Hoje, no Olhos nos Olhos, vamos conhecer uma mulher que aprendeu a ouvir a voz de Deus nos lugares mais improváveis. Nasceu em Portugal, nas Caldas da Rainha, cresceu numa família de fé, arte e música, e na sua casa nunca faltavam revistas missionárias. Desde cedo percebeu que o talento é um dom que deve ser colocado ao serviço de algo maior. Da curiosidade de uma menina que queria ser médica ou veterinária, nasceu a missão de cuidar de almas, não apenas de corpos. Designer gráfica por formação, missionária por vocação, trocou o conforto de casa por um chamado que a levou de Portugal ao Brasil, do Brasil ao Líbano, do Líbano ao Egito e por aí fora. A sua mente criativa e o seu coração sensível fizeram dela não apenas uma profissional, mas sobretudo uma mentora para muitos adolescentes com quem se cruzou e se cruza ao redor do mundo.
Hoje, Olhos nos Olhos, vamos conhecer a história de quem desenha e pinta a fé com as cores de uma vida de entrega à missão. Vamos estar Olhos nos Olhos com a Marisa Ferreira.
Olá, Marisa. Muito bem-vinda. És a mais nova convidada de todos os programas que nós já gravamos e eu faço sempre esta pergunta a todos os nossos convidados. Tens uma história de vida que achas que pode inspirar alguém de quem vai ver este programa? Olha, eu espero que sim. Eu espero que sim, simplesmente por ser seguidora de Jesus. Acho que o meu objetivo de vida seria, pelo menos, inspirar alguém, de alguma forma. Vamos então regressar aos anos 80, sensivelmente, 80 e 90, Caldas da Rainha. Se tu fechasses os olhos agora, que imagens é que te iriam aparecer na mente ligadas às Caldas da Rainha? Olha, sinceramente, ligada às caldas, muito pouco, porque eu não vivia nas caldas da Rainha.
Quando nasci, os meus pais moravam em Rio Maior, junto com os meus avós. E então, lembro-me... Tenho algumas memórias de Rio Maior. Uma cidade interessante. Lembro-me do parque das crianças, onde brincavamos. E do mercado aos domingos. Era muito interessante os cheiros do mercado. E sim, o tempo em família, com os meus avós. E era... foi... é uma região interessante. Nós temos algumas imagens dessa época, sinceramente. Vais-me ajudar a perceber se estas imagens que aqui temos, em que lugar aquelas são e como é que recordas, no fundo, estas imagens aqui. Aqui, quem é que nós vemos aqui, Marisa? Sim, aqui está a minha mãe, ali à direita, comigo, no colo dela.
Ah, tu estás no colo da tua mãe. És a mais pequena de três irmãos. Para estar o meu avô, o meu avô João Barradas, ali com a sua boina característica e com o seu fato. Eu imagino que isto fosse um sábado, que nós íamos à igreja de manhã e à tarde íamos passear pela natureza, algum lugar ali perto e a região ali, o centro de Portugal, há muita coisa bonita para se ver. Então a família da tua mãe é brasileira e a família do teu pai é portuguesa. Sim. E este é o pai do teu pai, que presumo que já não esteja entre nós. Sim, já faleceu. E em que cidade é que seria aquele então? Presumes que terá sido o Rio Maior? Pois, exatamente onde foi, aquilo era uma fortaleza, ou um castelo, alguma coisa ali perto de Rio Maior. Mas não sei dizer aonde. Temos mais fotografias que nós podemos aqui também partilhar. Meus pais vão saber.
Bom, este é o lugar mais fácil de identificar. Isto é aqui em Lisboa. Nós depois nos mandamos para Lisboa, quando eu tinha acho que uns 5 anos por aí. Estou ali no meio de Cor-de-Rosa e a minha irmã, a Amanda, e o Gabriel. Estamos ali no jardim do Parque Eduardo VII. Os meus pais. Estão uns anos depois. Já é um bocadinho mais... As minhas pais são um pouco conhecidos da Igreja Adventista aqui em Portugal. Isto foi num Eva, provavelmente, no acampamento. Nós estamos todos de lenço, acho que sim. Com a Débora, a Karina... Que fixe! Espetacular! E esta foto é histórica porque é a foto que nós tirámos quando a minha mãe foi nos deixar no NASP, Engenheiro Coelho, para estudarmos, para fazermos a faculdade, nós os três.
Então está a minha mãe e nós os três, fomos estudar para lá, uns anos depois. Temos ainda mais duas que eu creio que é possível ver. Não, podemos ver mais tarde. Vamos então falar um bocadinho... Marisa, tu nasceste basicamente... A tua infância terá sido em Lisboa, não é? Sim. Mas tu tinhas um lar muito característico, ou seja, o teu pai era designer, a tua mãe... Explica-nos um bocadinho como é que era a tua família. No caso da tua infância. Sim, na minha infância. O meu pai trabalhava... Em parte, ele trabalhava com coisas gráficas, trabalhos gráficos para a publicadora Atlântico, na época, e também outros clientes que ele tinha. A minha mãe ficou em casa connosco, crianças, até... até termos alguma certa idade.
O que eu me lembro, acho que eu tinha... Acho que eu tinha para ir oito ou nove. Ela começou a trabalhar também part-time. Enfim, mas eu tenho muita memória da minha mãe estar connosco em casa uma parte do tempo. Depois, já na adolescência, a minha mãe começou a trabalhar para a Igreja Adventista na Publicadora Atlântico, como revisora de texto. Meu pai também tinha uma paixão, um interesse muito grande em produção de vídeo, em gravar sermões ou gravar programações que pudessem levar o Evangelho a outras pessoas. Ele sempre estava envolvido em algum projeto da igreja e isso fez com que também nós conhecêssemos outras pessoas, até de fora de Portugal, pessoas que passavam ou que vinham a Portugal para fazer séries de mensagens, de campanhas evangelistas.
Ou seja, achas que cresceste num lar abençoado porque tinhas acesso a muitas pessoas como resultado de pessoas com quais tu podias aprender muito e algumas até uma referência em muitas áreas e tu conseguias ter acesso a essas pessoas ainda em criança. Sim, acho que isso foi uma benção muito grande. Não tanto como criança de ter oportunidade de ter altas conversas ou longas conversas com estas pessoas, mas simplesmente de ver vidas, ver pessoas que viajavam e viviam para pregar o evangelho, viviam para cantar do evangelho. Acho que isso foi muito inspirador para mim a crescer. E os meus pais sempre foram muito apaixonados pela igreja, pelo trabalho de Deus, pelo que Deus está a fazer através da igreja.
