Memória - Arquivos da Mente II

Memória - Arquivos da Mente II

19 de Maio de 202625 min 54 s

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Abertura e boas-vindas

Mais uma semana e mais uma oportunidade de estarmos juntos aqui neste seu programa Mentes que Sentem. Trazemos com todo o carinho e com toda a preparação e oração com Deus estas informações que acreditamos que de uma forma ou de outra poderão ser uma mais-valia para a sua vida, para a vida daqueles que ama. Estando connosco já há vário tempo, continuo a ser bem-vindo. Se é a primeira vez que está connosco, damos um abraço e desejamos que verdadeiramente aqui possa encontrar algumas respostas para alguns desafios da sua vida, porque não até fazer um um apanhado daquilo que têm sido estes programas, estes episódios diferentes deste programa, para ir atender àquilo que precisa. Nós temos aqui neste consultório, digamos assim, nestes momentos que se sentem, a presença sempre amiga da doutora Cristina Dias.

Olá Cristina, seja bem-vinda querida, que Deus te abençoe. Obrigada, Milú. E brincando um bocadinho com o episódio anterior e com este, eu espero que aqueles que estejam connosco tenham boas memórias deste episódio, deste programa. É verdade. E falavas bem, realmente, no episódio anterior. Se está aí e não o viu, eu aconselho plenamente a que possa vê-lo primeiro, porque este episódio que vamos fazer hoje é continuidade daquilo que abordamos e iniciamos no episódio anterior, que falávamos exatamente sobre a questão das memórias. e a questão da memória, e de forma muito profunda, tu nos foste ensinando vários conceitos. E perante isso que tu explicaste, portanto, no episódio anterior, coloco novamente a questão que deu início à reflexão que tivemos no episódio anterior.

Como distinguir, então, aquilo que possa ser um esquecimento normal de idade, daquilo que são problemas mais graves de memória?

Sinais de alerta

Ora bem, vamos tentar responder essa pergunta de forma objetiva e de forma prática, mas eu gostaria de fazer aqui um alerta. Isto é um programa de caráter informativo, portanto não é um local onde se fazem diagnósticos e estamos a dar uma informação que ela não é aprofundada de todo. Portanto, se existe alguém que de alguma forma suspeita ou até perante aquilo que nós vamos dizer fica com algum sinal de alerta em relação à questão da memória, deve procurar profissionais competentes na área, com formação específica, para poderem ajudar. Seja o médico de família, seja o neurologista, seja o psiquiatra. Portanto, volto a referir, não estamos a fazer diagnósticos aqui, estamos a dar alguma informação de alguma forma.

Então, o nosso cérebro ele efetivamente vai envelhecendo, mas ele não falha. Funciona é de uma forma um bocadinho diferente. Torna-se mais lento, mas ainda é capaz e é menos automático, mas ainda tem o seu nível de adaptabilidade de alguma forma. Então, há dois fatores-chave que nos ajudam a tentar perceber se nós estamos perante um esquecimento normal da idade ou se estamos a evoluir para algo que merece um outro tipo de atenção. O primeiro tem a ver com a questão da autonomia. O esquecimento normal, ele regra geral, não interfere com a autonomia da pessoa. A pessoa continua com um determinado nível de independência. Por outro lado, quando nós falamos sobre se estamos perante uma situação ou outra, nós temos, tal como já dissemos em relação a outras situações, que estar atentos aos aspectos chaves da frequência, do impacto no dia-a-dia e da progressão dos sintomas.

