Perdão - Entre o Erro e a Cura (parte 1)

Perdão - Entre o Erro e a Cura (parte 1)

18 de Novembro de 202526 min 46 s

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Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio que já é o seu, Mentes que Sentem. É um prazer poder estar consigo, poder receber de voz algum feedback, alguma pergunta, algum comentário, algum assunto que gostarias que nós aqui também abordássemos neste programa, que teremos muito prazer com certeza. Seja bem-vindo então mais uma vez. Se é a primeira vez que está conosco, bem-vindo também. Verá que é algo de bastante importante esta questão da saúde mental e daí estarmos aqui já há alguns meses consigo. Não estou sozinha. A nossa querida doutora Cristina Dias. Olá, Cristina. Seja bem-vinda e que o senhor continue a abençoar também e obrigada pelo teu Ministério.

Obrigada, Milú. É bom estar aqui e é bom estar contigo e com todos aqueles que estão connosco e nos acompanham. Muito bem. Cristina, nos episódios anteriores nós estivemos a falar sobre o perdão e tentamos responder algumas dúvidas associadas a este tema. No entanto, há uma questão que é muito mais comum do que aquilo que muitas vezes

Exemplos práticos de culpa

nós pensamos e achamos que tem a ver com a questão de perdoar-se a si mesmo, perdoar-se a si próprio. Há pessoas que carregam este fardo e têm esta dificuldade de uma coisa é eu perdoar o outro, outra coisa é eu perdoar-me a mim mesmo. O que fazer? Essa pergunta, tal como tu dizias, é uma pergunta mais comum, é uma dúvida mais comum do que aquilo que nós percepcionamos. E é uma pergunta altamente delicada, porque é muito individualizada. Portanto, aquilo que nós pretendemos fazer hoje não é propriamente responder na totalidade ou resolver problemas, mas sim refletirmos em conjunto sobre esta situação.

Porque há situações tão específicas que poderão necessitar de um outro tipo de apoio especializado. Então, para poder responder à tua questão, eu gostava de utilizar exemplos práticos. Duas situações reais, que de alguma forma nos vão ajudar a acompanhar o desenvolvimento deste raciocínio. Algum tempo atrás, uma amiga e colega de trabalho partilhava comigo a experiência de alguém que ela conhece. Uma senhora que trabalhou e trabalha durante algum tempo como auxiliar de ação educativa no infantário. Este episódio que eu vou partilhar ocorreu quando ela trabalhava com a salinha dos 4 ou 5 anos de idade, sensivelmente. Então, as crianças estavam cá fora, num momento de lazer, a brincarem, e as crianças normalmente imitam aquilo que vêem.

Estava bom tempo, o que é que resolveram imitar? Vamos nos fazer de conta como se estávamos a casar. Então inventaram quem seria o noivo, quem seria a noiva, de alguma forma, e inventaram toda a cerimónia. É natural, eles conseguem ver isso na realidade, que às vezes atiram pétalas aos noivos, ou flores, ou rosas, ou seja o que for. Então foram ao jardim buscar pétalas de flores e efetivamente começaram a atirar. Inadvertidamente, sem se aperceberem, junto com as pétalas de flores foi um pequeno espinho de uma roseira. e acertou no olho do menino que estava a fazer de novo. E foi uma situação bastante complicada. A verdade é que, independentemente de toda a intervenção médica que foi feita, a criança acabou por perder a visão daquele olho.

E este auxiliar carregou e carrega ainda hoje uma responsabilidade e um peso de culpa incrível porque dizia, eu deveria ter feito qualquer coisa, eu deveria ter estado atenta, eu não deveria ter permitido que esta situação acontecesse. mesmo apesar da própria família da criança, dos pais do menino, já terem falado com ela e terem dito, apesar de ser uma situação que nos dói profundamente, nós reconhecemos que não teve culpa. Segundo exemplo, e já voltaremos a este, Segundo exemplo, um cirurgião, portanto um médico, altamente competente e conceituado naquilo que fazia, a determinada altura está a fazer uma intervenção, uma cirurgia, e comete um erro técnico.