E isso sempre foi muito forte. E tinhas acesso também a certos materiais que crianças da tua idade normalmente não teriam. Isto porque a tua mãe trabalhava aqui na publicadora, onde aliás é curioso porque os estúdios aqui da Novo Tempo fazem paredes meias com a anterior publicadora atlântica, agora tem como nome publicadora servir. Mas a tua mãe conseguia ter acesso? Eu sei porque o pastor Ernesto Ferreira, que era uma referência no mundo adventista, que também já não está entre nós, já faleceu há alguns anos, ele partilhava com a tua mãe algum material que depois vocês iam buscar e consumir quando ela chegava à casa com isso, com umas revistas, não era? Sim, como é que tu descobres estas coisas, Antigão? Sim, sim, era espetacular. Eu passei uma parte da minha adolescência a ler revistas que não eram publicadas aqui em Portugal, mas que a publicadora servir tinha acesso.
A revista Insight dos Estados Unidos, enfim, entre outras também do Brasil. Revistas em inglês até. Sim, e que tinha muito conteúdo, desde devocionais, mensagens bíblicas, como também mensagens da área psicológica, de relacionamentos. Eu lembro-me que havia muita coisa assim, conteúdo interessante. E sim, isso foi uma benção muito grande também. E os livros que a publicadora também publicava, que eu tinha acesso a praticamente tudo, e também pelo fato da minha mãe ser brasileira, Eu tinha acesso a conteúdo do Brasil, que é a casa publicadora do Brasil. Também tem uma produção muito grande de livros. E essa mundividência, chamemos assim, que tu tiveste em criança, moldou a tua vida? No fundo, tu tiveste acesso à internet antes de a internet existir.
Pois, de certa forma, pelo menos acesso em termos de conteúdo religioso, histórias missionárias, biografias de pessoas interessantes que dedicaram a vida a Deus. Sim, é verdade. Eu cresci muito a ler esses livros todos. E a tua casa, como é que era? Tua mãe era cantora? Era e é. Tinhas também muita ligação com a música? Sim, a nossa casa era ter-me toda alguma música a tocar. Tínhamos muitos CDs, acho que tínhamos mais CDs do que livros quase, ou a mesma quantidade. E os meus pais sempre gostaram, os dois, sempre gostaram muito de música. E até ouvíamos música de estilos diferentes. Não era só um tipo de música. Acho que isso também acrescentou muito à minha vida, à minha bagagem musical.
Meu pai sempre gostou de adquirir os lançamentos. O que saísse, ele trazia para casa. e então tínhamos acesso. E a minha mãe cantava muito, mesmo em qualquer situação. Em casa, cantar é o normal. Então, nós três crescemos a cantar. Assim, as minhas memórias mais primárias de criança, na igreja, é a cantar. Acho que é a primeira vez. As coisas que eu fazia... Eu lembro-me, só quando chegar à adolescência, de subir à plataforma da igreja para falar. Era muito raro. Eu ia para cantar e estava confortável a cantar, muito mais do que a falar. E nós temos um vídeo contigo a cantar, Marisa. Vamos ver um vídeo.
Não é tão antigo assim, é relativamente recente, mas vamos ver um vídeo da Marisa. Dá-nos fé, coragem para seguir Visão para entender que só em Ti, Senhor Teremos luz Mostrando o caminho rumo ao céu Caminho para a vida que é sem. Fim Quando é que foi isto, Marisa, recordas-te?
Esse é o problema das datas, estou a tentar lembrar. Deve ter sido há uns 10, 15 anos atrás, sensivelmente. Sim, sim, de certeza. Deve ter sido em 2011, talvez. E ainda cantas? Aproveitas as oportunidades para cantar? Não canto muito sozinha, até porque não gosto. Eu prefiro cantar em harmonia, com trios, quartetes ou em grupo, mas o que eu
gosto mais é de ajudar a igreja a louvar em conjunto, canto congregacional. E vamos então, quando nós pensamos, enfim, nesta tua infância, nesta tua juventude, em algum momento houve aquela ideia de que tu pensaste, não é, eu quero ser missionária, eu quero passar a minha vida a viajar pelo mundo, não importa o lugar, não importa a dificuldade que isso origine, mas é isso que eu quero. Já sentias isso na tua infância, ou ainda não, ou foi algo mais tarde? Olha, eu como criança tenho a lembrança de gostar muito de ler histórias de missionários. E eu acho que sim, em algum momento eu devo ter sentido que gostaria de também fazer isto, mas foi só na minha adolescência, depois da minha conversão, é que eu comecei realmente a pensar nisso mais e a ter até ideias muito específicas do que eu gostaria de fazer.
A tua conversão que acontece no momento do teu batismo ou ligeiramente mais tarde? Um bocadinho mais tarde. Porque tu batizaste com os teus irmãos no Rio Tejo, numa cerimónia assim muito peculiar, não é? Não é muito normal. As coisas que eu tenho que alçar. Vai ser isso a conversa toda, Marisa. Sim, eu acho que eu tinha de 9 para 10, ou tinha completado 10 anos, era bem novinha. Num grupo de amigos, não me lembro quantos éramos, mas uns 10, talvez até mais de 10, jovens da Igreja de Alvalade. Igreja Adventista do Sétimo Diário, em Lisboa, em Alvalade. E que tínhamos um grupo de amigos e que estudámos a Bíblia juntos e todos decidimos nos batizar ao mesmo tempo. Mas com 10 anos, recordas-te como é que foi essa decisão?
Uma coisa, não, eu quero mesmo ser batizada? Pois assim, é uma boa pergunta. Já me perguntaram uma vez se eu me arrependia de ter-me batizado tão cedo. E eu lembro-me claramente, eu era criança, mas eu lembro-me muito claramente que eu tinha a certeza que estava a fazer uma coisa boa. E eu acho que às vezes isso é o mais importante. Tu saberes que a direção em que caminhas é correta, mesmo que não entendas tudo ou mesmo que ainda haja muito para descobrir. E eu acho que foi essa a minha experiência. Mas eu digo que a minha conversão foi uns anos depois, porque foi quando eu realmente tive uma compreensão mais completa E acho que esta compreensão mais completa do que Deus fez por mim é que ajudou com que eu tivesse uma decisão pessoal individual, como é que posso dizer, independente até das decisões da minha família, das pessoas à minha volta.
