É sempre um prazer poder estar consigo, saudamos cada um de vós, damos graças a Deus por esta oportunidade de estarmos juntos novamente e podermos pensar, refletir, receber alguma informação, alguma compreensão de assuntos que talvez possam trazer-nos algumas angústias, alguns desafios e com certeza estamos aqui para ajudar-nos mutuamente na nossa saúde mental. Este é o seu programa, Mentes que Sentem, e estamos aqui em mais um episódio que pedimos a Deus que nos ajude e ajude a si a poder trazer-lhe algum alento nesta realidade que é aquela do luto que todos nós vivemos, todos nós passamos por isso. É verdade que é um assunto que não é muito falado, não gostamos muito realmente de refletir sobre estas coisas, mas aqui estamos, porque fazendo esta realidade parte da nossa vida, Com certeza que é sempre bom receber ensinamentos e informações que nos ajudarão a superar momentos difíceis, como é a questão do luto.
E para isso, nós temos contato com a ajuda da doutora Cristina Dias. Obrigada, Cristina, mais uma vez pela tua ajuda neste tema tão particular e tão pertinente. Obrigada, Milu. E nós estamos aqui exatamente para pegarmos em temas que são difíceis e tentar torná-los um bocadinho mais acessíveis, porque fazem parte da realidade de todos nós. É verdade. Nós hoje, particularmente, vamos entrar também neste contexto da questão do luto. mas na questão das crianças, ou seja, como podemos ajudar os nossos filhos, as crianças particularmente, a fazerem face a esta realidade. Mas antes, eu gostava de fazer uma pergunta que veio ao pensamento e acho que é muito pertinente também, e também que faz uma certa ponte com esta questão do luto nas crianças.
E a pergunta é esta, Cristina. Com que frequência parece que nós confundimos a questão da gestão do luto com o esquecimento? E sobretudo aqueles que estão a lidar com alguém em luto. Ou seja, sobretudo quando já passou algum tempo, e a pergunta é o que é que nós podemos dizer sobre isto. Sabes que nós temos níveis de tolerância diferentes, e permita-me utilizar esta expressão. Nós, num dos episódios, falávamos sobre o que é um luto saudável e o que é um luto que pode tornar-se patológico, e demos alguns sinais indicadores. Mas, para responder essa tua pergunta, eu não estou a colocá-la no contexto de um luto patológico, estou a colocá-la no contexto de um luto saudável.
Ou seja, as coisas poderão demorar muito mais tempo do que aquilo que aqueles que estão à tua volta desejariam. E às vezes o nível de tolerância que nós temos para alguém que está a lidar com um processo de luto e que ainda fala sobre estas coisas pode diminuir. E eu sei que eu já dei este exemplo, mas permitam-me voltar a repeti-lo. Recordo-me de alguém, uma pessoa que me é querida, e que, entretanto, perdeu um bebê à nascença. Portanto, o bebê nasceu, mas faleceu poucas horas depois. E, entretanto, há um determinado momento em que estamos juntas, num fim de semana, e essa pessoa está muito triste. E alguém lhe diz, vá, esquece lá isso. Alguém lhe disse. E eu não sabia do que é que estavam a falar.
Depois é que ela me disse, fazem hoje 16 anos da perda ou do falecimento daquela criança. Então, não tem a ver com o tempo que passa, mas com a forma como tu vais integrando isso. E às vezes nós precisamos de ter um bocadinho de paciência com aqueles que estão à nossa volta e alguma honestidade. Olha, eu não sei muito bem o que te dizer ou o que fazer, mas eu estou aqui. Mesmo que a pessoa já esteja a vivenciar a perda há dois, três ou há vinte anos. E aqui permite, mais uma vez, trazer um testemunho em primeira mão de alguém que passou por isso e que foi confrontada com essa pergunta. Mas tu ainda estás a falar sobre isso? E a pessoa dizia assim.
Para aqueles que estão à volta, tu podes sentir-te tentado a dizer à pessoa em luto para seguir em frente. Afinal, já passaram semanas, anos, décadas. Certamente, isto ainda não pode ser o tópico da conversa. Certamente, nesta altura já avançaram. Não. Mas poderá-se estar a pensar, esta pessoa voltou a casar-se outra vez, ou teve outro bebê, esta pessoa tem tanta coisa na sua vida que esta única coisa horrível na sua vida não poderá ser ainda relevante. Ou pode. Nós não seguimos em frente, deixando para trás as pessoas que amamos e que já morreram, ou as situações difíceis que vivemos. Seguimos em frente, mas levamos tudo isso connosco. Algumas destas coisas tornam-se mais fáceis de suportar.