É normal nós termos um esquecimento de onde é que eu coloquei os objetos. E mais tarde lembrar-me deles. Olha, o exemplo que dávamos no início do episódio anterior, onde é que eu tenho os óculos? Acho que finalmente estão aqui na cabeça, não é? É normal nós demorarmos mais tempo. Estamos a falar do esquecimento associado ao envelhecimento, está bem? Portanto, eu não estou propriamente à espera. que uma pessoa com 30 anos, que se esqueça constantemente dos nomes e das palavras, que isto seja normal. Mas, eventualmente, uma pessoa que já está com outra faixa etária, isto já poderá ser normal. Entrar numa divisão, esquecer-se do que ia fazer e lembrar-se mais tarde, precisar de listas ou lembretes com mais frequência, mas a pessoa, apesar de apontar aqui algumas falhas de memória, continua independente.

Há uma outra fase que é considerada a fase de transição, entre a perda de memória associada à idade, ao processo de envelhecimento, e uma perda de memória que pode ter clinicamente aqui algo de maior gravidade, que é o que nós chamamos a fase do comprometimento cognitivo leve. em que tu ainda mantens uma autonomia, mas tu começas a perceber que há uma perda de memória progressiva, tu começas a perceber que isto começa a ter impacto no dia-a-dia, há mais esquecimentos do que aquilo que seria esperado para a tua idade ou para a pessoa que tu eras, porque há pessoas que têm uma memória, uma capacidade de memorização mais clara do que outras, de alguma forma.

Percebes que há maior dificuldade com memória recente e pequenas falhas de atenção e organização. Nós vamos tentar transformar isto em perguntas, está bem? E volto a dizer, não estamos a fazer um diagnóstico, são apenas algumas perguntas de alerta. Vamos imaginar que nós temos alguém com quem vivemos e estamos a suspeitar que essa pessoa possa, efetivamente, estar a começar a apresentar alguns sinais de comprometimento da memória que não têm necessariamente a ver com o processo de envelhecimento, ou que poderão não ter necessariamente a ver. Duas perguntas é que nós podemos responder. Uma delas tem a ver com a memória recente. Será que a pessoa esquece conversas ou acontecimentos recentes com frequência?

Será que a pessoa faz a mesma pergunta várias vezes ao dia sobre o mesmo assunto? Será que a pessoa depende muito de outras pessoas para se lembrar de algumas situações importantes, como compromissos, consultas, objetos, por exemplo, estarmos a perguntar constantemente ou outra pessoa tem que ajudar? Nas tarefas do dia-a-dia, E quando falamos de tarefas do dia-a-dia estamos a falar daquelas que normalmente a pessoa executa, porque eram coisas que a pessoa fazia rotineiramente. A pessoa tem dificuldade em realizar tarefas habituais, por exemplo, cozinhar, usar eletrodomésticos, já não se recorda, ou tem mais dificuldade em operar, por exemplo, a máquina de lavar roupa, quando era uma coisa que fazia anteriormente.

apresenta dificuldade na gestão do dinheiro. O que é isto da gestão do dinheiro? Por exemplo, esquece de pagar contas com muito mais frequência, confunde valores, não se recorda das situações. Começa a precisar de listas ou anotações para executar tarefas que anteriormente eram mais simples, como por exemplo preparar o jantar. E quando eu digo preparar o jantar, é eu posso ter uma lista para não esquecer que tenho que fazer o jantar, ou eu posso ter uma lista à par e passa a dizer-me como fazer aquela refeição. Fazer aquela sopa, tenho que fazer isto, isto e isto. Quando antes eu fazia isto sem ter necessidade da lista, por exemplo. A nível de orientação é outra área que temos que estar atentos.

A pessoa já se perdeu em lugares familiares? Portanto, eram sítios onde eu costumava ir, mas agora já me perdi mais do que uma vez. I àquele local e acabei por me perder. A pessoa faz confusão com datas, com o tempo, com espaços. A pessoa, por exemplo, é capaz de confundir dias da semana. Estações do ano com frequência. E mais uma vez voltamos a dizer, atenção que a frequência aqui é um fator chave, está bem? Todos nós em algum momento nos vamos esquecer do dia ou do lugar onde estamos. A pessoa, por exemplo, a nível da linguagem, tem dificuldade em encontrar palavras simples com frequência. Usa palavras erradas numa determinada frase que não eram para aquele contexto, ou frases que se tornam confusas.

