Eurico Vidro

Eurico Vidro

26 de Dezembro de 202558 min 34 s

Capítulos

Transcrição

Gerada automaticamente

Apresentação e conversão

Hoje no programa Olhos nos Olhos temos connosco uma história incrível de vida. O pastor Eurico Cinco Reis Vidro nasceu em Angola, em Pangala, Kassong, e a sua vida foi marcada por profundas provações, milagres inesperados e uma caminhada extraordinária de fé. Casado com Violeta Cassinda André Reis Vidro, pai de cinco filhos e avô de 13 netos, o pastor Eurico tem uma história de vida que nos mostra como Deus transforma dores em vitórias e conduz os seus filhos ao ministério. Hoje vamos conhecer de perto a sua infância difícil, a sua formação, os momentos de sofrimento, a libertação do álcool, o encontro com a Igreja Adventista e a caminhada pastoral. Prepare-se para uma hora de testemunho vivo, onde estaremos com o pastor Eurico Vidro, olhos nos olhos.

Muito bem-vindo, muito obrigado por ter aceitado este nosso convite de vir aqui partilhar um pouco da sua história de fé. Esta é a pergunta que eu faço a todos os nossos convidados logo no início. Acredita, Pastor Urico, que a sua história de vida pode inspirar algumas pessoas que eventualmente passaram por algo parecido com o que passou? Muito obrigado pelo convite que me fizeram. Respondendo a sua pergunta, eu acredito que Talvez alguém possa se inspirar, talvez alguém possa aprender alguma coisa daquilo que foi a minha experiência de vida, que não foi nada fácil, e se eu hoje estou aqui, é somente pela graça de Deus.

E valeu a pena tudo o que passou? Valeu a pena. Eu acredito que valeu a pena porque Deus tinha um propósito. Desde que eu nasci, Deus tinha um propósito para mim, apesar de eu ter-me desviado muitas vezes do caminho do Senhor, mas ele teve paciência comigo.

Infância e perda

E sempre o foi procurar, no fundo. Pastor Eurico, vamos começar pelo início, então. A sua infância nasceu em 1950, no dia 4 de julho de 1950. Nasceu no interior de Angola, podemos dizer assim, numa altura em que, pelo menos aqui no nosso meio, o mundo era completamente diferente. Passou muitas necessidades quando era criança. Quais são as primeiras memórias que tem da sua vida? Eu tive uma infância muito conturbada. A vida corria bem até o ano de 1957. Tinha sete anos então na altura. Eu tinha sete anos na altura, quando a minha mãe foi... foi atacada por uma doença, uma doença, eu acredito que se fosse hoje talvez teria sido um câncer.

Então, na altura, nem sequer sabiam muito bem o que tinha acontecido. Não, não sabiam muito bem porque o médico, depois de ter feito a operação, conservou o quisto numa garrafa com um produto qualquer, talvez para a conservação, e o pai trouxe esse quisto e todos nós vimos Ah, o seu pai. No caso, o marido da sua mãe. O marido da minha mãe. Levou para os filhos verem? Exato. Quantos filhos? Porque eles foram para o hospital. O hospital ficava muito distante de quilómetros e quilómetros. Ficava mais de 65 quilómetros. E quantos irmãos é que tinha? Nós éramos 13 irmãos, mas isto estou a contar com os nados mortos.

Pois, muitos nasceram, mas não sobreviveram. Outros sobreviveram e ficaram menos de um ano. Portanto, havia muita mortalidade infantil. Mas, então, o que aconteceu? A sua mãe foi para longe, o pastor Rico ficou em casa, ela foi para longe fazer a cirurgia. Foi isso? E depois o seu pai voltou com o quisto numa garrafa? Numa garrafa, mas a mãe não faleceu na operação. Minha mãe faleceu um ano depois. Portanto, a operação foi em 56. E minha mãe faleceu em 57. Isso porque a operação foi feita, foi bem feita, acredito que foi bem feita, mas ela com aquele amor pelos filhos e sabe que a sobrevivência lá naquele tempo, nós sobrevivíamos através de cultivo de milho.

nas lavras, e as mulheres eram as mais sacrificadas nisso, porque ela tinha que vir da lavra com uma quinda, uma espécie, é um cesto, um cesto grande, onde ela tinha que meter milho, batata doce, manioca e outras coisas mais para o sustento nosso e também para o sustento dos animais. Sobretudo, infelizmente, naquela altura meu pai criava porcos e minha mãe tinha que trazer também comida para os porcos. Então era a sua mãe que tratava dessas questões? Ela regressa do hospital e durante esse ano a saúde dela já estaria mais debilitada, presumo. Ficou debilitada, muito debilitada, e piorou a operação da impressão, eu não tenho bem a certeza do que aconteceu naquela altura, mas acredito que foi uma infecção da própria ferida da operação e quando se lembraram em voltar para o hospital, já era tarde.

Nem sequer saíram de casa, porque minha mãe faleceu em casa. E recorda-se desse dia? Eu recordo. Nesse dia, eu estava no pastoreio. com o meu irmão mais velho, Pinto. Tinha sete anos, na altura? Eu tinha sete anos. E, de repente, vieram-nos chamar, lá do pastoreio, e a pessoa que nos foi chamar já estava banhada em lágrimas. Mas eu não percebi, eu era miúdo, não percebi que a minha mãe tinha falecido. E nem sequer imaginava que a sua mãe poderia estar prestes a morrer, ou já tinha noção? Nem essa noção tinha? Nem essa noção tinha. E quando chegamos em casa, nós vivíamos numa casa de adobes, não é?

E já era bom porque os outros viviam em casas de pau a pique, mas... Eu não sei qual é a diferença, mas se quiser me ajudar... Isto é. Assim, a casa de adobes faziam formas, não é? Barro, são coisas de barro, e depois faziam formas, E a casa sustentava-se dessa forma. É tipo tijolo de barro. E a casa sustentava-se, era construída com esses tijolos, tipo tijolo, com esses adubes, tipo tijolo. Mas os outros eram mesmo pau a pique e que era barreado. Ou seja, no caso, as outras teriam maior sustentabilidade que a sua casa. A nossa casa estava melhor do que as casas dos outros.

