Olá e seja muito bem-vindo ao Olhos nos Olhos na TV Novo Tempo Portugal. Comunicar é algo que todos fazemos, todos os dias. Falamos, ouvimos, respondemos, mas comunicar é muito mais do que palavras. É uma linguagem que nasce do movimento das mãos, da expressão do rosto, da postura do corpo, uma linguagem viva que abre portas entre o mundo dos sons e o mundo do silêncio. A convidada de hoje dedica a sua vida precisamente a isso, a construir pontos entre estes dois mundos. Cláudia Raquel da Fonseca Santos Dias é intérprete de língua gestual portuguesa e há décadas trabalha com a comunidade surda, ajudando milhares de pessoas a viver com mais autonomia. Mas a história da Cláudia vai muito além da sua profissão.
Nasceu em Luanda, cresceu em Lisboa, descobriu a fé ainda jovem e desde muito cedo sentiu uma curiosidade especial pela forma como as pessoas surdas comunicavam. Hoje, vamos conhecer a mulher por trás desta missão. Vamos falar de infância, de fé, de perdas e alegrias, da inclusão na igreja, do mundo das pessoas surdas e da beleza de uma linguagem que se vê tanto quanto se sente. Cláudia, muito obrigado por ter aceitado o convite.
Consideras que a tua vida pode inspirar alguém? Espero que sim. Principalmente dentro da Igreja Adventista. Porque foram muitos anos a tentar que a língua gestual fosse um meio de transmitir o Evangelho dentro da Igreja. Porque existem 150 mil surdos em Portugal que precisam de conhecer Jesus como nós conhecemos. Nós já vamos conhecer melhor o trabalho que tens desenvolvido. Antes de tudo isso, tens uma história de vida muito interessante. Tu não nasceste em Portugal, nasceste em Luanda. Eu creio que nós temos uma... Ajuda-nos a explicar esta foto, Cláudia. É uma imagem tua, ainda bebezinha, não é? Sim.
Sou eu no colo da minha mãe, em Luanda. Em Luanda. Não te vou perguntar quando é que foi, porque não vamos perguntar a tua idade, naturalmente, mas foi numa época muito diferente de hoje. Viveste quantos anos em Luanda? Eu vim de lá com 10 anos. Com 10 anos. Então, viveste até aos 10 anos. Que memórias tens desta vida em Angola? Muitas. Eu acho que nasci para a comunidade surda, porque tenho memória visual mais do que qualquer outra coisa, e recordo-me das casas onde vivi, recordo-me da igreja de Luanda, da igreja Adventista de Luanda, e foi o colégio Adventista que ficava na parte baixa da igreja, que eu frequentei até vir para Portugal. E foste feliz nessa altura?
Muito, muito. Tenho memórias fantásticas lá. Tu tens um irmão. Tenho. Que é mais velho. Aliás, eu tenho mais irmãos, mas da minha mãe só tenho mais um irmão que é mais novo que eu e que está a viver na Escócia. Ele tem uma história interessante, já lá vamos, a história em que tu resolveste pagar um curso ao teu irmão para ele estudar sobre Língua Gestual. Mas já lá vamos, antes tenho esta curiosidade. de ainda saber um pouquinho desta tua vida em Luanda. Viveste lá até aos 10 anos, vieste para cá, para Portugal, precisamente com 10 anos. Como é que foi esta mudança? Foi difícil para uma criança de 10 anos que já entendia um pouco o mundo? Como é que foi? Foi difícil principalmente porque foi numa fase onde crianças eram chamadas para guerra. E a minha mãe, quando recebeu a informação de que eu deveria preparar-me para me apresentar, ela pediu para irmos dar um passeio e viemos com a roupa que tínhamos no corpo.
E foi o meu padrinho que arranjou a forma de entrarmos no avião e virmos. Portanto, nós não trazíamos nada connosco. Então foi algo que tu não tinhas a menor noção que ia acontecer. No fundo, a tua mãe tentou proteger-te daquilo que poderia acontecer e nem te deixou sequer ficar com esse medo e essa ansiedade. Simplesmente entraste no avião e vieste. Sim, vínhamos passear. E depois, como é que foi quando chegaste a Portugal? Eu tenho uma filosofia desde pequenina. Para mim, tudo sempre foi uma aventura. E foi um bocado estranho porque nós vivemos no aeroporto três meses dentro de contentores. No aeroporto de Lisboa. No aeroporto de Lisboa. Depois de chegarem foram para... Ficámos no aeroporto. A Cruz Vermelha encaminhou-nos porque nós não tínhamos cá ninguém.
Nós não somos retornados, somos refugiados como mulheres atualmente. E ficámos no aeroporto a viver com o apoio da Cruz Vermelha que nos ia dando alimentos conforme podiam. E, para mim, foi uma aventura. Eu não consigo recordar isso como medo ou qualquer coisa assim. Tens presente essa memória de chegar à noite e ires para dentro de um contentor e dormir com mais pessoas? Como é que era? Sim. Aquilo eram contentores grandes, do aeroporto, que eram mais utilizados até pelos mecânicos. Os nossos contentores estavam perto da zona mecânica dos aviões. E foi muito interessante porque os mecânicos tinham pena de nós e nos traziam chocolates. E nos ensinavam a perceber um bocado da mecânica dos aviões.
Por isso, para mim, foi uma aventura, não foi um aumento. Quem é que estava? Era só tu e a tua mãe? E o meu irmão. Tu, a tua mãe e o teu irmão a viver num contentor três meses. Presumo que se calhar para ti era uma brincadeira, mas para a tua mãe devia ser uma grande ansiedade. Sim, sim. Principalmente porque nós ao pequeno almoço não sabíamos se íamos ter almoço e ao almoço não sabíamos se íamos ter jantar. Portanto, eu imagino, atualmente sendo mãe, quantas vezes a minha mãe não terá ficado sem refeições para que nós pudéssemos comer. Já que falamos na tua mãe, temos também uma foto dela contigo. Esta é um bocadinho mais recente, naturalmente. Que também ajuda os nossos telespectadores a conhecerem e a visualizarem a tua mãe. Tua mãe que deixa muitas saudades, naturalmente. Nós aqui na Novo Tempo conhecemos porque ela também trabalhou aqui bem perto de nós. Aqui nos estúdios da Novo Tempo. E temos também uma fotografia com o teu pai.
