminho improvável, do menino irrequieto e aventureiro ao adulto que encontrou, na entrega e no serviço, o verdadeiro sentido da vida. Pedro Miguel Oliveira Ramos de Campos nasceu a 18 de fevereiro de 1974, em Coimbra, na freguesia da Senova, Em criança tinha um sonho simples, ter uma moto. Nunca lhe deram, talvez por isso em adulto comprou várias e fez delas o símbolo da sua liberdade. Da paixão pelas motos ao karting das travessuras de infância às corridas com o amigo Sami, o Pedro viveu intensamente entre a velocidade e a adrenalina e o desejo de ir sempre mais longe. Mas o que começou como desejo de movimento, transformou-se em missão. Hoje, esse mesmo impulso levou-o até África, onde é responsável pelas infraestruturas da Missão Andrews, um projeto que apoia o desenvolvimento e a evangelização em várias regiões.

Foi numa viagem quase que por acaso, em janeiro de 2020, às ilhas Bijagós, na Guiné-Bissau, que conheceu Louise e Elaine, missionários da Missão Andrews. Um encontro que mudaria tudo. Desde então, dedica tempo, energia e recursos pessoais a esta missão. empresário do ramo automóvel, marido da Sarah e pai da Maria, um menino de 10 anos e do João de 7, o Pedro é um homem de ação. Hoje olhamos olhos nos olhos com um homem que aprendeu que as maiores viagens não se fazem de moto.

A infância rebelde

Pedro Campos, qual foi a maior viagem da tua vida, no sentido figurado? Ou literal, se quiseres. Neste momento, é a viagem mesmo para os Bijaguás. São as viagens da minha vida e das pessoas que me acompanham. Quantas vezes é que já lá foste, tens noção? Talvez dez, pelo menos. Desde 2020, duas vezes por ano. Quando eras criança, algum dia te imaginaste ser este tipo de pessoa que hoje és, que aproveitas qualquer oportunidade para ires até África e ajudar as pessoas que nós nem temos noção das necessidades que têm? Não tinha essa ideia em criança, mas sempre tive na minha cabeça o viajar.

Gosto muito de viajar, de conhecer o novo mundo, da aventura. Mas porque é que não tinhas SCD em criança? Certamente em criança já vias, ligavas a televisão, vias programas até da Unicef, da ONU, de missões humanitárias, etc. Tu olhavas para aquilo e aquilo não te dizia nada. Para já, nessa altura, só via o canal 1. E o 2, não? Talvez. O 2 apareceu mais tarde. Não tínhamos acesso a muita comunicação. Ainda para mais, eu vivia numa aldeia, não tinha tantos acessos. Mas talvez o clube de petições, onde comecei a frequentar, quando fui para a igreja aos 6 anos, e essas aventuras que lá fazíamos, as atividades, se calhar me motivaram-se sempre para estes princípios.

Tu disseste que começaste a frequentar a Igreja Adventista aos 6 anos. Como é que isso aconteceu? Os teus pais eram Adventistas? Não eram Adventistas. A minha mãe começou a frequentar. Depois consegui convencer o meu pai a ir. E depois nós fomos por arrasto e começámos a participar. E eu desde o início, que gostei sempre de ir à Igreja, principalmente pelo Clube dos Barbadores. Era isso que tu mais gostavas na Igreja? No caso do teu pai, tu tens uma irmã, não é? Sim, uma irmã. E como é que era? Estamos a falar do interior profundo de Portugal, com todo o respeito, por aquela região, mas presumo que no final dos anos 70, início dos anos 80, Vila Nova de Monsarros, no caso a localidade era mesmo Monsarros, estamos a falar ali de uma região da bairrada, podemos chamar-lhe assim, era uma região muito interior na altura, ou como é que tu classificas como era aquela região onde cresceste nos anos 80?

Sim, muito mais fechado que Aveiro, Coimbra, Porto ou Lisboa. Nasci longe desses centros. Mas havia ali algum ambiente único que tu possas dizer que a tua infância possa ter sido diferente daquela que alguém que cresceu noutra região do país tenha vivido ou era tudo igual? Não tínhamos acesso a tanto conhecimento, a tantos materiais e uma das coisas que me levou a voar A fim de pensamento foi precisamente o Clube Desbravador, as petições, porque começámos a ir acampar fora, a ir para a Costa de Lavos, e daí deu abertura para muitas outras aventuras. Chamavam-te aqui, das pessoas com quem nós falamos, uma palavra que se poderia adaptar a este Pedro dos anos 80, rebelde.

Achas que é correta essa palavra? Sim, era muito rebelde, um pouco desobediente, estava um bocado fora da caixa na altura. Mas desobediente, mas ao mesmo tempo muito empreendedor, muito ativo e muito organizado. Como é que isso se adapta na mesma pessoa? Na realidade, não sou muito organizada. Mas atualmente és, ou ainda não achas que sejas? Sou organizado, quer ver, mas podia ser melhor. Eu tenho é muita capacidade de improviso. E essa capacidade de improvisar às vezes leva as pessoas a pensar que eu sou organizado, mas na realidade não sou. Mas essa capacidade de improviso, tu nasceste, se calhar criaste essa capacidade de improviso para fugires aos castigos que na altura te queriam aplicar.

E para enganar os meus pais, talvez, para dizer para onde ia. Nunca se sabe. Mas como é que era então essa tua infância? O que é que tu gostavas de fazer? Já falei nas motas. O teu pai proibia-te de algum dia teres uma moto. É verdade isto? Que nunca te deu uma moto na vida? É verdade. Dizia que não me dava uma moto porque não me queria dar uma certidão dóbita. E se calhar ele tinha razão, mas... Sim, tinha razão. Hoje se calhar terias feito o mesmo que ele te fez, ou não? Já penso de maneira diferente. Como eu sei que acabei por ter, e se calhar fora da altura que devia ter, hoje com os meus filhos... com algum travão, como é óbvio, mas prefiro ir dando porque sei que se não der eles vão acabar por ter e de outra maneira ir mais tarde e na altura indevida.

Então achas que a proibição tem mais riscos do que uma permissão faseada? Depende, depende das situações, mas algumas sim. Prefiro indo, por exemplo, no caso de uma moto, prefiro lidando devagarinho para se ir habituando, tendo alguns cuidados para depois não entrarem na loucura de repente terem uma moto aos 20 e tal anos e não saberem conduzir, nem terem cuidado e aventurarem-se muito. Tu participaste em provas federadas, não é? De várias modalidades. E mesmo de motas também. Fazias corridas de motas. Sim, sim, sim. Mas os teus pais sabiam que tu fazias corridas de motas? Não, não sabiam. Vão saber agora, se calhar pela primeira vez. Não, por acaso eles souberam. Inclusive eu cheguei a sair numa revista, que era na MotoJornal, e não podia dizer a ninguém.