Porque sim, a minha família era uma família de pais crentes. Mas tornou-se a mim a fé pessoal a partir do momento em que eu entendi e compreendi o amor de Deus, por mim, de uma forma mais completa. Isso foi uns anos mais tarde. E é essa a história de conversão que nós vamos querer conhecer daqui a pouco. Vamos fazer apenas a primeira pausa no programa de hoje. Olhos nos Olhos com a Marisa Ferreira, missionária, com uma história de conversão também muito bonita para conhecer já a seguir. Até já. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança. Segunda parte, olhos nos olhos, com Marisa Ferreira, portuguesa espalhada pelo
mundo, Egito, Líbano, já lá vamos, para já vamos ao Brasil. Tu fizeste os teus estudos superiores no Brasil, apesar da tua infância toda, até que idade ficaste no nosso país? Depois, à altura de ir para a universidade, tinhas várias opções. Há bocadinho vimos a foto da tua mãe a entregar os filhos ao Brasil. Foi mais ou menos isso? Foi os teus pais? Nós queremos que tu vivas esta experiência de estudar numa grande instituição de ensino adventista brasileira. Foi mais a minha iniciativa mesmo. É aquela história que estávamos a dizer, que eu gostia de ler conteúdo do Brasil, dos Estados Unidos, mas as revistas que nós liamos do Brasil tinham sempre propagandas, publicidades, das escolas adventistas no Brasil e principalmente das universidades e eu achava aquilo super interessante e como em Portugal nós não temos uma instituição assim grande de ensino superior, bom, nem grande nem pequena, não temos um ensino superior que seja adventista, Eu tinha muito interesse em estudar numa escola Adventista.
Pela experiência, eu ouvia histórias, os meus pais também me contavam coisas. Eles não tiveram essa experiência, mas tinham amigos e pessoas que tinham tido essa experiência. E também porque as universidades Adventistas no Brasil muitas delas, se não todas, têm regime de internato em que os alunos moram ali no campus da escola e têm experiências como cantar em coros e viajar pelo país. E isso a Triam era uma coisa interessante. E a tua vida mudou por teres estudado numa universidade adventista no Brasil. Achas que, se na altura tivesse ido para uma universidade qualquer aqui em Portugal, hoje teríamos aqui outra Marisa completamente diferente à frente? Olha, isso é muito difícil de dizer ao certo, mas o que eu posso dizer é que as experiências que eu tive, as experiências espirituais, sociais, os amigos que eu fiz, os professores que eu conheci e que me ensinaram tanta coisa, eu acredito que Ringo mudou a minha vida.
Realmente acho que não seria a mesma pessoa. E também as conexões, as ligações que fiz naqueles anos que passei ali, permanecem até hoje e que já tiveram outros desenvolvimentos ao passar dos anos. Então, sim, eu acredito que foi realmente algo transformador. Foi fácil a integração no Brasil para uma criança portuguesa que passou aqui a sua vida toda, até com um grupo relativamente reduzido de amigos, e depois chegares ao Brasil e estás ali uma imensidão de pessoas pela frente. Eu pensei, eu sinceramente pensei que ia ser super fácil, porque a minha mãe é brasileira e eu cresci em casa a ouvir falar brasileiro. Mas não tens sotaque brasileiro? Ou consegues disfarçar? Olha, eu achava que tinha, eu achava que tinha em casa.
Mas eu lembro que foi engraçado, os primeiros meses no NASP as pessoas não me entendiam. Nas primeiras semanas eu falava e as pessoas me perguntavam o quê? E eu pensei que estava a falar igual a eles, mas não estava. Mas depois foi uma questão de alguns meses, já algumas semanas. Mas não foi fácil a tua integração no Brasil então? Estavas a dizer que achavas que ia ser mais fácil, mas só por causa da língua ou por algum tipo de mentalidade diferente? Eu pensei que fosse... me sentir parte muito facilmente, rapidamente, mas eu percebi que iria sempre ser portuguesa, diferente dos brasileiros, até um certo sentido. Mas não posso dizer que foi difícil, não foi difícil. O povo brasileiro é um povo caloroso e Também, é claro, o ambiente da escola, os professores, os alunos.
Rapidamente eu fiz amizades. Eu lembro-me que para mim, Marisa, a experiência até foi um bocadinho mais difícil no sentido de mudar da cidade para o campo, porque eu vivi em cidade a vida toda. até aquele momento. E o NASP é mesmo no campo e estar sem poder me transportar facilmente para a cidade ou fazer alguma coisa foi um bocadinho difícil no início. Acho que o primeiro ano foi um bocado mais difícil. Também facilitou ter família. A família da minha mãe morava ali há três horas. Não é assim tão perto, mas... Dava para haver família de vez em quando. Enfim, houve uma certa adaptação, não foi assim tão fácil.
E o que é que achas que muda numa pessoa, para quem nos está a ver, e que sonhava eventualmente de poder estudar numa grande instituição de ensino religioso, seja Adventista ou até outra, porque acredito que numa evangélica há muitas experiências semelhantes, o que é que pode mudar na vida de uma pessoa, de uma criança, de um jovem, ficar 3, 4, 5 anos num regime de internato, até num outro país diferente do seu, o que é que achas que pode mudar? Eu acho que o regime de interato numa escola que é religiosa e que tem muitas atividades espirituais possibilita que tu conheças Deus de uma forma mais profunda. Mais conhecimento bíblico, isso é de certeza. Oportunidades de conhecer pessoas que acreditam no mesmo que tu acreditas. e aprender uns com os outros.
Os professores também, normalmente, são uma fonte muito boa de experiências e de se inspirar também na vida deles. E também porque este tipo de escola oferece atividades que são únicas, como semanas de oração muito especiais, com convidados às vezes até de fora, mas de fora ou de dentro não importa. O que importa são oportunidades de estar na presença de Deus, oportunidades de aprender a orar, orar em grupo. participar de pequenos grupos, participar de reuniões de oração, mas também de ter participação, de liderar. Porque às vezes, como jovens de uma igreja local, às vezes são os nossos pais, os nossos avós até, que lideram alguma coisa na igreja, as atividades da igreja.
