Luto - Falar de luto com crianças (Parte 2)

Luto - Falar de luto com crianças (Parte 2)

14 de Abril de 202627 min 26 s

Capítulos

Transcrição

Gerada automaticamente

Abertura

Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda uma vez mais a mais um episódio do programa Mentes que Sentem. Já estamos convosco há algum tempo, é sempre um prazer, um privilégio, uma alegria muito grande e também oramos para que o Senhor nos use para poder ir ao encontro das suas necessidades, dos seus desafios, num mundo que trá-los e diariamente que nós os temos, mas estamos aqui querendo em Deus, porque realmente o amamos, realmente pedimos que ele haja na nossa vida, e por isso estamos aqui juntos para trazer mais alguns assuntos pertinentes à nossa vida do lado de cá. Nós temos estado em alguns episódios, particularmente no episódio anterior, demos início ao estudo, à reflexão sobre esta questão do luto, como fazer face ao luto, particularmente às crianças, aos adolescentes, E hoje vamos dar continuidade a esse mesmo assunto.

Para isso, Cristina, muito obrigada pela tua presença. É sempre muito bom estares connosco e obrigada pelo teu saber e pela tua partilha. Obrigada, Milu. E, utilizando uma expressão que já é habitual, estamos no nosso canto do conforto. Aquele onde podemos expor, de alguma forma, questões que às vezes são desafiadoras, mas que são passíveis de aprendermos mais. Sem dúvida. É verdade, como tu dizias num episódio, creio que foi o anterior, em que dizias que esta questão do luto já é muito complexa para o adulto e pensar no luto e como é que os nossos filhos, as nossas crianças e os nossos adolescentes devam fazer face a esse mesmo luto também ainda é mais desafiador.

Cristina, eu gostava de perguntar-te como é que podem os pais e os cuidadores

Ajudar no processo de luto

das crianças ajudá-las neste processo, a atravessar este processo de luto? Essa é uma pergunta que claramente vem à mente de todos nós, não é? Então nós não temos uma resposta estándar, de uma resposta única que diga é apenas assim que tu deves agir. Temos algumas linhas orientadoras. Uma das coisas que é extremamente importante é que tu mantenhas as rotinas familiares. Se tu estás a passar por uma situação destas e inerentemente as tuas crianças ou o teu adolescente também está a passar por uma situação dessas, a previsibilidade, o manter as rotinas é algo que é importante para a criança se situar. Claro que não estou com isto a querer dizer que, por exemplo, a criança tinha uma atividade extracurricular e agora vais obrigar a criança a ir à atividade extracurricular se ela não está capaz ou se não sente vontade.

Mas manter a previsibilidade das rotinas, os horários de levantar, de deitar, as refeições, ir à escola, tudo isso é importante. O nosso cérebro precisa de integrar essa previsibilidade. Outra questão é também informar as entidades que são relevantes na vida da criança sobre o que está a acontecer. Nomeadamente, por exemplo, a escola ou até algum local onde tu tenhas uma atividade extracurricular. Porque a criança poderá ter alguns comportamentos fora do normal. E se não for sensibilizada a entidade, não saberá muitas vezes como lidar ou como reagir com aquilo. Apoiar a criança na sua expressão emocional. Isto dito, assim nós podemos pensar.

Então traduz-me isto em termos práticos e permite-me dar aqui um exemplo recente. Recentemente uma amiga, colega de trabalho, perdeu o sogro. Ela tem uma filha que tem neste momento 9, 10 anos de idade e uma das formas que esta criança encontrou de integrar esta perda foi criar um mural na parede do seu quarto com fotografias e com recordações dela e do avô. Então, ajudar-se a criança a criar-se uma expressão emocional é importante. Pode ser através de um desenho, pode ser através de fotografias, pode ser escrever uma carta à pessoa a mostrar o quanto gostava dela, pode ser até criar-se um tesouro secreto, vamos utilizar esta expressão, coisas que sejam significativas para ti.