Algumas destas coisas serão sempre estranhamente difíceis. Nós vivemos, mas já não somos o que já fomos. Isto não é macabro, deprimente ou anormal. Somos moldados pelas pessoas que amamos e somos moldados pela sua perda. Por que é que ainda estás tão triste? Poderás pensar. Porque isto é uma coisa triste e sempre o será. Portanto, não tem a ver com... Se a pessoa que está em luto, e estamos a falar mais uma vez do processo de luto saudável, não importa se passou 5 ou 20 anos, ainda tem necessidade de falar sobre aquilo, provavelmente já não falará da mesma forma, como quando ocorreu a perda. mas tu não vais retirar da tua vida algo ou alguém que foi significativo.
Então é o mesmo que tu estás, tu não olhas para isso na perspectiva de estamos a relembrar-nos da festa de aniversário que ocorreu há 10 anos atrás do meu filho que agora tem 20. Porque nós é que nos sentimos desconfortáveis com aquela questão da dor, mas não tem que ser necessariamente atribuído um caráter de não se pode voltar a falar, isso não é justo. É interessante, a minha mãe diz várias vezes, tudo aquilo que nós vivemos, seja um momento de tristeza ou de alegria, não dura sempre. Enquanto estamos nesta vida, é verdade. Um desafio mais pesaroso não vai demorar sempre, nem um desafio também alegre vai demorar sempre. E é interessante que há um versículo em Jó, no capítulo 8 e no versículo 21, que diz que o Senhor, a seu tempo, encherá a boca de riso e os teus lábios de júbilo.
Ou seja, mesmo diante de dificuldades e momentos mais difíceis na nossa vida, que bom é saber que em seu tempo, ou em determinado tempo, o Senhor poderá ter outra coisa para nós, diferente daquela que nós estamos a viver. Mas, Cristina, indo agora, e eu gostava muito que nós, se calhar, passássemos
mais algum episódio sobre este assunto, que é a questão realmente do luto nas crianças e nos adolescentes, que passam também por processos de luto, quando realmente na família passam por isso, E a pergunta que se coloca é se eles vivem o luto da forma parecida com os adultos. Ou seja, a partir de que idade é que as crianças começam a compreender esta questão da noção da morte? Mais uma vez, se nós temos dificuldade em falar com adultos sobre a questão da perda, com crianças e com adolescentes a dificuldade torna-se acrescida. Não porque... Não queiramos fazê-lo, mas porque muitas vezes não sabemos se estamos a fazê-lo de forma adequada.
E para responder a essa tua questão, aquilo que eu te digo é amplamente diferenciado dependendo da idade da criança com a qual estamos a ligar. Portanto, o processo do luto, o processo da perda, vai depender da idade da criança e da consciência que a criança tem daquilo que a morte significa. E esta perceção da morte também vai evoluindo. Então, alguns princípios associados que nos ajudam a perceber em que fase é que a criança poderá estar, faça esta perda. Um princípio é chamado princípio da irreversibilidade. Agora costuma dizer a palavra. Portanto, até mais ou menos aos cinco anos de idade, a criança não tem a noção de que é algo que é irreversível.
Portanto, a criança acha que a pessoa morreu hoje, mas amanhã vai aparecer outra vez. Portanto, mais ou menos a partir dessa idade, a partir dos 5, 6 anos, é quando a criança começa a ter a noção de que é um facto consumado e que não vai ter alterações. Há um outro princípio, que é o princípio da não funcionalidade, sempre associado à compreensão da morte. E que, regra geral, as crianças começam a tomar consciência dele entre os 5 e os 8 anos de idade. Claro que isto varia muito de criança para criança à tomada de consciência. O que é a não funcionalidade? É a criança perceber que quando alguém morre, deixa de funcionar as suas funções básicas, deixam de existir, deixam de respirar, de sentir, de comer, de andar.