Ah, a vossa que estaria melhor no caso em relação às outras. Exatamente, que já tinha quartos, o chão já estava, não digo pavimentado, mas era terra batida, mas que já nivelada. Exatamente. Eu entrei nessa altura, entrei em casa, e quando cheguei, A minha chegada provocou mais choro ainda. Mais choro porque as pessoas viam que eu sou o último filho da... Mais novo, né? O filho mais novo, o caçorle, como se diz lá. E então toda a gente começou a chorar cada vez mais. E eu entrei para o quarto e vi minha mãe deitada numa cama, na cama do pai, né?

Tinha-lhe colocado uma cruz de flores no peito, tanto coberta toda com lençóis brancos. Mas vi que, afinal, já não... Mas não percebi que... Bem, o que é isso? É que eu pensei, a minha mãe está a dormir, e realmente está a dormir, estava a dormir naquela altura. Não é assim que se concebia lá na igreja congregacional, as coisas não eram assim concebidas. E com sete anos, tem memórias da vida que teve com a sua mãe? Boas memórias? O que é que se recorda? Boas memórias. Minha mãe era muito carinhosa. Eu lembro-me que uma vez estava a chorar muito, estava a chorar Na verdade, aquele choro era birra, não é?

Tinham posto alguma comida no prato, porque naquela altura era uma panela grande que se defunge, não sei se vocês sabem o que é defunge, digamos que uma papa de milho mais forte, não é? Era a comida principal dos povos da Angola, até hoje ainda. Mas para o Norte, com fubá de mandioca, ali era mesmo milho. E então a mãe fazia comida e nesse dia fez comida para todos e feijão, não é? O conduto era feijão, mas eu achei que o feijão que estava no meu prato era pouco.

E então eu comecei a chorar e a espremear e então Eu lembro-me que chegou um primo, um primo muito radical. Ele, quando chegou, perguntou à mãe, por que é que este indivíduo está chorado? E a mãe disse que, olha, demos-lhe comida e ele acha que o conduto é pouco e não quer comer. Ah, não quer comer? Olha, mesmo na minha presença, ele pegou no meu prato, ele estava chomeado, na casa dele, se calhar não tinha comido. E comeu a minha comida. O seu primo? Quantos anos tinha o seu primo para fazer? Era mais velho? Era mais velho, já tinha para aí uns 25 ou 30 anos. Era um adulto mesmo? Era um adulto. E comeu a sua comida com 4 ou 5 anos que teria?

Com 4 ou 5 anos. Eu então ali, chorei, chorei, espelhei, mas a mãe não me arranjou outra comida. Até passados umas tantas horas, só depois é que ela se lembrou. E aprendeu a lição. E aprendi a lição, que quando me dessem qualquer tipo de comida, fosse qual fosse, a quantidade de comida no prato, eu tinha que ser grato. Mas perder a mãe aos sete anos no interior profundo de Angola, com uma família tão grande, certamente foi algo que o transformou naquilo que é hoje, porque

Dificuldades e novos lares

crescer sem mãe foi muito difícil. E como é que foi depois esta sua infância e adolescência? Andou a saltar, no fundo, de casa em casa. Não conseguiu ficar em casa do seu pai, foi isso? É verdade. O que aconteceu foi que, mesmo enquanto a mãe estava doente, já apareceu uma senhora que estava numa casa longe, não é bem longe, nas proximidades da nossa casa. Esta senhora estava a espreitar já de uma oportunidade para depois ficar com o pai. E então, quando a minha mãe faleceu, uns meses depois, ela tornou-se mesmo a minha madrasta. Só que esta senhora trouxe consigo um filho.

O filho dela era praticamente da minha idade. Então, o que aconteceu é que o pai estava tão obcecado com aquela madrasta que preferiu dar prioridade ao filho da madrasta e a mim mandaram-me para o pasto dos bois. Eram dois bois que o pai tinha. Eu, quando estava na igreja da Brandoa, falava muito desses bois. O Vetefute e o Bandomo são os nomes dos bois, mas aqueles bois eram muito, muito mansos. Eu brincava com eles, coçava-os e eles vinham como... E depois eu ia para o pasto de manhã cedo.

O Solembe, que era o filho da madrasta, ia para a escola. Então, para mim foi muito difícil isso, ver os outros a estudarem, o filho da madrasta a estudar e eu nos bois. Mas, naquela altura, não tinha também roupa, mas o pouco que eu sabia, porque quando a minha mãe falece, eu já tinha feito a primeira classe. E, então, eu estava a treinar no meu braço, esbranquiçado, não é? E eu, com um pauzinho, fazia divisão, dividia, fazia divisão com uma casa, depois dividir com duas casas.

Era a única coisa que tinha, no fundo, um pau e o braço. Um pau e o braço. E chorava muito. Mas o que é feito do Solambi? O Solambi. Que ainda tem contato com ele? Infelizmente, já é falecido. Já não está entre nós. Já não está entre nós. E ele chegou algum dia a ver o seu, eu vou usar esta palavra, mas se calhar não é mais correto, o seu sucesso, ou seja, o facto de mais tarde vir a ser professor universitário, a fazer mestrados, a ser uma pessoa tão ligada ao meio académico, ele chegou a ver isso? Ele não chegou a ver. Não chegou a ver. Não chegou a ver, porque ele faleceu muito cedo, relativamente, ao tempo em que talvez uns 10 anos depois que eu saí do meio, lá do...

da casa do meu pai. Foi nessa altura que ela faleceu. E depois, então, o pastor Rico não tinha a possibilidade de estudar e a sua vida era entre cuidar dos bois e fazer aquilo que lhe era pedido. Chegou depois a ter que ir morar para outras casas. Exatamente. Eu tive que... Depois disso, a vida era insuportável lá em casa com a madrasta. não tinha mesmo na comida, ali, ali é que eu tinha mesmo falta de comida. Passava mesmo a fome. E lembro-me que no Natal eu fui para os boys, eles, normalmente no Natal havia carne e comida, porque a carne não era todos os dias, era uma coisa rara.