Já falaste da tua mãe, podes falar-nos também um bocadinho sobre o teu pai. Gostava que pudéssemos ver esta imagem. Antes, precisamente, é o teu pai que está contigo aqui. Esta fotografia presumo que terá alguns anos. Que memórias é que tu tens no caso do teu pai? Assim, os meus pais divorciaram-se. Tinha eu cinco anos. Pouco contacto tínhamos. Porque ele teve outra família. Mas lá em Angola também? Em Angola ia mais regularmente. Quando viemos para Portugal estivemos desde 1975, que foi o ano em que eu vim para Portugal, até 81 sem saber notícias do meu pai. Depois de 81 ele veio também para Portugal. Não, perdão. Ele veio para Portugal em 82. em 82 comecei a ter algum contacto, mas nunca foi um contacto muito próximo, éramos mais distantes.
Tu em criança tiveste uma doença, tiveste sarampo, que na altura ainda era um bocadinho mais desconhecida, no entanto, não deixa de ser uma doença, e naquela altura crianças com sarampo eram basicamente escondidas. Foi isso que aconteceu? Foi em Angola? Foi em Angola, sim. Eu era pequenita, uns três anos talvez. E recordas-te disso? Recordo-me porque eu estava habituada a andar descalça por todo lado, ia ao sol, ia correr, e fui colocada num quarto com panos vermelhos. porque não podia entrar luz de sol, uma filosofia que havia qualquer na altura. Mas recordo-me, essencialmente, de um primo que é bastante mais velho que eu ficar com pena de mim e sentar-se no chão do meu quarto de lanterna a ler-me histórias.
E, para mim, ficou sempre momentos especiais porque era um miúdo, na altura, um jovenzinho, e que deu do seu tempo para me fazer companhia. E essas experiências que tiveste, seja desse teu primo, seja do que viste em Angola, transmitiram-te valores que ainda hoje tomas como garantidos e aplicas na tua vida? Coisas que aprendeste nesses dez anos, nessa década que viveste em Angola? Sem dúvida. O gostar de aproximar a família e os amigos e ter amigos como família foram ensinamentos que aprendi nessa altura, tanto por parte da minha mãe, como por parte da minha avó paterna. que tinha por hábito visitar as sanzalas e levar alimentos. Portanto, foi uns ensinamentos que eu tive, uns hábitos que adquiri, que são base da minha vida atualmente.
E tu sonhavas ter um orfanato? É, eu sempre quis... Em Denangola? Em Denangola, sim. Em criança já dizias, um dia eu vou ter um orfanato? Porque nós, quando íamos às sanzalas, havia muitas crianças sem família, que eram, digamos assim, adotadas por outras famílias, eram criadas por outras famílias. E eu sempre disse que não frequentavam-se escolas como nós frequentávamos. E eu sempre disse que gostava de ter uma escola onde se recebesse essas crianças. porque cresci não fazendo diferença. Eu tenho primos molados, tenho irmãos molados, portanto, para mim isso não havia diferença de cor, éramos todos iguais e eu queria dar os mesmos direitos.
que eu tinha, essas crianças, e desde pequena pensei nisso. E que valores é que tu recebeste, quer do teu pai, mesmo com o pouco convívio que tiveste, acredito que alguma coisa ele te conseguiu transmitir, quer da tua mãe. Olhando agora para esta distância, que Cláudia Dias é esta e que influências é que recebeu no caso dos teus pais? Infelizmente do meu pai não posso dizer que tenha recebido grandes influências positivas, mas da minha mãe sim, porque a minha mãe sempre foi muito lutadora, sempre arregaçou as mangas sem se preocupar com ela própria, sempre fez pelos outros, foi uma pessoa que sempre quis manter a família unida, sempre lutou e nos deu valores de que ajudar os outros faz com que nós sejamos melhores a cada dia.
E foram ensinamentos que eu sempre trouxe e que tento pôr em prática na minha
vida. Chegas a Portugal com 10 anos, começas a frequentar a Igreja Adventista do 7º dia de Alvalade. Já frequentavas alguma Igreja Adventista do 7º dia em Angola? Sim, eu cresci dentro da Igreja. Ou seja, podemos dizer que nasceste na igreja, entraste, por conta do que isso implica. Ou seja, para ti, o ato de ir à igreja, o ato da fé, foi algo que nasceu e que faz parte da tua idade mais tenra. Sim, eu só tive três anos sem frequentar a igreja, que foi de 75 a 79. Porque, aliás, eu vim em novembro de 75, por isso esse ano de 75 para mim foi só um restinho. Só não frequentei a igreja porque estive a viver no Porto enquanto a minha mãe regressou à Angola. E durante esse período o casal que nos recebeu eram católicos e então não frequentei a igreja adventista durante esse período.
Mas quando a minha mãe regressou frequentámos algum tempo a igreja de Lisboa Central mas ficava um bocadinho longe de onde nós estávamos a morar Um dia, por acaso, encontrei a igreja de Alvalade e fui muitíssimo bem recebida. Era uma criança. Ia sozinha. A primeira vez fui sozinha e fui muito bem recebida pelo pastor Sabino e pela uma pessoa na igreja que se chama Versília. que era responsável bíblica e que nos fez sentir em casa. Aliás, a maior parte das pessoas que estavam nessa igreja eram de Angola e sentimos-nos completamente em casa.