Há também outro princípio, que é o princípio da inevitabilidade. Normalmente a criança só começa a tomar consciência disso entre os 9, 10 anos de idade. E o que é que é inevitabilidade? Entendem que a morte não pode ser evitada. E nesta faixa etária, quando a criança começa a tomar consciência disto, muitas vezes traz medo avassalador. Será que é isto que vai acontecer àqueles que estão à minha volta também? Por volta dos 7, 10 anos de idade, a criança começa a entender o conceito, o princípio da universalidade. Portanto, isto ocorre a todos, sejam pessoas, sejam animais. E entre os 8 e os 12 anos de idade, a criança, associada a esta questão da morte, entende o princípio da causalidade, ou seja, pode ter havido uma causa que levou a que a pessoa acabasse por falecer.
Pode ter sido porque estava doente, pode ter sido um acidente, pode ter sido uma doença, a pessoa já era muito idosa, ela acaba por perceber isso. À medida que a criança vai integrando estes conceitos em relação à morte, a sua perspectiva e a sua gestão do luto vai sendo diferenciada, porque tem a ver com esta perceção do que é que a morte efetivamente significa. Eu creio que também, e já agora durante estas diferentes faixas etárias, o diálogo que os pais possam ter com a criança, ou com o jovem, ou com o adolescente, de certa maneira poderão prepará-lo e ajudá-lo a ir compreendendo e alargando a sua visão sobre este assunto da questão do luto.
Sabes que uma das coisas que provavelmente me vais ouvir falar mais quando falamos sobre crianças tem a ver com a expressão serenidade. A atitude do adulto de referência para aquela criança vai moldar a atitude da criança. Não há problema que tu estejas triste enquanto adulto, mas se tu tiveres serenidade na forma como tu respondes de forma objetiva e clara às questões da criança, isto é extremamente importante. Mas se a criança sentir que da tua parte tu consegues integrar isto, podes estar triste, mas consegues integrar essa tristeza, vai ser mais simples para a criança gerir esta situação. Portanto, o diálogo é fundamental.
Nós vamos continuar com certeza neste assunto. Nós vamos fazer uma pausa, que já é habitual, e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança.
E cá estamos mais uma vez, depois de uma pequenina pausa, para continuarmos este assunto tão pertinente, que é a questão de sabermos como agir ou como reagir com os nossos filhos, com os mais pequenos, os adolescentes, em relação a esta realidade que é o luto. Não antes gostaria de poder recordar para vós este manual de estudo que nós temos para vos oferecer, para vos enviar de forma gratuita. Através do 933 939 291 poderão enviar uma mensagem a pedir exatamente este manual, que teremos muito gosto de enviar para a sua casa ou para a casa de alguém, de algum familiar ou amigo que queira poder oferecer exatamente este manual. Sentimentos, a ciência do existir, encontrará aqui assuntos referentes à saúde mental, que é exatamente a que se propõe este programa, Mentes que Sentem, para realmente ajudá-lo nisso mesmo.
Então, 933 939 291 e temos, sem dúvida, muito prazer em poder enviar para si este manual de estudo. Cristina, quais são as reações mais comuns que as crianças têm perante a perda de alguém próximo? Existem algumas reações que nos funcionam como um sinal de alerta. Agora, não quer dizer que todas as crianças reajam da mesma forma. E vai ser curioso porque provavelmente quando me ouvirem dizer isto vão também associar quem já nos acompanha há algum tempo. Há outros episódios em que falamos, por exemplo, sobre a ansiedade ou falamos sobre a depressão. Por isso eu volto a referenciar que quando nós falamos de equilíbrio emocional, de equilíbrio mental, sobretudo naquilo que diz respeito à questão da sintomatologia, nem sempre é fácil numa primeira instância fazermos um diagnóstico porque os sintomas são transversais a vários quadros.
Neste caso estamos a falar especificamente da questão do luto. Então, tu poderás ter crianças que reagem aumentando o nível ou a intensidade relativamente a birras, a choro ou o riso sem motivo aparente, crianças que se isolam mais frequentemente ou têm mudanças súbitas de humor. Estava contente, agora estou subitamente triste. Crianças começam a apresentar problemas de sono, dificuldade em adormecer, não quer dormir sozinha, pesadelos, por exemplo. Perda de apetite pode ser também um fator indicador. Comportamentos de regressão. Eu já dormia sozinha, mas agora não quero dormir sozinha. Eu não fazia xixi na cama, de repente comecei a fazer xixi na cama.