No Natal havia carne, e nesse dia comeram a carne, E para mim não deixaram absolutamente nada. E eu quando cheguei, deram-me feijão a comer. Eu chorei tanto, chorei tanto nessa altura. Depois pensei, tem que sair daqui de casa. E então fui viver com meu irmão, Benjamim. O meu irmão Benjamim, na altura, era já um assimilado. É assim, naquele tempo, no tempo colonial lá em Angola, houve uma altura, nos anos 50 e poucos, havia assimilados. Portanto, eles tratavam documentos e eram assimilados aos europeus. Mas, para isso, eles tinham que ter, tinham que saber falar bem português, tinham que ter uma residência E o meu irmão tinha isso, porque ele era escrivão do chefe do posto.

Ele era uma pessoa que já tinha estudado e era muito estimado pela população branca que estava naquela altura. Ele tinha um nível diferente. Tinha boas condições e conseguia recebê-lo em casa dele. Só que ele depois entrou também para o alcoolismo. Ele ficou afetado pelo problema do alcoolismo e então foi expulso lá do posto. E eu fui viver em casa dele, só que posto lá em casa dele, todos os dias ele ia, bebia, sobretudo à tarde, quando voltava, eu tinha que levar, tinha que me bater.

Por qualquer motivo, ele batia-me. Não havia razão. Era a forma de ele levantar a frustração. Exatamente. Ele vinha alcoolizado. Sim, sim. E num dia desses, pronto, eu dormia na cozinha. Mesmo em frente à cozinha. No centro da cozinha estava a fogueira. E eu dormia ao lado da fogueira. Depois umas panelas aí. Pronto, tudo artesanal naquele tempo. E, enquanto eu estava a dormir, era uma manta que o pai tinha com a mãe e, quando a mãe faleceu, dividiram aquela manta a meio, minha irmã Julieta ficou com uma parte e eu fiquei com outra. Só que eu dormia nas teiras.

Não sei se sabe o que é esteira, é uma... Uma esteira? É uma coisa assim de... De palha, no fundo? De palha, exatamente. É igual aqui, é uma esteira assim. Exatamente. Uma coisa muito fininha que come no fundo o chão. Exato. É ali onde eu dormia e cobria-me com aquela manta. Um dia, uma lenha saiu do fogo e a manta pegou. Incendiou. Incendiou a minha manta. Mas, pela graça de Deus, a manta queimou-se toda, toda, toda. Ficaram assim uns andrajos, mas eu não sofri nada. Foi o primeiro milagre que eu vi na minha vida.

E há muitos que se seguiram e nós já os vamos conhecer. Vamos só fazer uma pequena pausa. É o primeiro intervalo neste Olhos nos Olhos com o pastor Eurico Vidro. Estamos a conhecer um pouco da sua vida e do seu ministério. Voltamos já a seguir. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança.

Encontro com a esperança

Segunda parte do programa Olhos nos Olhos. Estamos a conhecer o trajeto de vida e também a história impressionante de superação pela qual o pastor Eurico Vidro passou. Estamos na sua infância. Estamos ainda naquela fase em que tudo lhe acontecia. No entanto, nós queremos é saber em que momento é que realmente houve uma mudança e é que viu alguma esperança e o plano de Deus para a sua vida. Foi maltratado pelos familiares, foi perterido pelo seu pai em relação a um outro filho da esposa que, entretanto, ele teve, perdeu a sua mãe, não tinha possibilidade de estudar, fazia contas com um pau no braço. Como é que a dada altura viu, esta minha vida é tão miserável, como é que eu vou conseguir sair deste meio onde me encontro, Pastor Arigo?

A situação foi de tal forma má que eu depois fui viver em casa do tio, e quando eu estava em casa do tio, eu chamasse-lhe Preciso, ele tem um nome assim, tio Preciso, realmente. Eu precisava dela, só que ela não tinha condições. E em casa do tio Preciso, eu tinha tudo. Ele dava-me de comer, acarinhava-me, era irmão da minha mãe, mas a vida era... tínhamos voltado praticamente à ideia da pedra, em que elas só lavavam a parte visível do prato, por exemplo, e a parte de fora, portanto, não se lavava.

Quando a gente comia, não podíamos voltar o prato, porque senão acabávamos por ficar mal dispostos. E o meu trabalho era preparar Batata doce no alambique, tanto amassar a batata doce, cozer, amassar, e a batata doce ficava três, quatro dias a fermentar e depois eu fazia aguardente. Eu é que fazia no alambique, preparava o aguardente. A primeira agarrava, de aguardente, aquilo devia ter para isso 70, 80% de álcool, era para o meu tio. E foi nessa situação que minha irmã teve.

Entretanto, porque o meu pai mandou para a escola, essa é uma das coisas que o pai fez, foi muito boa, porque ele era diácono da igreja congregacional aí. O seu pai? O meu pai. E então ele mandou os filhos, a maior parte, nesse caso o Benjamim também, beneficiou disso, e a minha irmã Elisa acabou por se casar. Um mês depois da mãe ter falecido, porque o seu namorado estava no seminário, Emmanuel Dondi, e estava se preparando para pastor da igreja congregacional. Mas lá obrigaram que ela tinha que se casar para continuar no seminário. Mesmo depois da mãe ter falecido, ele casou-se na mesma.