Num campus em que a maioria são estudantes, que são jovens, tu acabas a ter muito mais oportunidades de liderança, de criar alguma iniciativa que seja espiritual para o teu próprio benefício e para o benefício de outras pessoas. E claro, depende também dos teus interesses. Para mim a música foi algo muito forte e muito importante. Como eu também estava a estudar na área de comunicação havia muitas oportunidades interessantes de trabalho, de aprendizado e crescimento. na área de comunicação, há sempre vários eventos musicais que trazem pessoas de fora. Enfim, é um crescimento em várias áreas. E depois os amigos, acho que é algo que nós talvez não valorizamos tanto hoje em dia, mas de fazer amigos e de conhecer pessoas que acreditam no mesmo que tu acreditas.
e fazer amizades e relacionamentos, até encontrar pessoas com quem passar o resto da vida. Não foi o meu caso, casar ali, mas muitos amigos, muitos colegas, inclusive o meu irmão e a minha irmã, encontraram um parceiro para a vida, ali, pessoas que acreditam no mesmo que tu acreditas e que têm até os mesmos objetivos de vida. Então, acho que nesse sentido, uma escola espiritual, religiosa, que dá estas
oportunidades todas, vale muito a pena. E foi nessa escola que os primeiros passos da tua conversão começaram a ser dados ou foi mais tarde? Conversão? Sim. A minha conversão, na verdade, foi antes. Foi em Portugal. É uma história simples, mas que talvez seja a experiência também de outras pessoas. Eu cresci na igreja. Isto é algo que eu agradeço muito aos meus pais, de me levarem à igreja todo o fim de semana. Ou seja, a Igreja Adventista do sétimo dia, no caso aos sábados. No caso aos sábados, sim. E não só de me levarem à Igreja porque possibilita, dá-me a oportunidade de ouvir a Palavra de Deus a ser pregada, a ser discutida, a ser partilhada, mas também envolvidos com a música, envolvidos com programas evangelísticos.
Isso deu-me a oportunidade de ouvir muito mais da palavra de Deus e aprender muito mais da palavra de Deus. Mas foi, na verdade, ao ler Este livro abriu a minha cabeça para uma realidade mais completa, digamos assim, do plano da redenção. É um livro chamado A História da Redenção, escrito por uma autora chamada Ellen G. White. Quantos anos tinhas quando leste esse livro? Eu tinha 15 anos. E eu já tinha tentado ler outros livros da mesma autora. Ela tem livros um bocado grossos. E não tinha conseguido nem terminar nem avançar muito na leitura. Mas este livro é um livro um pouco mais fino e conta a história completa do que Deus fez pela humanidade. Conta desde o começo do surgimento do pecado no céu.
Até ao final, quando Deus vai renovar a Terra e qual é o plano de Deus para a humanidade. Ou seja, desculpa interromper-te, eras adolescente, mas já procuravas algo. Mesmo depois de já ter sido batizada, procuravas uma experiência mais profunda. Sim, completamente. Até porque na adolescência, acho que eu tinha para aí 13, 14 anos, eu lembro-me de estar deitada na minha cama à noite, toda a família a dormir, e a pensar, e se isto for tudo uma grande mentira? E a pensar, ok, eu nasci numa família que os meus pais são adventistas, sétimo dia. É uma igreja que não é a maioria cristã do mundo. É uma igreja relativamente nova, se você ver a história da igreja. E com pioneiros, pessoas interessantes, mas um bocado fora do normal, algumas delas.
Então, era uma pergunta muito grande para mim. E se isto é tudo uma grande invenção? Que pessoas inventaram? E então eu fiz essa busca por mim mesma, sem nem ter falado com os meus pais sobre isto, não falei com ninguém, foi só por mim mesma, pela Bíblia, mas também pela esta autora, Ellen White, que é uma autora que é considerada pelos Adventistas como alguém que recebeu mensagens de Deus. Então para mim era crucial saber se esta mulher era realmente uma mensageira a Deus ou não e o que é que ela dizia. Então foi mais nesse caminho que eu segui de tentar descobrir quem ela era, o que é que ela escreveu e o porquê. e li alguns livros sobre ela primeiro, sobre a vida dela, e que convenceu que a mulher, pelo menos, era uma pessoa sincera, que era uma seguidora de Jesus.
E ao ler este livro, História da Redenção, eu vi que realmente batia com a Bíblia, batia exatamente com a mensagem da Bíblia. E não só isso, mas ajudou-me a ver a mensagem da Bíblia, a história da Bíblia, como uma história realmente de um Deus que ama profundamente e que fez tudo que ele podia ao alcance dele, um Deus Todo-Poderoso, mas que fez tudo o que podia para amar os seres humanos e para mostrar o seu amor por nós. E no final do livro, eu lembro-me de terminar de ler, era um dia à noite, eram umas oito da noite, eu terminei o livro em lágrimas, eu estava a chorar muito pelo final, é super lindo, é um livro bem escrito também. E no final, a sensação que eu tinha é, se este Deus é verdadeiro e existe, eu quero que a minha vida seja dele, completamente, sem reservas.
E eu quero que ele me use, de alguma forma, para o avanço da sua causa, para o avanço da sua missão, daquilo que Deus quer fazer. Isso foi o meu pensamento, só que eu não queria falar com Deus em casa, porque uma casa com cinco pessoas é um bocado mais barulhenta. Nós tínhamos um cãozinho, o Nikito. A minha mãe se podia levar o cão a passear aquela hora da noite, que não era assim tão comum, mas ela deixou-me sair. Eu fui até um parque de estacionamento com o Nikito, o céu estrelado, e dava para ver Lisboa a longe. Eu falei com Deus e eu disse adeus, que eu disse, Senhor, eu acredito em ti e eu vejo o teu amor por nós e eu quero que a minha vida seja tua completamente.
Eu só te peço em troca que tu me des uma vida extraordinária. E ele tem cumprido a parte dele. E a minha parte foi só segui-lo o melhor que eu pude. E assim, Deus é um Deus muito misericordioso connosco porque eu não sou de nada perfeita, cometi muitos erros na minha vida, E até ao tentar seguir a vontade de Deus às vezes não fazemos o melhor que podemos. Mas ele tem me dado uma vida extraordinária. Então até agora ele tem cumprido a parte dele e eu sei que ele continuará a cumprir. Ou seja, se tu pudesses agora voltar a 1990 a qualquer coisa, ou seja, tu com 15 anos irei a esse parque de estacionamento, o que é que tu dirias a esta Marisa agora com esta idade?
