Olá, mais uma vez estamos convosco, mais uma semana, mais um episódio deste programa que já é seu, que já conhece, que já estamos alguns meses juntos, Mentes que Sentem. É sempre uma alegria, um prazer e uma gratidão a Deus de podermos estar aqui em liberdade, de podermos abordar assuntos tão importantes como estes da saúde mental, que inevitavelmente toca a todos nós, uns de uma forma, outros de outra, com mais gravidade talvez algum outro querido. Então, estamos aqui de coração aberto e pedindo a Deus que nos use para que realmente possa ser uma bênção para a sua vida. Continuamos com a presença da querida doutora Cristina Dias. Olá, Cristina. Mais uma vez, mais uma semana e muito obrigada.
Obrigada, Milu. E vamos recuperar uma expressão que utilizamos em algumas vezes. Estamos no nosso cantinho do conforto. Isso mesmo, isso mesmo. Nós, no episódio anterior, Cristina, estivemos a tentar responder àquela questão que muitas das vezes é real e nem sempre a abordamos da forma certa, como estamos a tentar fazê-lo aqui, que é porquê é tão difícil perdoarmos a nós próprios. Parece ser mais fácil e mais rápido o perdão para com o outro, mas depois fica aquilo ali dentro de nós e, portanto, quando tem a ver connosco próprios. Vimos, inclusive, aspectos que contribuem para esta dificuldade e até destes exemplos reais, portanto, de pessoas que viveram e que ainda, infelizmente, estão a viver isso com elas.
Desenvolver mais um bocadinho este assunto, por favor, mais alguns aspectos. Obrigada Milú, relembrar aquilo que nós temos falado já em episódios anteriores. Estamos a falar de um tema complexo, portanto o que nós pretendemos fazer é refletir, não é solucionar. Não seria num espaço desta natureza que iríamos conseguir fazê-lo. Abordamos alguns aspectos, e vamos lembrar muito rapidamente, que acabam por tornar mais desafiante este processo do auto-perdão para connosco próprio. Falamos da identificação com o erro, portanto há uma fusão da nossa identidade. Se eu fiz algo, eu sou uma má pessoa. Falamos do medo das consequências e muitas vezes mantermos-nos inconscientemente presos à ausência da possibilidade de nos perdoarmos a nós próprios como um mecanismo de autopunição.
Falamos no impacto do perfeccionismo. de falharmos com esta imagem ideal que criaram e que nós criamos sobre nós próprios. E é esta dificuldade em aceitarmos o espaço para a imperfeição humana. Falamos da vergonha e da raiva e do medo e acabamos por relembrar que a vergonha é algo que se cola a nós próprios. Está muito mais vincada e muito mais presente. E trilhar o caminho do auto-perdão implica muitas vezes expor-nos a atos que são, no mínimo, vergonhosos para connosco próprios. Falamos de um mecanismo que também tem uma componente biológica, que é a dificuldade em desligarmos do passado, esta ruminação mental que aqui fica, que embora no mecanismo ideal é para nos ajudar a evitar erros futuros, mas nós encaramos isto na perspectiva da culpa.
Falamos também da dificuldade que existe da ausência de literacia emocional no contexto da sociedade e no contexto da família, o que nos leva muitas vezes a olhar para o erro na perspectiva da punição e não saímos dali, não avançamos. Para podermos avançar, outro dos desafios do qual falamos tem a ver com a questão da falta de competências emocionais para podermos lidar com a situação e uma pressão inequívoca que existe para repararmos ou corrigirmos aquilo que fizemos. O que não deixa de ser importante, mas às vezes tem a ver com a forma como isto
nos é trazido. Hoje em particular, e vamos dar aqui duas ou três estratégias um bocadinho mais práticas, eu gostava de falar de uma coisa que nem sempre é tão consciente, mas que se torna um grande desafio a este processo de auto-perdão. E tem a ver com a dualidade criada quando nós estamos no papel de vítima e de agressor. E a verdade é que se formos absolutamente honestos connosco próprios, todos nós somos capazes de ferir e de ser feridos. Só que nós crescemos num contexto em que a nossa tendência humana é dividir o mundo entre inocentes e culpados. Mas dentro de nós ambos coexistem. E nós não precisamos de estar, demos exemplos no episódio anterior, não precisamos de estar confrontados com exemplos tão graves a nível das suas consequências.
