Rafaela Silva

Rafaela Silva

10 de Julho de 202654 min 23 s

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Abertura e apresentação

Hoje no Olhos nos Olhos recebemos alguém cuja vida cruza mundos que nem sempre imaginamos lado a lado. A Bíblia com a literatura medieval, ou seja, a fé com a universidade. A nossa convidada é Rafaela Câmara Simões da Silva. Nasceu em Coimbra, cresceu entre Portugal e França. Estudou em Leiria e em Colonge-sur-Salève e em Saint-Julien-en-Geneva. E regressou depois a Coimbra, onde viria a distinguir-se pelo seu percurso académico. Foi criando um caminho muito próprio, fazendo da literatura e da Bíblia uma forma de chegar a lugares, dentro da academia, completamente inacessíveis. Doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, investigadora, professora universitária e autora de vários estudos e publicações, Rafael adicou uma parte significativa do seu percurso académico à presença da Bíblia no romance arturiano em prosa, nomeadamente na demanda do Santo Graal.

Mas a sua história não se resume a teses ou títulos. Há também uma menina que não gostava de fotografias, que não queria fazer oração em público, que gostava de chocolates escondidos e que, apesar da vergonha em falar em público, anos mais tarde tornou-se alguém que vive da oratória. É atualmente professora na Universidade do Minho e na Universidade Portugalense. Nesta conversa queremos perceber como a Bíblia é olhada nos meios mais elitistas e intelectuais dentro da academia, mas sobretudo tentar perceber como as novas gerações de estudantes olham para o livro sagrado. Vamos ainda tentar perceber como uma menina em Portugal desenvolveu um trabalho incrível de levar a esperança junto da comunidade prisional nos Estados Unidos. Vamos dar olhos nos olhos com a professora doutora Rafaela Silva.

Timidez e reviravolta

Olá, Rafaela. Olá, Isquel. Permites-me que te trate por Rafaela, já nos conhecemos há muitos e muitos anos. Posso até dizer, não é nenhuma inconfidência, que és talvez das pessoas mais próximas que eu tenho da minha esfera que estão aqui, o que torna muito difícil para mim porque, no fundo, muitas das perguntas que eu vou fazer já conheço a resposta, o que me torna um privilegiado. mas acho que os nossos telespectadores vão também, de alguma forma, sentir-se inspirados com a tua história de vida. É isso que te levou a aceitares este convite de estares aqui e poderes partilhar algo daquilo que é a tua história de vida? Sem dúvida. Aliás, como bem introduziste, esta não é a minha praia. Quem me conhece sabe bem que não gosto de dar a cara. Gosto mais de estar nos bastidores.

Sempre fui muito tímida e isto é um desafio tremendo. Tu sonhavas ser investigador, é verdade, é que concretizaste o teu sonho, mas no teu percurso académico, brilhante, enfim, foste uma aluna, sempre muito boa aluna, desde criança, até atualmente, sendo professora universitária, tendo terminado o teu doutoramento, mas houve um momento na tua vida em que tu disseste, eu se calhar também consigo falar em público, porque tu ficaste sempre muito reservada, até que aos 30 e tal anos, estou a ser correto? Verdade, perfeitamente verdade. Como é que te deu essa... Em que momento é que tu sentiste? Não, eu se calhar consigo. E a verdade é que agora és professora universitária. A ironia, os paradoxos, como dizia também aqui o pastor Ezequiel Quintino. Gosto muito dos paradoxos também. E é extraordinário, como é paradoxal que eu tenha sempre tido tanta dificuldade em me expressar, até oralmente, porque me inibia, não é?

Nunca gostei do olhar dos outros sobre mim. ainda mais se for um público maior, e estar no centro das atenções, isso estava fora de questão. Mas houve, de facto, sim, um clique, uma mudança súbita. Foi súbita então? Foi, foi mesmo súbita. Como é que isso aconteceu? Queres explicar? É estranho, porque fiz os meus estudos, a licenciatura, claro. Tive uma ou outra apresentação oral, era natural nesse percurso. Fiz ainda o meu mestrado, mas mesmo assim, defendendo a minha tese de mestrado, não foi suficiente para eu sair um bocadinho da minha zona de conforto. Foi mesmo num momento específico da minha vida que houve um empurrão, e foi um empurrão divino.

Então sentes que na verdade foi algo transcendente que te levou a algo que internamente tu sentias, não é nada disto que eu quero, mas houve um momento espiritual da tua vida que te levou a teres uma postura completamente diferente, que no fundo leva a que estejas aqui hoje a partilhar um pouco destas tuas experiências. Tens histórias muito lindas que vamos querer conhecer ao longo deste programa, mas para já, eu gostava de falar um bocadinho da tua infância. porque tu tens uma infância muito curiosa entre dois mundos, entre o mundo

Infância e raízes

francês ou suíço, não sei como é que se traduz. Tu vivias na Suíça, na França? Eu vivia na Suíça, na fronteira com a França, portanto eu vivia na Suíça, mas fiz a minha escolaridade em França. Eu atravessava todos os dias a fronteira para ir à escola. E o teu pai era professor de português? Sim, para filhos de imigrantes portugueses que ali permaneciam na Suíça. Então, temos algumas fotos até dessa altura que eu gostaria de partilhar contigo. Esta foto aqui és bem bebezinha. Ainda não era dessa altura, não. Exato, isto ainda é antes, porque tu nasceste em Portugal. Nasci em Portugal, eu vim nascer de propósito a Portugal, porque os meus pais estavam em França nessa altura. Ah, eles queriam que tu nascesse em Portugal mesmo, que foi uma decisão deles. Foi uma decisão. Minha mãe veio bem grávida para Portugal para eu nascer. Aqui tu estás numa festa muito contrariada, não é?

Porque tu és ali de lado direito, não és tu que estás ali vestida de Índia. Sim, aquela Índia sou eu na escola, aliás, no Jardim da Infância, em França, lá está, já depois de ter nascido voltei para lá. Ainda estive no Jardim da Infância francês, do Sul de França, e sim, Carnaval não era comigo. E aqui é o teu pai. Sim, o meu pai, a minha irmã e eu, a mais, a caçula. Exatamente, e temos ainda esta foto no teu aniversário, já com a tua mãe. Tudo isto em França. Não sei se temos mais alguma foto. Que memórias é que, quando pensas neste período da tua vida em França, que depois nunca mais regressaste, aliás, regressaste, mas esporadicamente nunca mais viveste em França novamente, que memórias é que tu tens desta altura?