E foi o movimento de jovens que havia na altura. O que é que, para uma criança com 10 anos que chega a Portugal nos anos 70, numa altura de grande transformação política no nosso país, o 25 de Abril tinha acontecido há pouco tempo, como é que era a vida nessa altura, ajudando-nos a ir lá? Como é que era a vida na igreja numa cidade grande, como Lisboa, mas ainda assim muito diferente daquilo que viveste em Angola? É assim, em Angola nós não tínhamos o clube, na altura eram missionários voluntários, agora são os desbravadores, nunca tínhamos frequentado, não havia na altura em que eu frequentei a igreja. Quando vim para cá já havia, quando eu comecei a frequentar, em 79, a igreja de Alvalade, já havia o movimento dos missionários voluntários.
que me entusiasmaram, porque fazíamos coisas de campo, que sempre foi a minha paixão, mas fazíamos coisas muito interessantes, porque na altura, à Zona de Alvalade, tinha um grande bairro da Lata, e nós íamos lá buscar jovens para participar no movimento adventista, nos missionários voluntários. Tínhamos um grande grupo de jovens. Tínhamos reuniões todos os sábados e todos os domingos de manhã para os missionários voluntários, mas tínhamos reuniões de sábado. Toda a gente almoçava na igreja. E isso deu-me bases e deu-me uma forma de ver a igreja como união. que às vezes sinto falta hoje em dia.
Ou seja, havia uma grande proximidade entre a igreja e o local à volta da igreja. Era isso que tu me estás a explicar, que vocês iam, os jovens juntavam-se, iam aos bairros, o bairro de Lata, presumo que seja aquilo que hoje em dia se chama um bairro social, com pessoas mais carenciadas, ou era mesmo aquilo que antigamente se via quando se entrava em Lisboa? Era mesmo aquilo que se via quando se entrava em Lisboa. Casas feitas com madeiras, com latas, com forradas a pacotes de leite abertos. por causa do frio. E eram esses jovens que nós íamos buscar e chegámos a ter muitos jovens, muitos mesmo. E nesta altura também, é quando te começas a deparar com as primeiras dificuldades em relação ao sábado, com aulas ao sábado, era uma realidade presente na altura?
Era uma realidade presente, todas as escolas tinham aulas ao sábado e quando eu passo para o que é chamado agora o segundo ciclo, quinto e sexto ano, quando eu passo para o sétimo ano, porque quando vim para cá eu vinha para entrar no quinto ano e não me deixaram, vinha de Angola, burocracias, tive que repetir dois anos e então quando fui para ingressar no sétimo ano foi numa escola perto da Igreja de Alvalade e tinha aulas ao sábado. e a minha teimosia dizia-me que eu não podia frequentar as aulas ao sábado. Então, eu só ia à escola antes de ir para a igreja e dizer, olhem, eu sou adventista e eu não venho às aulas ao sábado. Tu ias ao sábado às oito e meia, nove horas, não sei dizer, olha, hoje estou aqui para dizer que não venho cá.
Exato, e depois ia para a igreja. E qual era a reação dos professores, dos funcionários da escola? Era mais do diretor de turma, que era o meu professor de artes oficinas, que na altura havia uma grande separação. As meninas faziam artesanato e tapeçaria, os meninos faziam eletricidade e madeiras. E eu sempre teimei em ir para as madeiras e para as eletricidades e ele achava-me muita piada. E então, a maior parte dos sábados, as aulas eram as oficinas. Então, ele nunca me marcou falta. E eu consegui sempre passar o ano sem problemas. Ah, foi então numa relação próxima que tinhas com o teu professor que, no fundo, te autorizou a não frequentar as aulas.
Ele achava piada porque eu chegava lá e dizia, só vim avisar que eu não venho porque vou à igreja. E houve alguém que marcou o teu percurso espiritual nesta altura, nos anos 70, 80? Pessoas que tu recordas que, se hoje estás aqui sentada nesta mesa, debes também muito a essas pessoas. Devo ao pastor Sabino. Muito ao pastor Sabino. A Anne Myers, que foi uma grande referência para mim. À família do pastor Sabino, que sempre foi muito próxima. e ao pastor Daniel Vicente, que se tornou meu tio nesse período. Claro, estamos aqui, no fundo, a recordar a tua história de vida, a perceber em que medida que este teu percurso espiritual acabou por desaguar naquilo que é, e tu és uma referência não só na nossa Igreja Adventista do 7º dia, mas também em muitas outras instituições no que diz respeito à língua gestual.
Já lá vamos. Mas há aqui uma fotografia que eu gostaria que comentasses. Eu pedia que a nossa produção pudesse passar aqui a próxima foto, que é do Grupo Aliança. Aqui não dá para perceber bem, tu estarás ali no meio, lá em casa. Para casa até estou à frente com uma criança de chapéu. O que é que é para ti o Grupo Aliança? Já que falamos neste teu percurso de vida, o Grupo Aliança vem um bocadinho mais à frente, não é? No teu trajeto, mas é também algo muito importante para ti. Sim, sim. É uma forma de evangelismo, é um grupo de evangelismo. E tornou-se uma família, até hoje. Para mim, são mais do que irmãos de igreja, que trabalhamos para transmitir a palavra de Deus.
São uma família para mim. Começou com a tua mãe, que te levou ao mesmo tempo? Não, começou com o meu irmão, mais uns jovens da Igreja de Antes de Serão Reforçadas. e o pastor Julio Carlos, que para mim, posteriormente, se tornou também uma grande influência espiritual. E me mostrou em como podemos trabalhar com pessoas de outros âmbitos, com outras histórias, sem ferir os nossos princípios. E trabalhar com pessoas diferentes é algo que tu fazes todos os dias. Vamos para o nosso primeiro intervalo, Cláudia, e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança.
Segunda parte do programa Olhos nos Olhos, estamos com Cláudia Dias. Estamos a conhecer um pouco o trajeto de fé, também o trajeto de vida, e agora gostaria de entrar um bocadinho no trajeto profissional. Como é que tu te classificas? Eu já te apresentei, mas como é que tu te classificas profissionalmente, Cláudia? Sou intérprete e tradutora de língua gestual portuguesa. É o que fazes todos os dias? É o meu trabalho todos os dias. Começaste com que idade? É assim, na língua gestual comecei tarde. Porque eu só fui aprender língua gestual já em 1997. Na minha idade já fui tarde. Teria gostado de ter começado quando jovem.
mas aproveito a cada segundo. Comecei, fui fazer a formação numa associação de surdos como todos nós. Mas antes desta formação, desculpa interromper-te, tu primeiro pagaste um curso ao teu irmão para fazer esta formação, foi isso? Sim. O porquê? Ou seja, juntaste dinheiro do teu trabalho? Eu já trabalhava nessa altura, eu trabalho destes 16 anos, portanto na altura já trabalhava e o curso era caro, na altura era caro e a minha mãe não conseguia pagar e combinámos as duas e eu paguei o curso ao meu irmão e dei-lhe a possibilidade porque nós os dois víamos todos os dias aqueles jovens a falar em língua gestual e ele entusiasmou-se e foi uma oportunidade para ele.