O pai permitiu que ele se casasse. Mesmo um mês depois, ainda não tinha... Praticamente estamos ainda no período do luto da minha mãe. Da sua mãe, sim. Mas ele casou-se. Foi bom, porque ele foi com a minha irmã. Eu nunca mais tinha visto a minha irmã. E veio, nessa altura, quando eu estava em casa do tio preciso, ela veio para apresentar o seu segundo filho, a Arnaldina, ao pai. Só que ela ficou mais tempo que o necessário, que o meu cunhado tinha determinado. E o meu cunhado veio ao encalço dela, veio atrás dela. E eu soube. Então, saí do Alambique, eu fui para a casa do pai.

Encontrei o meu cunhado. E mandaram-me de manhã, porque ela veio para logo a seguir levar a sua esposa e regressar. Alguém pegou uma caneca d'água e disse, Eurico, vai levar a água para o seu cunhado. E eu levei a caneca d'água para o cunhado. O cunhado olhou assim de alto abaixo. quase que deito lágrimas, porque ele conheceu-me no outro estado, quando a mãe vivia. E então ele pergunta, cunhado Eurico, tu queres ir comigo? Eu achei aquela pergunta vinda de Deus. Eu respondi, eu quero ir com o cunhado.

Seria com todo prazer, mas o pai não vai deixar. Eu sabia que o pai não ia deixar. Ele não disse nada. Saiu do pequeno almoço, sentou-se ali na conversa com o pai. Eu estava lá longe, não podia estar ali. Entretanto, o cunhado colocou mesmo esta questão ao meu pai. Queremos levar o cunhado Eurico. E o pai disse, oh, vocês não vão conseguir. Este é um homem difícil. Toda a gente tentou ficar com ele e ninguém consegue. É extremamente difícil ficar com este indivíduo. E o meu cunhado disse, pai, se todos tentaram, porque é que nós não vamos tentar também?

E quantos anos tinha na altura? Nessa altura eu tinha 11 anos. Então vai viver com a sua irmã, com o seu cunhado, e aí é que realmente começa a encontrar alguma luz, alguma esperança? Exatamente. Começa a estudar nessa altura? Esta foi uma nova fase. A partir daquela pergunta do meu cunhado, a partir da altura em que o cunhado me leva, começou um novo ciclo na minha vida. Então chegámos lá em Capari, na terra do meu cunhado. Ficámos um dia. No outro dia o cunhado levou-me para a loja, porque eu estava em andrajos. Eu não tinha roupa, eu tinha as costas nuas, tinha todo o corpo praticamente nu.

Ou seja, até os 11 anos nunca teve roupa... Nada. A primeira vez que teve uma roupa nova foi nesse dia? Tive roupa até antes da mãe falecer. E depois desse período, até 1961, eu tinha 11 anos, então o cunhado levou-me para a loja e arranjou-me roupa. E recorda-se desse dia? Do dia em que teve a sua primeira roupa? Eu cheirava aquela roupa, cheirava novo, não é? E eu estava muito feliz da minha vida. E logo a seguir, o Sr. Santos, que era o comerciante que estava lá, levou-nos para o Bailundo, que era onde estava a missão evangélica da igreja congregacional.

Pastor Urigo, só fazer aqui uma pausa porque talvez nunca, das pessoas todas que sentaram nessa cadeira, talvez nunca nenhuma tenha passado tanta necessidade como o Pastor Urigo. Olhando agora para o mundo e o facto, por exemplo, dessa questão da roupa, com 11 anos ter tido a primeira roupa nova na sua vida, O que é que sente quando olha assim à volta do que se passa atualmente com tantos gastos, nem sei qual é a palavra correta para utilizar, com aquilo que se passa ao nível do despesismo e da extravagância que se vive hoje em dia? É que as pessoas não têm noção daquilo que muita gente pelo mundo fora continua a passar. As necessidades primárias.

Roupa. Sobretudo, roupa e alimentação. Roupa, alimentação e também, em alguns casos, nós sabemos que há falta de água, falta de habitação, falta de muita coisa. Mas o essencial é alimentação e abrigo. roupa, isto muita gente passa mal pelo mundo fora. Nós estamos aqui assim e acredito que há muita gente a passar mal. Ainda tem contacto com o que se passa em Pambangala? Um pouco, porque meu irmão, eu tenho um dos irmãos que ainda está lá. E já está mais desenvolvido? Não, nem por isso, porque há uns anos atrás eu fui a Angola e fiz questão de passar lá, perto de Pambangala.

As populações continuam a viver, a ter grandes carências. Não há luz, não há água, não há nada. Ou seja, as crianças que lá nascem continuam a ter muitas dificuldades. Se calhar semelhantes às que viveu há 70 anos, 75 anos. É, se calhar é isso mesmo. Se calhar os tem mais, um pouco mais, não sei. Nós temos uma imagem do pastor Urico, a primeira que eu gostaria de mostrar, que ainda é muito jovem. Não sei se é criança, se é adolescente. Eu iria pedir para que nós pudéssemos ver.

Percurso escolar

Esta aqui é a primeira imagem. Que idade é que tinha aqui? Aqui eu tinha já 22 anos. Ah, ok, já era um bocadinho mais velho. 21 anos. Isto foi serviço militar? Serviço militar no exército português. Exatamente. Ou seja, depois de ter vivido aqui. Esta já é... Esta já eu estava no Lubango. Mas esta é mais velho do que a anterior, ou é mais novo? Essa já era mais velha. Já é mais velha, ok. Já pode ter passado pelo exército português. Mas então, estávamos a falar do momento em que vivia com o seu cunhado e depois como é que consegue... Gostava muito de estudar, era uma pessoa que tinha uma muito facilidade na aprendizagem.

Como é que dá este salto? Como é que o estudo lhe permite depois chegar a outros níveis, muito mais tarde, mas que se não fosse assim, jamais conseguiria, desde logo o facto de ter estado em economia e todas essas áreas ligadas às finanças. A partir da altura em que o meu cunhado me levou, fomos para o seminário, a vida mudou completamente e o meu cunhado me meteu na escola EI, uma escola que estava lá perto do seminário onde o meu cunhado estudava, e ali, Deus, pela graça de Deus, Deus deu-me muita inteligência, muita sabedoria e tornei-me o melhor aluno daquela escola.