Aliás, eu primeiro estive em França, depois de nascer ali alguns anos, depois regressámos a Portugal e eu voltei novamente desta vez para a Suíça. Voltámos para a Suíça e é aí que eu fiz a escolaridade em França. Com os meus nove anos, oito, nove anos, regressei, na verdade, à Suíça. E que memórias é que tens desta altura? Desta altura, o que me custava mais era a distância da minha família, dos meus avós, dos meus primos, da família em geral. E lembro-me, sobretudo neste período, depois, quando eu estive na Suíça, chorar muito. E até a escondida dos meus pais. Entretanto, eu sofria mais do que eu imaginava, muitas vezes. Saudades, simplesmente saudades.

Da tua família de cá, de Portugal. Sim, sim. E era fácil teres amigos ou era difícil? Bem, eu era tímida, aliás, sempre fui. Houve um problema, quer dizer, é natural. Eu não sabia francês. Quando eu regressei nessa segunda vez à França, à Suíça, eu não falava francês. Com quantos anos? Com os meus oito anos, nove. Começaste a aprender francês com oito anos? Sim, eu entrei no quarto ano. Eu vinha meio do ano letivo, outra dificuldade. e claro que ali a barreira da língua foi difícil e tive de me adaptar, mas nesse sentido tive uma professora extraordinária que me ajudou. Mas a verdade é que atualmente tu falas perfeitamente os dois idiomas, sem sotaque no caso francês, em português obviamente.

Como é que tu conseguiste? Porque eu pensei que tu tinhas aprendido francês desde bebezinha, mas a verdade é que com oito, nove anos a começar a aprender uma língua já não é tão fácil assim. Sentias que tinhas essa vocação, tinhas facilidade ou esforçavas-te muito? Eu creio que quando nós somos pequeninos temos mais facilidade em aprender línguas. Eu estive só cinco anos e meio, seis anos, mas foi o suficiente para ter ali uma boa base. E eras muito curiosa em criança ou já tinhas uma aptidão para os livros desde pequenina. De onde é que vem essa aptidão? Bem, não sei se me mostraram os géneros. O teu pai era professor, não é? Sim, o meu pai era professor. Eu já admirava. Aliás, em pequenino, eu dizia que queria ser professora e escritora. Segui, de certa forma, as pisadas no meu pai.

Mas, sim. E há também ali o historial familiar, que também tem tendência para os livros. Já que falamos em família, eu vou partilhar contigo um vídeo de alguém que não é escritor, que é de uma outra área, mas que tu vais certamente reconhecer. Eu gostava que viesse este primeiro vídeo que temos gravado para ti. Olá, priminha. Passámos muitos soréns juntos em casa dos nossos tios. Mas com o tempo aprendi a apreciar a forma como tu partilhas o teu estudo profundo da Palavra de Deus. E recordo-me em especial da aventura que foi gravarmos em casa o programa da Bíblia Aberta durante o Covid, durante o confinamento, juntamente com dois pastores. Cada um de nós tentava trazer ao programa o melhor que tinha encontrado sobre os textos.

Mas tu trazias o detalhe de cada palavra. Qual a intenção do autor? Que perspectivas nos traz para nós hoje? E com isto trazias um novo perfume ao livro de Isaías. Por isso faço votos que continues o teu estudo e a tua partilha sobre o perfume da Palavra de Deus. Obrigado ao Pablo por ter gravado esta mensagem.

Estudo da Bíblia

Para aqueles que não se recordam, eventualmente, ainda na origem da Novo Tempo, se calhar até numa fase mais preliminar antes de estarmos no cabo, tu gravaste o programa Lições da Bíblia e continuas a fazer um estudo muito aprofundado. Trouxeste a tua Bíblia, não és o primeiro convidado. que vem aqui e que traz a Bíblia. No entanto, eu não sei se posso pedir-te que possas folhear um bocadinho, porque é uma Bíblia extremamente degasta, extremamente usada. Não sei se tens ela aberta em Provérbios 14 por alguma razão ou se foi profundamente aleatório. Não? Pode ser aleatório ou não. Porquê que trouxeste a Bíblia e como é que tu fazes, então, este estudo da Bíblia que o Pablo, o teu primo, falou?

Um estudo tão aprofundado assim. Esta é a minha companheira de vida. Ela já tem 32 anos, se não me engano. Vestida pelos meus pais. Tenho um grande carinho por ela. E aos poucos fui personalizando a minha Bíblia com estudo, com aprofundamento. Eu gosto de ir à raiz das coisas, perceber intenções, perceber construções. E digo isto muitas vezes também aos meus alunos. Os textos literários estão cheios de intenção. E a Bíblia, como nós sabemos muito bem, está cheia de intenção. E esta é a minha companheira. Vida em muitas jornadas, todos os dias, eu a tenho. Desde criança que tu lias a Bíblia?

Sim. Nunca houve um período da tua vida que tu disseste não, isto não faz sentido? Claro que passamos todos, muitos de nós, por alguma fase de relativa rebeldia. Os meus momentos foram curtinhos. Estou, graças a Deus, feliz e ele recuperou-me rapidamente e infelizmente não. não foi muito a fundo e felizmente que ele me salvou nesse sentido. Quando fazes o estudo, vamos mais à frente, conversarmos mais sobre isso, mas tu procuras, e a tua tese de alteramento procura relacionar a Bíblia com outros textos, mas antes de falarmos sobre isso, quando tu estudas a Bíblia, tu procuras Quando falas de ir às raízes, procuras o texto original, como é que tu fazes essa leitura do texto original, seja em hebraico, seja em grego, como é que tu fazes isso?

E aqui faço uma ressalva porque eu não sou especialista na língua hebraica nem no grego. Muito gostava eu, sempre. Gostava pelo menos das línguas clássicas. Mas por ter também aprendido latim, já é uma língua diferente, com uma estrutura diferente. Hebraico nem se fala, grego também. Mas sim, fui procurando ferramentas que me possibilitassem esse aprofundamento do texto, em língua original, porque já é uma tendência minha. fazer isso. Com essas pessoas que mais te inspiraram a aprofundar o estudo da Bilo. Eu sei que na tua tese de doutoramento e até na própria tese de mestrado, tu fizeste uma lista enorme de agradecimentos. Algumas pessoas que nós conhecemos bem, o pastor Teófilo Ferreira, um deles, por exemplo. Chegaste a falar com o pai do pastor Teófilo Ferreira, o pastor Ernesto.