Ele foi dos primeiros intérpretes de língua gestual. e fez parte de uma associação de intérpretes, a primeira do país, e foi com muito orgulho vê-lo chegar a esse patamar. Ou seja, disseste que ele está na Escócia, não é? Está. E também trabalha na área da deficiência. Ah, ok. Essa é a minha questão também, que eu não sabia. Neste momento não é intérprete, mas trabalha na área da acessibilidade. Como é que foi a primeira vez que tu conseguiste ter uma conversa, recordas-te, através da língua gestual? Eu fiz o nível 1 na associação e como ao final do nível 1 fui convidada para ficar a trabalhar na associação, a conversa tornou-se...
é como quando nós conhecemos alguém com outra língua e convivemos diariamente com eles, acabamos por conseguir conversar com essas pessoas. E foi assim para mim, foi uma coisa natural. a Língua Gestual, ao final de alguns meses já estava a conversar, porque a Associação tinha, todos os dias em que havia aulas, tinham os séniores que ficavam na Associação para puxar por nós. Era uma forma, digamos que era a parte prática, e que me deu muita bagagem. E tive grandes mentores dentro da Associação de Surdos, que admiro muito até hoje e que para mim os trato com muito carinho. porque me deram a oportunidade e o desafio de trabalhar na comunidade surda e que foi...
tornou-se parte de mim, não tem outra forma. O que é que mais surpreende quando se começa a aprender a língua gestual portuguesa? Ou a língua gestual, pronto. Que não é tão difícil quanto nós metemos na cabeça que é. Porque é intuitiva, Todos nós, ainda por cima nós portugueses, que falamos muito com as mãos, somos muito expressivos, mais intuitivo é. E é a delícia de descobrir que, sem complicar, conseguimos comunicar e transmitir aquilo que sentimos e vemos e precisamos de conversar com alguém que não nos ouve. Em que momento é que percebeste que isto podia ser uma missão de vida? Porque tu, mais do que falar língua gestual portuguesa, tu também utilizas essa capacidade que tu tens e que foste adquirir também para falar de Jesus, para ensinar a Bíblia a muitas pessoas.
Já lá vamos a essa parte, mas a primeira, em que momento é que tu percebeste, se calhar eu comecei tarde, mas isso não significa que eu não possa fazer disto a minha vida? quando fiz o quarto nível de língua gestual e que eles começaram a marcar coisas aos sábados e eu comecei a dizer olha, podes marcar aos domingos mas aos sábados não porque aos sábados vou à igreja e comecei a ser conhecida, já o meu irmão era conhecido pelo escuteiro por causa dos desbravadores, porque desafiava os surdos a irem fazer atividades com a igreja e a seguir comecei eu, porque aos sábados eu não fazia nada que estivesse ligado profissionalmente e desafiava-os a vir ver atividades às vezes pós-saúde, atividades de saúde, na altura não se chamavam ex-pós-saúde, mas atividades de saúde e principalmente atividades antitabágicas, porque havia muitos surdos que fumavam e eu desafiava-os a vir e traduzia para eles nos bancos de trás da Igreja Central.
E isso fez-me ver que, para além dessa parte da saúde, se calhar estava na altura de nós abrirmos as portas à comunidade surda para o conhecimento de Jesus, porque só ali na associação eu já conhecia mais de 100 pessoas. Tinha já um leque de pessoas às quais tu podias abrir um mundo novo,
basicamente. Claudio, ajudando-nos aqui, porque é muito importante, eu queria para os nossos espectadores também, e para mim, percebermos algumas questões ligadas ao mundo das pessoas surdas. O que é que os ouvintes, e quem nos está a ver, e este programa está a ser traduzido para a língua gestual portuguesa em simultâneo, por isso também temos muitas pessoas da comunidade surda que nos estão a ver, o que é que a maioria dos ouvintes não entende sobre a comunidade surda? não entendem o facto de elas olharem nos olhos quando conversamos e sentem que a comunidade surda, as pessoas são muito desconfiadas. É o preconceito que existe na comunidade ouvinte. Os surdos são muito desconfiados. Porquê? Porque quando nós dois estamos a conversar, se houver um surdo na sala, ele está a olhar para nós.
E está para nós concentrado, porque está a fazer o esforço de fazer a leitura labial. E automaticamente nós criamos o preconceito de que eles são desconfiados. E criamos o preconceito de que nós não temos a obrigação de saber a língua deles, mas eles têm a obrigação de fazer a leitura labial. E isso deixa-me muito triste. Porque se nós nos esforçamos a aprender outras línguas para conversar com pessoas que vêm de outros países, porque não aprender uma língua que é do nosso próprio país? Falaste que há 150 mil pessoas em Portugal com algum tipo de deficiência auditiva. Cerca de 90 mil surdos e gestualistas e os restantes com um déficit auditivo não necessariamente gestualista.
O que é que significa gestualista? Utilizadores de língua gestual portuguesa. Então há 90 mil pessoas em Portugal que utilizam a língua gestual portuguesa para comunicar. O que significa, e daí se percebe também, que a maior parte dos telejornais em Portugal e muitos programas têm também alguém que faz essa tradução. Mas a minha pergunta é a seguinte. Que desafios, aqui ainda hoje, em 2026, existem em Portugal para uma pessoa surda que enfrenta no seu dia-a-dia? Tantos. Tenta meter-nos no corpo de uma pessoa surda e como é que é o seu dia-a-dia, que desafios é que enfrenta? Basta... As informações nos transportes públicos são em áudio. Se um comboio está atrasado, é áudio. Se um metro tem problemas, é áudio.