A verdade é que como consequência o paciente falece. E este homem, devido a esta situação, acaba por carregar um fardo de culpa incrível por se afastar da atividade profissional durante algum tempo e inclusive por criar algum isolamento daqueles que lhe eram queridos também. Então vamos pensar nestes dois exemplos em comum. E vamos tentar perceber o que é que de alguma forma os une. Primeiro, ambas as situações foram altamente graves pelas suas consequências. Segundo, quer aquele auxiliar, quer aquele cirurgião, carregaram um fardo de culpa que teve um impacto direto na forma e no dia-a-dia destas pessoas.

seja a nível do trabalho, seja a nível de isolamento, seja a nível de complicações físicas. Esta senhora, por exemplo, veio a acabar por desenvolver uma depressão profunda também. Outra questão que foi comum, teve a ver com a permanência no tempo. Ou seja, isto é uma situação que não sai da tua mente. Não importa se passou um dia, se passou um ano, esta situação está lá, subjacente. E todos os dias tu tens que fazer uma gestão individual do que ela te provoca internamente. E quer uma, quer outra situação, acabaram por ter algum acompanhamento especializado na área. Agora, se nós formos tentar perceber qual foi o desenrolar de ambos os episódios, a verdade é que no caso desta mulher, ela acabou por ficar presa no tempo.

Eu lamento muito dizer isto. A pessoa ficou presa a este fardo de culpa e crê que não pode avançar porque isso legitimaria que aquilo que aconteceu não foi tão grave. Este segundo exemplo deste cirurgião é um exemplo real que está relatado de um cirurgião norte-americano, Richard Seltzer, e está relatado num livro que ele escreveu que se chama Mortal Lessons. E ele diz que efetivamente houve dois momentos-chave que o ajudaram a passar desta culpa que nos aprisiona, para uma culpa que acaba por ser gerida de uma forma mais saudável. Ele diz que o primeiro momento foi quando, no acompanhamento especializado, ele acaba por perceber que ele estava a tentar ser infalível na sua atividade profissional.

Ele estava a confundir competência com perfeição. E a verdade é que ninguém é infalível naquilo que faz. Todos nós temos uma margem para o erro, mas é-nos extremamente difícil lidar com esta margem para o erro, sobretudo pelas consequências que ela nos traz. Por outro lado, o segundo momento chave é quando ele visita a família do paciente e a esposa do então falecido acaba por dizer algo do género. Olha, ele sabia que era uma operação altamente delicada e sabia que efetivamente podia morrer, mas ele confiava em si porque sabia que o doutor iria tentar fazer o seu melhor. Então, este médico acaba por perceber que a intenção e o cuidado que tu podes ter numa determinada situação, por muito genuínos que sejam, não apagam o erro.

Mas, a verdade é que dão sentido à humanidade a tua falha. Por outro lado, este homem acabou por trilhar este processo do auto-perdão, do perdão para consigo próprio, que nós vamos de alguma forma ver com mais detalhe, e ele avançou da culpa para a responsabilização e passou a falar abertamente sobre o erro médico e o perdão. Daí o surgimento deste livro que acabei de lhe referir também. E a verdade é que sempre que nós falamos de perdão, sobretudo perdão que tem a ver connosco próprios, nós entramos no campo da vulnerabilidade. E o ser humano tem dificuldade em sentir-se vulnerável. Vulnerável em relação aos juízes de valor dos outros, mas às vezes ao juízo do valor que nós estabelecemos em relação a nós próprios.

Esta crítica interna que muitas vezes ocorre na nossa mente. Tu disseste que avançou da culpa para a responsabilização. Qual é a diferença em termos práticos e qual o impacto neste processo do perdão para consigo próprio?

Culpa e responsabilização

Se pudesse explicar um pouquinho isso. Obrigada pela pergunta, Milu. A verdade é que nós, de alguma forma, em episódios anteriores já abordamos um bocadinho esta questão da culpa, mas vamos tentar puxar aqui, de uma forma muito sintética, alguns tópicos. A culpa é uma emoção que tem um nível de moralidade que é atribuído por nós. E ela está ligada à percepção de termos feito algo incorretamente. Seja uma coisa real, seja uma coisa imaginária. Não é incomum as pessoas estarem a carregar um fardo de culpa de uma interpretação de algo que elas fizeram. E nasce de um julgamento interno. Eu errei? Eu não devia ter feito isto? Eu sou uma má pessoa por ter feito isto. Só que a culpa remete-nos para onde? Prende-nos a onde?

Prende-nos ao passado. É quase como se nos congelasse no tempo de algo que nós já não podemos modificar. Aquilo lá tem concreto e eu já não posso modificar. Ela evolui para uma culpa tóxica quando tende a paralisar esta ação. Quando se foca na punição. É quase como se a necessidade íntima, interna que nós temos é que tem que haver uma reciprocidade entre a gravidade daquilo que ocorreu e a punição para aquilo que ocorreu. E isto, claro, gera autocrítica, vergonha e gera a tal ruminação mental que nós já temos falado várias vezes. A culpa saudável passa por todos estes estádios também. Passa por tudo isto.