Nunca conseguiste. Não, nunca tive esse privilégio, mas com o pastor Teófilo, sim. Chegamos a ter uma conversa. que pessoas é que te inspiraram a aprofundar e até te puderam encaminhar a saber como estudar bem a Bíblia de um ponto de vista, como dizia o teu primo Pablo, ir às raízes profundas? Na verdade, acho que não foi ninguém. Sentiste-te sozinha nesse caminho? Sim, sim. Às vezes sou um bocadinho autodidata e sou curiosa. Eu acho que é esse lado do meu curioso que me leva a experimentar e erro, não é? Porque não acertamos logo e vamos experimentando. É uma experiência que se vai acumulando. Mas dandos até um exemplo. Tinhas a Bíblia aberta em provérbios, enfim. Como é que é o teu método de estudo da Bíblia? De estudo, há aqui uma fronteira entre o que é estudar a Bíblia e o que é deixar a Bíblia inspirar-te.

Tu cruzas esses dois caminhos? Cruzo, cruzo. Isto porque tenho o hábito de, todos os dias, quando inicia cada manhã, eu gosto de ler a Bíblia, ou faço uma oração antes e peço a Deus, precisamente, que me mostre algo oportuno. E em que momento é que saltas essa parte mais transcendente para uma parte mais académica? Em alguma fronteira ou não? Não, eu acho que elas já estão tão confundidas uma e outra que isto já é um bocadinho automático. Mas se o texto me chamar a atenção por algum motivo, eu vou procurar o texto original e vou tentar desbravar um bocadinho mais o sentido. Agora então ajuda-nos a quem vê este programa. Como é que tu desbravas mais um texto? Vais procurar outros livros?

Fazes pesquisa na internet? Como é que tu fazes esse aprofundamento do texto? Vais procurar o texto original? Eu começo simplesmente por comparar muitas vezes traduções. Tenho diferentes bíblias e fui adquirindo essas bíblias. Bíblia de Jerusalém. Gosto muito de uma edição francesa, Bíblia de Churraqui. Portanto, que tenham diferentes vertentes também depois na sua perspectiva de tradução. Mas o que eu faço, sobretudo, é ir ao texto original. E vou adquirir também uma bíblia hebraico e grego, interlinear. Também há ferramentas na internet, portanto eu tento procurar tudo, o máximo, de forma a me abastecer de ferramentas.

E das diferentes traduções da Bíblia, qual é aquelas que tu mais te identificas ou se quisesses traçar um bocadinho o paralelo das diversas traduções, como é que tu farias esse trajeto? Em termos de utilidade, vai depender depois Por que motivo estou a utilizar esse texto? Mas para alguém que começou a estudar a Bíblia ou que quer se aprofundar no estudo da Bíblia, que conselhos é que darias ao nível das traduções? Esta é a minha Bíblia de Ferreira de Almeida. É a minha tradução preferencial. Se for para um estudo mais profundo, já vou comparar uma Bíblia de Jerusalém, sem dúvida nenhuma. Acho que é uma tradução para um estudo mais aprofundado muito recomendável. Já vamos falar mais nestes estudos aprofundados, até porque tenho muita curiosidade que nos partilhes um pouco daquilo que é a tua vida académica atualmente, mas antes temos mais um vídeo que eu gostaria que visses.

Cucu maninha, minha fazita do coração. Umas palavrinhas só para dizer que eu gosto muito de ti, que te amo muito, que estou muito orgulhosa de ti, és uma pessoa inteligente, perseverante, fiel a Deus e espero que Deus continue-te a abençoar e que possas usar os teus talentos para a sua obra. Um beijinho muito grande, beijinhos de quem te ama. Muito obrigado também, Abir, ama a tua irmã. A tua irmã sempre teve muita presença na tua vida, não é? Vocês as duas, a dada altura, estudaram em Coimbra sozinhas. Qual o significado que tu vês na tua irmã, naquilo que tu és hoje?

Sendo a mais velha, muitas vezes ela foi ali um bocadinho a referência e também um certo abrigo, porque nós viemos as duas para Portugal e os meus pais ainda permaneceram na Suíça. Então ela era ali adulta, de casa, e sim, era um apoio muito grande para mim. Naturalmente, eu era menor, ela já, depois já, com nossa pouca diferença de idade, era já maior. E a forma como ela falou te mostra também muito orgulho que tem em ti. E há mais alguém que também tem muito orgulho em ti. Já imagino que desconfies quem é que também gravar um vídeo para ti. Rafael, tu és a nossa filha. Tu és um tesouro enorme.

Estamos imensamente grátis. Quero apenas agradecer a Deus pela filha que nos deu. Tem sido uma grande benção e a minha sincera oração é que ela possa continuar a ser uma benção também para os outros e luz no meio deste mundo de trevas. Gosto muito de ti, tia Rafa. Vimos aqui o teu sobrinho, o filho da tua irmã e os teus pais. Eu achei muito interessante a expressão que a tua mãe usou, que é luz neste mundo de trevas. Procuras ser um bocadinho a luz em meios que é muito difícil haver alguma luz, como eu dizia no início, um meio académico.

Procuras ser essa luz junto dos estudantes até um bocadinho mais desnorteados. Procuras isso constantemente. Sim, é algo, às vezes consciente, outras vezes já não, natural, porque sempre foi a minha oração a Deus. Que Ele seja luz, ajuda-me, ensina-me, orienta-me, proporciona-me. Esta tem sido diariamente a minha oração. Então, procuro oportunidades e é uma oração que eu sempre fiz a Deus. Ajuda-me a reconhecer-te de forma que eu vá. Mostra-me o caminho e eu irei. E possas iluminar o caminho a alguém. Rafaela, vamos para o nosso primeiro intervalo e voltamos.

Aulas na universidade

TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança. Segunda parte do programa Olhos nos Olhos. Estamos com Rafaela Silva, a nossa convidada de hoje. É professora, professora universitária, em que, Rafaela, não és professora universitária de aulas de Bíblia, mas podemos dizer que dás aulas de Bíblia na universidade. Que responde mais ou menos, tecnicamente não é verdade, mas podemos dizer que é um bocadinho isso. Sim, estranhamente, este ano um novo desafio surgiu numa das universidades e uma vez mais porque estou atenta a todas as oportunidades e foi um tempo também de preparação anterior, de oração, de muita reflexão.