Se há um sismo, as informações são em rádio. Portanto, tudo é feito em áudio e o surdo não tem acesso. Basta pensarmos nisso. A situação de Leiria, por exemplo, que houve esta catástrofe este ano, existem muitos surdos em Leiria que ficaram desamparados porque não tinham qualquer tipo de informação. E isso deixa-me angustiada, porque se nós nos puséssemos nos pés deles, como nos sentiríamos? Porque não recebem informação, não há meios de comunicação, e ninguém sabe chegar até eles para os avisar.
Se houver um sismo, como é que eles podem agir? Onde é que eles podem encontrar apoio? Porque até isso não está preparado ainda. E no caso, o que é que já existe? Está um bocadinho também ligada à tua profissão, mas já existem plataformas que permitem dar cada vez mais autonomia à comunidade surda? Sim, graças a Deus já existem alguns serviços. Existe o serviço onde eu trabalho, já há 15 anos, que é o Servin, que pertence à empresa Zona Advanced, e que presta um serviço de língua gestual, faz a ponte entre serviços e empresas privadas e as pessoas surdas. Desculpa interromper, o Servin é uma empresa privada? O Servin é a responsabilidade social de uma empresa privada, da Zona Advanced.
e preste este serviço gratuito à comunidade surda. Um surdo que precise ligar para as finanças, liga para nós e nós fazemos a chamada. Se ele estiver presencialmente nas finanças, pode ligar para nós, nós fazemos a tradução. em algumas repartições bancárias também já fazemos isso, em hospitais públicos também já fazemos isso, temos muitos serviços, os serviços de comunicação, a maior parte das empresas de comunicação já estão connosco também. e dá autonomia para que um surdo, em qualquer momento, nós até costumamos brincar que estamos à distância de um clique, porque temos uma app em que eles instalam gratuitamente no telemóvel e clicam e nós estamos do outro lado para os atenderem.
Como é que se chama a aplicação? App Serving. que também, presumo, pode ser útil para quem precisa de comunicar com alguém, com algum surdo, não é? Não, não. Só para os surdos é que poderão utilizar? O serviço é gratuito para os surdos. Então, uma pessoa surda tem essa aplicação no telemóvel, vai a um lugar qualquer, precisa de comunicar com essa pessoa, essa pessoa não fala a língua gestual, ele abre a aplicação e depois como é que funciona? Vira o telefone para a pessoa? Não. Quando ele abre a aplicação, a câmara está virada para ele, e vamos imaginar que ele quer conversar contigo. Sim. A câmara está virada para ele. Tu só precisas de ouvir. Não precisas de me ver. A única pessoa que me precisa de ver é o surdo. E no caso, ok, então eu no caso irei ouvir o que vai sair daquele telemóvel, que serás tu que vais dizer.
Exatamente. Eu faço a triangulação, ou seja, faço a leitura da língua gestual, transmitem voz, e da voz transmitem a língua gestual. E já tiveste situações assim complicadas de emergência? Alguma história que te tenha marcado no teu trabalho? Agora já existe uma plataforma que é o CNS 24LGP, que surgiu durante a pandemia, mas antes não havia. E houve um fim de ano que um casal surdo em Braga me ligou. Ela estava grávida de nove meses e entrou em trabalho de parto. E eu estava a qualquer momento à espera de assistir a um parto e vir a chamada. porque foi muito complexo chamar os 112 na altura e faze-los compreender que eu não podia passar o telefone ao surdo, porque eles queriam que eu passasse o telefone ao pai, não é surdo, e foi um bocado complexo porque na altura ainda não se falava muito, nem usávamos a app na altura, usávamos uma outra plataforma.
E a vira-chamada não era muito usada nessa altura, foi há mais ou menos 10 anos atrás. E foi muito interessante porque aqueles momentos de inquérito do 112 Deixava-me estressada porque eu estava a ver que íamos ter um parte em videochamada. Mas foi muito interessante. Conseguir mantê-los calmos até o sentido de chegar. E tu acabas por desenvolver algum tipo de relacionamento com essas pessoas que te ligam ou é de tal forma aleatório que não dá sequer para conheceres e para voltares a ter contacto com a pessoa? É assim, eu já conhecia, antes de trabalhar no Servindo, já conhecia muitas pessoas da comunidade surda. Eu trabalhei na área do desporto para surdos, eu trabalhei na Federação Portuguesa de Associações de Surdos, na Associação Portuguesa de Surdos.
Portanto, o meu percurso durante estes anos todos, desde 98, Foi sempre dentro da comunidade surda, portanto eu conheço muitos surdos. E o engraçado foi quando começámos, eles ligavam-me e diziam, ai és tu! E com essas pessoas que eu já conhecia há uma proximidade. Mas no serviço, é um serviço que tem que ser mais ético. É lógico que há situações e situações. Nós temos a APAV como nossa parceira. E essas situações deixam-me sempre mais frágil. Porque... Quando diz a PAV é a Associação de Apoio à Vítima. Correto. E no caso estamos a falar de surdos que possam estar a ser vítimas de violência doméstica, etc. Exatamente. E são situações que me fragilizam um bocado, principalmente quando são situações de que a violência doméstica é por parte de pais ou de filhos, quando os pais já são idosos.
E isso deixa-me sempre mais apegada à pessoa surda. porque a minha vontade é depois sair e dar apoio e tenho que me lembrar das regras de ética de serviço para não me envolver demasiado nessas situações.
Claudia, ajudamos agora a perceber aqui algumas questões para a comunidade de ouvintes que nos está a ver e a ouvir que têm a ver com a língua gestual. Existe uma língua gestual universal? Sim. Alguns gestos que são iguais em qualquer parte do mundo? Jesus. Jesus é igual em todo mundo. O gesto de Jesus é igual em todo o mundo. É o único gesto que é mesmo igual em todo o mundo. O alfabeto é diferente de país para país. Alguns países têm o alfabeto igual porque foram buscar o alfabeto americano, o ASL, do inglês, mas nós temos um alfabeto muito parecido com a escrita.