Mas somos capazes de nos sentirmos fragilizados ou magoados pela atitude de alguém e dez minutos depois estarmos a ter uma atitude que nós reprovaríamos noutras circunstâncias. Portanto, esta dualidade que eu tanto sou ferido como eu acabo por ferir o outro. E se me permites, eu, como gosto de exemplos práticos, vou utilizar uma experiência real. Ela está disponível para consulta, as pessoas encontram isto ao nível da internet, por exemplo, e até sugir que possam ver. Uma experiência real que nos ajude a retratar e a perceber com mais cuidado e a tentar extrair dali algumas lições práticas sobre o que é isto de ser vítima e o que é isto de ser agressora e de que forma é que isto tem impacto neste processo do autoperdão.
Existe um senhor norte-americano, chama-se Sammy Rangel, vocês encontram muita informação sobre ele num site que é o Forgiveness Project, vai passar aí em rodapé também. E eu gostava de vos ler aquilo que tem na introdução do projeto deste site sobre ele. Diz o seguinte, Sammy Rangel passou a maior parte dos seus primeiros anos em instituições psiquiátricas, lares de acolhimento e centros de detenção. Abraçou a violência aos 11 anos, juntando-se a um gangue, e passou longos períodos na prisão. Após um programa de reabilitação do abuso de drogas ou ajudar a recuperar-se, Samy prosseguiu os seus estudos e começou a trabalhar num programa de sensibilização sobre safe streets.
Ok, nós lemos isto e tentamos perceber o que é que está por trás desta situação. E embora seja uma história um bocadinho dura, e não tenho como objetivo chocar aqueles que nos ouvem, mas como objetivo olharmos para isto na perspectiva das estratégias, está bem? Então deixem-me só fazer aqui um resumo muito simples de algumas das dificuldades com as quais este homem passou ao longo da sua vida. Com três anos de idade, este menino foi abusado sexualmente pelo tio materno. Ele sempre foi uma criança que, junto com os seus irmãos... mas ele em particular sofreu níveis elevadíssimos de abuso físico, de abuso psicológico e negligência por parte da mãe e por parte do padrasto.
E isto demonstrava-se em coisas que nós poderemos dizer raia a maldade. Negligência a nível da alimentação, da higiene, coisas que efetivamente foram muito duras. E esta negligência foi direcionada especificamente para ele. Ele tinha mais irmãos, mas era ele, diríamos, a vítima da situação. E os irmãos, como mecanismo defensivo, aprenderam a ignorar, normalizaram um bocadinho este tipo de comportamento. A situação era tão insustentável que com oito anos de idade, este menino tenta suicidar-se. E aos 11 anos de idade, ele acaba por fugir de casa e acaba por se envolver com gangues na rua. E acabou por adotar este tipo de estilo de vida e de comportamento em que a promiscuidade, em que o consumo de substâncias, em que o consumo de bebidas tornou-se uma constante.
Ele vai crescendo e torna-se um jovem altamente violento e agressivo e comete atos profundamente graves contra outros, atentando inclusive contra a vida de outros. Aos 17 anos era preso. Com 17 anos de idade ele já era pai e tinha outra criança e iria ser pai novamente, porque outra criança iria nascer. Era tão violento e tão agressivo que ele foi enviado para uma prisão de segurança máxima. E na observação que ele faz sobre este período da vida dele, ele diz assim, fui para a prisão como um street punk, mas saí de lá como um líder brutal, com mentalidade assassino. Cumpriu pena, vem para a rua novamente e sete meses depois é novamente detido.
O nível de violência e de agressividade dele era de tal forma elevado que o colocam na solitária. E nós olhamos, podemos não ter histórias de vida felizmente tão duras, mas nós olhamos para a história de vida deste homem e nós dizemos, claramente aqui nós temos uma vítima e temos um agressor. Como é que nós podemos trilhar este caminho? Como é que nós podemos sair daqui? Mas se nós formos verificar ainda o que é que ocorreu com ele depois, ele tem uma frase que eu acho que é altamente reveladora. Ele diz, no inglês, se nós fizéssemos uma tradução livre, o que ele diz é, o que eu hoje sei por experiência própria é que tu não chegaste a um estado tal que não seja passível de recuperação.
E se tu olhares para a biografia dele, diz-nos o seguinte, ele atualmente é cofundador de uma organização Life After Hate, orientada para pessoas que querem abandonar ideologias de ódio e violência. fundou um programa, Former Anonymous, que ajuda antigos criminosos e pessoas que querem sair de um estilo de vida destrutivo. Tem uma biografia, tem um mestrado em serviço social, trabalha como consultor para várias agências governamentais, no sentido de tentar perceber como prevenir a violência e lidar com estas questões. Realiza palestras, treinos, mentoria. E eu fico surpreendida.