O que é que dirias àquela Marisa de 15 anos? Eu diria, não desista que vale a pena. Deus cumpriu a sua promessa. Vale a pena, Ele é fiel. E depois vais para o Brasil? Sim, depois, um pouco de tempo depois. E nesses dois anos, até antes de ir ao Brasil, eu lembro de ter várias ideias e
coisas interessantes que eu queria fazer para Deus. E uma delas é um sonho que que Deus acabou por cumprir, sonham vários anos depois. Uma das ideias que eu tinha era, eu queria que as pessoas tivessem acesso à Bíblia na sua língua nativa. E então a minha ideia era, eu mudo-me para uma ilha, um país que não tenha a Bíblia na língua local, Aprendo a língua local, isto é muito... como é que eu ia dizer? Muito tópico. Muito tópico. Aprendo a língua local, traduzo a Bíblia naquela língua e quando estiver pronto e puder publicar a Bíblia naquela língua passo para outro lugar.
É claro que isto não são sonhos de adolescente que acham que são capazes de fazer estas coisas grandiosas, não é? Mas, vários anos depois, quando trabalhei no Médio Oriente, Deus deu-me o privilégio de produzir materiais bíblicos nas línguas principais do Médio Oriente. E isso é um privilégio que eu guardo com carinho no coração. Mas terminas então o teu curso de comunicação, trabalhas já na parte de design gráfico etc e regressas ao nosso país, não é? Sim. Como é que foi essa experiência? Quando eu terminei a faculdade eu voltei para Portugal. Trabalhei aqui em Portugal três anos como freelancer porque estava em casa, a minha avó estava doente. Trabalhava a partir de casa, mas sempre trabalhei para a Igreja Adventista, em produção de materiais da área da saúde, materiais de evangelismo e revistas da publicadora a servir.
Depois da minha avó falecer, os meus pais mudaram-se para o Brasil, porque o meu irmão continuava a morar no Brasil e começou a ter filhos. Então os meus pais mudaram-se para lá. E eu pensei em ficar aqui em Portugal até quando Deus achasse por bem. E então continuei a trabalhar na publicadora Servia, trabalhei aqui por três anos. Mas chegou um ponto em que eu estava mais sozinha, a minha família no Brasil, não tinha mais familiares aqui em Portugal. Apesar de eu estar confortável no meu país, está tudo bem, mas achei por bem voltar ao Brasil. E nesse processo de voltar ao Brasil, a Casa Publicadora Brasileira contratou-me para trabalhar lá.
como designer, então acabei por trabalhar lá por quase três anos. Foi nesse momento em que resolveste fazer uma espécie de jejum de tudo o que era um material, enfim, mídias, etc., fora daquilo que é o âmbito mais religioso. Foi por aí. Sim. Foi no início de 2015. É, de janeiro de 2015. Ou seja, és uma mulher feita, já. Tens... Sim, e naquela época... E a. Dada altura houve alguma coisa que disseste, não, eu não quero mais ter nada a ver com isto. Eu tinha uma vida muito boa. Eu tinha um salário muito bom para o tipo de trabalho que eu faço. E ainda por cima, não gastava quase dinheiro nenhum porque eu morava com a minha avó. O que eu recomendo para quem... Viver. Com os avós é ótimo.
Não para sempre, é claro, mas por um tempo. É uma benção estar perto dos nossos avós, mas também...
Os avós têm esta coisa que não nos deixam fazer nada em casa. E também não nos deixam gastar dinheiro. Depois temos muitas saudades deles. Mas, enfim, minha avó muito querida e foi para mim um privilégio também morar com ela um tempo. Mas naquela fase da minha vida eu sentia que tinha uma vida muito boa, que eu não podia me queixar de absolutamente nada, mas não estava bem. Dentro de mim alguma coisa não estava bem. E houve uma noite com Deus, a falar com Deus, que eu percebi Eu não sei dizer se foi... não foi uma voz audible, mas eu percebi Deus a dizer ao meu coração que eu precisava de diminuir a quantidade de mídia que eu consumia. Eu consumia muito...
Bom, eu gostaria de ver muita televisão e, como qualquer pessoa, eu acho que poderia quase toda a gente ver filmes de Hollywood, assistir... TV shows, como é que se diz? Séries. Séries, essa é a palavra. Já naquela época, em 2015, já havia muita coisa online também. Hoje em dia há até bem mais opções. A produção de entretenimento é gigantesca. Ainda por cima mais com o Youtube. Mas naquela época era mesmo televisão e séries. Eu trabalhava durante o dia, ia para casa e à noite ficava à frente de um ecrã, podia ser até por duas ou três horas.
Da alguma forma comecei a sentir que aquilo não estava bem. Ao conversar com Deus sobre o assunto eu pensei, vou fazer um jejum, parar de ver televisão, de assistir coisas. por 30 dias, vai ser por um mês. No momento em que eu disse isto a Deus, eu tive a sensação de que fosse morrer, o que é uma coisa tão ridícula agora que eu digo, não é? Completamente absurda. Mas foi ali que eu percebi que eu estava viciada, que era uma coisa demasiado importante para mim. E quando tu queres retirar uma coisa que é muito importante para ti, dá a sensação que a tua vida vai acabar. E então ali mesmo eu percebi, não, eu realmente tenho que fazer alguma coisa sobre isto.
E não foi fácil em termos de sentimentos, mas foi uma experiência espetacular porque aquela decisão eu tomei à noite, no dia a seguir já foi um dia muito diferente e o tempo livre que eu ganhei, porque agora tinha mais de duas, três horas livres por dia, Foi tempo para ler a Bíblia. Estava a ler um livro que foi muito importante também para a minha vida na época. E tempo para falar com Deus. Tempo para dormir mais cedo, que era uma coisa também que mudou muito a minha saúde. Ir para a cama mais cedo e acordar bem mais cedo. Acabei por ter um... Eu troquei, eu era uma pessoa mais noturna. Agora sou uma pessoa mais de amanhã. E sinto-me muito mais saudável também por causa disso.