Não tinha roupa que fosse... O meu cunhado deu-me roupa necessária, mas eu estava sempre descalço, não havia calçado, não havia nada. Mas tinha que se esforçar muito para ser o melhor aluno ou era algo mais natural? Era algo natural. Os meus colegas até diziam, mas como é que é possível? Como é que tu sabes? Porque eu ouvia o professor falar. E bastava isso? E bastava isso. O professor ficava no quadro a fazer matemática e eu fixava e depois tinha tudo certo quando fosse testes, quando fosse para fazer testes. E então passou essa fase, o meu cunhado foi, E eu saí também do Donde, meu cunhado já estava no último ano, em 1962, e fomos então para Capari, no Bimbe, lá perto do Bailondo.

O meu cunhado teve que ficar um ano em estágio. Para pastor, para ser pastor. Para ser pastor. Pastor, mas da igreja congregacional. Da igreja congregacional. E então, eu tinha que ir estudar em outro lugar. E eles acharam que eu devia estudar com o meu cunhado, o Jeremias. Só que eu cheguei lá e o cunhado do Jeremias achou que eu devia ser um escravozito ali. E quantos anos tinha na altura, quando foi ficar com o cunhado do Jeremias? Eu tinha 12, portanto, 12 ia fazer 13. Era um adolescente? Sim, era um adolescente.

De certa forma, ele aproveitou-se, sim, porque obrigava-o a trabalhar e a fazer funções? Exatamente. Muita coisa fazia lá, transportava água. Eu tinha que levar uma panela de água, uma panela de quase 25 litros de capacidade. Eu ia para o rio trazer a água para casa. Todos os dias ia duas, três vezes para o rio. porque com essa água que ela tomava banho e tinha que cozinhar, enfim, e mandava-me lavar roupa. E eu quando lavava roupa e trazia roupa, eu levava, eu tinha sempre que ser batido. Eu tinha que levar sempre com cinturão, porque se a roupa viesse menos limpa, eu era batido.

se a roupa viesse limpa e as golas mostrassem alguma tendência para se gastarem... Não tão estivessem bem... Estivessem deterioradas pelo próprio uso. E mesmo quando chegasse muito, a tendência da gola é ela ficar mais gasta. E então, de uma ou de outra forma, eu a apanhava. Ele castigava-me. Castigava-me com cintura. Ele não importou o que fizesse. É. E depois como é que, dessa adolescência que tinha voltado a ser difícil, não é? Exatamente. Como é que depois consegue, conhece a igreja e que sai finalmente desse meio e consegue ter alguma autonomia? Ok.

Então, dali, Meu cunhado foi colocado em Capete, em um centro evangélico, ele é que era o pastor lá, e eu comecei a estudar novamente, repetia a terceira classe, tratava-se da terceira classe em 63, 64. e voltei a ser o melhor aluno lá. E repetiu de uma forma injusta, que eu conheço essa história. Toda a turma repetiu porque o professor esqueceu-se de entregar os... O professor esqueceu-se de entregar as propostas para os alunos fazerem o exame na... oficial do júri que vinha de Nova Lisboa para a missão. E todos reprovaram e todos os alunos tiveram que, no ano seguinte, voltar à estaca zero.

Todos tiveram que voltar à estaca zero. Tudo lhe acontecia, pastor. Tudo lhe acontecia, é verdade. Mas Deus é bom. No meio disso tudo, eu vejo sempre, vi sempre uma luz do Senhor. Então, a partir dali, eu fui para a missão, Fui fazer a quarta classe e da quarta classe fiz a admissão e fui novamente o melhor aluno da sala lá no Bailundo. Então, fiz o exame da admissão aos liceus e fomos para a Escola Técnica do Donde. Lá na Escola Técnica do Donde, voltei a ser um dos alunos mais brilhantes.

Também deram-me prêmios e pronto. E depois, no final do ciclo preparatório, então fomos para Nova Lisboa fazer os exames. E eu dispensei das provas orais, tive uma média muito boa. que me podia dar acesso a uma bolsa da igreja, porque os missionários canadianos e americanos que estavam a organizar as missões e apoiavam os alunos, eles criaram uma instituição, um lar, uma espécie de lar, onde acolhiam todos os... os alunos que vinham das missões para estarem ali e estudarem ou no liceu ou na escola técnica.

E foi o caso de todos os meus colegas. E o pastor Bartolomeu de Sanguela entendeu que eu não devia ter direito a essa bolsa. O pastor Bartolomeu era o seu cunhado? Não. Ah, é um outro Bartolomeu. É um outro Bartolomeu. O meu cunhado é o Moisés. Moisés Satemo. E então, o que aconteceu é que o pastor Bartolomeu colocou no meu lugar uma pessoa da sua conveniência e eu fui preferido. Mais uma vez, a história da sua vida era ser relegado para o segundo plano. Então, mas a minha irmã... Eu sei que tu tiveste boas notas.

Não é justo que tu fiques sem continuar a estudar. Sem a bolsa, no fundo. Exato. Não tens bolsa, mas podes ter matricular na escola. industrial e comercial Sarmento Rodrigues, nessa altura, e que a minha irmã ia apoiar com comida, mandava comida no autocarro, havia uma empresa de caminhonete chamada A Pessoa, que eles levavam a minha comida todas as semanas. Então, comecei a estudar. Fiz o primeiro período, mas depois de terminar o primeiro período, eu voltei para... eram férias de Natal, Mas a dona Cai, era a esposa do missionário que estava a tomar conta do lar, ela tinha por hábito ir às escolas e ver como estavam os alunos que eram das outras igrejas, que não eram bolseiros, mas que eram das igrejas filiais lá em Nova Lisboa.