Já agora, desculpa que se me interromper-te, porque estava-me a lembrar de um assunto que tu tinhas dito no episódio anterior, que falavas sobre se tivermos que dar uma notícia ou falar sobre esse assunto não deva ser no quarto da criança. E agora estás a fazer referência, creio que poder minimamente perceber de que essa criança, por exemplo, até de forma real, ela quis fazer no seu próprio quarto o tal mural com as fotografias do seu avô. Qual é a diferença? Não há problema, mas aqui foi uma escolha voluntária. Ou seja, eu posso entender que a forma como eu estou a processar a dor, no meu espaço íntimo e no meu espaço seguro, para mim é importante que tu lá estejas. Enquanto estávamos a falar da questão de dar a notícia, és tu que vais invadir de alguma forma aquele espaço pessoal da criança.

E reparem, eu não estou com isto a querer dizer que é absolutamente contraindicado, não é isso. O que eu estou a dizer é que vamos ter alguma sensibilidade relativamente a essa situação. Porque poderão haver crianças para quem isto não é relevante e poderão haver crianças que possam de alguma forma fazer associações e deixar de olhar para aquilo como um espaço seguro. Mas neste caso em particular tem a ver com o fator de escolha. Portanto, eu escolho como vou fazer, eu escolho como vou organizar esta informação. Estava também a responder-te, porque a tua pergunta foi como é que nós poderemos ajudar a criança. Mais uma vez volto a referir. O procurarmos ajuda especializada, Poderá ser necessário dependendo da intensidade da manifestação do luto, das reações por parte da criança, ou a sua aparente ausência, que também é um fator indicador, e também a duração no tempo.

E não é incomum tu teres crianças que no momento em que tu comunicas a perda têm uma reação relativamente normal e algumas semanas depois tu começas a perceber que a criança tem comportamentos, nós chamamos de comportamentos disruptivos, que fogem um bocadinho. daquilo que é a normalidade. E não consegues, muitas vezes, fazer associação com aquilo que aconteceu há uns meses atrás. Porque ficou, ou a criança tomou uma consciência diferente, ou ficou ali, de alguma forma, a não resolver e a colocar perguntas na mente da criança para as quais ela não tem respostas.

Responder às perguntas difíceis

Por falar em perguntas. Não é incomum as crianças fazerem perguntas, muitas questões. Algumas podem ser feitas diretamente ao adulto, outras são feitas na sua mente, outras são feitas entre amiguinhos, entre grupos de amigos. E há perguntas muito típicas, como por exemplo, porque é que as pessoas têm que morrer? Eu também vou morrer. Esta noção de que isto pode acontecer comigo também. Eu não sei bem com quem é que eu posso falar. Como é que é morrer? Afinal o que é isto? E eu estou triste, eu estou estranha. Por que é que isto me está a doer tanto? Será que eu posso chorar? Mas os meus amigos vão fazer pouco de mim. Será que eu posso chorar em relação a isto? Uma pergunta, nós daqui a um bocadinho iremos ter a oportunidade, provavelmente, de falar um pouco mais sobre isto. Uma pergunta que é muito característica e nem sempre é expressa desta forma.

Foi culpa minha. Eu tive culpa disto. Eu portei mal. Foi por causa disso. E aquela pergunta, mas eu só quero ficar sozinha. Ou a observação, só quero ficar sozinha. E eu estou muito zangada. E agora o que é que eu faço quando eu estou zangada? E uma questão que é muito transversal, seja a adultos, seja a crianças ou adolescentes, é será que agora eu vou sentir-me sempre assim? Isto são algumas questões exemplificativas que muitas vezes surgem na mente das crianças e dos adolescentes. Tu referiste várias questões que as crianças realmente podem colocar. Eu também vou morrer? Ou como é que é morrer? Por exemplo, que tu disseste.

Como é que então nós poderemos responder este tipo de perguntas, não é? Porque acho que é isso que todos estamos à espera de saber. Ou seja, esta pergunta de... eu também vou morrer? Então, a minha sugestão é que comece primeiro pelo impacto que isto causa. Olha, eu compreendo que tu tens medo. Todos nós sentimos medo de morrer, mas em algum momento isso vai acontecer. Mas ouve, isso vai demorar muito tempo até acontecer. E nós vamos estar aqui a apoiarmos uns aos outros e vamos estar aqui para cuidarmos uns dos outros. E à medida que o tempo vai passar, tu vais deixar de sentir tanto medo em relação a isto. Então, tu não estás a dizer que não vai acontecer, mas começas por normalizar a emoção que a criança traz associada em relação àquilo.