Só que a forma como a pessoa aprende a geri-la, leva a que ela evolua para a responsabilização. Ou seja, é uma consciência ativa do impacto das tuas ações. A pessoa reconhece o erro, Aprende com o erro, compromete-se a agir de uma forma diferente no futuro. Portanto, ela está focada no presente e no futuro, só que para tu poderes trilhar este caminho da reparação do erro, tu tens que ter a maturidade necessária a nível emocional para o fazeres. E tens que ter aquilo que nós falávamos em episódios anteriores, que é o mecanismo da autocompaixão, que a maior parte de nós tem dificuldade em desenvolver. Sem dúvida.

Cristina, já vamos continuar. Nós vamos só fazer uma pausa muito breve, para um breve intervalo e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da saúde. O canal da esperança. Cá estamos nós novamente, seja muito bem-vindo. Continuamos neste que é o seu programa, Mentes que Sentem, e queríamos uma vez mais recordar-vos aquele que é o guião de estudo que nós vos oferecemos, que está aqui para vós, para si ou para os seus queridos, para a sua família. Sentimentos, a ciência do existir. este guia de estudos que poderá ter na sua casa de forma gratuita. Basta apenas contactar-nos através do 933 939291 e nós teremos muito gosto e todo o prazer de poder enviar para si este guia de estudo.

Nós vamos dar continuidade, então, a este episódio. Perguntar-te, Cristina, falando tu agora da questão da autocompaixão e dessa maturidade emocional, mas às vezes parece que é mais fácil perdoar o outro do que perdoar a si próprio. Nos episódios anteriores, enquanto estivemos a abordar esta questão do perdão, é claro, é evidente que o perdão não é um processo fácil. Portanto, quando utilizamos a expressão parece que é mais fácil, não quer dizer que o processo em si não seja desafiador. Mas vamos voltar a pegar no exemplo do cirurgião. Vamos imaginar que nós as duas somos colegas de profissão, somos ambas cirurgiãs, e tu estás a relatar-me que durante a cirurgia que fizeste o teu paciente faleceu.

Eu fico extremamente compungida com a situação. Eu posso ter pena, posso sentir a empatia de ti, posso olhar, tentar perceber de que forma é que eu te poderei ajudar. Mas agora imagina que isto ocorre comigo. A forma como eu vou intensamente sentir aquilo é completamente distinta. E isto porquê? Porque a relação com o nosso próprio erro é muito mais íntima. Eu tenho acesso direto àquilo que penso, àquilo que sinto, àquilo que fiz. Eu tenho acesso direto, em primeira mão, às próprias intenções que eu tinha antes disto ocorrer, que nem sempre podem ser as melhores. E isto traz um peso de realidade à situação, que faz a diferenciação entre a forma como eu consigo percepcionar isso e a forma como eu consigo percepcionar se ocorreu contigo.

Isto porque eu não tenho acesso à tua realidade interna. Eu não sei o que está a ocorrer dentro de ti. Portanto, o ciclo é, nós erramos ou temos uma falha, isto leva-nos a um julgamento interno que poderá ser altamente severo e altamente crítico para connosco próprios, Leva-nos à ruminação contínua, o pensamento está sempre lá, o episódio está sempre lá, o que fizemos, o que deixamos de fazer, o que deveríamos ter feito e as consequências. Isto traz-nos uma dor emocional e depois, dependendo das pessoas, Invariavelmente, uns optam por evitar pensar na situação, o que não é saudável também com o processo de gestão, e outros optam pela autopunição, o que acaba quer numa, quer noutra situação, por não resolver e prendermos a este processo da culpa.

Para além daquilo que tu referiste, que outras questões nós poderemos colocar que poderão contribuir para que pessoas tenham dificuldade em perdoar-se a si

Dificuldades no autoperdão

próprias? Há várias. Há várias questões e elas não se esgotam todas aqui. E eu gostaria de elencar algumas. Algumas já nos ouviram falar em episódios anteriores. Mas eu gostava de fazer aqui uma pequenina ressalva. Parte daquilo que nós vamos dizer nem sempre é consciente. Ou seja, às vezes nós ouvimos alguém e dizemos que poderá ou não fazer sentido. Mas eu gostaria que se houvesse alguém que está a lidar com isto ou a passar por este processo, não se surpreenda se de alguma forma disser que nunca pensei nesta perspectiva. E isto porquê? Porque muitas vezes os nossos processos internos não são conscientes e sobretudo o próprio processo do adoecimento muitas vezes ocorre porque há coisas em relação às quais nós não temos consciência que vão tendo impacto em nós.