E algum dia eles viram essa revista? Não sei se alguma vez viram, mas se souberam que eu andei nas corridas, especialmente nas de mota, que eram mais perigosas, eles não sabiam. Nas de karting, sim. Sabiam. A coisa mais perigosa que já fizeste na vida terá sido isso, corridas de mota? Não. Não? Então... Talvez as missões. Consegue ser mais perigoso. Sim. Mas nesta questão das corridas de moto, eu nunca fiz nenhuma, aliás, não tenho a mínima noção do que isso seja. O que é que está ali em causa? Porque estamos a falar de velocidades. Não sei qual era o tipo de corrida que tu farias, que tipo de motos é que seriam, mas estamos a falar de que velocidades. Trezentos, duzentos, duzentos e cinquenta. Facilmente. Então eram pistas de autódromos. Sim, era um autódromo de Estoril.

E o que é que vai na cabeça de uma pessoa? Tenho que aproveitar porque os convidados que eu aqui tenho nunca andaram a trezentos quilómetros por hora numa moto. O que é que vai na cabeça de uma pessoa quando está a trezentos quilómetros por hora em cima de duas rodas? Vai só pensar em conduzir, não vai pensar em mais nada. Não consegue pensar em mais nada? Sim, não dá para pensar em mais nada. Se bem que às vezes cheguei a um ponto da minha vida em que andava todos os dias de moto, que às vezes em algumas autostradas chegava a ir a perto dos 300 km e dava-me o sono. É verdade. Mas nas corridas que tu fazias, chegavas a ganhar corridas? Não, porque foi muito tarde. Era competitivo, estavam nos rookies, que é os principiantes. Nos principiantes consegui fazer ainda alguns bons tempos, mas nunca cheguei a ganhar nada.

Nem nunca tiveste ambições a esse nível? Não, queria mera divertir. Era a tua preocupação? Sim. E também fazias kartings? É muito diferente os kartings das motas?

O colégio e os estudos

Sim, mas acaba por ser competição. Apanhei muito no al, nos kartings, na condução e nas trajetórias de pista, que depois levei para as motas. E a nível dos estudos todos, eras um aluno que se esforçava ou esta é a parte difícil em que não gostavas dos livros? A parte, muito complicada a minha parte dos estudos. Fui um bom aluno ou médio aluno até Acabar o ciclo. Depois, quando fui para o sétimo ano, foi a desgraça total. Talvez pelas companhias, por este espírito rebelde. E aí chumbei-se ao boer três anos seguidos. Depois fui para o colégio. Ou seja, estudaste em Monsalves? Em Anadia. Estudavas numa escolinha em Anadia.

E depois, a dada altura, os teus pais disseram, temos que fazer aqui alguma coisa, eventualmente o desespero deles, por verem que tu não estarias a evoluir, e colocaram-te no colégio Adventista em Oliveira do Douro. Sim. E houve ali alguma mudança, ou nem por isso? Não, piorou. Não, mas foi muito bom, porque eu fui saber com 12 anos, e na altura não havia telemóveis, para os pais saberem, olha, já chegaste aqui ou ali, então tive no Safara um miúdo da aldeia que pegava, apanhava o comboio, ia até o Porto, depois tinha, até Gaia. O Porto, depois tinha... E sozinho? Tu fazias isso com 12, 13 anos e ias sozinho de comboio porque hoje era impensável? Depois é impensável. Depois apanhava o autocarro, às vezes ia a pé. Muitas das vezes o meu pai dava-me a mesada. Acho que era 500 escudos.

Depois para cá já não tinha dinheiro para o bilhete. Enfiava-me no comboio. Parava em todas as estações e ia a peadeiros. Quando vinha o revisor eu saltava. para uma carrelagem para trás onde ele vinha e safava-me assim. Capacidade improvisa. Mas tu não eras bom aluno, obviamente que não tinha a ver com a tua capacidade intelectual, porque tinhas uma capacidade perfeitamente normal, acima da média, porque quem conduz a 300 km por hora tem que ter uma cabeça extraordinária, digo eu que nunca conduzi nem a 200, nem de moto. Isto tem mais a ver com reflexos e cálculos matemáticos, mas por acaso sempre fui uma aluna matemática, mas lá está. não criei bons princípios. Não quero culpar os meus pais, mas quando os pais, às vezes, estão muito ocupados e não estão atentos e ajudam ou direcionam os seus filhos a estudar, é normal que depois, com as tentações que aparecem, ali com 12, 13 anos, estamos ali na pré-adolescência e adolescência, e que nos percamos para, no meu caso, foi para a vagabundice.

Mas conduzir a 300 km por hora. Existe também capacidade matemática. Disseste isso e eu fiquei curioso em que sentido. Tens de ser muito rápido a fazer cálculos matemáticos para saberes em quanto tempo tens de parar. E reflexos, que também é muito importante. Os cálculos matemáticos é de saberes definir. Vais na reta a fundo, por exemplo, a 300, 320, e tens de fazer a seguir uma curva a 70 ou a 80. Então tens de calcular o local onde tens de iniciar a travagem. Não começas a travar a meio da reta, ou seja, tens de levar até ao máximo limite o início da travagem. Isso é uma coisa que se faz por instinto, mas também por experiência. Sim, vai por experiência, tem que se treinar, tem que estar habituado e nem todos temos a mesma capacidade.

Para isso. E também gostavas de jogar xadrez, ou seja, também xadrez. No fundo é também cálculos matemáticos. Mas não tinha muita paciência. É? Porquê? Sim, para xadrez. Porque se começava a perder, ficava um bocado revoltado, nervoso. Uma vez até cheguei a mandar uma peça à cabeça do Sandro. O Santos é o teu cunhado, não é? Sim, o meu cunhado. Mas tu eras uma pessoa nervosa já, ou seja, vivias muito à custa dos instintos na tua adolescência, era muito assim o Pedro Campos Rebelde que nós estamos aqui a falar? Sim, era muito difícil de controlar, de ter domínio próprio. Isso é uma coisa que se vai aprendendo com o tempo. Então já agora, para quem nos está a ver e que possa ser um adolescente sem domínio próprio, ajuda-nos.