Nós conseguimos compreender o que a pessoa está a dizer na sua essência, mas a frase não ficou bem construída. Outra pergunta que pode ser um alerta. Será que a pessoa troca palavras nas conversas por descrições, em vez da palavra propriamente dita? Olha, aquele sítio, aquele sítio que tem livros, porque não se recorda da palavra biblioteca, por exemplo, ou livraria, por exemplo. Ou até uma pessoa, não é? Aquela pessoa que usa aquilo e que não se consegue lembrar do nome. Exatamente. Este, no âmbito da linguagem, pode efetivamente ser um indicador de alerta. Outro indicador de alerta é quando a pessoa deixa frases a meio. E tu percebes que a pessoa deixa a frase a meio porque ela está a tentar processar a informação, mas está a ter dificuldade em verbalizar aquela informação.

E isto é altamente frustrante para a pessoa que está a lidar com esta situação, para o próprio. E a própria sente que fica a meio ou às vezes pode não? Já vamos responder essa questão. A maior parte das vezes a pessoa se sente, mas nem sempre valoriza. E isto pode fazer a diferença. Outra questão que também é um indicador de alerta tem a ver com o comportamento e com o humor. Ou seja, será que nós percebemos que aquela pessoa está a ter alterações significativas no seu comportamento e no seu humor? Está mais irritável? Está mais impaciente? Está mais desconfiada? Está mais apática, por exemplo? Será que a pessoa apresenta menos interesse em atividades que anteriormente gostava de fazer, por exemplo?

E a pergunta que tu estavas a colocar tem a ver com o que nós chamamos de consciência das falhas. A pessoa reconhece que está mais esquecida? Esta é a primeira pergunta. Se a pessoa reconhece que está esquecida, então isto é mais comum no envelhecimento normal ou no comprometimento cognitivo leve. Se a pessoa de alguma forma nega diz que não, isto pode ser um indicador de algo mais sério. Quando é que devemos procurar ajuda médica? Se começarmos a perceber que há aqui um padrão, portanto, várias destas perguntas têm uma resposta de sim, ou eu acho que sim, às tantas faria sentido avaliar um bocadinho melhor isto. Por outro lado, perceber que os esquecimentos estão a aumentar periodicamente no tempo, os familiares dos amigos notam mudanças, e começamos a perceber que tem impacto na rotina e na segurança da própria pessoa.

Nós já vamos continuar a refletir sobre estes assuntos tão interessantes. Vamos habitualmente para o nosso intervalo e já voltamos.

Doenças e causas reversíveis

TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança. E cá estamos uma vez mais, nesta segunda parte deste episódio de hoje, onde continuamos a falar sobre a importância das memórias, também o perceber a questão de alguns esquecimentos que possamos ir tendo, mas não queria passar à segunda parte sem antes poder fazer mais uma vez um apelo ou poder oferecer de uma forma mais direta aquele que é o nosso guia de estudo, Sentimentos, a Ciência do Existir, que poderá ser oferecido a si gratuitamente ou a algum amigo, a algum conhecido, e se é a primeira vez que está conosco, temos muito gosto em poder oferecer-lhe.

Basta apenas enviar uma mensagem, o 933 939291 é o contacto que poderá usar para, através de uma mensagem ou de um telefonema, pedir exatamente este guia de estudo para si ou para algum amigo que conheça. Portanto, fica disponível, de forma gratuita, temos muito gosto em poder enviar através do contacto, entre em contacto connosco e faça esse pedido através do 933 939291 e teremos com certeza muito gosto em poder enviá-lo. Cristina, há várias doenças associadas a esta questão, portanto, da memória. Poderias fazer alusão a algumas delas? Nós não vamos descrever estas doenças, ok?