E acabas por dar a nota de esperança de que, apesar daquilo ser um facto e ser uma evidência, tu consegues gerir esta situação. E associada a esta pergunta, vem muitas vezes aquela pergunta de como é que é morrer. E voltamos àquela resposta que tínhamos dado no episódio anterior para sermos práticos. Morrer é a ausência de funções. O corpo deixa de ter a sua função, de respirar, de fazer outro tipo de funções. Mais uma vez a expressão que eu tinha utilizado no episódio anterior, acima de tudo serenidade. E muito associada a esta questão vem também aquela que estávamos há pouco a dizer de foi culpa minha. A criança pode não te verbalizar isto, mas imagina.

Será que a criança, no contexto de como é que é morrer, ou eu também vou morrer, ou porque é que a pessoa teve que morrer, porque é que a pessoa morreu? A pessoa morreu porque já era muito idosa, ou a pessoa morreu porque aconteceu um acidente, e às vezes acontecem os acidentes, nem toda a gente sobrevive, ou a pessoa estava muito doente e o corpo dela não conseguiu resistir, Então, se a criança não te fizer a questão adicional, mas tu percebes que há ali algo que não está muito claro, tu própria podes devolver a pergunta. Estás assustado? Tens medo? Ou tu tens medo que te possas ter feito alguma coisa, ou não ter feito alguma coisa que fez com que aquilo acontecesse com a pessoa.

E dependendo da resposta que a criança te dá, posiciona-te de uma forma muito clara. E isto diz à criança. Seja o que for que aconteceu, não foi culpa tua. Ah, mas eu desobedeci ao avô. E o avô ficou triste. Ou eu não arrumei o quarto. Será que? Porque as crianças têm um mecanismo que todos nós temos que é atribuir um sentido às coisas, uma explicação às coisas. E quando nós não conseguimos atribuir um sentido lógico às coisas, nós vamos fazer associações. E tu podes até dizer que lá foste tu, mas para a mente daquela criança é uma associação lógica. Então, esta questão do foi culpa minha, mesmo que não seja dita audivelmente, é importante que tu devolvas claramente de não foi culpa tua.

que te vier isso à cabeça, diz para ti, não foi culpa minha. Aconteceu por isto ou por aquele motivo, mas o que tu fizeste ou deixaste de fazer não interferiu com o desfecho da situação. Ah, mas o avô ficou triste. Querida, o avô ficou triste da mesma forma como nós ficamos tristes às vezes uns com os outros, mas não foi isso que provocou a situação. Nós vamos ter com certeza a oportunidade de continuar nesta reflexão. Vamos fazer uma breve pausa, como habitualmente, e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança. E cá estamos novamente para a segunda parte do episódio de hoje, onde estamos a refletir sobre coisas tão pertinentes quanto esta do luto e fazer face a ele, sobretudo como ajudar os nossos filhos, as crianças e os adolescentes nesta área que é realmente a questão do luto.

Nós, como habitualmente, temos sempre este manual que gostaríamos de colocar à vossa disposição para dizer que temos muito prazer e muito gosto em poder oferecer-vos. O manual Sentimentos, a ciência do existir, encontrará aqui assuntos muito pertinentes para a questão da saúde mental. que é isso que nos acompanha e é por isso que nós aqui estamos. Então, se desejar ter para si um ou mais manuais para si ou para oferecer, teremos muito gosto em poder enviá-lo. É só mandar uma mensagem 933 939 291 e teremos muito gosto e muito prazer, sem dúvida, de poder enviar para a sua casa, que será uma mais-valia para si ou para

Diferentes reações e o choro

algum querido ou algum amigo realmente que esteja que esteja a passar uma situação de dificuldade a nível das nossas emoções ou da nossa saúde mental. Cristina, para dar continuidade, às vezes as crianças têm reações diferentes perante uma perda, como tu já disseste, e é verdade. Aliás, até mesmo na nossa própria família, quando temos mais do que um filho, nós compreendemos que pode haver diferenças de reação, não é por serem da mesma família e do mesmo pai e da mesma mãe que vão ter as mesmas reações. E alguns podem demonstrar tristeza, chorar ou não chorar, ou podem, por exemplo, querer ficar sozinhas. O que eu te pergunto é como é que nós podemos, então, abordar isto, como fazer face a estas diferentes reações.