Mas eu diria que a maior vantagem é o tempo com Deus. É ter um tempo, passar tempo com Deus em oração e em leitura que te dá foco e centralidade para o dia, que te dá informação e sabedoria que tu não terias e que eu não teria se não fosse esse tempo com Deus. E eu lembro-me que naquele mês que eu fiz jejum, vários problemas aconteceram no meu trabalho, que eu sabia que era Deus que estava-me a ajudar, a trazer soluções que vinham dele, e era porque eu tinha-lhe dado espaço para agir na minha vida e retirar coisas que não eram essenciais. Não só não eram essenciais, como depois, com o tempo, Os 30 dias continuaram. Não foi uma coisa, assim, eu não parei de ver filmes de vez em quando, principalmente que em grupos de amigos ou alguma atividade em grupo.
Não foi uma atividade extrema que tu disseste que nunca mais... Não é algo que eu digo nunca mais, vou assistir, mas foi algo que me ajudou a entender, não só que eu estava viciada e que eu precisava dar mais tempo para Deus, mas segundo, e isso é algo que eu acho que talvez outras pessoas possam se identificar também com esta situação, nós não sabemos o quanto a mídia nos influencia. Só vamos descobrir o quanto somos influenciados quando nos ligamos um pouco e vemos que às vezes as nossas formas de pensar e decisões que tomamos por espontaneidade vêm influenciadas com coisas que não são bíblicas, que não são de Deus, que não é da forma de Deus pensar, nem que Deus gostaria que nós fôssemos, mas são o que o mundo faz, o que o mundo prega, princípios que são até contrários à vida que Deus quer para nós.
E isso eu fui descobrindo, na verdade, vários anos depois, estes últimos dez anos que eu tenho tido esta experiência com Deus, de perceber muita coisa que eu aprendi e com a mídia tive que desaprender e aprender coisas novas. Sentiste, nesse dia que tu estavas a dizer que achavas que ias morrer, porque é que sentiste isso? Tens ideia? Porque é que houve assim uma angústia tão grande? Olha, eu acho que, sinceramente, eu acho que realmente é algo espiritual. É algo que... Eu acho que o inimigo de Deus, Satanás, ele quer ter influência sobre a nossa vida e quando ele sabe que ele não vai ter mais, é algo que não lhe cai bem. Mas eu acho que para mim foi uma luta espiritual, foi algo dentro de mim a me puxar para um lado ou para o outro e eu tive que tomar uma decisão que foi difícil, espiritualmente difícil.
e que leva a essa sensação do tipo, eu sei que a minha vida vai mudar se eu fizer isto. Será que eu estou disposta a esta mudança? E mudou, mudou bastante. Depois sentias mais clareza para perceber os chamados de Deus para a tua vida, porque foi depois dessa altura que tu foste para países como o Líbano e o Egito. Exatamente. E foi durante esses 30 dias que eu sentia muito forte dentro de mim o desejo. Eu sentia já uma certa... Como é que se diz? não estava muito confortável dentro de mim. Eu gostava muito do meu trabalho, gostava dos meus colegas, estava tudo bem em termos profissionais, a igreja também, enfim. Ou seja, não foi algo que externamente te levou a essa ansiedade, foi algo interno que te levou... Foi algo interno. Eu senti alguma coisa... Deus tem algo diferente para mim agora e eu não sabia bem o quê.
E eu lembro-me que nestes 30 dias eu tinha a sensação clara que eu tinha que orar a Deus. Eu estou disposta a ir. Não sei para onde, nem fazer o quê, mas eu quero ir. Essa era a minha oração. E era uma oração que... Porque eu sou uma pessoa, eu gosto de saber detalhes. Eu gosto também de ter um plano. E então não é muito natural de mim, da minha parte, só orar, eu quero ir, não sei para onde, não sei fazer o quê. Mas eu senti que naquele momento era o que eu precisava dizer a Deus. Eu quero ir, eu estou disponível. Depois foi uma sequência de coisas que aconteceram, pessoas que eu descobri, porque eu trabalhava numa casa publicadora adventista, em que houve uma coincidência de que uma das autoras dos livros didáticos que eu diagramava veio visitar a editora.
a Casa Publicadora, e nos encontramos na Casa de Banho Femenina e conversámos um bocadinho e esta senhora estava a ir para o Japão como missionária. Eu fiz algumas perguntas sobre como é que é e como é que se faz e eu não sou pastor, eu não sou professora, eu não sou médica. Estas são as três profissões que normalmente as pessoas pensam que são as profissões dos missionários. E esta senhora não era nem médica, nem era professora de português, mas ia para o Japão, não ia ensinar português. E então ela explicou-me, há outras formas, outras possibilidades. Eu conheci esta pessoa, esta pessoa, esta arquiteta, está aí para a Turquia.
E eu achei aquilo muito espetacular. Existem outros caminhos, outras possibilidades. E assim foi. várias coisas aconteceram, entrei em contato com a União. Bom, enfim, antes de entrar em contato com a União do Médio Oriente, eu orava a Deus a perguntar para onde ir e por várias coisas da minha vida pessoal e também de pessoas que eu conhecia, eu tinha um certo interesse pelo Médio Oriente. Ou seja, estavas a trabalhar no Brasil e a tua ideia seria, quero explorar um território que me fascina mas conheço pouco, no fundo era isso. O que eu tinha no meu coração é, eu quero ajudar um lugar, eu quero poder contribuir na causa de Deus para um lugar com necessidades, um lugar que não tenha assim tanta gente.
No fundo, aquele sonho de criança que era traduzir a Bíblia para uma língua que ninguém falava. Que as pessoas que não tenham acesso ao Evangelho tenham um pouco mais de oportunidades. E é claro, eu pensei, na época falava-se muito da janela 1040, é uma expressão conhecida entre os evangélicos principalmente, que é uma região do mundo que embarca ali todo o Medio Oriente e também parte, uma grande fatia da Ásia, em que a maioria da população desta região não é cristã. De várias outras religiões, mas que não são cristãos. Eu pensava muito nesta região, orava por esta região e tinha um amigo que tinha sido missionário no Irã por muitos anos E esta pessoa contava-me histórias muito interessantes e aquilo acho que ficou dentro de mim.