Que é preciso coragem, não é? Vamos então por partes. Tu dás aulas de francês. Quais são as aulas que tu dás, então, concretamente? Eu dou aulas de língua numa das universidades, na outra dou literatura, cultura, sobretudo francesas. que é essencialmente francesas, e numa dessas universidades, foi então, não vamos dizer qual é, mas não importa, numa dessas universidades, começaste a introduzir a Bíblia como elemento de estudo para uma geração de crianças, vão por lá, são jovens de 19, 20 anos, não é? Eu vou-lhes chamar crianças. São jovens, mais ou menos, acho que 20. 20, 21, enfim, que estão na idade universitária, e que nunca tinham aberto uma Bíblia, a esmagadora maioria deles, Sim, sim, sim. Ou seja, uma geração inteira que a única coisa que sabe sobre a Bíblia é que é o livro dos cristãos, eventualmente.

Ou se calhar alguns nem isso. Alguns nem isso. E como é que nasce essa tua ideia de eu vou introduzir no currículo, porque terias liberdade para isso, este livro que eu acho que é importante no duplo sentido. No sentido da formação da pessoa, mas também no próprio sentido académico. Foi-me atribuída uma disciplina que tem a ver com a literatura ocidental e deram-me um luz verde para construir o programa, como eu bem entendesse, desde que englobasse-se a literatura ocidental. E uma vez que a minha especialidade é a Bíblia, e muitos colegas meus de formação chamavam-me a Biblista, eu quis aproveitar também esse facto para trazer algo novo àquela disciplina. E usei fazer da Bíblia o corpo textual para depois compararmos com outra literatura ao longo de períodos diferentes e de literatura ocidental.

E como é que funciona na prática? Pegas num versículo bíblico e juntas outro texto literário medieval e fazes comparações e tentas explicar em que medida há influência de um em relação ao outro, como é que funcionam as aulas na prática? Inicialmente, porque a maioria, por estranho que nos pareça, não conhece a Bíblia. Não conhece quer a construção da Bíblia. As primeiras aulas são nesse sentido, apresentar um pouco o panorama bíblico, como é que ela está organizada, contar às vezes até... Havia muitos parênteses. Foi muito giro, porque eles estavam muito curiosos. E ia também proporcionando algumas abordagens de narrativas.

E dediquei-me, sobretudo, ao livro de Gênesis. Foi ali, se calhar, o livro que mais trabalhámos. Prepará-vos com algumas ferramentas teóricas da intertextualidade. Portanto, esta relação entre textos nomeadamente agora fundados na Bíblia, e depois trabalhávamos em aula. Muitas vezes eu deixava-los numa segunda parte de prática, porque eu gosto muito de ter as minhas aulas práticas muito ativas, e deixava-os trabalhar com o texto bíblico, explorá-lo ao máximo, perceber um bocadinho o que era dito, e depois, num segundo momento, víamos um outro texto literário. E o que é que mais te surpreendeu por parte dos alunos, na reação deles, ou até algum momento que tu pensaste, isto aqui se calhar não é só intervenção minha, há que haver algum outro tipo de intervenção para isto estar a acontecer.

Tens ideia e memória de histórias dessas? Muitas histórias, foi um semestre muito rico e eu nem queria crer no que estava a ver. E ainda por cima foi a minha turma maior que eu tive até aqui, de 42 alunos, de cursos diferentes, porque é uma cadeira opcional, portanto 4 cursos estão ali reunidos. Todos portugueses? Nem todos, mas a maioria sim, portugueses, sem dúvida. Alguns crentes e outros não. Pouquinhos crentes. Muitos que desconheciam sequer a Bíblia, não tinham ideia nenhuma. Então Génesis foi um bicho novo para eles. E acho que a experiência para mim mais marcante foi, precisamente numa dessas segundas partes mais práticas, vê-los a trabalhar os textos, a falar entre eles.

Já veste isto? Eu estava muito atenta aos comentários deles. E um segundo momento também muito marcante para mim foi quando eu sempre os encorajei a adquirirem uma bíblia, porque eu disse, é o nosso instrumento de trabalho, é bom que vocês o tenham, porque precisamos de manusear, vocês precisam ver o que está antes, o que está depois, precisam de explorar também o texto e vocês podem trabalhar também autonomamente. E eu pensava, sinceramente, que eles iam ter algum preconceito. Eu vou trazer uma bíblia para a universidade? Eu ouso? E eu tentava pensar em formas de trazer o texto ao fotocopiado, impresso, distribuir, mas surpreendi-me numa aula em que eu comecei a ver, mesa à mesa, as bíblias aparecerem nas mesas deles.

E aí eu pensei, como é que é possível? Isto é surreal. como é que eles iam buscar as bíblias. Agora estou curioso. Nem tu sabes. Novas. Eu vi bíblias novas. Bíblias que iam comprar mesmo. Vi também bíblias velhas, certamente de familiares. Depois percebi também, porque eles falavam comigo. Eles vinham... Aliás, foi uma turma muito agradável de convívio. Eles vinham muitas vezes ter comigo no final das aulas. Um deles, inclusive, eu disse-me, professora, Os meus pais são crentes, o meu irmão inclusive é pastor, mas eu nunca tive vontade, nunca percebi nada de Génesis, nem da Bíblia, nunca tive interesse e agora tenho vontade de ler. Então, foi esta e muitas outras experiências que foram acrescentando, que marcaram muito.

Por parte da Universidade, foi encarado com naturalidade, sentes que não há um preconceito, pelo menos nas universidades onde tu trabalhas, em relação à Bíblia num espaço académico. E mesmo na tua tese de alteramento, que a tua tese de alteramento foi sobre a Bíblia também. Pelo menos ali fui muito bem acolhida, portanto tive aprovação de colegas que vinham ter comigo e diziam-me, Rafael, tu estás a trabalhar a Bíblia? Uau, isso é excelente, que bom, sim, põe-nos a trabalhar, põe-nos a ler. Então eu sentia-me completamente validada nesse sentido. E por parte desta geração que desconhece a Bíblia, o que é que achas que uma nova geração ou se calhar uma nova, ou várias gerações que passaram ao lado do estudo da Bíblia. O que é que achas que elas perdem?

O que elas estão a perder? Estou suspeita para falar. mas perdem... Tenho de sublinhar que é uma aula que não é de teologia propriamente dita, não é religião que está ali em causa. Eles sabem bem, eu ponho sempre isso bem em ponto de acento, e liberdade de expressão e respeito pela crença de cada um, mas eu quero que eles vejam primeiro o texto e o seu valor literário, obviamente. Depois, se pudermos perceber algo mais, e eles também podem tirar as suas lições, ótimo. Só tem a ganhar com isto. E, muitas vezes, nós acabávamos por falar em aula, que eu não tinha previsto tocar, mas eles próprios acabavam por ter interesse em questões, às vezes, de ordem moral, de pequenos detalhes que estão, de facto, na Bíblia, e eles eram muito expressivos relativamente a isso.