Não ficas só tu, fico eu e creio que ficamos todos nós, ao ouvir realmente uma história tão profunda quanto essa e ao ouvirmos essa experiência, Cristina, a pergunta que nos vem à mente é uma só, ou seja, como é que se consegue fazer essa transição do perdoar-se ou perdoar o outro, não é, e que ele teve muitos que realmente intentaram contra a sua vida e perdoar-se a si próprio também naquilo que depois ele optou e que escolheu de errado. E é curioso, Milu, porque essa questão que tu colocas é a primeira questão que eu tenho presente. Como? Como é que uma pessoa consegue fazer esta transição? Como é que ela consegue evoluir para não ficar refém de uma situação em concreto? E volto a dizer. Nós poderemos não ter histórias de vida tão intensas, mas o mecanismo que nos leva a oscilar entre os sermos vítimas e os sermos agressores é semelhante para qualquer um de nós.
E percebermos como é que nós podemos aprender a lidar com isto é um passo para a libertação. É um passo para, de alguma forma, nós encontrarmos aqui algum equilíbrio e, sobretudo, alguma paz mental com aquilo que somos ou com aquilo que fomos, de alguma forma. Seguindo um bocadinho o trajeto de vida dele, e volto a referir, apenas estou a dar exemplo desta história porque quero ir buscar aqui alguns mecanismos práticos também, ele refere dois momentos-chave na vida dele, e eu vou abordar um em particular. Naquele momento em que ele está na segunda detenção e está na solitária, ele diz que já não tinha contato com pessoas há muitos meses, estava na solitária. A determinada altura há um homem que lá pelo buraquinho da porta, chama-se George, ele não identificou o que é que ele fazia na prisão, mas foi falar com ele e disse que quer conversar com ele no escritório dele.
Então pede para o levarem. A verdade é que foram precisos quatro guardas prisionais para o prepararem para o levar para o escritório onde ele está com este homem. E a primeira coisa que este homem faz quando ele chega ao gabinete dele, na prisão, é tirem-lhe as correntes. E isto o deixou absolutamente estarrecido. Ele dizia, então ele não tem medo de mim? Eu sou o dobro do tamanho dele e ele não tem medo de mim? E o homem faz-lhe uma pergunta. Conta-me a tua história. Esta é a pergunta que ele lhe faz. E o Sammy diz que contou tudo sem filtros. E que aquele homem não fugiu, não teve pena, não disse nada, limitou-se a ouvir. E a última coisa que lhe diz foi, olha, eu quero ajudar-te a sair deste lugar.
E o Sammy diz que naquele momento foi uma situação tão estranha, tão fora daquilo que era a realidade dele, que lhe criou ali um sentimento de vulnerabilidade. Então, se falarmos de estratégias práticas, a primeira coisa que eu gostaria de
dizer àqueles que nos ouvem é que é altamente terapêutica a escuta ativa para alguém que está a passar por uma situação que lida com a culpa relativamente a uma situação. E nós não precisamos que nos deem explicações. O que aconteceu na vida deste homem naquele momento é que alguém o ouviu, viu. Mas alguém atribuiu-lhe e validou o espaço para ele ser visto. Foi uma coisa que durante a vida toda dele ele não sentiu. Ele era visto pela força. Ele era ouvido pela imposição das ideias. As pessoas tinham medo dele. E há ali alguém que está disponível para ouvir uma história sem atribuir juízes de valor.
Então, se sou eu que estou a lidar com a dificuldade em perdoar-me a mim próprio, uma estratégia difícil, nada do que eu vou propor é fácil, difícil, mas importante, é eu escrever e perguntar a mim próprio o que é que aconteceu. Eu escrevo o facto, não o julgamento, não o juízo de valor que eu faço das coisas. Eu bati em alguém, mas... não, não, eu bati em alguém. e depois eu vou tentar responder algumas questões. Agora, Cristina, se me permites, deixar no pensamento essa pergunta, ou seja, essa abordagem ou essa atividade de escrever. Nós já lá vamos para tu desenvolveres essa ideia. Temos necessidade de fazer só um pequenino intervalo e já voltamos daqui a pouquinho, não saia daí.
TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança. Cá estamos novamente, seja bem-vindo mais uma vez. Cá estamos juntos com este guia de estudos que você já conhece. Possivelmente já o pediu, já o tem aí em casa, mas quem sabe quer oferecer a alguém. Portanto, aqui está este guia Sentimentos, um guia à ciência do existir. Tem assuntos extraordinários, alguns que nós já vimos, outros que vamos ver. Então peça este guia de estudo para si ou para algum amigo através do contacto 933 93 92 91 e nós teremos com certeza muito prazer em enviar para si ou para algum querido que ache que seja pertinente.