E, então, quando foram lá para a Escola Industrial e Comercial, de Sarmento Rodrigues, viram o meu nome, foram com a Anastácia, que me conhecia muito bem, e ela perguntou, quem é esta? E o Anastácia disse, eu sou o Eurico, eu sinto o Reis. Então, e por que ele não é bolseiro? Se ele tem melhores notas até do que muitos que estão lá no lar. E ele disse que olha, o pastor não quis que ele tivesse bolsa, não lhe deram carta de recomendação, por isso ele vive no Bom Pastor. E eu vivia num quartito, comia o fogão primo, comia o colchão de palha de milho e vivia ali com o candeeiro Aquela de petróleo, não é? Um candeeiro com uma torcidazinha, aquilo até escurecia meus narizes e coisa.

Mas eu, mesmo com isto, eu tinha boas notas lá na... E a dona Caio foi lá à casa, diga, diga. Não, não, e por essa razão atribuíram-lhe então a tal bolsa? Sim, exatamente. Depois a dona Caio me atribuiu a bolsa, no dia desse foi lá à casa, mandou-me arrumar as coisas e já tinha preparado um quarto lá na residência. Ou seja, Deus escreveu certo no meio de linhas tão tortas. Deus acabou por também lhe dar essa bênção, fruto da sua própria fidelidade. É verdade, Deus é bom. Vamos, Pastor Eurico, conhecer ainda a terceira parte da sua história, que é a

Juventude e serviço militar

parte em que vem para Portugal e que conhece a Igreja Adventista do 7º dia. Vamos conhecer ainda mais sobre o percurso de vida Olhos nos Olhos com o Pastor Eurico Vidra. TV Novo Tempo, o canal da família, o canal da esperança. Terceira e última parte do programa Olhos nos Olhos. Hoje estamos com o pastor Eurico Cinco Reis Vidro, o nosso convidado, que nasceu em Angola em 1950 e que já partilhou connosco todas as dificuldades que foi a sua infância, a sua juventude também. No entanto, a sua fidelidade aos princípios de Deus, até porque na altura ainda não conhecia a Igreja Adventista, mas já tinha princípios fortes e sólidos, e também a sua capacidade de se conseguir no fundo, através da educação que ia recebendo por parte das escolas que ia frequentando, consegui subir cada vez mais, sendo sempre o melhor aluno dos cursos que eu frequentava.

Como é que se dá, então, nesta fase? Estaríamos na altura de 19 anos, 20 anos, por aí? Nessa altura, eu tinha por aí 20 anos. Portanto, quando fui para o lar, para a residência, era em 1968, então tinha 18, foram 3 anos até fazer o terceiro ano do curso geral de comércio. E depois disso, então fui para a vida militar. Portanto, era obrigatório. Ou seja, já tinha terminado, então, o curso no comércio. O curso geral de comércio. O curso geral de comércio e depois, então, é aí que vai para a vida militar. Vou para a vida militar. E é nessa altura também que é detido injustamente, ou seja, que é preso. Não, foi mais tarde.

Mais tarde, depois de fazer o serviço militar. Depois de fazer o serviço militar, Entretanto, estávamos no ano de 1974, e acontece o 25 de Abril, aqui, em Portugal. Como é que recebeu a notícia do 25 de Abril lá, lembra? Eu estava na tropa, nessa altura, foi... A combater pelo exército português. A combater pelo exército português. Eu recebi essa notícia com muita apreensão. Agora tenho curiosidade, como é que era para um angolano lutar pelo exército português? Como é que funcionava na altura essa seleção? Realmente, porque assim, as pessoas, os jovens, depois de atingirem 18 anos, era obrigatório recensearem-se para poderem enquadrar-se no exército.

Sem isto, era muito difícil encontrarem trabalho no Estado ou em outra parte qualquer. Portanto, sem o serviço militar cumprido, era muito difícil. E então, eu estava ali no meio, na escola industrial onde eu estudava, Éramos poucos, poucos negros, não é? Éramos cinco negros na sala, mas eu tinha uns colegas extraordinários, uns colegas europeus extraordinários, que nos levavam até para a casa dos pais. Mas, nessa altura, havia muita segregação racial ainda, não explícita.

que uma vez fomos ao Ruacaná com um colega desses, nos convidou para o Ruacaná, e quando chegamos no Ruacaná, os pais desses meus colegas quiseram que nós estivéssemos com eles, mas eles estavam lá em cima, no balcão, como se costuma dizer, e o senhor que estava lá olhou para mim e disse, não, esse não pode subir convosco. a gente tem que ficar aqui embaixo. E eu fiquei, mas o meu colega, em solidariedade comigo, ele disse que eu também não subo, então eu também fico aqui embaixo. E isso aconteceu muitas vezes? Assim, essas histórias? Aconteceu muitas vezes, porque havia lá gente esplêndida, não é?

Mas também havia gente muito, muito má. Mas falava então de que ingressa no exército português no serviço militar, no fundo, porque era a única alternativa que tinha. É a única que tinha. Segundo a sua pergunta, então, nós não nos sentíamos bem, porque estávamos a combater contra aqueles que estavam a fazer, a lutar pela libertação do país. Mas não tínhamos outra escolha. E era bem tratado no exército português? Não, o Exército Português era muito bem tratado. Era muito bem tratado, por ter, por causa deste ano que nós perdemos, eu não fui para o curso de Sargentos Milicianos onde eu devia estar, por causa das minhas habilitações, porque fui refratário, perdi aquele ano com os Jeremias, e então aquilo refletiu-se, mas eu depois recebi outra patente mais baixa, e ali fui muito bem tratado.

Então, no 25 de abril de 1974, recebe essa notícia de que algo aconteceu em Portugal e isso mudou a sua vida na altura ou ainda demorou um pouco? Porque logo a seguir, então, passei à disponibilidade.