Nosso alfabeto português é muito parecido com a escrita e daí ser único. Angola também absorveu o nosso alfabeto português, mas há muitos outros países que usam o alfabeto americano. Mas existe uma língua, gestos internacionais, que são usados em encontros internacionais, em seminários e congressos, onde se junta em vários países, é gestos internacionais. Cada país tem a sua língua. Mas, por exemplo, no Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique, é a língua gestual portuguesa que se fala lá? Não, não, não. Não tem nada a ver então? Não. Cada país tem a sua língua. Então existe no Brasil, será que é a língua gestual brasileira? Não, é Libras. Chamam-lhe as Libras. Porque cada língua tem a sua influência cultural.
E daí ter que ser diferente, porque as nossas culturas são diferentes. Tal como a língua oral também tem influência cultural, a língua gestual também a tem. E por isso é diferente. E é rica por isso mesmo. A língua gestual portuguesa só se fala em Portugal. Não há mais nenhum país... Não. Só se fala em Portugal. Sendo então que quando, por exemplo, no YouTube vemos os vídeos de Libras, do Brasil, etc., um surdo em Portugal não os vai entender. Se não tiver aprendido a línguas libras, poderá não entender, embora consigas, em algumas situações, compreender a língua libras, vendo o contexto daquilo que está a acontecer.
Dou-te um exemplo. Há muitos anos atrás, num encontro de esporte de futsal, um encontro europeu de futsal para surdos. Eu estava sentada ao lado de um surdo que não conhecia e ele estava a tentar conversar comigo e eu estava a pensar, de repente fiquei burra, não estou a perceber o que é que ele está a dizer. Depois fizemos um bocado mímica e eu tentei dizer até que descobri que o senhor era turco. Portanto, daí eu não estar a perceber logo à primeira, mas passado um bocado já conversávamos misturando língua gestual portuguesa e turca, gestos internacionais e conseguimos conversar, o que é muito mais fácil que nós ouvintes, a não ser que saibamos todos inglês, é muito difícil conversarmos. Cláudia, ajuda-nos então aqui a entender também uma questão que tem a ver com a gramática.
Existe uma gramática própria. Dá-nos alguns exemplos, por exemplo, de como é que funciona a gramática na língua gestual portuguesa. A gramática é muito parecida com o inglês. Nós, por exemplo, dizemos eu vou trabalhar, enquanto que na língua gestual portuguesa eles dizem trabalhar vou. Os verbos são no fim, o sujeito é no início. É uma gramática simples. Nós é que temos uma gramática complicada, eles têm uma gramática muito simples. E está muito ligada também às expressões faciais, à posição do corpo. Consegues dar-nos alguns exemplos de como é que a gramática é utilizada nos gestos, na expressão facial? Como é que uma expressão facial, por exemplo, de um tradutor, ou no caso de um surdo, muda completamente uma frase?
Por exemplo, se eu apontar para o teu copo, eu estou a dizer ali, aquilo. Mas se eu fizer... Estou a dizer lá. Só um gesto diferente no rosto já significa... Basta um movimento da língua para mudar completamente aquilo que eu quero dizer. Se eu disser... Vou dizer aqui? Estou a dizer em cima. Se eu disser assim, vou. Se eu disser assim, fui. Ou fui. Portanto, gestos diferentes significam coisas diferentes, dependendo da expressão também. Claro, então ajuda-nos.
Vamos tornar este programa um bocadinho mais didático. Alguns gestos importantes, básicos, para quem está a ver e que de alguma forma Enfim, entra num autocarro e tem uma pessoa surda ao lado e quer simplesmente ser simpática e dizer olá. Ou então, ao contrário, gestos que surdos podem fazer e que é importante toda a comunidade ouvinte entender. Dá-nos alguns exemplos que possam ser úteis. Bom dia. É muito fácil porque quer para bom dia, boa tarde ou boa noite começamos sempre assim. E imaginar que a nossa mão é o Sol. Sol nasce, é bom dia. Tá, pique, é boa tarde. E desce, é boa noite. É um cumprimento simples e que... Coisas que podem acontecer no autocarro é este gesto, muitas vezes.
Significa desculpa. Ou com licença. Este é um gesto muito importante. E este, obrigada. São dois gestos que podemos... Se um surdo nos der um encontrão, ele de certeza vai fazer isto. E se nós formos simpáticos, ele vai fazer isto. E situações de emergência, por exemplo, como tu dizias há pouco, um comboio atrasou, eu estou ao lado de alguém que é surdo e eu preciso dizer àquela pessoa que o comboio atrasou, enfim, alguma informação auditiva que eu recebi e que quero transmitir àquela pessoa, coisas muito básicas que possam ser úteis. Quando um relógio atrasa, o ponteiro fica para trás, não é?
Neste caso, nós dizemos que ele atrasou. Está a demorar. Está a demorar. E isto é comboio, não é? Mas, não sabendo o gesto comboio, podem apontar para o relógio e dizer... E quando fazemos esta expressão, era uma expressão apreciativa, e ele vai compreender que está atrasado. Portanto, ainda vai demorar a chegar. Claudia, vamos para mais um intervalo, é o nosso último, mas eu vou já dizer o que é que eu gostava de fazer no início da terceira parte. Eu gostava que nós conseguíssemos transmitir lá para casa o que é ser surdo, no fundo. Vamos tentar ter aqui uma conversa, os dois, em que os microfones vão ficar desligados e aquilo que eu te proponho, enfim, obviamente que eu não sei fazer, mas tu sabes, é traduzir aquilo que vai acontecendo aqui entre nós para só a comunidade surda entender e para que os nossos ouvintes, no caso os telespectadores que conseguem ouvir, sentirem um bocadinho o que é que é ser surdo.