Só gostaríamos que as pessoas tivessem a noção da complexidade daquilo com o qual estamos a lidar. A doença que nos vem à mente logo é a doença de Alzheimer, não é? Provavelmente é aquela que é mais conhecida. Mas nós temos, por exemplo, não se deduzem a estas, mas nós temos patologias associadas à questão da memória, como a demência vascular. Temos, por exemplo, a demência com corpos de Levy. Temos a demência frontotemporal. E temos uma coisa, que pode ocorrer uma coisa, que é reversível ou poderá ser reversível, e muitas vezes nós não temos noção disso, que são deficiências ou causas reversíveis. Às vezes, por exemplo, é uma deficiência de uma vitamina. Por exemplo, a vitamina B12 tem um impacto muito grande na questão da memória.

hipotiroidismo, efeitos secundários de medicamentos, a própria depressão, que nós já falamos que traz muitas vezes aquela nebulina mental, aquele esquecimento. Então nós temos que olhar para esta questão da memória, não apenas como uma questão de que eu estou a perder características ou capacidades, mas muitas vezes é uma questão fisiológica em termos clínicos, pode ser reversível porque eu posso estar a ter ali alguma situação que esteja a ter um impacto direto na minha memória também. É preciso ter atenção a isso. Por isso é que é importante um diagnóstico completo e muitas vezes análise e uma

A reconstrução da memória

série de outros exames que são pedidos. Nós confiamos, desconfiemos plenamente naquilo que nós nos lembramos, não é? Mas será que a nossa memória realmente é fiel a esses acontecimentos? Podemos nos questionar, não é? Eu acho que à primeira vista todos nós, intuitivamente, iríamos responder não, não é bem assim. Exceto quando alguma coisa acontece e queremos marcar o nosso ponto de vista e dizermos mas eu tenho a certeza absoluta, não é? E aí temos alguma dificuldade em olhar para as coisas de outra forma. Mas se formos efetivamente genuínos e honestos, vamos dizer que eu sei que não é bem assim. Mas entre o saber que não é bem assim e ter a noção da ciência do que é que não é bem assim, eu gostava que entrássemos um bocadinho por aí e tivéssemos uma noção mais clara.

Elizabeth Loftus é uma psicóloga norte-americana e ela é considerada uma das pessoas que têm investigado de forma mais proeminente esta questão da memória humana. E ela, em 1995, ela e a equipa de investigadores publicaram um estudo baseado numa experiência lost in the mall, perdido no centro comercial, que foi considerado um momento-chave para repensarmos a forma como olhávamos para esta questão da memória. Então, em que consistia o estudo? Participaram 24 pessoas, adultos, e o objetivo do estudo era mostrar que é possível criar em ti e em mim memórias de acontecimentos que nunca ocorreram.

E nós dizemos que isso parece em filmes de ficção científica. Mas vamos ver que às vezes a ficção científica tem mais proximidade com a realidade do que aquilo que nós achamos. Então o que é que eles fizeram? Eles pediram aos familiares destes 24 participantes que relatassem à equipa de investigadores três acontecimentos de infância destas pessoas que efetivamente ocorreram. E depois disseram também aos familiares que iriam introduzir um novo acontecimento. Portanto, os familiares teriam que corroborar esta versão. como se aquela pessoa, em criança, se tivesse perdido no centro comercial. Isto efetivamente não ocorreu. E depois, eles apresentaram estas quatro supostas vivências de infância, três verdadeiras e uma falsa, aos participantes.

E pediram aos participantes, ao longo de várias entrevistas, que eles recordassem os detalhes. E incentivavam, inclusive, a imaginar o evento. Resultado, deste conjunto de pessoas, 25% destas pessoas passaram a lembrar-se do evento falso, de como se tivessem sido perdidas, estado perdidas no centro comercial. Mais do que isso, acrescentaram detalhes, emoções e descrições específicas. Portanto, elas não só estavam a aceitar a história, como elas estavam a acreditar na história. Portanto, uma memória que nunca existiu. Um acontecimento que nunca ocorreu na vida destas pessoas. E apesar deste grupo de participantes ser relativamente pequeno, esta experiência foi depois replicada várias vezes, ela teve um impacto muito grande, porque mostra, em primeiro lugar, que a nossa memória é reconstrutiva.