Casamento e prisão

Antes de passar à disponibilidade, eu requeri para trabalhar no Ministério das Finanças. E saiu a minha nomeação, o senhor perguntou-me, onde é que queres trabalhar? Só temos três vagas. Uma das vagas é na província do Coandocubango. A outra vaga é na província do Biê. A outra vaga é na província do Cunene. Qual dessas províncias escolhe? E eu disse, prefiro o Biê. E eu fiquei na província do Biê. Não temos muito tempo, mas até porque a sua história de vida, dava para três ou quatro programas, mas há algo que eu quero mesmo saber, que é, no momento em que foi detido, depois pediram-lhe desculpa, e mesmo nesse pedido de desculpa, depois tentaram de alguma forma reparar tudo aquilo que viveu.

Como é que foi essa história, pastor Eurico? Portanto, posto no Bié, encontrei uma rica mulher, porque foi ali que encontrei Violeta. Então, em 1976, eu casei-me com a Violeta. E temos imagens disso, já agora, que estamos a falar. Cá está, é a sua esposa. É mesmo, é a minha esposa. Sim, sim, é a minha esposa. E então, olha, não... Nessa altura, eu fui então para o Biê, casei-me, E eu estava no Ministério das Finanças, era um funcionário destacado ali, e houve, em 1977, um problema político em Angola.

Era o fraccionismo, era uma intentona golpista contra o governo. Nós não sabíamos, eu era muito ingênuo, nesse dia fomos ao trabalho, isso foi em 1977, Fomos ao trabalho, não sabíamos que afinal havia uma, tinha sido decretada, eu acredito que era mesmo lei marcial. por causa dessa intentona golpista. E vocês saíram à rua mesmo assim? Saímos à rua, fomos trabalhar e depois passámos em casa e quando chegámos em casa, na altura, eu ainda bebia álcool, bebia muito, quer dizer, não muito, mas bebia e convidei os colegas para entrarem para beberem umas cervejas.

Só que não chegámos a beber essas cervejas porque a casa ficou cercada e fomos levados presos. E quanto tempo tiveram presos? Nessa primeira vez ficámos 14 dias presos. Da segunda vez é que foi mais tempo. Da segunda vez é que foi mais, mas essa primeira vez foi o pior período porque, por causa do fraccionismo, as pessoas eram presas e eram sumariamente executadas. E nós vimos muita gente lá, inclusive no quarto onde me meteram, na cela onde me meteram, a pessoa que estava comigo, depois nós, 14 dias depois, saímos, pela graça de Deus, mais uma vez, vimos a mão do Senhor agir, porque não havia saída para as pessoas que entravam, por causa do fraccionismo.

E o Cambinga foi também eliminado, porque Muita gente morreu nessa altura.

Chegada a Portugal

Pastor Eurico, recebe depois uma bolsa para vir para o nosso país, vem estudar para Portugal e é nessa altura que conhece a Igreja Adventista através de um coro, não é? Como é que aconteceu essa história em que conhece a Igreja Adventista do sétimo dia em Portugal? Olha, assim muito rapidamente, é só para dizer que no Biel, Eu casei-me e ia sempre para a igreja congregacional, não é? E eu era diretor do coro lá. E gostava de tocar piano, não é? E gostava de tocar piano. Já temos uma imagem sua, mas acredito que esta imagem é cá em Portugal. Não, em Portugal não. Onde é que é esta imagem? Esta imagem é na Grândola. Então é aqui no nosso país?

É já, é já aqui. É já aqui. Agora já não me estou a lembrar. Sim, sim. Ok. Mas a verdade é que eu pensei. Eu estava a ensinar o coro e havia um hino que eu gostava muito. E este hino é, desde que eu achei, perdão, talvez... Canta um bocadinho já agora para nós podermos... É assim. Um hino qual o... Me apraz cantar desde que eu achei perdão De meu Jesus e Salvador sem par Desde que eu achei perdão Desde que eu achei perdão Desde que eu achei perdão A Jesus eu louvarei Desde que eu achei.

Perdão Ao meu bom Jesus exaltarei E essa música ensaiava? Ao coro da Igreja Congregacional. E depois, aqui em Portugal, como é que faz a ponto com essa música? É assim, depois disso, do que é que eu falo disso? Porque eu depois tive que ir à missão do AMBO, de Nova Lisboa, a Adventista, à procura do livro de música. E quando chego lá, na prateleira, eu encontro Um livro que dizia mensagens escolhidas. E eu como pregava, eu pensei, esse livro, mensagens escolhidas, é útil para mim. E o irmão que estava lá disse-me que eu não podia levar só um, se quisesse, tinha que levar os três volumes.

E eu levei os três volumes. Foi pela primeira vez que eu entrei em contato com o Sábado, porque eu li aqueles livros. E eu vi que os Adventistas tinham razão. Pronto, depois disso... Em Portugal muitos anos mais tarde. Em Portugal muitos anos mais tarde, então encontro...

Igreja Adventista

nós viemos para aqui, para Portugal, num curso de reciclagem, dos professores docentes. Entretanto, lá em Angola, eu tinha sido já transferido do BIE para o Lubango, e no Lubango, então, dava aulas na Universidade Augustinho Neto. E era professor estagiário, depois deixei de ser assistente mesmo, depois passei a ser assistente na universidade, e foi quando veio, então, a oportunidade de virmos para aqui, para uma bolsa de estudos. Veio com a sua esposa, com a Violeta? Não, vim sozinho. Ah, veio sozinho no início. Isso, vim sozinho. Então, foi nessa altura Também condições que não há tempo para explicar.

Então, viemos para aqui, 21 docentes, e esses 21 docentes, eu fui colocado mais uma vez como o chefe do grupo. Então, foi nessa altura que acontece uma coisa. Eu como fui dos melhores alunos lá do... do curso aqui na Universidade Nova de Lisboa. A universidade achou que eu podia fazer, e mais uns colegas, podíamos fazer o mestrado em Economia Aplicada. E foi ao fazermos a Economia Aplicada, portanto, a fazer o mestrado, que apareceu uma mulher chamada Aurora.