Atualmente sentes que tens domínio próprio ou ainda continua a ser algo difícil para ti? Não, já é muito mais fácil. Como é que isso se adquire? Com experiência, com leitura, mais mais com experiência de vida, porque depois acabamos por aprender que os impulsos, em certas horas, não é bom. Mais vale estar calado, aguentar firme, pensar, nunca agir de cabeça quente, nem responder aquilo que nos vem automaticamente à cabeça quando nos estão a confrontar com algo. remeter ao silêncio e depois, de acalmar, eu faço a regra. Há quem diga que é a regra de respirar três vezes ou contar até três. No meu caso tem de ser três minutos. Está ali muita coisa para ver cá para fora.

Então, depois desse tempinho é que respondemos com calma. E às vezes nem no próprio dia. Ou seja, quando enfrentas alguma situação de maior ansiedade, costumas fazer

O espírito empreendedor

isso e funciona. Sim, sim, sim. Prefiro não responder logo, prefiro remeter-me ao silêncio e falar mais tarde. E tu nessa altura? Estamos a falar de alguém que gostava imenso de desporto, que percebia que estudar não era assim muito a tua vontade, mas já sonhavas ser empreendedor. Já havias ali alguma capacidade no Pedro, com 14, 15 anos, de poder vir a ser um empresário? Sim, sempre sonhei em trabalhar por conta própria. Embora tenha começado a trabalhar por conta do trem, já nessa altura pensava em ganhar dinheiro para abrir um negócio só para mim. E como é que tu olhas hoje em dia para, enfim, está muito na moda, uns chamam-lhe influencers, outros coaches, enfim, há vários nomes que podem ser dados àquelas pessoas que encontram que há um caminho muito específico para ser um empreendedor.

Tu fugiste completamente a esse trajetório, ou a essa trajetória que hoje em dia quase que dizem que tem que ser este o caminho, que é acreditar em si próprio, que todas estas questões que nós vemos, tu fugiste muito a isso, ou no fundo estavas a fazer isso sem saberes? Na altura não havia mentoria como há hoje. Descobri o meu próprio caminho. Com muitos erros. Errei muito, mas com os erros é que se aprende. Acho que é impossível evoluir sem erros. E terias evitado alguns desses erros, talvez? Sim, hoje com o conhecimento que tenho, claro. O que é que tu dirias ao Pedro Campos, que com 14, 15 anos colocava lençóis, não era? Amarrava os lençóis uns aos outros para desceres dos quartos onde estavas. O que é que tu lhe dirias se estivesse cá embaixo e ele estivesse assim a descer naqueles lençóis?

O que é que tu lhe dirias? Volto outra vez a descer. Volto outra vez a descer? Sim. Porque essa parte é boa. Era importante. É importante às vezes o risco, o sairmos da caixa, porque se estivermos ali sempre fechadinhos, também não conseguimos crescer nem ver o que se passa à volta. Isso faz parte da adolescência. É normal. Agora, claro, devemos respeitar muito aquilo que os nossos pais nos dizem, porque o que eles nos dizem é para nosso bem. E eu hoje faço isso com os meus filhos. De uma outra forma que os meus pais me disseram, porque na altura os meus pais diziam quase por temor e sem explicar o porquê, eu hoje em dia faço muita questão de explicar o porquê para que eles cheguem, eles próprios, à conclusão. E vês um bocadinho nos teus filhos, um bocadinho do Pedro Campos dos anos 80 ou não vês nada neles?

Vês? Cara chapada, vou ter que sofrer. E como é que tu fazes? O facto de teres experiência de descer com os lençóis amarrados, que tipo de pai é que te torna? É um pai normal. Eu para já tenho consciência que tudo o que fiz meus filhos também vão fazer igual ou pior. Não sei. E ter consciência disso e que eles vão passar isso e na altura certa, para mim, é importante. São fases normais da adolescência. Tu na adolescência, quer dizer, até antes, gostaste sempre muito de desporto. Não só de desporto automóvel ou motorizado, mas também de desporto como futsal, futebol, etc. Joguei muitos anos futsal. Isso foi positivo na tua vida? Consideras que isso é importante?

Sim. Esporte de grupo e ter alguém, um coach, o nosso mister, que manda e que impõe respeito, acho que isso é muito importante. E tu conseguias adaptar um jovem rebelde a ter que seguir as regras de um desporto de equipa? Que remédio! É muito importante, hoje em dia, os mitos, terem um desporto de equipa. E no caso, que tipo de desportos é que tu fizeste muito e ainda continuas a fazer, não é? Ainda continuas a praticar desporto todos os dias. Tu és aquele tipo de pessoa que, quando se mete numa coisa, vai até o fim e tem mesmo que conseguir dar o máximo naquilo? Sim. Isso é sem dúvida. Já passei por vários desportos, pelo ciclismo. Agora, num outro, também estou a tentar dar o meu melhor. Agora, canse-me é... Não estou toda a vida a fazer a mesma coisa. Gosto de desafios novos.

E que tipo de desafios é que te movem, atualmente, ainda? A nível de esporte? Sim. Neste momento, Aerox. Aerox, isso é o quê? É um conjunto de ter de correr muito, de carregar, de fazer um quilómetro de ski, um quilómetro... Ski? Tens de correr um quilómetro a fundo, depois tens de fazer um quilómetro de ski, depois tens de correr mais um quilómetro, depois tens de puxar 150 quilos, depois tens de empurrar também 150 quilos. É um desporto muito duro neste momento, mas basta pesquisar. Mas é raro que em Portugal há vários praticantes? Já começa a haver muitos praticantes nos ginásios. E como é que te lembraste disso? Foi mais porque a Sara começou a. Fazer, a minha esposa. E depois resolvi ir para o ginásio, que eu detestava ginásios.

E depois motivou-me um bocadinho para isso e também para o físico. Porque acho que se mantivermos um bom estado físico, também conseguimos ter mais foco no estado mental. E por falar em físico, vimos que estás de t-shirt e esse projeto Missão Andrews. Nós já vamos falar daqui a pouco. Vamos só para o primeiro intervalo deste Olhos nos Olhos com o Pedro Campos, é o nosso convidado. Daqui a pouco vamos falar mais sobre o que é isto de ser empreendedor, mas sobretudo de um projeto que está a ajudar a África. E como é que de um empresário se lembra de, numa viagem meramente turística, apoiar tantas e tantas crianças como acontece com a vida do Pedro? Até já. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança.