Sabes que há crianças que naturalmente verbalizam mais, há outras que são mais resguardadas relativamente a este tipo de situações. Mas o fato de falar ou não falar não significa que a questão não exista. Então, às vezes, é importante que tu devolvas aquilo em forma de pergunta. Estás triste? A criança não diz nada, estás triste? Ou, por exemplo, a criança verbaliza contigo e diz que está triste. Transforma a resposta em coisas que sejam factuais, coisas que sejam comuns do dia-a-dia da criança. Então tu podes comparar o estar triste a um balão.

Tu podes dizer que a tristeza é como se nós tivéssemos um balão muito cheio. O balão estava cheio de ar antes de ficar triste. Éramos nós. A nossa vida estava normal, nós estávamos contentes porque aquela pessoa continuava aqui, mas de repente o avô, a avó, o pai, o tio, o primo, o cãozinho, não importa, acabou por morrer, é como se tivessem tirado o ar todo do balão. e o balão estivesse triste, e nós estamos tristes. A criança sentir que algo esvaziou de dentro dela. Agora, aos pouquinhos, nós vamos voltar a encher esse balão. Ou seja, aos pouquinhos, nós vamos começar a sentirmos a não ter só vontade de chorar ou a não querermos ficar só sozinhos.

Então, explica a tristeza como uma reação natural. Quando nós perdemos uma coisa ou perdemos alguém que gostávamos muito, é normal que nós fiquemos tristes. E é normal que nesse período de tempo a gente até fique zangado, ou nós até fiquemos um bocadinho confusos, ou nós queremos ficar sozinhos. Aquilo que está a acontecer é que o teu corpo está a trabalhar muito. O teu corpo e a tua mente estão a trabalhar muito para lidar com isto. Mas isto é como o balão. Nós vamos começar a fazer pequenas coisas que vão ajudar a não fazer com que tu te sintas tão triste todos os dias. E não é incomum as crianças tentarem reter o choro. E às vezes ficarem na perspectiva de se posso ou não posso chorar.

Elas pautam-se muito pela questão do padrão dos adultos. Por exemplo, crianças na escola. As crianças não vão chorar à frente dos amigos, porque têm medo que sejam comutadas como a fracota ou outra coisa qualquer. Mas, às vezes, elas reproduzem esse mesmo comportamento em casa. Por quê? Porque os adultos estão todos a lidar da mesma forma. Portanto, não é possível chorar. Então, devolver esta observação à criança. Olha, se tu tiveres vontade de chorar, não há problema nenhum. Nós estamos aqui. Há pessoas que não choram. Não quer dizer que não estejam a sofrer. Algumas não conseguem chorar. Outras têm medo de chorar à frente das pessoas, com receio do que é que vão pensar sobre elas.

Mas sabes, quando nós guardamos uma coisa dentro de nós, é como se estivéssemos a fazer um muro à nossa volta e cada vez ficamos mais sozinhas, sem saber como lidar com isto. Chorar ajuda a abrir ali um espacinho no muro. Ajuda a que a pessoa possa deitar cá para fora algo que a está a magoar. E quando tu queres ficar sozinho, às vezes tu vais querer ficar sozinho. E até nem vais querer que as pessoas te abracem e queres estar um bocadinho sossegado. Mas a verdade é que tu queres ficar sozinho, mas ao mesmo tempo queres ter alguém ao teu lado. Parece que o nosso coração não se decide sobre o que é que ele quer fazer. Então, se queres ficar sozinho, tudo bem. Mas depois, vem ter comigo.