Isto foi uns anos antes. Foi aqui em Portugal. E então, naquela fase em que eu estava a falar com Deus e a orar sobre o assunto, o Médio Oriente era uma região que me veio à cabeça. E eu, na minha forma simplista de pensar, também assim, até de certa forma ignorante, eu pensei, bom, Eu sou mulher, sozinha, para o Medio Oriente também não é assim talvez a coisa mais fácil. Então eu pensei, eu cresci em cidade, então acho que eu consigo viver melhor numa cidade grande. Então fui ver quais são as maiores cidades, procurei no internet, das cidades grandes do Medio Oriente. E uma delas era Istambul, na Turquia. E vi fotos, li um pouco sobre a cidade, porque isto parece muito com Lisboa.
Eu gostei de Lisboa. Eu acho que eu me daria bem em Istambul. E então foi assim que eu comecei o caminho e depois contactei... Enfim, aconteceu várias coisas que eu vi Deus a dirigir, mas um sermão do pastor Gary Kraus, ele veio pregar ao Naspre, um engenheiro-coelho. Eu senti que o sermão era bem para mim o que ele estava a dizer. E depois, no final do sermão, eu fui falar com ele. Ele ouviu a minha história e explicou-me vários caminhos de ser missionário no Médio Oriente, sabendo que é uma região com poucos cristãos e com algumas limitações de evangelismo. Algumas, não. Bastantes limitações de evangelismo. Ele pôs-me em contato com a liderança da igreja no Médio Oriente e daí foi.
As conversas foram. A partir daí foi quando eu conversei com a minha família e disse à minha família da minha ideia de ser missionária. E eles gostaram? Eles receberam-me bem, o melhor que se pode, eu acho. Os meus pais sempre apoiaram muito as minhas decisões que tinham a ver com Deus, com servir a Deus. E os meus irmãos também, então isso tem sido uma bênção também. Marisa, vamos para a última pausa nesta conversa, onde estamos a descobrir um pouco mais sobre o Ministério, da nossa convidada Marisa Ferreira, e voltamos para a terceira e última parte, onde vamos querer conhecer, afinal, como é que é ser missionária, seja em Beirute, seja no Cairo. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança.
Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos, com Marisa Ferreira, a nossa convidada, onde estamos a conhecer um pouco do teu trajeto de vida. E agora vamos até este dia marcante, que é o dia em que tu chegas ao aeroporto de Beirute, presumo, com as tuas malas, sozinha, não sei. Como é que foi esse dia em que tu dizes, o que é que eu estou aqui a fazer? Ou não quero que te gaste esta pergunta. Olha, isso é muito interessante, como quando Deus te leva para um lugar estranho, muito fora do teu ambiente, Ele te dá tudo o que tu precisas. E foi isso que eu senti aquelas primeiras semanas. Até é engraçado, eu olho para trás e rio-me de mim mesma. Porque os primeiros dias em que eu cheguei ao Líbano, foi uma época em que o Líbano estava a passar por alguns atentados, explosões, bombas locais na cidade.
E então havia bastante presença militar nas ruas. E quando eu cheguei ao bairro onde eu estava a morar, e também ao mesmo tempo havia uma crise de recolha de lixo. Então estava assim bem diferente a cidade nas ruas. E havia um tanque, eu ia para o trabalho e passava por um tanque militar assim. Eu achava aquela coisa mais gira, mas ai, espetacular, um tanque! Hoje em dia acho que não seria tanta graça, mas na época... Eu lembro-me que a sensação que eu tive era de muita alegria de poder estar finalmente num lugar em que Deus me levou para trabalhar. E eu lembro-me claramente de estar no escritório, de chegar ao escritório, porque eu tive que trabalhar no mesmo dia em que eu cheguei, e o meu chefe, que era o editor de publicações, explicou-me muito rápido, ele tinha um inglês muito rápido, é a primeira vez que eu estava a trabalhar em inglês também, apesar de eu saber a língua, mas nunca tinha trabalhado nessa língua.
Ele explicou-me tudo o que tinha para fazer e eu lembro-me que cada coisa que ele disse que eu tinha que fazer, eu já tinha feito no passado, em algum momento, ou aqui em Portugal ou no Brasil. E então eu senti uma paz tão grande e uma alegria de saber que Deus preparou-me, que Deus fez aquilo que eu precisava de saber para fazer o trabalho que estava à minha frente, diante de mim. eu tinha experiência, eu tinha capacidade para fazer, e então eu senti que Deus estava realmente... que levou-me até ali para poder ser uma benção naquilo que eu sabia fazer, que era o design. Marisa, vamos agora até o dia 4 de agosto de 2020, não sei se este dia dista alguma coisa, vamos ver imagens desse dia e depois quero saber o que é que aconteceu contigo neste dia.
Tu estavas ali. Sim, estávamos ali. Isto foi por volta das 5h30 da tarde. Não, 6h30. Eu estava no escritório até um bocadinho mais tarde. E foi uma coisa bem louca. O som foi muito alto porque o nosso prédio, a sede da Igreja Adventista para o Médio Oriente e o Norte de África, fica a 7km de distância do lugar da explosão. E todos os vidros, todos os prédios que tinham vidro, alguns estouraram, alguns só abanaram. O nosso prédio, graças a Deus, não teve nenhum estrago grande. Só pequenas coisas que aconteceram. Eu estava no meu escritório e o barulho da explosão atirou-me para o chão.
Eu estava já a pegar as minhas coisas e o coração bateu muito rápido. O meu pensamento inicial foi que começou alguma guerra aqui no Líbano. Principalmente o vizinho do Sul, do Líbano, de vez em quando tem algumas interações bélicas e eu pensei que fosse um começo de alguma coisa. No nosso campus atlantista, que pertence à igreja, temos alguns bunkers ou algumas caves em que podemos entrar para estarmos seguros. E então esse foi o meu pensamento, correr para o bunker, mas ainda pensei, melhor levar o meu computador e a minha mochila. Para trabalhar, vou aproveitar para trabalhar. Não, porque pensei, não devo voltar aqui. Pensei que não pudesse voltar.
E então pus tudo na mochila, desci as escadas a correr e encontrei-me com o presidente que estava a sair também do seu escritório. E um outro diretor da Aventus Mission também. Encontrámos ali na entrada e eu perguntei para onde corremos. Eles disseram corre para o prédio do norte, ali em cima na escola. E então corremos e eu lembro-me de correr assim que o meu coração saltava pela boca. E foi a primeira vez na vida em que eu senti, depois que eu sentei-me, que eu tive vontade de vomitar. Eu percebi que foi aquela reação física muito extrema do stress, da ansiedade, do que estava a acontecer. Foi um momento estressante, porque nós não sabíamos, até que demorou bastante tempo para descobrirmos o que é que realmente aconteceu.