Cristina, dar-te continuidade e a palavra para desenvolver-se então essa forma de poder gerir essa questão de ultrapassar esses desafios através de anotações. Sabes que uma das coisas que nós temos tendência a fazer quando estamos a lidar com algo que nos é profundamente constrangedor ou difícil, é nós não queremos enfrentar a situação. Porque isto nos traz muita dor. Recordar dói e recordar traz-me classificações e juízes de valor internos, muitas vezes. Mais do que o recordar, é o que é que isso significa e o impacto que tem em mim. Por isso é que quando nós dizemos escreve o que é que aconteceu, singe-te aos factos.
Claro que são enviesados porque é a tua perspectiva, mas singe-te aos factos e depois responda algumas perguntas que te vão doer. Nomeadamente, o que é que eu fiz ou o que é que eu deixei de fazer? O que é que eu senti na altura e o que é que de alguma forma eu esperava de mim? De cada vez que tu tentas responder a uma destas perguntas, tu estás a ser confrontado com a dor. Tu estás a ser confrontado com a vulnerabilidade, tu estás a ser confrontado com a vergonha, tu estás a ser confrontado com a raiva. Mas é exatamente para nós podermos ser confrontados com a dor sem termos necessidade de fugir dela, sem sermos consumidos por ela. Porque de cada vez que nós fugimos dela, nós estamos a atribuir-lhe um valor e uma dimensão na nossa vida que nos consome por completo.
E isto é altamente terapêutico e altamente desafiador de se fazer também. Sem dúvida. Quando falavas desse relato do encontro desse senhor na prisão com o tal George, ele diz que isso o deixou sentir-se vulnerável. E é a tal palavra e a tal realidade que nos é desconfortante, não é? Que impacto, e a pergunta que eu te queria fazer é que impacto é que a
vulnerabilidade tem no processo do perdão? Sempre que nós pensamos em vulnerabilidade, nós pensamos em ameaça. Pois. Pode não ser consciente, mas a verdade é esta. Vulnerabilidade implica exposição. Exato. Implica que o outro possa entrar no meu espaço. Ou implica que eu possa baixar a guarda relativamente a determinadas situações. E sobretudo, quando nós estamos perante uma situação que é altamente complexa, O perceber que dar espaço para me sentir vulnerável no contexto adequado com as pessoas corretas, não é necessariamente sinónimo de ameaça.
Dá-me esta janela de oportunidade. E o vulnerável não significa que eu sou ou deixe de ser uma má pessoa, não significa que eu sou uma pessoa fraca, muito pelo contrário. Permitir que a vulnerabilidade, no contexto correto, venha à minha vida, acaba por demonstrar um elevado grau de coragem. Só que o que a vulnerabilidade também faz? Faz com que eu quebre um bocadinho o ciclo daquilo que são as respostas absolutas, as ideias absolutas, dou espaço para haver aqui uma oportunidade. Eu errei, eu sofri, eu arrependo-me, mas ainda assim Eu posso continuar a ser amado, eu posso continuar a ser diferente, eu posso continuar a merecer algo positivo, mas eu acho que não mereço.
E há sempre a diferença entre aquilo que nós sentimos e, mais uma vez, a evidência da realidade. Então, uma pergunta que, mais uma vez, é terapêutica, mas não é fácil de fazer, é o que é que me impede de me sentir vulnerável? E às vezes nós não temos consciência que estamos neste processo, que é o processo de eu estou inconscientemente a bloquear a necessidade de, em alguns momentos, baixar a guarda e permitir que a vulnerabilidade venha ao de cima. Porque isto é altamente penalizador. É o que eu entendo. Então a pergunta é, o que é que me impede de me sentir vulnerável? Será que eu alguma vez me senti assim? Porque, a regra geral, eu associo a vulnerabilidade a momentos menos positivos.
Ou a situações em que alguém poderá ter tido um comportamento para comigo não desejável. Mas eu desafio aqueles que nos ouvem a fazer este exercício de reflexão. Apontem. Quais são as circunstâncias? Quais são os pensamentos? Quais são as coisas que me fazem, que me impedem de me sentir vulnerável? O que é que isto está a trazer à minha mente? Porque regra geral vai apontar para medos. E há alguns que são básicos e certamente tu e eu vamos nos identificar facilmente com eles. A vulnerabilidade leva-me, por exemplo, ao medo do julgamento. Se eu admitir que falhei, vão pensar. Que eu sou fraco. O que é que vão pensar de mim, não é? A vulnerabilidade leva-me ao medo da rejeição. Se eu mostrar verdadeiramente quem eu sou, as pessoas não ficam aqui.