O que isto quer dizer? Nós estamos a fazer uma gravação neste programa. O que dizemos, o que falamos, a forma como nos expressamos, está a ficar gravado. A nossa memória não é uma gravação. A nossa memória, aquilo que ela faz, é que cada lembrança que nós temos, ela é composta por fragmentos de informação. Somos, imagens, emoções, contextos. Cheiros, jeitos, por exemplo. Quando nós recordamos algum, como estamos com fragmentos de informação, o nosso cérebro preenche estas lacunas automaticamente, com aquilo que para ele faz sentido. É mais ou menos como eu dizer, eu vou ao supermercado.

E eu ponho, escrevo a frase e digo, eu vou ao supermercado. O teu cérebro entendeu. Não está lá a palavra ao, mas o teu cérebro entendeu. Ele preencheu essa lacuna. Na parte da memória ele faz exatamente a mesma coisa. Então o que é que isto faz? pode levar-nos a detalhes incorretos ou até memórias ou eventos que nunca ocorreram, o que significa que estas memórias podem ser manipuladas por sugestões externas. Esta mesma investigadora e a sua equipa já tinham feito, em 1974, uma outra experiência que foi considerada também muito relevante. E era a experiência do car crash, portanto o acidente de carro. Participaram na altura 45 participantes e a pergunta que eles queriam fazer, nesta altura era um bocadinho diferente, é como é que a forma como tu fazes uma pergunta a alguém vai influenciar a memória desta pessoa.

Então o que é que os investigadores fizeram? Os participantes foram divididos em grupos. O grupo A e o grupo B. E ambos viram vídeos de acidentes de carros. E depois eles fizeram esta pergunta a cada um dos grupos. A um dos grupos fizeram a pergunta. A que velocidade, aos participantes claro, a que velocidade é que acha que os carros iam quando bateram? Ao grupo A. E ao grupo B fizeram a pergunta. A que velocidade é que acha que os carros iam quando colidiram violentamente? Os resultados, o que é que eles perceberam? O grupo B, aqueles em que a pergunta foi feita, quando os carros colidiram violentamente, que utilizou uma expressão mais forte, estimaram velocidades maiores do que aqueles que ouviram a pergunta feita e bateram.

E nesse mesmo ano, com 150 participantes, eles fizeram uma outra versão desta mesma experiência. O que é que eles fizeram? Fizeram exatamente a mesma coisa, as pessoas olharam para o vídeo de alguma forma e Responderam à mesma pergunta, mas depois eles introduziram uma segunda pergunta. E a segunda pergunta era se havia vidros partidos. Então, o grupo a quem tinha sido feita a questão do colidiram violentamente, falaram que haviam vidros partidos, quando na realidade eles nunca existiram. O que é que isto nos mostra também? Além de podermos sugerir memórias de eventos que nunca aconteceram, a nossa memória está sujeita a uma influência externa e ela pode ser alterada depois do evento.

Ou seja, efetivamente pode ter acontecido alguma coisa e esta memória que nós temos do evento pode ser alterada. A linguagem funciona como uma sugestão, a forma como nós fazemos a pergunta, a forma, por exemplo, como nós sugerimos coisas. A publicidade é fantástica nesse aspecto, porque percebe esta característica que nós temos. As próprias notícias, portanto, pequenas mudanças podem dar aso a grandes distorções. E porquê que estas experiências tiveram tanto impacto na altura? Porque uma coisa é eu dizer-te, eu tenho a certeza absoluta que vi isto, estou a falar contigo. Outra coisa, por exemplo, é dizer isto num tribunal. E, de alguma forma, um dos grandes impactos que estas experiências tiveram foi repensarem até a nível judicial a forma como iriam construir determinados processos, porque não é a primeira vez que somos confrontados com situações de pessoas que foram detidas por testemunhos e depois foi-se verificar pelo nível da ADN, pela análise do ADN, que não tinha sido aquela pessoa.