Havia, claro, as principais especulações era que fosse algum ataque de guerra, mas não era. Depois acabou por perceber que não foi. Foi um acidente, uma coisa horrível que aconteceu. Um acidente que toda a gente gostaria que tivesse sido evitado, mas que, enfim, infelizmente aconteceu. Mas, apesar de tudo, ainda havia muitas incertezas naquela noite. Inclusive, dormi dentro do campus, na casa de outros amigos, com o meu passaporte, com todo o dinheiro que tínhamos. No caso, tivemos que sair do país. Mas depois, no dia a seguir, já foi tendo mais informação. E eu acho que algo que foi muito bom desta experiência da explosão do 4 de Agosto, em Beirute, foi o fato de que, como nós não tivemos tantos estragos nos nossos prédios, ali da igreja, toda a comunidade Adventista virou-se para ajudar a comunidade local mais próxima da explosão.
E então nós passámos aquela semana inteira, o trabalho parou, tudo parou, e passámos a semana toda, todos os dias para a rua a ajudar as pessoas a recolher vidros. Havia uma quantidade muito grande de vidro no chão porque a explosão praticamente partiu todos os vidros dos prédios ali à volta. E eram os vidros que eram mais perigosos também. Foi uma experiência interessante. Algo que poderia ter sido mais assustador tornou-se menos assustador ou pelo menos tirou-se o foco da situação que passávamos difícil. Mas foi a experiência mais marcante da tua vida ou não? Não diria que foi a mais marcante, mas foi marcante. Certamente sim, foi marcante. Nós tivemos depois uns anos a seguir, acho que foi em 2022, um terremoto na Turquia, que sentiu-se no Líbano também.
Acho que para mim até foi um bocadinho mais marcante essa experiência, em termos de sentir mais medo, porque o nosso prédio balançou muito. E foi no meio da noite. Acordou-nos. Foi uma coisa mais assustadora, nesse sentido, da surpresa. Mas, no fundo, saber que nós estamos com Deus, que Deus está connosco, e saber que em momentos difíceis podemos ajudar alguém. Inclusive, nesse momento, eu lembro-me bem do terremoto que aconteceu, que eu fui acordada pelo terremoto. Eu lembro que o que me ajudou a acalmar mais foi ter que ajudar outras pessoas a se acalmarem. E isso é algo que eu vejo uma constante na minha vida. Quando há algo muito grave, grande, a acontecer à minha volta, Se eu me viro para ajudar alguém, é bem mais fácil, para mim mesmo, passar por essa situação.
E deste trabalho todo que tu desenvolveste, seja no Líbano, seja depois mais tarde, dois anos no Egito, enquanto diretora de comunicação da Igreja Adventista lá, seja também enquanto professora que tu destes aulas numa universidade também lá, de todas estas experiências, destes países que tu viveste, o contacto que tiveste com os adolescentes enquanto professora, com os jovens, com os esbravadores, que imagem mais marcante tens de todo este período da tua vida? O que é que te recordas mais? O que é que te deixa com mais saudades? O que é que te marcou mais? deste período. Boa pergunta. Eu diria os momentos de estudar a Bíblia com adolescentes. Eu acho que isto é algo que me traz muita alegria. É algo muito simples, mas ver jovens a entenderem o amor de Deus, a abrirem as suas mentes para um Deus de amor, o Deus da Bíblia, estudar em profecias da Bíblia, perceber como Deus nos deu revelações do futuro, como Deus preparou o caminho para que nós o encontrássemos e também tivéssemos vida eterna.
Eu acho que este processo de ajudar pessoas a estudar a Bíblia e a entender e a conhecer Deus é o que mais me faz feliz. E é o que mais me marca, são as melhores memórias que eu tenho. É isso que é ser missionária, no fundo? Eu acho que sim. Consideras-te uma missionária? Agora sim, mas de uma forma diferente do que eu achava no início. Eu tinha o conceito de missionário, alguém que vai para longe pelo Evangelho, fazer alguma coisa pelo Evangelho de Cristo. Hoje em dia eu vejo o ser missionário como alguém que tem uma missão da parte de Deus, de ajudar as pessoas a se aproximarem de Deus. E é algo que qualquer pessoa pode fazer em qualquer lugar do mundo. Marisa, sentes que, de alguma forma, aquela promessa que Deus te fez com 15 anos foi cumprida de todas as formas ou ainda pode ser cumprida de mais formas?
Eu acho que foi cumprida já, em todas as maneiras possíveis, porque Deus realmente é muito fiel. Mas a minha vida não terminou ainda. És a mais nova convidada aqui do Olhos nos Olhos. Enquanto há vida, há trabalho de Deus a ser feito em nós, em mim, e através de mim, eu espero. E que estás disponível para ir onde Ele te mandar. Eu espero que sim. Marisela, última pergunta que eu faço e faço esta a todos os convidados. Se tu tivesse que resumir a tua vida numa frase, eu às vezes até digo no título de um livro, no título de uma canção, por exemplo, como é que tu resumirias a tua vida, a tua curta vida até agora, como é que tu irias resumir essa vida que tu viveste tão extraordinária numa frase ou num título? Eu precisaria de mais tempo para pensar porque eu gosto de pensar sobre títulos de livros.
Vou-te ajudar. O pastor William de Costa Júnior disse, Jesus tu és a minha vida, que foi uma das canções que ele compôs. Sabes que eu tenho, algum momento da minha vida que eu tomei esta decisão. Eu gostaria, eu tenho um desejo, que se Jesus não voltar antes e eu morrer nesta terra, que se estivesse escrito na minha lápide, ela amou bem. Seria essa a frase? Não. Obrigado, Marisa. Foi muito bom podermos estar aqui, olhos nos olhos e conhecer um pouco desta tua vida, no fundo extraordinária, pela forma como tu dedicaste quer a tua vida, quer também os teus dons e talentos em tantos lugares do mundo e assim vais continuar. Obrigado, Marisa. Obrigada.
Olhos nos Olhos com Marisa Ferreira, missionária portuguesa que partilha a sua caminhada de fé, desde a infância marcada pela música e pela leitura até às experiências transformadoras no Brasil, no Líbano e no Egito. Uma história de entrega, coragem e confiança num Deus que cumpre promessas e conduz cada passo.