Posso? Podemos fazer isso? Ok, vamos por um curto intervalo e já voltamos. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos, estamos com Cláudia Dias, a
nossa convidada, onde estamos a falar essencialmente sobre o seu ministério, sobre o seu trabalho, no fundo sobre a sua vida ligada à comunidade surda. E conforme eu tinha dito, Cláudia, no final da segunda parte nós vamos então aqui ter agora um momento em que eu vou pedir ao nosso técnico de som, o Paulo Ambrosio, para desligar os microfones e eu vou ter aqui uma conversa muito curta, Cláudia, eu vou dizer o que é que vamos fazer, que é para lá em casa tentarem perceber. Cláudia, eu vou-te perguntar, vou-te pedir para tu me contares uma história muito engraçada que já tenhas vivido no âmbito da tua profissão. Tu vais-me contar essa história, eu vou ouvir, lá em casa, enfim, vamos ver como é que acontece. Por isso agora, por breves momentos, não há nenhum problema no seu televisor, apenas vai tentar perceber o que é que é não ouvir. Vamos a isto. Cláudia, então pedia-te que, enquanto fosses contar esta tua história, pudesses fazer alguns gestos, enfim, não é gesto, no fundo é tradução de língua gestual, para que a nossa comunidade surda entenda e nós aqui também no estúdio vamos perceber qual foi então uma história muito engraçada que tu recordes, que tenhas vivido e que gostas de partilhar connosco.
Podes falar? Ah, pois tu não podes falar... Ah, ok, então faz-se na língua gestual e ninguém aqui vai perceber. Nem eu vou entender. Um minuto, mais ou menos.
Ok. Ambrósio, podes ligar os microfones? O Paulo Ambrósio já ligou os microfones. O que é que aconteceu? Eu não tinha pensado bem nisto, é que na verdade tu não podes falar enquanto faz os gestos, porque não dá, então eu também não percebi nada. Então, na verdade, eu fiquei igual aos nossos telespectadores, mas agora vou-te pedir, Cláudia, tens de nos contar essa história porque eu fiquei curioso. No fundo, eu tinha-te pedido para nos contares uma história engraçada que tenhas vivido no âmbito do teu trabalho. É uma história recorrente que acontece muito, infelizmente. Eu fui acompanhar um surdo a um serviço público, E sentámos-nos e eu comecei por dizer à pessoa que nos estava a atender, que estava a acompanhar, uma pessoa surda. E, automaticamente, ela começou a falar inglês. E eu disse, não, é uma pessoa surda. E ela disse, sim, sim, eu posso falar inglês, eu sei inglês. E levava-nos ali um bocado para dizer, não, ele é surdo, não é inglês.
Portanto, a senhora fala comigo, eu traduzo e ele fala comigo e eu traduzo. E foi nesse momento que ela ficou... muito admirada porque não tinha percebido, não lhe tinha caído a ficha que se ele era surdo não ia perceber inglês também. E foi um momento ali, um bocado, porque o surdo também era uma pessoa bem disposta, não levou a mal e ainda nos rimos um bocado.
A própria senhora depois ficou um bocado constrangida porque não lhe tinha caído a ficha que se era um surdo não ia ouvir. Notas que tenha havido uma sensibilidade maior por parte da comunidade de ouvintes para estas situações e que situações como essa deixar que, pelo facto de eu falar inglês, o surdo vai entender, já são cada vez menos? Há maior sensibilidade? Eu espero que sim, não me tem acontecido tanto, mas ainda acontece. Desde o Covid, por causa de toda a informação ter passado a ser com intérpretes presentes, houve uma maior abertura da comunidade ouvinte para a sensibilidade com a comunidade surda. Houve um maior reconhecimento da necessidade de intérpretes, houve um maior reconhecimento da criação de pontos de comunicação e foi a partir desse momento que começou a haver menos confusão em relação ao que é ser surdo e a necessidade da língua gestual.
Eu dou-te um exemplo que aconteceu comigo, é uma história pessoal, enfim, que não em Portugal, mas num outro país que eu estava, no caso estava numa estação de comboios e eu precisava de uma informação. Eu estava num país em que se falava inglês, então cheguei perto do senhor que estaria na estação de comboios e fiz-lhe uma pergunta. E o senhor disse, e a pergunta que eu fazia era, apontei para o telemóvel e este comboio vai para um determinado sítio, é este comboio que eu tenho que apanhar e ele tem que me dizer. E eu insistia, não, não, isto que está aqui e ele tem que me dizer, tem que falar. E eu não percebi que aquele senhor era cego. E então eu fiquei ali durante algum tempo a insistir, não, está aqui, porque aquele era um nome difícil, ele não sabia dizer, então eu queria que ele lesse o nome. E ele pela terceira vez disse, tem que me dizer, e só quando ele nunca chegou a dizer que ele era cego, foi depois dele insistir três vezes, que tem que dizer que eu olhei para ele e percebi, ah, temos aqui uma pessoa que me vai ajudar, que é cega, isso para mim não faria sentido.
mas na verdade faz todo o sentido, porque ele ajudou-me, eu disse o nome, ele ajudou-me, ou seja, ter uma pessoa que pode ajudar as outras mesmo tendo algum tipo de deficiência, seja, enfim, ser surdo ou cego, não importa aqui o caso. Faltam situações como estas que no meu caso me despertou para a situação de que eu posso ter um cego que me ajude para uma situação que eu esteja a viver no dia a dia, mas que se calhar em Portugal, devido à minha cultura portuguesa, nunca me tinha acontecido, mas noutros países se calhar é muito normal. Falta um pouco este entendimento global. Infelizmente, por exemplo, eu fui bombeira durante muitos anos e durante o meu percurso de bombeira eu fui fazer uma formação em Espanha. E em Espanha houve um atentado na altura da ETA.
Houve um atentado e nós corremos todos para lá para ver atuar a equipa deles. E chega um médico de mota E utiliza um aparelho que eu nunca tinha visto na minha vida, coloca na pessoa e começa a olhar para um ecrã. E eu perguntei logo a um dos alunos que estava conosco, que era espanhol, disse assim, o que é aquilo? E ele disse, não, o que é aquilo? É um médico cardiologista, que é surdo. E aquilo para mim, que eu já estava na comunidade de surdos, isso em Portugal é impensável. porque foi a primeira vez que eu vi atuar um surdo na emergência médica e que cá continua a ser uma barreira.