Lembrar não é propriamente reviver o passado, é reconstruí-lo. E essa reconstrução pode falhar. E além disso, só para acrescentar mais este fato também, sempre que tu tens uma memória que está associada a algo emocionalmente carregado, mais intenso, essa memória é mais vívida, mas menos precisa. Ou seja, stress intenso ou trauma leva ou pode levar à distorção de detalhes. Por exemplo, podes lembrar-te nitidamente do local de um acidente, mas podes confundir a hora e as pessoas envolvidas. Então, isto de alguma forma deveria nos levar a perceber que nós, primeiro, somos mais manipuláveis do que aquilo que gostaríamos.

Segundo, quando dizemos com toda a certeza, eu tenho a certeza absoluta de que isto ocorreu, eu não estou agora a querer dizer que vamos todos questionar ou ficar em dúvida sobre as coisas, mas às tantas, perceber que a nossa memória não é tão factual quanto nós lhe atribuímos esse caráter.

Reflexão final

Estavas a falar e eu estava a me lembrar, não é por acaso que dizemos que nós somos transformados por aquilo que nós contemplamos, mas também somos transformados por aquilo que nos dizem. E, portanto, é essa tal informação que nos possam dar, se for positiva, realmente ajudar-nos a e, portanto, a ter esse discurso coerente e verdadeiro, como tu falaste, e é verdade. Se realmente a informação que nos é dada não é dada corretamente, como foi essas experiências que tu fizeste alusão, como é que é possível que nós a nível psicológico, no fundo, abracemos algo que até nem vivemos, nem experimentamos? E isso é um ensinamento muito grande, sem dúvida.

Aliás, até estou-me a lembrar de um versículo que o senhor diz, por isso tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é positivo e é verdadeiro, então pensai nisso. Seja isso a razão do vosso pensamento. e eu acho que isto ajuda-nos sem dúvida. Quando falavas sobre isso, Cristina, já agora só a aprofundar, eu estava a pensar. Mesmo essas pessoas que vieram de resultado dessa mesma experiência e começaram até a acreditar, por exemplo, que ficaram perdidos quando eram pequeninos lá no shopping, A pessoa está a falar mesmo com convicção, acreditando que mesmo ficou perdida num shopping quando era pequena. Está porque aquilo está misturado com vivências que foram reais, de alguma forma.

E nós depois iremos ter a oportunidade de ir com mais calma. Mas se efetivamente é uma vivência real e o nosso cérebro reconstrói informação, agrega, ele vai pela parte lógica, de alguma forma. Agora, sobretudo quando nós passamos por situações que são traumáticas para nós, Sabes que o esquecimento não é necessariamente negativo, muito pelo contrário, às vezes é um fator protetor. Mas quando passamos por situações traumáticas temos ainda mais dificuldade para perceber se aquelas memórias estão efetivamente reais. Cristina, muito obrigada mais uma vez. Fica aí, fica aí para a semana. Não esqueça que nós temos um novo encontro. É sempre muito bom aprendermos e temos mais informação e mais ensinamento para partilhar. Foi bom estar consigo.

Que Deus o abençoe e abençoe. Até para a semana, se Deus quiser.

A nossa oferta

Sobre este episódio

Neste episódio de Mentes que Sentem, a conversa continua sobre um tema que toca muitas famílias, a memória, os esquecimentos e a forma como percebemos aquilo que vivemos.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 50
Estreou
19 de Maio de 2026
Categoria
Saúde