Eu agora quero que sejas tu a dar-me a sopa, mas eu já comia a sopa sozinha. Poderás também ter crianças que de alguma forma têm problemas de concentração ou até atitudes mais agressivas ou explosões de raiva e isto podem ser alguns sinais indicadores de que a criança não está a integrar muito ou melhor. A criança poderá ter isso como fazendo parte do processo de luto, mas dependendo da periodicidade e da intensidade, poderá demonstrar que a criança não está a gerir adequadamente este processo da perda. Tu ainda há pouco, na primeira parte, tu falavas sobre a questão da importância do diálogo, de falarmos com os nossos filhos. E a pergunta que eu gostava de fazer é, será que nós devemos proteger as crianças, evitando de falar com elas sobre esta questão da perda?
Ou é preferível envolvê-las? Qual é a melhor forma de explicar a morte às crianças? Essa é uma questão muito pessoal, cada qual poderá ter uma forma que considere mais pertinente, mas deixa-me fazer uma pergunta que aparentemente pode ser descontextualizada. Quando tu tens uma criança pequena e tu estás a ensinar a criança pequena a atravessar na passadeira com semáforos, tu és muito explícita a dizer à criança que se estiver vermelho tu não atravessas. Só quando o bonequinho estiver verde é que tu atravessas. Por que é que tu o fazes? Fazes isso com o objetivo de proteger aquela criança. Então, se nós percebermos que não temos que ser invasivos em relação a este tema, mas que temos que ser claros, porque o fato de sermos claros é uma forma de proteção da criança, provavelmente a nossa perspectiva vai mudar um bocadinho.
E não tens que estar sempre a falar do assunto, mas às vezes aproveitar uma oportunidade. Por exemplo, um animalzinho morreu. E tu de alguma maneira dizeres, olha, acontece, isto acontece com todos os seres vivos, o corpo do animalzinho deixou de funcionar, deixou de funcionar em termos das suas funções básicas. Há às vezes até uma coisa como a plantinha que tu tinhas murchou e acabou por morrer. E de uma forma muito simples utilizares estes exemplos. E seres serena na forma como tu fazes isto. E utilizar sobretudo esta expressão, o corpo deixou de funcionar, evita aquelas expressões típicas que nós temos de a avó foi para o céu. Ou a avó está a dormir.
Sobretudo quando falamos com crianças pequenas que têm um raciocínio muito objetivo, muito concreto. Para elas, se tu dizes que a avó está a dormir, é porque a avó está mesmo a dormir. Então se a avó está a dormir, porque é que não acorda? E porque é que não está na cama? Ou se a avó foi para o céu, porque é que ela não vem aqui quando eu tenho saudades dela? Por que ela não vem ao meu aniversário? Então é preferível tu utilizares este tipo de expressão. Olha, imagina que, peguei no exemplo da avó, a avó morreu, quer dizer que o corpo da avó deixou de funcionar, a avó não sente, não tem fome, não tem sono, não se cansa. Por que esta questão? Porque muitas vezes as crianças podem não te dizer. Mas uma das perguntas que às vezes assusta a criança, sobretudo quando nós vamos a um lugar onde a pessoa está sepultada, é o que acontece ao corpo?
E nós já vamos falar sobre isso. E a criança fica assustada. Será que a pessoa se sente? Será que a pessoa não tem medo de estar ali, naquele contexto? E depois dares aquela questão de, olha, isso acontece com todos. Agora, por exemplo, imagina que tu tens na família, vamos mais uma vez utilizar o exemplo da avó, tens na família a avó que está doente. E vocês sabem que é uma doença que de alguma forma vai redundar, provavelmente, no falecimento daquela pessoa. É importante que de alguma forma tu integres isto. Olha, a avó está muito doente. Provavelmente a avó pode não viver muito mais tempo. E não precisas de entrar em grandes detalhes, mas estás já a preparar a criança. Agora, perante, por exemplo, a perda efetiva da avó.
Além de teres cuidado com aquilo que dizes, não dês demasiada informação, dá mais espaço para que a criança faça perguntas. Mas além de teres cuidado com o que dizes, é importante teres cuidado também no espaço onde a dizes. Traz a criança para um lugar seguro, mas evita dar isto, esta notícia, por exemplo, no quarto da criança. Porque o quarto da criança é o espaço associado a ela de segurança. E de repente eu vou ficar num contexto em que eu tenho medo. Portanto, é importante que tenhas alguns destes cuidados também. Por outro lado, é também importante que dês a informação gradualmente e aceites as perguntas da criança. Por exemplo, uma pergunta típica que a criança vai fazer é, tu também vais morrer?