A vulnerabilidade leva, por exemplo, ao medo da dor. Se eu permitir-me sentir aquilo que está aqui guardado, eu não vou aguentar. A dor é tão intensa e tão profunda que eu preciso guardá-la aqui do que ser confrontado com ela. Eu vou desmoronar se isto acontecer. mas eu posso desmoronar no momento e é o processo necessário para poder reconstruir. Outro medo que é muito comum, que a vulnerabilidade nos expõe, tem a ver com o medo de perder o controle. Se de alguma forma eu me abrir, eu vou desmoronar. Então há uma outra estratégia. que eu gostava de convidar as pessoas a fazerem.
Quando começarem a identificar estes medos, estas crenças que nós trazemos, que nos estão tão entranhadas frequentemente, temos é que ter disponibilidade mental para isto. Escolham um lugar tranquilo, um lugar seguro, e deixem os pensamentos fluir. Sem estar a tentar evitá-los na nossa mente. Mas deixem os pensamentos fluir. E vão repetindo para si próprios. Ok. Eu posso sentir isto, mas eu continuo a ser uma pessoa digna. Digna da atenção, digna do respeito, digna do amor dos outros. Ah, mas isto está-me a fazer-se sentir completamente indigno. Está bem, mas provavelmente eu já não sou a mesma pessoa que fui quando isto aconteceu.
Eu estou a tentar evoluir para uma situação diferente. Daí que esta questão da vulnerabilidade traz-nos crenças, traz-nos medos que são altamente importantes de desmontar neste processo. Gostava só também, muito rapidamente, Milo, eu falei há bocado que ele teve dois
momentos-chave. Um deles foi quando tem este contexto na prisão e o outro é quando ele já está a fazer o processo de terapia, está a fazer terapia no âmbito de libertar-se de alguns consumos que ele tinha. E a determinada altura está em grupo. e o terapeuta coloca duas cadeiras no centro da sala. Eles estão numa roda e o terapeuta coloca duas cadeiras. E convida o Sammy a sentar-se numa das cadeiras. E ele acaba por ir na defensiva, na perspetiva de... Ok, eu vou alinhar um bocadinho com este jogo que tu estás aqui a fazer, mas tu não vais retirar nada de mim. E o terapeuta diz-lhe o seguinte... Sammy, imagina que na outra cadeira está a tua mãe.
O que é que tu lhe dirias? e ele faz algumas questões. Como é que tu foste capaz de nos fazer isto? Como é que foi possível? O que é que eu te fiz? E extravasa um bocadinho alguma angústia. E o terapeuta agora diz-lhe, agora vou te pedir que passes para a cadeira da tua mãe e tentes imaginar o que é que ela te poderia responder. E ele diz que sentia uma resistência interna como qualquer um de nós, porque nada que ela poderia dizer validaria todo o sofrimento que eles teriam passado. E ele diz que fez o esforço e a única coisa que lhe ocorreu foi desculpa. Foi a única coisa que lhe ocorreu. Volta a passar para a cadeira original dele.
E o terapeuta pergunta-lhe, expressa-te, diz o que é que tu sentes. Ele diz que expressou tudo. A rejeição, o abandono, o ter sido invisível para todos à sua volta. E a pergunta de viragem, o momento de viragem, vem com a próxima pergunta que o terapeuta lhe faz. E ele diz-lhe. Alguma vez tu magoaste alguém da mesma forma como a tua mãe te magoou?" Emilu, eu creio que esta é uma pergunta que nós devemos refletir. Mais uma vez, poderemos não estar a falar de histórias tão difíceis. Mas de que forma a resposta a esta questão de se alguma vez eu poderei ter causado dor ao outro, que possa ser vivenciada pelo outro com a mesma intensidade com que eu vivencio a minha dor.
E em que eu transito desta perspectiva da vítima para a perspectiva do agressor, que impacto é que isto tem em mim? É algo que nós vamos ver no próximo episódio. Muito bem. E com certeza ficamos todos curiosos e sem dúvida desejosos de conhecer o restante desta história. Tu estavas a falar, Cristina, e eu estava a me lembrar, e agora em título de arremate, um dos versículos que nós encontramos na Palavra de Deus, quando em João 8.36 diz. E nós temos muitas coisas que nos aprisionam, que nos escravizam. E a nossa mente realmente é um dos territórios em que, mais do que nunca, nós vivemos estas prisões. Estas prisões sem grades, mas que elas existem.
Então, marcamos o encontro, se Deus quiser, no próximo episódio. E até lá. Que o Senhor vos abençoe.