E esta senhora chamada Aurora Ela disse que conheceu a Igreja Adventista e tinham-lhe pedido para cantar o hino em Umbundo. E como a Aurora sabia que eu tocava órgão, convidou-me, a partir da universidade, que no sábado seguinte eu fosse com ela cantar o hino lá na Brandoa. Na Igreja Adventista do sétimo Brandoa. Dia Na da Igreja Adventista do sétimo dia da Brandoa. E fomos. Fomos, cantamos, eu toquei e estava lá o irmão. Francisco Silva, e o irmão Francisco pediu às pessoas que estavam lá no culto, quantos é que não queriam que este irmão ficasse aqui conosco para sempre?

Olha, que toda a igreja levantou as mãos. Isso tocou profundamente. Senti-me constrangido. E começou depois a frequentar a igreja da Brandoa. E depois comecei a frequentar a igreja da Brandoa. E a receber estudos bíblicos também. O pastor Cazaquinha começou a dar-me estudos bíblicos em casa. Minha mulher não queria saber dele para nada. Mas hoje, quando a gente pensa nessas coisas, ela até diz, olha, que grandes tempos de ignorância, de fato. E foi assim que também, logo a seguir, veio o pastor José Lagoa para... a Igreja da Brandoa. Que atualmente é o presidente da Igreja Adventista aqui em Portugal, da União Portuguesa. Exatamente. E foi ele, então, que era estagiário e que lhe dava estudos bíblicos. Eu não sei se estava ali na qualidade de estagiário, se já como o primeiro igreja dele, mas foi ela quem me incentivou Mas o pastor Cazaquinha dava estudos bíblicos e o pastor Lagoa depois terminou esses estudos bíblicos e me incentivou a tornar-me adventista do sétimo dia.

E mais tarde ministro do culto, porque depois também faz o mestrado em teologia,

Ministério pastoral

não é? Depois faço o mestrado em teologia, antes fiz um curso médio de teologia na Elpis, no Brasil, tanto com a Elpis, é tudo por correspondência, e depois então é que faço o Mas antes disso, eu queria só explicar como é que eu fui convidado para ser ministro do culto. Aquilo foi o seguinte, eu fui batizado no dia 13, não, 14 de dezembro de 1996. Fui batizado. No ano seguinte, eu fui logo nomeado como diácono.

No ano seguinte, fui nomeado como ancião da igreja e fui sempre ancião da igreja, até que veio então o pastor... José Eduardo Teixeira, presumo. Não, quem veio depois do pastor. Lagoa, e foi o Pastor Lagoa que batizou-me a mim, depois batizou a minha esposa, batizou a família toda. E o Pastor Daniel Bastos? Depois veio o Pastor Gerli, e depois do Pastor Gerli veio o Pastor Daniel Bastos. E foi no tempo do pastor Daniel Bastos que eu... A vida estava difícil. Eu estava a trabalhar no banco e não estava bem a coisa no banco. Depois fui trabalhar para uma empresa de construção, no setor financeiro de uma empresa de construção.

A empresa depois foi à falência. E foi no meio de todo esse tumulto que nasce o chamado para servir a Igreja Tristeira. Primeiro como cooperatório. porque fiquei dois anos como cooperatório e depois vi que não podia mais, tinha que regressar a Angola. Eu tinha decidido voltar para Angola porque eu sabia que Angola, eu era professor da universidade. Ou seja, tinha outras condições. Tinha outras condições para não ficar aqui a passar mal. Pastor Urique, temos apenas mais uma foto que eu gostava que visse, esta última foto, que revela no fundo um pouco o que é esta ligação do pastor Urique com a

Testemunho final

música, com o coro. Este é o coro da Brandoa, não é? Este é o coro da Brandoa. E que tem tantas e boas memórias destes momentos, em que também era regente do coro, também chegou a ser regente do coro. Sim, sim, sim. Pastor Urique, mesmo para terminarmos, é aquela pergunta que eu faço a todos os nossos convidados. Eu pensava que me respondesse. Olhando para toda a sua vida, para o seu ministério, como é que gostaria de ser lembrado por aqueles que conviveram consigo e que, de alguma forma, também chegaram a Jesus através da sua vida e do seu exemplo? Eu quero dizer àquelas que nos ouvem neste momento que Deus tem um plano para cada um de nós. Sejam quais forem as circunstâncias da vida e seja o que for que nos aconteça na vida, Deus tem um plano.

Eu lembro-me daquele texto de Jeremias. onde Deus diz que os pensamentos que penso de vós são pensamentos de paz e não de mal para vos dar o fim que esperais. E um dos salmos que eu lia muito é o salmo 124, que agora não... agradecendo tudo aquilo que Deus fez. E o outro é o Salmo 113, onde eu sei que Deus tirou-me do poço de lama, não teve nojo de mim, limpou-me e depois de me limpar, colocou-me no meio do seu povo e depois chamou-me para ser seu ministro.

Estou muito grato a este grande Deus e a todos aqueles que passam dificuldades, todos aqueles que, de certa forma, ficam desanimados. por causa de problemas que surgem na vida, devem pôr os olhos sobre Jesus, porque Ele tem um plano para cada um. E foi sempre isso que norteou também a vida do pastor Erico. Foi sempre isso. Foi muito bom ter estado com o pastor Erico Vidra aqui no programa Olhos nos Olhos. e conhecer essa história que viveu de tantas e tantas dificuldades, e a forma como mantendo sempre a sua fidelidade para com Deus, e tanto haveria ainda para contar ao longo da sua vida, acaba por chegar aqui com 75 anos e poder partilhar essa incrível história de vida.

Muito obrigado, professor. Glória a Deus. Glória a Deus por isso. Obrigado. Obrigado.

Sobre este episódio

Neste episódio de Olhos nos Olhos, conhecemos uma história real, profunda e transformadora. O pastor Eurico Vidro partilha o seu impressionante percurso de vida, marcado por dor, perdas, injustiças e grandes desafios, desde a infância no interior de Angola até ao ministério pastoral.

Série
Olhos nos olhos · 30 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 13
Estreou
26 de Dezembro de 2025
Categoria
Outros