Atividades com jovens

Segunda parte do programa Olhos nos Olhos, com Pedro Campos, o nosso convidado. Falamos sobre alguns projetos que norteiam a sua vida. Começamos um bocadinho aqui pela tua infância, por algumas destas confissões que nos foste fazendo. Tu sempre foste uma pessoa de muita ação, no sentido em que gostavas de criar coisas e de fazer coisas. Isso também acontece com os jovens da tua igreja, falamos da tua igreja, que frequentas a Igreja Adventista do 7º dia de Vila Nova de Monsarros. Sempre gostaste muito de fazer atividades com jovens, de promover atividades com jovens, seja em acampamentos também, de tições, uma faixa etária mais nova, sempre gostaste muito disso? Sim. É sempre um privilégio poder ir à Costa de Labos e participar na organização de um acampamento de tições.

O que é que tu mais gostas quando organizas estes acampamentos, organizas, fazes parte das direções, o que é que te mais dá prazer naquela convivência com os mais novos? É ver que eles estão felizes e que gostam daquelas atividades que não são normais no dia a dia deles. E achas que aquilo pode fazer diferença na vida espiritual de um jovem frequentar este tipo de atividades ainda tão jovens? Faz toda a diferença. Tudo se proporciona para a parte espiritual, nem que seja um jogo de água ou uma pista, porque, no fundo, motiva-os à leitura, ao estudo e à prática da oração. No caso de crianças ainda pequenas. Sim. Desde que idade é que tu começaste a participar nestes acampamentos, nestas atividades com os mais jovens?

Desde o ano 99 ao 2000, salvo erro, através do Jorge Branquinho que me convidou. Jorge Branquinho, que é um líder de jovens, etc. Há alguém muito específico que sempre te acompanhou nestas leads, que era uma cadela que tu tinhas, não é? Sim. Posso dizer o nome? Posso. Galdéria. Porquê? Porque ela andava sempre na rua e lembrava-me uma Galdéria. Mas ela era uma cadela abandonada que tu recolheste? Não, não. Comprei-a numa labradora e eduquei-a. Era uma cadela muito obediente. E as crianças gostavam muito de lidar com ela? Sim, gostavam.

E tu recordas-te dela? Terá sido aquele ser que mais saudades tu tens? É um dos seres que... Lá está. De vez em quando ainda me lembro dela e vem uma lágrima ao canto do olho. Mas porquê? Que essa cadela era muito especial, que só lhe faltava praticamente falar. Ela fazia tudo. Ia-me buscar o telemóvel se ele começava a tocar. Buscar o telemóvel? Sim. Como? Muitas coisas. Com a boca. Mas só se ele dissesse. Para ir buscar qualquer coisa, para acompanhar crianças. Uma boa companheira mesmo. E quantos anos é que conviveste ainda com ela? Onze. Onze anos. Morreu cedo porque ela conviveu demais comigo e fez-lhe mal. O que é que lhe aconteceu?

Morreu com um cancro e despediu-se. Ela sabia que ia morrer e despediu-se nesse dia. Como? Fez um gesto diferente de todas as vezes que eu a tinha levado ao veterinário e... e deu tipo um último suspiro em cima de mim e depois foi. E esse foi dos momentos mais difíceis que tu viveste? Sim. É difícil eu chorar pela morte de alguém, mas pela cadela chorei muito. Porque és muito racional. Procuras ser muito racional ou escondes as emoções que vives? Até hoje, com as pessoas entre queridas que morreram, eu fiquei de consciência tranquila. Convivi com elas, fiz o possível para as visitar.

Estou a falar do caso concreto dos meus avós. Inclusive, eu não consegui... Estava fora, no estrangeiro, quando eles morreram, não consegui vir ao funeral. Fiquei de consciência tranquila, porque o que fiz, fiz em vida.

Ajudar os outros

Quem te conhece diz que tu gostas muito de ajudar os outros. É verdade isso? Sentes isso? É. Antes mesmo de fazeres parte desta... De fazeres, no fundo, de criares, quase, esta ajuda que tens feito na Guiné, na Guiné-Bissau, já gostavas de ajudar qualquer pessoa que precisasse. Como é que tu funcionas a esse nível de ajudar os outros? Eu não tenho muita explicação para isso, mas eu sinto prazer em ajudar os outros e... É natural. Não consigo explicar porque sinto-me bem. Realiza-te de alguma forma. Sim. Nós temos algumas imagens. Algumas fotos. Não, nenhuma delas é comprometedora. Algumas fotos que nós podemos mostrar aqui, que nós gostaríamos que documentasses. Esta aqui é o Pedro Campos, com quanto tempo?

Um ano. Com um ano, sensivelmente, à volta disso, não é? E temos mais imagens. Aqui quem é? É a minha irmã. Lígena, ela é mais velha que tu? É. Seis anos e meia. Ah, ok. Nunca vi essa foto. E esta aqui também é ela? É ela. Devia ter para aí uns dez anos, talvez. Eu. Aqui... A minha mãe, a minha irmã e eu. No Natal, presumo. Sim. Ah, e aqui é o meu pai. O meu pai com um bigode da moda. Aqui sou eu já na adolescência, talvez já com 12, 13 anos. E aquilo é o quê? É um... É um pacalo, como diz o meu filho. Um cavalo.

Aqui já deve ser aí com uns 40 anitos. Isto é a família, presumo, amigos. E creio que ainda temos mais uma... Não, tudo família. Ok. E aqui são os teus filhos, não é? E a tua esposa. Sim, o ano passado. Pedro, qual terá sido aquele momento que mais te fez sofrer na tua vida, quando agora tu olhas? O que mais fez sofrer? É difícil. Não tenho assim muitas partes de sofrimento, sincero. Sempre fui uma pessoa abençoada e sempre lidei bem com a frustração. Talvez parte da educação, o facto de termos de nos enrascar sozinhos.

Talvez isso não tenha sido uma história muito difícil. Ou seja, quando olhas para trás, vês que na verdade a forma como tu ias superando os obstáculos era quase com mais naturalidade. Sim, sim, sim. E ainda hoje sou assim. Tento aproveitar os momentos maus, ou as fases difíceis, para ainda me autodisciplinar e promover ainda mais. E mudaste alguma coisa na tua relação, por exemplo, com os livros? Ou, no fundo, aquela tua insubordinação da adolescência mudou hoje em dia? Ou sentes mais necessidade, por exemplo, de conhecer mais e aprofundar mais os assuntos? Porque para quem introduz num novo desporto, por exemplo, tu estudas muito sobre aquilo que estás a fazer, não é? Para quem se aplica tanto, Continuas como é que tu funcionas?