Portanto, foi também surpreendente. Que episódios da Bíblia é que tu sugeririas a alguém para estudar, para entrar no mundo da Bíblia? Digamos que imaginamos que tinhas só uma aula para dar e que durante essa aula tinhas que despertar a curiosidade nos teus alunos sobre a Bíblia. Que tipo de episódio bíblico tu irias introduzir em primeiro lugar? Foi exatamente o que eu fiz com eles, foi o Génesis 1, a criação. É fundamental passar por lá. E foi o capítulo 1 e o 2 que nós mais desbravámos inicialmente, para eles perceberem mesmo que isto é a abertura da Bíblia. Vamos compreender como é que ela começa. E que tipo de perguntas é que eles faziam sobre a questão da metanarrativa que Génesis é ou algo mais?

Ou havia ali outro tipo de perguntas que te deixaram até surpreendida de alguma forma? Eles não faziam muitas perguntas, na verdade. Eles eram discretos. Quando eles fazem perguntas ou querem dizer alguma coisa, eles vêm pessoalmente depois sozinhos ter comigo. Ali em aula, pelo menos, não se proporcionava isso. Eu depois é que ouvia às vezes as discussões entre eles, alguns comentários. E como é que, enfim, podemos ir já mais à questão da tua tese de mestrado e doutoramento, mas a minha pergunta é, sendo tu abertamente uma pessoa que tem fé, não necessariamente as pessoas com quem trabalhas precisam saber qual é a tua denominação religiosa, mas sendo uma pessoa que tem fé, como é que isso é encarado nos dias de hoje num ambiente académico extremamente exigente e ao qual tu te moves já há muitos e muitos anos?

Doutoramento e literatura

é muito desafiante. Inicialmente, eu tinha muito medo, tinha as minhas reservas. Mas já não tens? Agora não. A partir do momento em que eu assumi, eu senti respeito e até o cuidado, muitas vezes, de colegas, professores, e posteriormente, depois eu vim a saber, tinham sempre o cuidado em que as reuniões, os eventos, nunca fossem à sexta-feira, até às seis horas, de forma, precisamente, a que eu pudesse estar presente. Então, respeito. Eu gostava agora que pudéssemos ver uma fotografia, talvez de um dos dias mais importantes da tua vida, a seguir ao casamento, vou já deixar aqui o disclaimer, que é quando fizeste a tua dissertação, quando apresentaste a tua dissertação de doutoramento. Tu estás ali, és a terceira a contar de lado esquerdo, não é?

Este foi um dia muito importante para ti, onde tu apresentaste esta tese. Eu creio que também podemos mostrar uma imagem com o título da tua tese, que é... não sei se me consegues ajudar, Raquel. A escrita bíblica. Eu creio que temos essa imagem. No romance sartoriano em prosa. Exatamente, não dá para ver muito bem, mas explica-nos então. É a escrita bíblica no romance sartoriano em prosa, a demanda do santo graal e o quest del santo graal. É assim? É. Falta o sotaque francês, mas está ótimo. Ok, eu nem sotaque português tenho, quanto mais francês. Mas, Rafaela, vamos então começar pelo fim. Se calhar, não havia pessoas em Portugal com capacidade técnica suficiente para poder avaliar esta tua tese e teve que vir alguém de fora, é isto? É verdade isto? Mais ou menos. Aliás, quando é organizado o júri, é preciso sempre haver um júri externo.

É forçoso. Alguém que vem de outro país ou de outra universidade portuguesa? Um dos externos pode ser de uma universidade portuguesa, mas um deles tem que ser mesmo estrangeiro. E houve sim uma dificuldade em encontrar elementos que pudessem constituir este júri. Porquê? No nosso país ou devido à especificidade do tema? Nem sequer, claro que não. Sim, a especificidade do tema e o facto de reunir dois universos completamente diferentes. Encontravam-se especialistas só sobre a Bíblia, obviamente, e só sobre o romance arturiano. Reunir as duas coisas, não. Então, para os nossos telespectadores, vais-me explicar primeiro o que é o romance sartoriano, porque quando falamos isto da demanda do Sante Graal, temos alguma ideia do que é que é, mas concretiza-nos, por favor, em que escritos são estes, ou que textos são estes que tu começaste com a tua tese de mestrado e depois terminaste na tua tese de alteramento.

São romances medievais do século XIII, romances em prose, porque existe também outra tradição em verso. Tem uma origem francesa. E são uns autênticos best-sellers. Estes eram os textos lidos, quem tinha acesso, obviamente, na Idade Média, no século XIII. E o tema é Santo Graal, como o título indica, e se calhar muitos conhecerão por filmes, há toda uma tradição por trás, dos Cavaleiros da Távola Redonda. Então explica-nos agora. Tenho que aproveitar aqui dois minutos em que consiste este Santo Graal, que é o cálice de madeira. Será de madeira ou não? Estou a falar do que vi no filme do Indiana Jones.

Não tem nada a ver. Mas é o cálice, sim. É verdade que é o graal. Então explica-nos em que consistem estes Cavaleiros da Tábua Redonda e o Santo Graal. Os cavaleiros da Távola Redonda, que se reúnem em torno da mesa de Artur, o Rei Artur, a cabeça do grupo, vão em busca deste santo graal, mas têm que passar por certas aventuras cavaleirescas, há toda uma ideologia cavaleiresca por trás, e têm que apresentar determinadas competências, militares, guerreiras, mas também uma vertente espiritual muito forte, moral. E só alguns, uns eleitos, muitos específicos, um trio de eleitos é que consegue ver o grau e receber essas benesses que o dito cálice proporciona.