E uma das situações que contribui para tornar altamente desafiador o processo de nos perdoarmos a nós próprios tem a ver com a identificação excessiva com o erro. Há uma fusão da nossa identidade. Portanto, o pensamento típico pode não ser consciente, mas é aquilo que nós sentimos, é se eu fiz isto eu não sou uma boa pessoa. E trilhar o caminho do perdão para comigo próprio muitas vezes obriga-nos a validar esta ideia de que eu não sou uma boa pessoa. Mas nenhum de nós gosta de ser confrontado com esta perceção. Então é mais simples, dentro da complexidade do processo, evitar confrontar-me com esta realidade do que ter que ser exposto à dor.

de que eu não sou uma boa pessoa. Sendo que esta perceção de que eu não sou uma boa pessoa foi atribuída exclusivamente por mim. Não quer dizer que seja uma evidência da realidade. Nós temos muita dificuldade em fazer essa distinção. Outra situação que leva a que este processo seja altamente desafiador tem a ver com o medo das consequências. E nós muitas vezes olhamos para o medo das consequências no sentido do julgamento do outro ou que algo vai acontecer de grave para connosco. O que não percebemos é que às vezes somos nós que temos receio de, se não tivermos aquela situação constantemente presente na nossa mente, eu posso voltar a fazer. É quase como se aquilo funcionasse ali como uma barreira, como se eu já não confiasse em mim própria para ter a capacidade de decidir e não optar por cometer a mesma escolha de alguma forma.

É uma estratégia de segurança. Outro desafio altamente complexo neste processo de perdão para consigo mesmo tem a ver com o perfeccionismo e com o que deveria ser. E todos nós crescemos um bocadinho com esta percepção de que tu deves ser uma pessoa respeitadora, que cumpre as regras, uma boa pessoa, fazer o teu melhor e tudo bem relativamente a isso. A questão é que alguns de nós ou pelo nosso temperamento, ou pelo contexto familiar onde crescemos, trazemos isto tão inculcado que não existe mais tempo para o erro. Portanto, tu confundes a tua identidade pessoal com o não falhar, com o não errar. Portanto, são pessoas que exigem zero erros de si próprias e uma falha de uma coisa simples é uma falha na totalidade da pessoa.

O bolo não correu bem, saiu do forno e não saiu como eu gostaria. Eu sou uma péssima pessoa, eu falho em tudo aquilo que faço de alguma forma. E é curioso porque um padrão de raciocínio típico nestas situações é, isto não é uma questão de perdão, eu não deveria ter feito isto, ponto final. E isto leva a que a pessoa tenha muita dificuldade em aceitar a imperfeição humana. E eu não estou com isto a querer valorizar a imperfeição humana, mas se nós não damos aço à imperfeição, como é que nós aprendemos a lidar com ela? Como é que nós aprendemos a lidar com os limites? Por outro lado, sobretudo nestes casos, é mais difícil trilharmos o caminho do perdão para connosco próprios, porque nós exigimos mais de nós do que exigimos dos outros.

Somos também altamente exigentes com os outros, mas o nível de intensidade para connosco consegue ser bastante mais elevado com os outros. Há um outro aspecto também que torna este caminho do perdão para consigo próprio altamente desafiador. Tem a ver com a vergonha profunda e o medo das consequências, e aqui consequências mais externas. Se nós fizermos a associação entre a culpa e a vergonha, Nós temos aqui quase que uma equipa fantástica para nos levar a alguns momentos extremamente difíceis. E a vergonha é o que, simplificando? É este sentimento de ser insuficiente ou de ser indigno. Então, nós muitas vezes temos receio de trilhar este caminho do perdão, não só porque parece que desvalorizamos a intensidade daquilo que foi feito, mas com medo que o outro olhe para nós como sendo uma pessoa moralmente inadequada.

E a verdade é que se nós pudéssemos fazer aqui uma experiência e tivéssemos uma balança com dois pratos e pudéssemos pôr num prato da balança a emoção da raiva e num prato da balança a emoção da vergonha, a verdade é que a emoção da vergonha é mais pesada do que a emoção da raiva. E por que é que nós estamos a falar na raiva? Porque quando nós associamos culpa-vergonha, muitas vezes vem a raiva também. E a raiva é algo que ao longo do tempo tende a assumir níveis de intensidade diferentes. Enquanto que a vergonha é uma coisa que parece que se cola a nós. eu recordo-me de situações da minha infância em que eu fiz algo do qual eu me senti vergonha.