Deixa-me dar-te um abraço, porque é importante isso também. Ou seja, dar esta noção de que por fato da criança estar a sentir duas coisas diferentes e que parecem antagónicas, não é necessariamente errado. Estavas a falar sobre a questão do choro e eu estava a me lembrar, às vezes, por exemplo, o pai ou a mãe, particularmente a mãe, nós poderemos privar-nos de chorar à frente dos nossos filhos porque não os queremos deixar tristes. E porque não queremos, se calhar, trazer sobre eles, pensamos nós, ainda mais dor ou ainda mais peso do que aquele que já é realidade. O que fazer nestes momentos, Cristina? Posso chorar à frente dos meus filhos, explicando a eles porque é que eu estou a chorar?

Podes. Aqui, mais uma vez, temos que entrar... Eu vou utilizar uma expressão que até pode parecer um bocadinho desadequada face ao contexto. Mas aqui temos que entrar um bocadinho na questão do bom senso. O que é que eu quero dizer com isto? A criança tem percepção que tu estás triste. E tu manifestas essa tristeza de alguma forma. Portanto, o fato de em algum momento a criança ver que tu começas a chorar, ou a criança ver que tu tens necessidade de sair daquele contexto, ou a criança perceber que tu não te rias da mesma maneira, da brincadeira que a criança fez, isso não é necessariamente negativo. Agora, e aqui vem um esforço adicional por parte do adulto. Não deve ser o padrão constante de comportamento.

Ou seja, eu não tenho que estar alegre quando eu não estou alegre. Eu não tenho que me rir constantemente das graças que a criança diz. Mas, de alguma maneira, eu poderei trazer alguma normalidade ao nosso dia-a-dia. Eu não tenho muita vontade, mas eu lia-te uma história, vamos ler a história na mesma. Olha, a criança vê-te a chorar ou tu estás a ler a história e de repente começas a chorar. Explica, sabes? A mamãe lembrou-se do avô quando leu isto. Lembras-te que o avô fazia esta brincadeira connosco? Mamãe está triste, preciso só de um abraço. Agora, é diferente de tu teres um comportamento constante, e aí sim já estás a pôr um peso sobre a criança, teres um comportamento constante em que a tristeza seja o único fator comum, o único denominador comum ao longo do teu dia-a-dia.

Mas se tu explicares à criança e disseres, podes também dizer que a mamãe sente-se triste, mas isto não significa que vai ser sempre assim. A mamãe está a fazer um esforço, estamos todos a fazer um esforço e eu gosto muito de ti. Termina-se sempre com uma nota de que tu és importante para mim, apesar de eu estar a sentir isso. Como é que agora a questão da pergunta e que nós estávamos a refletir, da questão do choro e da criança estar a chorar, que tu falavas e achei esta expressão ou esta imagem muito interessante da questão do balão, de perceber e entender que estes desafios ou esta realidade é comum a todos nós. E não é por ser criança que não possa deixar de sentir um vazio.

Qualquer coisa que ali falta, qualquer coisa que não preenche mais. Mas o que eu te diria é, como é que a criança se sentirá à vontade com quem

Compreender e apoiar os adolescentes

poderá falar sobre estes assuntos? Porque às vezes as crianças, não é só o assunto em si, mas é a quem eles vão falar sobre estes assuntos. Por isso é que é importante tu alertares, por exemplo, a escola, ou alertares os outros contextos onde a criança está. Pedires descrição, naturalmente, mas alertares. Porque muitas vezes a criança não vai falar diretamente. A criança vai fazer uma observação. Mas ela tem necessidade de falar ou não? Depende. Depende da criança. Por isso é que é importante não seres invasivo. Portanto, se de alguma forma a criança manifesta... As crianças têm um raciocínio muito concreto e às vezes elas estão preocupadas com questões mais objetivas.

Questões de, ok, eu posso brincar na mesma? eu posso rir-me, ou o que é que aconteceu especificamente àquela pessoa. E às vezes elas não traduzem tanto isto pela questão verbal, mas traduzem ou pelo comportamento, ou por exemplo, através até de desenhos ou de alguma observação que possam fazer. Então, se tu perceberes que a criança está menos bem, o que tu podes dizer sempre, ou melhor, desculpa, deixa-me voltar atrás agora no meu raciocínio perdido. O que tu podes fazer é dar sempre esta nota à criança. Olha, eu sei que às vezes nós precisamos de falar com alguém.