E tu procuraste encontrar traços características da Sagrada Escritura nestes textos? Sim, é fácil encontrar, na verdade. O Santo Graal já tem esse indício, mas não era por aí. Já havia alguns trabalhos que elencavam algumas das referências bíblicas de forma mais ligeira. Era impossível não haver Bíblia nesses textos porque, na Idade Média, a Bíblia era a referência para textos, para tudo. Aliás, há um especialista que diz precisamente isso. A Bíblia é a referência para tudo, não a fonte de tudo. Mas eu quis ir além do óbvio e seguir, sobretudo, uma linha de pensamento mais complexa.

e tentar aprofundar nesses textos, nesse conjunto, depois tive de fazer uma seleção porque era impossível, não era uma tese de doutoramento, era um pós-doutoramento, mas sim, tentei ali compreender e aprofundar. O teu grande sonho é publicar a tua tese, que ainda não está publicada, mas em que medida é que tu fizeste ali alguma descoberta inovadora que poderá ter impressionado a academia? Aliás, o meu orientador já tinha tentado explorar um bocadinho o assunto, mas ao de leve, e deixou algumas pontas soltas que ele não conseguiu resolver. Havia toda uma tradição francesa, porque aqui são textos franceses, portanto eu dialogo muito com os franceses, que não compreenderam bem os textos.

Na verdade, estou a fazer uma comparação entre dois textos medievais, um português de origem portuguesa e outro de origem francesa, e depois paralelamente com a Bíblia. E o que eu fui compreender é que esses textos rivais tinham uma linha de pensamento totalmente diferente, mas sempre ali ancorada. Os dois na Bíblia, mas com uma leitura completamente diversa. Ao longo deste trajeto em que foste fazendo a tua tese de alteramento, foste conhecendo algumas pessoas que foram também marcando a tua história, uma delas gravou um vídeo para ti. Olá Rafaela, decidi gravar este vídeo envergando esta camisola porque é uma das coisas que nos une, embora não seja a principal. Efetivamente já há alguns anos que as nossas vidas se cruzaram, quantos não interessa para nada, mas desde então que já partilhámos muitas coisas, partilhámos um caminho difícil, o caminho do doutoramento, já morámos juntas, estamos sempre presentes na vida uma da outra, quer nos momentos bons, quer nos momentos maus, e apesar da distância física sabemos que temos sempre do outro lado alguém que se preocupa verdadeiramente connosco.

Eu quero aproveitar este momento para dizer que te admiro muito. Acho que, além de ser uma excelente pessoa, és uma pessoa inteligente, uma pessoa que nunca abdicou dos seus ideais, que sempre procurou também traçar o seu caminho com muita persistência, apesar de todas as dificuldades. E, portanto, acho que vais estar comigo para o resto da minha vida e eu espero que eu esteja na tua também. Um beijinho. Gosto muito de ti. É Carla, não? Uma amiga tua que foste criando também. Elas te fizeram juntas. Fizemos o doutoramento, ela fez um pouco depois, mas partilhámos ainda a casa. E muitas experiências. Não sei se ela partilha de alguma fé ou não.

Não, a Carla não crê em nada. Não tem nenhuma fé específica. No entanto, parece-me que ela sentiu-se de alguma forma tocada por ter convivido com alguém ao qual ela usou a palavra muito persistente nas suas convicções. É isso que tu sentes que foste transmitido com ela? Eu não consigo falar de mim mesma, portanto, se calhar às vezes me surpreendo quando ouço os outros, e é preferível, então, que sejam os outros, porque talvez isso para mim seja mais credível do que o próprio. Rafael, algo muito curioso, quer dizer, não sei se terá sido na tua tese, em que tu utilizaste livros de Ellen White, uma escritora marcadamente adventista do

Fé no meio académico

sétimo dia, que está na origem da igreja adventista do sétimo dia, utilizaste como referências bibliográficas Foi na tua tese de doutoramento ou foi em artigos científicos? Foi na tese de mestrado. E em que medida é que foste incluindo textos de Ellen White, textos marcadamente espirituais e ligados e 100% doutrinários, para um ambiente académico? Na verdade foi só uma referência, mas uma vez mais é sempre uma tentativa de trazer algo diferente, se calhar indesperado, mas usei numa nota específica para contrariar, corrigir, vou dizer, um especialista. E usei um livro dele, que para mim fazia todo o sentido.

Queres concretizar isso ou preferes não o fazer? Prefiro não fazê-lo. Ok, ficamos então todos na dúvida. No entanto, há um outro artigo que tu escreveste. Este é público, porque saiu na revista Visão. Eu creio que até temos uma imagem deste artigo. Não dá para perceber muito bem, mas poderás ajudar-nos. O que é que diz ali? Literatura, Criação Conjunta. Em que consiste este artigo que depois foi publicado na Revista Visão? Isto foi um convite que me foi feito já há uns anos para dar uma perspectiva da literatura medieval. E pronto, coube-me a mim essa missão e fiquei muito grata por isso. E foi um bocadinho então desse. desse desenvolvimento maior, uma breve panorâmica, porque é impossível ali naquela extensão de texto conseguir resumir aquilo em que consiste a literatura medieval.

Mas tu nunca deixas de fazer nada sem colocar ali, nem que seja pelo menos, a linguagem agora, o easter egg, o ovo da Páscoa, que está ali num cantinho em que só aqueles mais atentos vão perceber a razão por aquilo estar ali. E tu tens procurado fazer isso em tudo na tua vida, ou seja, utilizas o facto de teres, enfim, de seres uma pessoa que se move no meio académico para poderes incluir traços, no fundo, da tua fé, dos teus princípios. Também o fizeste ali. Sim. Se notaram, então é porque parece que sim. e não terá, então, passado despercebido para alguns. Mas, sim, há ali uma referência. Tens sempre essa preocupação em tudo o que fazes na vida, seja nas coisas mais, enfim, mais como dar aulas na universidade, seja muitas vezes até em conversas privadas que tu tens com pessoas que conheces de forma aleatória ou até...

Sim, eu não vou perder oportunidades. Sentes muito isso, que não podes perder uma única oportunidade, seja em que meio for? Sinto. Sinto uma responsabilidade de me envolver ao máximo e de me empenhar enquanto eu viver. Ou seja, és aquele tipo de pessoa que, se alguém bate à tua porta a desmiajar vá a mórmons ou qualquer outra pessoa, tu dizes entre e vamos conversar. Vamos. E tens feito isso? Tenho. Tenho. Recebo mórmons. Já há anos. Duplas de mórmons e... E gosto sempre de os receber, de dialogar. E a coisa continua, portanto, de muito bom grado. Respeito muito. E gosto, sobretudo, quando é possível, o diálogo.