Um bocadinho. Eu gosto muito do efeito surpresa. Não sou daquelas pessoas que vai para algum lado, para um país, e que já sabe onde é que vai dormir, onde é, o que é que vai comer, o que é que vai fazer. Eu gosto desta parte da surpresa. Então não sou uma pessoa que quando entro em algo que vá estudar muito acerca do assunto. Vou-te tomando conhecimento a seu devido tempo. Podemos dizer que és um empresário do ramo automóvel, será a palavra mais correta? Sim, neste momento, sim. E tudo o que tu sabes de carros tem a ver com a experiência que foste adquirindo? Ou tens mesmo também... Sim, aí tenho de me aplicar. Por exemplo, nesta parte agora dos veículos elétricos, é óbvio que tenho de acompanhar e estudar esse assunto. E foi difícil criar uma empresa? É difícil criar uma empresa, manter uma empresa?

Criar é fácil, manter é difícil. Especialmente porque hoje em dia muitos impostos, tudo é caro. É preciso ter muita cabecinha. E como é que tu conseguiste, como é que tu ias manter? Ainda mantens a empresa? Sim, sim. Mantive, mas não foi sempre sucesso, não é? Mas às vezes lá está. Nós, com o insucesso, vamos aprendendo até chegar àquela parte em que praticamente já sabemos mais alguma coisa. Nunca tudo, porque estamos sempre a aprender até morrer. E naquilo que eu disse há pouco, para quem quer montar uma empresa, achas que há um caminho único? Aqui em Portugal estamos a falar da nossa realidade. Há um caminho único, há vários caminhos. Como é que alguém, no teu caso, sem ter apoio financeiro de ninguém, de heranças, não sei, conseguiste criar algo a partir do zero, digo eu?

Sim, eu fui a partir do zero. Quem quiser fazer algo do género, algum caminho que tu encontres, algumas dicas, sei lá? Não pode desistir. Tem que estudar um pouco acerca do assunto, saber o que é que está a fazer, obviamente, mas principalmente nunca nada é fácil.

O desafio dos negócios

E então é insistir, insistir. Se der errado, temos de ver o que é que correu mal. Temos de fazer uma autoanálise, de preferência escrever numa folha, analisar bem isso e melhorar. E é isso que tentas fazer? Sim. Mesmo nas minhas escolhas hoje em dia, eu exponho numa folha de papel uma parte de vantagens e desvantagens. Escrevo as vantagens todas e escrevo as desvantagens. Depois faço o somatório. Se bem que algumas vezes, quando metemos nesta equação a parte do coração, pode dar uma conta errada. Temos de ser muito objetivos e pôr o coração de lado. Mesmo no ramo dos negócios?

Não estou a falar o coração na parte de ser cruel para as pessoas. É a parte de ser cruel para nós mesmos. A arte do sucesso é isso, ser cruel a tempo, mas nunca para os outros, para nós. Porque às vezes há um negócio que nós criámos e que custa nos deixar, mesmo apesar de tardar prejuízo. Se nós fizermos bem as contas, as vantagens e as desvantagens, se matematicamente estivermos a ter desvantagens, nós temos de ter a coragem ou para o finalizar ou para o melhorar. Se não fizermos isso, vamos terem sucesso. E tu fazes essa análise também, ou em algum momento fizeste essa análise, quando resolveste embrinhar no Projeto Andrews? O projeto Andrius, ou missão Andrius, não é um projeto meu. Eu creio que seja um projeto de Deus. Então aí, em oração, eu junto com a restante oração, pusemos, digamos, a responsabilidade no boss.

E o boss é Deus. Então nós só queremos servir e em oração dissemos o mesmo a nosso Deus que a parte financeira seria com Ele. Ele é o responsável do projeto. Ele só nos tem de dar força e dirigir para aquilo que temos de fazer. E até hoje tem sido um sucesso nesse aspecto. Então, vamos por fases. Foi numa viagem que tu fizeste em 2020, não é? Foi em 2020, não é? Que tu viajaste até África. Foi a primeira vez que tinhas ido à Guiné-Bissau? Não, já tinha ido à Guiné-Bissau, salvo erro em 99 ou em 2000, há 25 anos atrás, mas por motivos completamente distintos. E neste caso foste em turismo com a tua família? Não. Não, não. Nessa altura fui em trabalho por conta de uma empresa.

Só que só havia avião uma vez por semana e fui tratar de um assunto que demorou meia hora. E depois não havia... Aquilo estava ali um clima, uma guerra civil. E estava um clima um bocado... Foi. Na altura da pandemia, não é? Não, não, não. Não estou a falar. Em 99, ok. Em 99. E então foi assim que conheci as ilhas dos Bejagós. Fui lá à Igreja Adventista, perguntei onde era que era preciso ajudar. Lá está. Eles disseram que estavam a construir uma igreja nos Bijagós e eu perguntei se era preciso alguma coisa e eles disseram que se eu conseguisse comprar a cimenta e levar para eu levar para lá. Consegui arranjar um barco de um pescador. Puseram uns ténis e uma bússola na ponta da piroga. A piroga é um barco de madeira e com 5 metros. E fomos mar dentro várias horas, no bueiro.

Eu pensei que já nunca mais ia voltar. Mas isto em 99, então? Foi em 99. Depois encontrei... Cheguei a uma das ilhas, que é Bubac, nos Bijagós. Entreguei o cimento. Tirei umas fotografias do início da construção da igreja. E depois, durante 20 anos... Nem pensavas nisso? Nem nunca mais pensei nisso. Só... Não sei se queres que eu continue. Não, mas eu estou curioso, porque o que é que leva alguém... Estás lá uma semana, tipo, tenho que me entreter, o que é que eu vou fazer durante esta semana que aqui estou? Já sei, vou ajudar a construção de uma igreja. Foi algo assim do género? Quem sugeriu a construção da igreja foi um missionário que estava lá na missa adventista, que foi procurar a igreja adventista. E tu foste a uma loja qualquer lá, em que cidade é que estavas?

Em Bissau. Procuraste uma loja que tivesse cimento, foi isso? Sim. Meteste o cimento num barco? E foste só com mais uma pessoa? Não, iam mais pessoas no barco. Penso que à volta de cinco horas em Mar Alto. Cinco horas num barco com cimento, sem saber sequer para onde é que ias, no fundo. Não. Ainda hoje é perigoso lá ir, mas na altura... Mas não ias comissionar, ele não foi contigo, foste mesmo sozinho? Não, sozinho. Chegaste lá e disse, olha, o meu nome é Pedro, tenho aqui cimento. Não, tenho de ir procurar quem era a pessoa que lá estava a construir a igreja. Foi uma aventura muito grande. E ele, quando te viu, o que é que ele disse? Obrigado. Já não estava habituado a ver brancos. E depois, durante 20 anos, isso apagou-se, até que surgiu...