Portanto, quando tu estiveres triste ou quando tu estiveres com medo, tu podes falar comigo. Ou podes só dizer, combinar uma palavra, podes só dizer abraço, por exemplo. E isto funciona como uma palavra em que tu vais dar um espaço de confiança e de tranquilidade à criança. E sabes que não é incomum as crianças muitas vezes manifestarem o desconforto através de reações de agressividade. Então essa é uma das questões em relação à qual nós temos que estar mais atentos. E não é tanto suprimir esta reação por parte da criança, mas sim ajudar a criança a lidar com aquilo. E permite-me dar este exemplo. Imagina que nós estamos aqui e de repente te cai um objeto pesado no pé. tu vais ter uma reação automática, vais ter uma reação de dor e provavelmente associada a essa dor até vais ficar zangada ou aborrecida.

Mas agora imagina que tu tens uma dor de dente, se estás a tratar essa dor de dentes, é expectável que até possas ficar desconfortável ou irritada, mas não é expectável que tenhas ataques de raiva. Onde é que fica aqui o ponto de equilíbrio? Muitas vezes o nosso objetivo é suprimir aquela reação por parte da criança, sobretudo quando são reações mais ao nível da agressividade. Mais do que isso, é importante ajudar a dar estratégias à criança para lidar com a raiva. Às vezes nós estamos muito zangados com aquilo que nos aconteceu. Então, quando tu estiveres zangada, vai para o teu quarto e bate na almofada, por exemplo. Ou quando tu estiveres zangada, pega na plasticina e aperta com muita força.

Ou pega no cão e vai dar um passeio muito grande. Ou vai dar uma corrida. Ou vai para um sítio onde ninguém te ouça e podes gritar de alguma maneira. Ou então podes ir falar comigo. Ou seja, não é tanto suprimir aquilo que a criança está a sentir, mas ajudá-la a gerir este desconforto. Por outro lado, esta questão de será que eu ainda me posso divertir. Às vezes a criança olha e vê um padrão de tristeza constante na casa e não sabe se pode ou não divertir-se. Ou se é legítimo que aceitem uma gargalhada da parte dela. Abraçar-vos a criança, poderes dizer, olha, o fato de tu continuares a brincar, de tu estares com os teus amigos, é uma coisa que te pode ajudar.

Isto é importante para normalizar também. E já agora, Milu, gostava só aqui de fazer uma pequena diferença. Porque nós temos estado a falar de crianças, mas nós também temos os adolescentes. Isso. Exatamente. E grande parte daquilo que nós estivemos a referir é válido para os adolescentes. Há apenas uma nota que eu gostaria de referir. Os adolescentes, quando lidam com uma perda, eles muitas vezes têm uma questão existencial associada sobre qual é o meu propósito, porque é que eu estou aqui e será que a vida vai ser apenas isto. Embora a perda é uma coisa distante em relação a eles, porque eles poderão ter 13, 14, 15 anos e a partir da pessoa que faleceu teria 80, por exemplo.

Não te surpreendas se o adolescente oscilar muito entre momentos de quero o teu apoio e momentos em que quer estar sozinho. E não te surpreendas que o adolescente partilhe mais as suas perguntas com o seu grupo de amigos. O que é que é importante neste momento? É que tu mantenhas uma boa relação com o grupo de amigos. E que tragas os amigos de preferência para lá para casa e possas ter algum momento integrado. Porque as perguntas que ele não te vai fazer a ti, ele vai tê-las com os amigos. E esta noção de todos vocês tão bem acolhidos vai trazer segurança ao adolescente também. Cristina, muito obrigada. O tempo voa. É sempre bom estar consigo e com certeza oramos a Deus para que tudo isto possa ser uma mais-valia a todos nós.

Foi um gosto estar na sua presença. Encontramos-nos na próxima semana. Até lá.

A nossa oferta

Sobre este episódio

Neste episódio do programa Mentes que Sentem, damos continuidade a um tema sensível e profundamente importante, o luto nas crianças e adolescentes.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 45
Estreou
14 de Abril de 2026
Categoria
Saúde