Não quero um debate, não quero convencer ninguém. Nem me cabe a mim, eu digo sempre isso, não me cabe a mim convencer. Mas se pudermos conversar, vamos a isso. Então não entras em argumentação? Como é que são essas conversas? Combinas assim, se vocês me ouvirem, eu ouço-vos. É um bocado isto? É um bocado o trato. Ou seja, no início, sim, eu digo-lhes sempre, se pudermos dialogar, vamos aproveitar ao máximo. Permitam-me sempre que eu também tenha a minha palavra e eu gosto de partilhar, senão isto vai se tornar um bocadinho monótono e, se calhar, perde um bocadinho o meu interesse. Rafaela, vamos para o nosso último intervalo e já a seguir eu quero que partilhes connosco também um outro ministério, muito na linha daquilo que tu dizes de não perder a oportunidade, que tem a ver com o trabalho prisional que tu fazes.

Além de tudo isto, ainda tens tempo para escrever para Reclusos. Vamos voltar depois do nosso último intervalo. Estamos com Rafaela Silva, olhos dos aros.

Trabalho prisional

TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos, aqui na TV Novo Tempo, estamos com o Rafael Asilva, professor universitário, que tem dedicado grande parte da sua vida ao estudo da Bíblia, mas não é um estudo da Bíblia por si só, é um estudo da Bíblia num ambiente mais académico e fazendo referência a outros livros. ou outras artes literárias, se quisermos chamar assim. Mas, Rafaela, algo que também está muito ligado à tua vida, algo que se calhar pouquíssimas pessoas sabem, é um trabalho que tu fazes junto da comunidade prisional, mas de uma comunidade prisional muito específica, e, ajudar-me-ás, completamente diferente da portuguesa.

que são reclusos, que vivem e que cometeram crimes nos Estados Unidos e que, por essa razão, estão detidos em penitenciárias norte-americanas. Explica-nos, sem entrar, obviamente, em pormenores, como é que uma menina, vou usar a palavra menina que eu conheço desde bebé praticamente, chega a este mundo que é algo completamente oposto à nossa realidade. Tudo começou já há 11 anos. 11 anos. 11 anos ou mais. Já foram mais. A minha irmã e o meu cunhado sugeriram-me que eu escrevesse a um recuso. Em específico. A minha irmã já tinha tido essa experiência e ela encorajou-me. Eles encorajaram-me.

E eu aceitei o desafio. Inicialmente, escrevíamos por cartas, em papel. Era assim que funcionava? Tinhas que escrever para a penitenciária, dirigida ao Cluse X, e depois era entregue e recebias de volta a correspondência? Sim. Alguém que estava nos Estados Unidos, numa prisão de alta segurança. E depois, muito tempo depois, ao longo dos anos, fomos trocando correspondência. E provavelmente no tempo que Deus considerou que eu estava preparada para mais, ele pediu-me se eu podia escrever a um colega dele. Ele próprio é que pediu, sentiu que o colega tinha necessidade de alguma palavra de Diane. E pediu que eu escrevesse a outro colega.

Isto já depois, com outra ferramenta, já não era preciso ser por cartas em papel, mas já temos uma aplicação em que é possível enviar mensagens. E eu aceitei mais um desafio. Desculpa, como é que funciona essa aplicação? É um site em que tu te inscreves e não é qualquer um que pode fazer isso? Ou tem que haver ali ligação? Como é que funciona? Tem que haver uma ligação, portanto é preciso... E eles é que têm que pedir? Nós conseguimos instalar a aplicação, a questão é que nós temos que ter o contacto, o código grande assim, o número do recluso, de forma a podermos adicionar e então iniciarmos essa troca. E depois eles lá no estabelecimento prisional recebem? Também terão algum momento específico em que eles acedem a um computador? É assim que funciona? Inicialmente, eles tinham que ir a quiosques, assim que eles chamam, para poder aceder a essas mensagens, a essa troca.

Mas, agora, posteriormente, cada um pode ter o seu tablet e podem aceder, então, a partir das células deles. Num determinado horário? Presumo que não tenham sempre... Têm alguma facilidade agora, sim. Maior. E como é que funciona então esse... Aliás, desculpa ter interrompido a história que estava curioso para perceber como é que funciona e depois como é que entraste em contacto com esse amigo deste recluso. Portanto, teve que ser sempre essa primeira pessoa a comunicar-me o código do outro, o número do outro. E assim fiz, aceitei, mas os convites foram-se acrescentando e ele ia-me sempre dizendo, Rafaela, não te importa de escrever a mais um? E depois, Rafaela, tenho mais um pedido a fazer, podes escrever a outro?

E outro pediu-me, olha, Rafael, não te importas se escrever um amigo meu que está um bocadinho em baixo? E foi-se espalhando um bocadinho. Eles vão também, às vezes, sendo transferidos para outras prisões. Portanto, são prisões de alta segurança no estado de Nova Iorque. Estão um bocadinho agora espalhados e vão-se multiplicando. E tens a ideia de quantos reclusos já escreveste? Neste momento são 11 recusos de prisões diferentes e eles próprios muito diferentes. E foste perdendo o contacto de alguns ou conseguiste sempre manter o contacto com todos, mesmo depois deles conseguirem a liberdade ou nenhum deles ainda conseguiu a liberdade? Considerando que são prisões de alta segurança, são obviamente crimes pesados, sentenças pesadas.

Há homicídios, obviamente. São 25 anos de prisão, a perpétua, e muitos deles estão ainda a cumprir. Só um único já saiu e permaneço em contacto com ele porque ele quis continuar essa comunicação. Ele sentiu necessidade de continuar a ouvir-te, no fundo. Já fora da aplicação, presumo. Sim, sim, sim. E que tipo de experiências é que tu tens tido, partilhando aquilo que puderes, obviamente, com histórias tão pesadas, para uma, desculpa, novamente, menina, de Coimbra, estar a ouvir histórias destas que nem em filmes são contadas? Sim, é inimaginável aquilo que eu leio, aquilo que eu conheço. Eles abrem-se, eles se notam, ou pelo menos é aquilo que eles dizem.

Agora, só posso dizer aquilo que eles dizem, não tenho outra forma, não é? Eles vêem em mim alguém confiável. Mulher é delicado, não é? Mas se há uma coisa que o primeiro diz sempre, atenção, ela é casada. E já agora, desculpa, temos que mostrar uma fotografia do teu marido, que ainda não o fizemos. Aqui o Marco. Isto foi no vosso... Vocês casaram em 2013, não é? Certo. Sim, por isso reclusos. Está ali o marido da Rafaela. E ele é perigoso. Estou a brincar. É engraçado. Às vezes é delicado. Quando há esta confiança, esta abertura, há sempre o risco que se apaixone.