E hoje, quando isso me vem à mente, continua a provocar-me vergonha de alguma forma. Portanto, é como se aquilo estivesse entranhado dentro de nós. E trilhar este caminho do processo do perdão para consigo próprio significa que muitas vezes eu tenho que expor a situações em relação às quais eu tenho vergonha. E isto traz-me vulnerabilidade. E nenhum de nós lida bem com vulnerabilidade. Esta questão mesmo de nós podermos dizer, será que é possível ou como desligar desse passado? Fazer esse corte, mas saudável, não é? Porque as memórias também lá estão, para alguma coisa é, não é? E acabam por ser de alguma forma construtivas.

quando elas são do jeito correto, lembradas, mas como cortar essa questão de desligar esse passado, sobretudo o negativo, que nos influencia negativamente. Sabes que nós não desligamos o passado. Essa é uma perspectiva um bocadinho...

Gestão do passado

Desejável da nossa parte, mas nem sempre é execuível. Nós aprendemos a gerir o passado, porque o nosso cérebro, e este é outro dos desafios no mecanismo do auto-perdão, O nosso cérebro tem dificuldade em desligar do passado. Mas ele tem dificuldade em desligar do passado porquê? Porque ele olha na perspectiva de aprendizagem, de não voltar a repetir os mesmos erros. Só que muitas vezes isto cria-te um loop mental de culpa, parece que estás sempre ali, numa roda. Não consegues sair disto. Nós daqui a um bocadinho iremos também falar de algumas estratégias um pouco mais práticas. Mas, efetivamente, até a nível biológico, nós muitas vezes estamos a lidar com um mecanismo que está criado para prevenir situações futuras.

Mas aquilo que ocorre com alguma frequência é que nós estamos centrados no facto em si e nas consequências do facto em si. Isto traz também um outro desafio associado, altamente complexo, que tem a ver com o contexto educacional ou social onde nós estamos inseridos. Há culturas, sociedades, há famílias que não sabem, não têm, muitas vezes, estrutura para lidar com esta questão do perdão. Nós vivemos, dizemos o contrário, mas nós vivemos numa sociedade altamente punitiva. O que é que a sociedade nos diz? Então erraste, então tens que ter as consequências disso. mas parece que não avançamos para o resto.

E há famílias em que isto prevalece quase como se o erro tem que estar presente, como uma forma de lembrança contínua e não pode ocorrer nada mais, porque senão tu não aprendes. E as pessoas acabam por ter dificuldade em dar o passo da transição para a gestão saudável do processo da culpa. E somos confrontados com frequência com adultos para quem esta questão do perdão é quase como se fosse algo inaceitável, porque de alguma forma é considerado um fracasso. Então tu não podes fazer isso. Serás de alguma forma uma pessoa que não está devidamente identificada em termos de valor próprio.

E isto leva-nos também a uma outra questão, que não é desenvolvida nestes contextos, O que é que tem a ver com esta falta de competências emocionais? Nós temos muita falta de literacia emocional. Muita. Desde pequeninos trazemos isso arraigado em nós. E quando tu trilhas o caminho do autoperdão, tu tens que ter autoconsciência. Que é o quê? É eu perceber o meu padrão de raciocínio, dar nome às emoções. Nós já falamos sobre isso. Tentar perceber qual é a relação direta que existe entre uma coisa e a outra. Mas nós também temos que aprender a desenvolver este processo do tratar-me com respeito, ter compaixão para comigo próprio. E temos também que aceitar a tal imperfeição, o que é altamente complexo para alguns de nós.

E por outro lado, somos constantemente confrontados com uma pressão para compensar ou corrigir. E efetivamente este é um dos passos importantes para lidar com o processo de perdoar a nós próprios, iremos ver isso com mais cuidado, com mais calma, mas há situações em que a pessoa entende que só quando reparar na totalidade aquilo que ocorreu é que estará em condições de ser perdoado ou perdoar-se a si próprio, mas nunca vai ser suficiente. Porque a gravidade da situação, aos meus olhos, nunca vai permitir que exista um paliativo igualmente importante para justificar o que ocorreu. E nós não queremos justificar.

Nós queremos é trabalhar saudavelmente a situação. Muito bem. Doutora Cristina, é sempre muito bom estarmos juntas, o tempo voa quando assim é. Nós com certeza continuamos a lembrar para vós aí em casa que há este guia de estudo que temos para vós, o 933 939 291 é o contacto que podereis usar para pedir exatamente este guia de estudo. Foi um prazer estar consigo, com certeza nos encontraremos na próxima semana, em mais um episódio, momentos que sentem. Até lá e que Deus vos abençoe.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 29
Estreou
18 de Novembro de 2025
Categoria
Saúde