Parece que fui sugada outra vez para lá, por uma mera coincidência de alguém que estava na Guiné e que me veio comprar um carro. Ou seja, alguém que estava lá e que veio cá comprar um carro. Para lá ou para cá o carro? Para cá. Veio comprar um Porsche. E eu nem dei muita atenção a esse senhor, que se chama Rui. Mas ele disse que estava na Guiné e eu disse-lhe, olhe, já estive na Guiné há 20 anos atrás. Fui lá aos Beja-Goja. Você foi aos Beja-Goja? Aquilo é tão perigoso, você ir para lá, morre tanta gente. O que é que vai ser lá para fazer? E olhe, foi assim, levar cimento. Eu naquela altura estava para ir de férias. e então resolvi ir à Guiné porque quis ir ver como é que estava a igreja que eu tinha levado cimento há 20 anos atrás.

Mas pronto, há uma parte antes aí, que eu queria fazer um parênteses, que é cerca de um ou dois anos antes eu andava a orar para Deus me dar um propósito e para Deus me usar da maneira que Ele quisesse. Não sei se foi extrema coincidência ou não, mas essa pessoa que me apareceu para comprar o Porsche levou-me a com que eu fosse Se calhar, na altura certa, para quando eu fui visitar essas ilhas, fui à Guiné, fui visitar essas ilhas, estavam lá dois missionários brasileiros. E que me levaram a... É isso que eu digo, fui sugado para aquela missão. Porque fui na altura certa em que estavam a começar este projeto. E esses dois missionários que nós falávamos nisso, o Luís e a Helene? O Luís e a Helene, sim.

A descoberta de África

E tu foste sozinho dessa vez ou foste acompanhado? Fui com a minha família. E o que é que tu viste quando chegaste aos Bijagós? Muita água. São ilhas. Vi que estava tudo muito pobre, continuava praticamente igual, mas com mais população e muita carência. O cimento que tu ofereceste teve utilidade? Teve. Eu fui à procura da igreja. Ninguém sabia onde é que era. Por acaso, tenho um vídeo muito engraçado com isso. Vamos à procura da igreja e conseguimos-la encontrar por causa dos hinos que estavam a cantar. Mas eram muito poucas pessoas. Eram só cerca de cinco pessoas, mais os missionários. E quantas pessoas então habitam nestas ilhas?

Quando falamos em ilhas dos Bijagós, é mais do que uma? São 88 ilhas. E perto de 30 são habitadas. As outras são desabitadas. É um paraíso, é da biosfera, proteção da Unesco, e são autênticos paraísos. E no caso, quantas ilhas é que tu estás a ter alguma intervenção com este processo? Neste momento são três. Três ilhas específicas? Sim. E tu foste diretamente logo para aquela. Que mais... Mais habitada. Quantas pessoas habitam nessa? São à volta de 3 mil. 3 mil pessoas? Sim. Como é que é a estrutura de uma ilha de 3 mil pessoas? Não há saneamento básico, não há eletricidade, a não ser progeradora. Que é logo a maior de todas estas ilhas, nem sequer tem isso, nem podemos imaginar as outras aí. Há outras, o Açá, por exemplo, onde estamos a iniciar a escola, que podes levar para lá um milhão de euros e não compras nada.

Não há uma garrafa de água, não há um papel, não há um clipe. Mas então nesta ilha, na maior ilha, que tem 3 mil habitantes, não tem eletricidade, não tem saneamento básico, água potável, que haverá alguma forma, nem isso? Não, não tem. Então como é que estas 3 mil pessoas vivem? Com muitas dificuldades e com muitas doenças. Como é a estrutura social? Há alguma hierarquia? Há comércio? Muito pouco comércio. O comércio que lá é quando é época do Caju, porque Guiné-Bissau era um dos maiores portadores do mundo de Caju, agora já não é. E, a nível de comércio, é mesmo só a panha do caju. É onde eles podem ganhar dinheiro, fora pequenos negócios que há lá de venda de roupa, de fruta.

Fruta escassa. Então, a primeira vez que lá foste com a tua família, à maior ilha de Bijagós, foste com a tua mulher e com os teus filhos e ficaram lá um dia, como é que... Não, fiquei uma semana. Depois esses missionários que lá estavam, o Luís e a Helene, convidaram-me para ficar lá com eles a almoçar. Porque eu fiquei estranho, o que é que fazem aqui dois brancos, aqui perdidos nesta ilha. E eles também acharam estranho ver também outros brancos e com os filhos pequenitos, que não é uma coisa natural nem hoje em dia. E eles acharam estranho o que é que nós estávamos ali a fazer. Eu expliquei-lhe que tinha ido levar cimento, levei fotografias ainda analógicas, em papel, que tirei na altura, 20 anos atrás, que as tinha guardado. E eles convidaram-me para participar no projeto.

Disseram que queriam construir uma escola, mas eu disse, não, é impossível. Isto é a mesma coisa que em Monsarros agora criaram o Burj Khalifa. Pedro, eu vou querer saber mais por nós sobre este projeto e em que medida é que janeiro de 2020 poderá ter sido um ano que mudou a tua vida. Um ano, enfim, o ano de 2020. Mas vamos para o último intervalo do nosso programa e voltamos já a seguir. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos, com Pedro Miguel Oliveira Ramos de Campos, é o nosso convidado. Pedro Campos, já falaste um bocadinho da tua vida, estamos aqui a tentar perceber o que é que mudou a partir de 2020, e eu se calhar recuaria um pouco antes, falavas dois anos antes, 2018, sensivelmente, em que oravas, para que Deus te mostrasse o teu propósito de vida.

Porquê sentias necessidade, na altura, de encontrar um propósito? Estamos a falar de um empresário bem-sucedido, com uma família lindíssima, como vimos nas imagens. Porquê sentias que te faltava algo, quando, enfim, estavas bem, bem de saúde, a fazer exercício, forte? Porquê sentiste necessidade de orar nessa altura? Acho que me sentia um bocado inútil para a comunidade. e não sabia o que é que havia de fazer. Tinha alguma coisa, podia ajudar, mas não sabia como. Então, só disse, Deus usa-me da forma que tu queres. Querias fazer a diferença na vida de uma comunidade maior. De alguém. E foi quando esse Rui, então... Ainda mantens contacto com o Rui? Sim. É ele que me ajuda nas chegadas a Guiné-Bissau e está sempre preocupada em saber se estou bem.

e se eu realmente precisar de uma ajuda bem grande, ele está lá para me ajudar. Então, no final da segunda parte falavas em que dizias que era impossível, era como construir o Burj Khalifa em Monsarros, construir uma escola numa destas ilhas de Bijagó. Estamos a falar na maior ilha, no caso. E como é que resolveste, então, construir um Burj Khalifa em Monsarros? Porque, no fundo, era isso que tu estavas a idealizar. Como é que mudou o chip dentro da tua cabeça a dizer, não, se calhar isto até é possível? Em que momento é que viste que isso era possível? Os malucos nunca estão sós. O projeto não era meu, conforme eu já disse. É da Missão Andra, são uns missionários que se deslocaram para lá, em especial o Lucas e o Claudeci.