Espero que não. Tenho que pôr muitas reservas, mas é a amizade que tenho para lhes oferecer e um amor divino mesmo. E eles sabem disso, na verdade eles sabem disso. E abrem-se. E eu partilho o que sou, porque é impossível não ser de outra forma. Partilho com eles experiências minhas, às vezes até os meus dias. como sou grata a Deus e como terminei o meu dia, alguma pripécia, parto de tudo com eles. É difícil falar do perdão para estas pessoas? Sentes que muitas delas não conseguem aceitar perdão ou não se sentem dignas de ser perdoadas? Eles têm uma dificuldade e grandes reservas em relação a eles próprios. Eles sentem-se Condenados, literalmente, e até aos olhos uns dos outros.

O ambiente nestas prisões não é, obviamente, fácil. Mas até, muitas vezes, para eu lhes ensinar ou tentar mostrar o caminho do perdão, eu tinha de fazer coisas um bocadinho arriscadas, que Deus me mostrou que eu podia fazer. E sentes que eles também te transformaram de alguma forma? Há uma Rafaela diferente daquela que há 11 anos resolveu escrever uma carta para os Estados Unidos do que aquela que está aqui hoje à minha frente? Sem dúvida. Sem dúvida que sim. E eu digo-lhes isso. Não penses que isto está a funcionar apenas no teu sentido. Eu estou a aprender muito. Aprendo a ser humilde. Aprendo a perdoar, porque às vezes não corre bem. As nossas trocas nem sempre correm bem. Em que sentido?

Não correm bem? Como assim? Alguns já se zangaram. Contigo? Sim, já deixaram-me de falar, cortaram-me da aplicação. Ah, porque disseste algo com... Não fui, talvez, ao encontro daquilo que eles queriam ouvir. Não no sentido emocional, amoroso, não. Em outros sentidos, mas sim sentiram-se... Bom, o contexto deles também assim indica. Eles são pessoas extremamente feridas e carentes. E essa carentesia eu noto muito nas nossas trocas. E eles têm uma dificuldade em encarar algo novo, alguém que olha para eles de forma diferente. Eu digo-lhes isso. Eu estou sempre a reforçar isso com eles. Eu tenho o melhor exemplo.

Eu tenho de trazer aquilo que eu conheço melhor, que é que Cristo. É impossível eu não reagir de outra forma. E às vezes é difícil, porque eu tenho que engolir também o meu orgulho. E oro a Deus, e eles sabem disso. Eu oro a Deus antes de falar com eles, antes de ter alguma iniciativa. Tudo é muito orientado, e tem que ser, porque não há outra forma. E eles sentem isso. Eu tenho tido respostas surpreendentes mesmo. Rafaela, estamos a chegar ao fim da nossa conversa, mas temos um último vídeo de alguém que é muito especial para ti e que também resolveu gravar um vídeo para ti. Olá, querida Rafaela.

Mensagens de amigos

Laços de profunda amizade nos unem desde os teus tios Daniel e Rafael e também do teu pai Moisés e da tua mamã. Louvamos o nosso Deus pelo percurso da tua vida que tem exigido a tua parte um enorme esforço e uma enorme perseverança. Nas nossas conversas, deves recordar-te, eu sempre te disse que tu tens um papel idêntico ao de José no Egito ou de Daniel, em Babilónia e na Imédia ou Pérsia. Tu estás inserida num meio universitário onde tens a oportunidade única de continuar a dar testemunho.

É o privilégio de dar-te testemunho da verdade e de Cristo e da salvação. E isso tem um alcance não mensurável. Bom, vamos terminar esta mensagem. Tem que ser curta. E então enviamos um grande abraço e beijinhos para ti, não esquecendo, como é óbvio, o imprescindível apoio e amor do teu namorado barra marido. Beijinhos nossos e abraços. A ti e a Sequel. Muito obrigado a estes grandes amigos, o Pastor Isabel Quintino e a Irmã Natividade Quintino também, que gravaram esta mensagem. Concordas com o que eles disseram? José do Egito, Daniel da Babilónia, Rafael da Lusitânia.

Testemunho e encerramento

Quando o pastor disse que ele continuaria a me dizer isso, eu pensei, não, pastor, isto não é comparável. Mas é engraçado, ele não disse aqui, mas tu contaste-me no outro dia que ele fala também cavalo de Troia, não é? Sim, ele já me disse em duas ocasiões, tu és o cavalo de Troia de Deus. O sentido é complexo, não é? Mas não quero... Cavalo de Troia já agora ajudando a explicar. Não quero armadilhar ninguém, não é? Mas é interessante, ou seja, um meio, um instrumento para esconder algo e vencer uma grande batalha. Portanto, camuflado. Sou camuflada. Mas a verdade é que tu és muito aberta em relação a tudo aquilo que tu acreditas. Tanto é que vemos testemunhos de pessoas que não têm a tua fé e que disseram exatamente isso e que continuas a fazer da tua vida esse testemunho às claras e às abertas daquilo que tu és e daquilo que tu acreditas.

Essa é a tua grande preocupação hoje em dia. É a minha oração. Não é uma preocupação, é uma oração. Fél, a última pergunta que eu faço a todos os nossos convidados é sempre a mesma. Só muda muitas vezes a forma que é. Se algum dia alguém quisesse escrever um livro, no teu caso, se quisessem escrever uma tese de doutoramento sobre a tua vida, qual era o título que tu gostavas? Como é que tu gostarias de ser lembrada por tudo aquilo que tu fizeste e que ainda tens muito a fazer na tua jornada, na tua vida, seja académica, seja familiar, seja espiritual? Como é que tu gostavas de ser lembrada? É estranho porque eu a costumo escrever. Mas, refletindo nisso... Uma vez mais, é estranho eu ser o sujeito ou protagonista de alguma coisa. Não faz parte de mim. Mas se tivesse que refletir algo, esse título, eu diria...

Rafaela. O nome de Deus. Deus no nome e Deus na vida. Porque o meu nome tem o nome de Deus. Rafaela significa Deus cru. Obrigado, Rafaela, por teres vindo aqui ao nosso programa, por teres partilhado da tua vida, da tua história incrível que tens junto de tantas pessoas e, para mim, a título pessoal, é uma honra ser teu amigo e sou um privilegiado por poder ouvir os conselhos que realmente tens para me dar. Obrigado, Rafaela, por teres vindo.

Sobre este episódio

Neste episódio de Olhos nos Olhos, conheça a inspiradora história de Rafaela Silva, investigadora, professora universitária e apaixonada pelo estudo da Bíblia.

Série
Olhos nos olhos · 30 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 27
Estreou
10 de Julho de 2026
Categoria
Outros