Isto foi em 2003, estamos em 2026 e cá já se abriu portas. Temos uma médica surda que, coincidentemente, também é adventista. Mas não há mais portas nesta área, muito menos para a emergência pré-hospitalar. Existem em vários países, na Alemanha, em Espanha, surdos que são bombeiros e cá é impensável. As barreiras são enormes e podemos pensar que se calhar dar formação de
pré-hospitalar a surdos pode ser a nossa salvação um dia. Cláudia, vamos falar agora um bocadinho sobre a inclusão na Igreja. Tu dás estudos bíblicos, tu ensinas a Bíblia a muitas pessoas surdas. Como é que é a reação delas e como é que é dar um estudo bíblico a uma pessoa surda? É uma emoção. porque o vocabulário bíblico não é compreendido por todos, até por ouvintes, não é? Por quem leia a Bíblia e não tenha alguma base, por vezes não compreende o vocabulário que está na Bíblia. E ao explicarmos em língua gestual, na língua materna do surdo, nós vemos a expressão de descoberta.
E isso, para mim, é emocionante. Perceber que eles se apaixonam por aquilo que nós estamos a explicar, que se apaixonam por Deus, que fazem uma descoberta do amor de Cristo por eles, é completamente uma mudança de vida. Cláudia, temos aqui um vídeo que eu gostaria de partilhar contigo de uma amiga tua. Não fiques preocupada, não te vais arrestar. Vamos ver este vídeo e a mensagem que ela traz aqui para ti. Clóudia é uma pessoa que respira família e serviço ao próximo. Sempre esteve participando de voluntariado, missão e cuidado com aqueles que têm alguma necessidade. Não por acaso que ela é responsável pelo mistério das possibilidades na nossa igreja.
São inúmeras as pessoas da igreja da Amadora que ela tem ajudado de forma discreta e quase invisível. Ela é uma pessoa fantástica. É uma amiga tua da Igreja Adventista do 7º dia da Amadora, que é onde atualmente frequentas, e que fala muito disto, que é, no fundo, a tua vida de serviço que tens dado, que, curiosamente, querias criar um orfanato quando eras criança, mas hoje em dia, na verdade, tu cuidas, se calhar a palavra é certa, cuidas de muitas pessoas que, se não fosses tu, eventualmente não iriam ter acesso, no fundo, ao Evangelho, que é naquilo que nós aqui estamos também mais a incidir. E isso acaba por fazer a diferença. Sentes isso? Eu acho que não faço tanto quanto aquilo que ela diz.
Sinto que falta tanta coisa por fazer, mas tento. Eu não gosto muito de dar nas vistas, o que parece um bocadinho incongruente com a minha profissão, porque é uma profissão que tem que ser visível. mas em língua gestual eu considero-me uma ferramenta. Eu não ajudo ninguém, eu sou uma ferramenta que está nas mãos de Deus e transmito a mensagem que é dita. É verdade que nos estudos bíblicos sou só eu e a pessoa surda, mas no restante eu só transmito aquilo que é dito. Nas outras situações, eu acho que a burocracia é existente para ajudar em muitas situações existentes, quer cognitivas, quer físicas.
As burocracias são tantas que as pessoas se perdem. Então, uma vez que eu tenho muitas informações na área da inclusão, das acessibilidades e da área da deficiência, eu tento prover essa informação e ajudar a chegarem até ela. Porque se as ajudas existem, nós devemos aproveitá-las e tendo que elas se aproveitem ao máximo.
Cláudia, tenho aqui algumas perguntas que eu gostaria, perguntas de resposta rápida, que eu gostaria, tenho muita curiosidade para saber que resposta é que dás a estas perguntas. Uma palavra que para ti define comunicação? Amor. Um gesto que resume a tua vida? Deus. Mas, no caso, um gesto de língua gestual. Como seria Deus em língua gestual? Deus. Qual é, para ti, o gesto mais bonito da língua gestual? Jesus. Que já fizeste, não é? Jesus. Uma pessoa que ainda hoje te inspira muito? São duas. Dizer só uma é difícil. É o pastor Daniel Vicente e o pastor Júlio Carlos. Um conselho para quem quer aprender língua gestual?
Perderem o medo e contactarem uma associação e aprenderem. Algo que tu ainda gostavas de fazer? Aprender mais. Um gesto que represente esperança? Esperança. Uma palavra que tu achas que o mundo precisava de ouvir mais? Amor. Ao próximo. Uma pessoa surda que te marcou profundamente? O José Peténcourt e Aldeixo Duarte. Um gesto que para ti representa amizade? Entrega. Mas um gesto visual, entrega?
Entrega. Se pudesses, imagina que tinhas agora a oportunidade de que se tornaria viral este momento e que todo o mundo iria ver algo. Se tu pudesses ensinar um gesto ao mundo inteiro, que gesto é que seria esse? União.
O que é que representa para ti esta foto, que eu podia que a nossa produção colocasse, que é uma foto que representa quatro gerações. O que é que, quando olhas para esta foto, o que é que te diz esta foto? União. Porque é o que existe entre nós em família. A nível de língua gestual portuguesa, qual o gesto que tu utilizarias para se lembrarem de ti e da Cláudia? Do trabalho que ela fez? Este é o meu nome gestual e que é conhecido na comunidade surda. É este. E que significa contente. Porque é assim que eles me veem constantemente.
Eu sou paga para fazer o que eu amo. E isso dá-me muita felicidade. Eu acordo com vontade de trabalhar. E isso é meio que a minha nada para não estar triste. E é o que eu amo fazer. E se algum dia, e esta é a minha última pergunta, e é a pergunta que eu faço a todos os nossos convidados, se algum dia alguém quisesse escrever um livro sobre ti, fazer um filme sobre ti, ou até no fundo dar um título a este programa, como é que tu gostarias de ser lembrada, Cláudia? através das minhas mãos. Muito obrigado, Cláudia, por teres dado a honra de estarmos olhos nos olhos num programa com tanto gesto e que Deus te continue a abençoar. Obrigada, que Deus vos abençoe também.
Há pessoas que não falam com a voz. Falam com as mãos, com o olhar, com o corpo inteiro. E há quem dedique a vida a garantir que essas pessoas são ouvidas.
Cláudia Dias é intérprete de Língua Gestual Portuguesa há décadas. Mas mais do que uma profissão é uma missão. Uma história de fé, de propósito e de amor a uma comunidade que muitas vezes o mundo ignora.