E eles são do meu género, gostam de desafios. Eles então são missionários brasileiros? São missionários brasileiros. Que vivem no Brasil ou noutros países? E se deslocam, sim. E que foram para lá e fazem lá um trabalho contínuo e já lá estavam há muitos anos? Não, eles só faziam, como eu, trabalho temporário. Deslocam-se uma ou duas semanas, fazem campanhas, e depois voltam, até porque um deles é empresário também. Mas a escola, eu não acreditei. Porquê? Porque naquelas ilhas não há construção de tijolos. Os tijolos têm que ser feitos um a um, à mão, e secos ao sol. Não há ferro, não há cimento, não há água canalizada, não há nada, praticamente. E então, Eu achei que era a mesma coisa que construir um Burj Khalifa em Monsarres, porque não havia recursos.

Ainda para mais, o primeiro desenho ou a maqueta da escola foi um desenho com um pau no chão. A escola vai ser assim, um do outro lado, olha que isto é muito grande, não é nada, acredita que isto vai acontecer. O Óscar Niemeyer a fazia sem guardanapos, mas assim no chão, não acredito. Pronto, eu não acreditei muito, mas depois, quando se começou a fazer e ver as coisas já acontecerem, aí começou-o a acreditar. E aí eu entro e, quando entro num projeto, eu gosto de dar tudo.

Missão Andrews

E aí acho que, sim, que impulsionei um bocado a construção. Mas, antes de mim, teve pessoas muito importantes para dar a ignição ao projeto. Mas quando é que acontece esse momento? Foi ainda nessa viagem com a tua família? Ou foi depois regressos sucessivos que foste fazendo? Foi regressos sucessivos, sempre. Com diferentes pessoas que depois tomaram conta do projeto. Esses dois missionários foram embora, chegou um argentino, e assim sucessivamente, e sempre com a restante direção, neste caso o Lucas e o Claudeci, acompanharem. Depois, ultimamente, é que já tenham nos locado sozinhos e tratado praticamente das coisas, sempre com o apoio deles. E tens levado também pessoas contigo. Sim, sempre. Vamos ver agora um vídeo que nós aqui temos.

Aliás, quem quiser te seguir nas redes sociais, presumo que seja Missão Andrews, mas também nas tuas próprias. Qual o teu? Podemos colocar o oráculo da tua... Pedro. Underscore Campos underscore PT. E que tu fazes, enfim, muitos vídeos. Estás constantemente a mostrar aquilo que lá vai sendo feito. Vamos ver um desses vídeos e depois, no final do vídeo, eu te pedi que explicasses o que é que aconteceu neste vídeo. Ora, aqui estamos nós todos prontinhos para seguir para a Guiné-Bissau, não é, malta? Este é o nosso hospital de campanha, aqui na nossa escola em Bobaca.

Aqui é a nossa faz-tudo, é médica, odontologista, enfermeira, professora, odontologia, tudo, tudo ao mesmo tempo. Bastante infeitado, portanto, vamos ter que medicar para as duas situações. Aqui temos uma úlcera.

Foi a última viagem que fizeste lá, esta? Sim, foi... Nem há um mês. E como é que tu mobilizas... A maior parte destas pessoas que viajaram contigo nem sequer são cristãs ou adventistas. Ou... Algumas nem sabem que eu sou adventista. Nem sabem? Então o que é que as move estas pessoas irem lá? Ou como é que tu as consegues mobilizar para irem contigo a este lugar? Eu praticamente não mobilizo. Elas aparecem e dizem que querem participar na missão porque veem alguns vídeos nas redes sociais e pedem. E acaba por ser uma missão dentro de outra missão. Porque nós vamos lá com uma missão de ajudar, mas quem leva também acaba por ter conhecimento e vir mais rica. Então que pessoas é que tu aqui tinhas? Médicos? Tu falaste numa médica e depois...

São. Várias médicos e a enfermagem e também pessoal que vai para ajudar noutras áreas. E como é que tu conheces estas pessoas? Presumo que algumas nem as conhecias. Não as conhecia. Há pessoas que vejo pela primeira vez no aeroporto. No aeroporto? Sim. E como é que isso funciona? A logística disso? És tu que tratas tudo sozinho ou tens pessoas que te ajudam nestas questões mais logísticas, burocráticas? Logística nestas viagens sou eu praticamente sozinho, que resolvo com alguns conhecimentos que tenho. Na parte da escola, isso já é diferente, já tenho muita gente a apoiar-me. E estes vídeos és tu que editas, que fazes tudo também sozinho. Sim, faço tudo, no CapCut. No fundo és um influencer também. Estes vídeos, no fundo, o grande impacto que tu consegues, e tu sabes perfeitamente isso melhor do que ninguém, são estes vídeos.

Sim, e o sucesso são mesmo estes vídeos, que embora me deem uma trabalheira e eu não gosto muito, mas são elas que demonstram às pessoas onde é que está a ser aplicado o dinheiro delas. vêem as caras, vêem ao longo do tempo o que está a ser construído e acreditam. E é isso que traz sucesso para esta missão. Como é que o dinheiro aparece? Presumo que no início, e se calhar ainda hoje, muito do dinheiro és tu que vais com a tua empresa, vais colocando, mas não és tu que consegues sustentar uma coisa desta dimensão. Não, eu na realidade ao início punha algum dinheiro, mas não muito do meu particular. Mas pelo menos as viagens, esta ocupação... Sim, as viagens, sempre, qualquer missionário tem uma missão em que todos os que vão para lá têm de custear toda a viagem desde a alimentação.

Tudo. Agora, o dinheiro foi aparecendo sem nós pedirmos. Lá está. Nós, quando estamos a servir algo maior, a Deus, e pusemos a Deus a responsabilidade de arranjar os recursos, Ele tem demonstrado que é responsável por isso. Vai, basicamente, porque faz aparecer do nada. Nós chegámos a ter uma doação com mais de cinco dígitos, e não estou a falar de mil euros, estamos a falar de vários milhares de euros, de pessoas que não conheciam nem a Igreja Adventista, nem a mim. Simplesmente me viu num vídeo e disse que queria transferir um dinheiro para ajudar. E quando fomos a ver a transferência, era mesmo muito dinheiro.

E nós, João, como é que é possível? Eu ainda tentei ligar com a pessoa, que a pessoa não atende o telefone, só por mensagem, e diz que confia, mas eu disse, mas o senhor enviou tanto dinheiro, como é que você acredita em nós? Dizendo, não, eu acredito, não se preocupe, utilizem o dinheiro. Temos tido várias experiências, até de outras denominações religiosas, que apresentam vídeos a apresentarem a Igreja Adventista, por trás, e que sabem, e que nos apoiam. E tu sentes a intervenção de Deus nestes momentos? Seja nestas ofertas, seja em momentos que vocês lá vivem com as crianças? Sempre. É impossível não ser Deus.

Escola Betel Bubaki

Especialmente as doações. Ou seja, em 51 anos... Tens 51? 52? 51. 51 de vida. Nunca sentiste tanta intervenção de Deus como agora, na tua vida? Não, nunca senti tanta intervenção. Especialmente neste projeto. Mas temos um vídeo para tu veres, ainda ligado a este projeto, que eu gostava que visses. Olá, Pedro. É aqui da escola Adventista Betel Bubaki. Nós estamos aqui para lhe agradecer por tudo o que tem feito por esta escola, por ter-nos impulsionado, ter-nos ajudado e ter impulsionado a missão IND. Por isso, nós queremos dizer o nosso muito... Obrigado!

O que. É que tu sentes ao ver esta imagem? Realizado. Satisfeito. Já me tramaste, disseste que ias chorar e eu disse que não. Mas fico muito satisfeito. Mas, na realidade, quem ganha mais até sou eu. E há uma coisa que eu quero dizer acerca desta escola, que começou só como uma escola, e que rapidamente, seguindo o exemplo de Jesus, que ele não tratou logo de curar as pessoas, não tratou logo de falar de religião, mas sim começou por tratar das necessidades básicas.

Quando acabámos a escola, que é interminável, está sempre em obras e manutenção, vimos que as crianças iam, muitas delas, sem uma única refeição, iam com fome para a escola. E nós, seguindo o exemplo de Jesus, decidimos fazer uma cantina. E alguém se ofereceu para pagar essa cantina. como alguém se ofereceu também para os pratos, como para oferecer um fogão, como alguém se ofereceu, porque eles não tinham água potável, alguém se ofereceu para ir lá montar um sistema com painel solar e de purificação da água. E sinto-me muito realizado por isso, não só pela escola, mas também por esta parte de mais necessidade que as crianças têm.

Assim como enviar estes médicos, que é uma satisfação, porque não têm acesso a um único dentista, passam dores horríveis e prevenções horríveis por parte odontológica e tudo. Têm necessidades de tudo. E é um privilégio poder fazer a diferença na vida de alguém. Só que eu, na minha vida, pensei que ia mudar uma ou duas pessoas. E acabas por fazer a diferença em centenas de crianças. Não sou eu. Eu sou um servo. Pedro, mesmo para terminar, eu gostava que tu partilhasses um pouco qual é o teu próximo passo.

O que é que tu sonhas ainda fazer na vida destas crianças que acabamos de ver, e são tantas e tantas. O que é que tu ainda gostavas, o que é que tu ainda sonhavas, o que é que tu ainda precisas?

Futuro e esperança

Para já, Quero manter. Estamos a fazer crescer noutras ilhas, noutras escolas. Já vamos inaugurar uma em 2026, em outubro. Está a correr bem a construção. Graças a Deus, através de doações, já temos dinheiro para quase a terminar. expandir uma rede de escolas, e cada uma, se possível, com projetos agrícolas, para mudar a mentalidade destas crianças, para poder ser um triunfo no futuro para elas. No fundo, é isso? É uma tentativa de conseguir que estas novas gerações consigam ter acesso a algo que as anteriores nunca conseguiram ter? É isso. E só é possível mudar o mundo pelas crianças.

porque os mais velhos, infelizmente, e também falo por mim, costuma ser burro velho mais vale matá-lo que ensiná-lo, só ensinando as crianças e elas vendo, se elas estão numa escola e têm água potável, têm canalização, têm energia, têm comida, elas vão querer sonhar em ter isso no futuro e dar aos seus filhos também. E é isso que as vai motivar e vai motivar aquele povo e a população daquelas ilhas a crescer. Qual é a esperança média de vida de alguém que vive nestas ilhas de Bijagós? Perto dos 50 anos. Ou seja, é difícil encontrar alguém com mais de 50 anos quando lá vais? Encontro, mas é difícil. Ou quando estou nessa idade.

Eu estive a tentar comprar um terreno para um projeto de agrícola e estava a falar com um senhor que se chamava António, que infelizmente já morreu e era mais novo do que eu. Eu pensava que ele tinha 70 ou 80 anos. Tem muitas carências alimentares, mesmo as crianças são mais pequenas, até os animais são mais pequenos por carências alimentares. Pedro, eu faço esta pergunta a todos os convidados que aqui vêm, é sempre a última pergunta que faço e vou fazê-la a ti também. Como é que tu gostarias de ser lembrado? Quando alguém se lembrado, o Pedro Campos, como eu falei, o jovem rebelde dos anos 70, 80, mas agora com 51 anos, como é que tu gostarias que fosses lembrado? Ou se houvesse algum título a dar, algum livro da tua vida, como é que tu gostarias que estivesse? Nunca pensei nisso. O que já pensei, sim, é espero que um dia, se os meus filhos passarem mal, que alguém possa fazer o mesmo por eles.

Obrigado, Pedro. Obrigado por este testemunho e por este momento de partilha. E para aqueles que quiserem também continuar a apoiar este projeto, ao qual tanto te dedicas, facilmente é só encontrar nas redes sociais. E que ficamos por aqui. É o programa Mãos nos Olhos. Obrigado.

Sobre este episódio

Pedro Campos cresceu entre a adrenalina, a velocidade e o desejo constante de ir mais longe. Da paixão pelas motas e pela liberdade a uma vida marcada pela entrega e pelo serviço, percorreu um caminho improvável que Deus transformou em missão.

Série
Olhos nos olhos · 30 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 17
Estreou
13 de Fevereiro de 2026
Categoria
Outros