Esta é uma pergunta típica que ela vai fazer. Então, mais uma vez, responder de forma objetiva. Sim, querida, isso vai acontecer, mas provavelmente vai acontecer daqui a muito, muito tempo, porque a avó já era velhinha. Então eu ainda vou estar aqui muito tempo contigo, vamos continuar juntos, eu vou continuar a amar-te e a cuidar de ti". Portanto, tu não estás a camuflar uma situação, mas estás a trazer segurança à criança. E isto é extremamente importante, porque traz-lhe a noção de, ok, Eu posso lidar com uma coisa em relação à qual eu não compreendo muito bem ainda, mas o adulto de referência está a ser objetivo e pragmático em relação a isto.
Isto traz-me segurança, de alguma forma. É também importante, e já agora que estamos a falar sobre isto, uma pergunta que nos fazem com muita frequência é Eu devo levar a criança ao funeral? Isso, por exemplo.
E aqui a resposta é depende. Se nós estamos a falar de crianças muito pequeninas, aquilo que eu sugiro é evitem fazê-lo. porque a criança pequena não tem perfeita noção do que é que está a ocorrer. Vai haver os adultos à volta dela muito tristes, alguns a chorar, alguns até podem ter reações um bocadinho mais descontextualizadas, que podem assustar a criança. E as crianças são naturalmente irrequietas. Portanto, tu vais estar constantemente a dizer, está quieto, não mexas, não faças, olha que estamos todos tristes. ela não vai conseguir integrar todo aquele conjunto de emoções tão elevadas e intensas que está a ser alvo naquele momento.
Então é preferível que mais tarde tu possas pegar na criança, se for oportuno, a criança fizer alguma pergunta, queres ver onde é que o avô está, onde é que a avó está, e levares a criança ao sítio onde a pessoa está sepultada. Mesmo porque nós temos esta ideia incorreta de que os cemitérios são lugares assustadores. Não são. Até são lugares de muita serenidade. e muita paz, não é? Pronto. Agora, se tu estás a falar com uma criança um bocadinho mais velha, aí deves devolver a pergunta à criança. Tu gostavas de ir? Explica exatamente o que é que ela vai ter pela frente. Olha, nós vamos estar todos muito tristes, é natural que tu vejas as pessoas a chorarem muito, natural que até vejas as pessoas que não consigam, até possam dar um ou outro grito, Aquilo que vai acontecer é que a pessoa vai ser sepultada, vai acontecer isto, assim e assim.
Se tu quiseres ir, podes vir. Se durante a cerimónia te sentires desconfortável, podes sair. Se não quiseres estar, nós trazemos-te da casa. Claro, tens de ter alguém de referência que possa fazer isso. Mas dá sempre este espaço, e estamos a falar de crianças mais velhas, já aí da pré-adolescência, dá sempre este espaço para que a criança possa tomar a decisão. E a criança até pode dizer, eu não sei. E tu poderás devolver a questão e perguntar, queres ir primeiro ver o que é que vai acontecer? E levar até ao lugar. Mas não imponhas isto. Mas também esta questão de estarmos a super proteger a criança não é saudável.
Não sei se sei, portanto, de consequência natural.
Pelo Ministério Pastoral, que eu e o meu marido desempenhamos já há alguns anos, é evidente que está incluída a questão das cerimónias fúnebres e, portanto, são várias já há muitos anos que fazemos e que realizamos. E por experiência própria com os nossos filhos, Como é algo que faz parte da vida e da vida da existência, da nossa própria existência, esta questão de participarmos em cerimónias fúnebres, o irmos à casa dos queridos que perderam os seus familiares, o irmos dar um beijinho, um abraço, fazermos oração com estes queridos que perderam o seu amado, naturalmente, desde muito pequenos, os nossos filhos começaram a compreender esta realidade e esta noção, que já agora permite-me dizer, Cristina, que neste assunto que é a questão do luto, eu creio que a questão da esperança bíblica ajuda-nos muito.
Ou seja, uma mensagem bíblica que é conhecida, que não é ignorada por nós, que é a questão de sabermos que é verdade, durante um tempo vamos deixar de ver os nossos queridos, aqueles que adormeceram, do luto, da morte, pela morte. Mas depois, no nosso coração, o conforto e a alegria de saber que um dia tudo isso vai mudar e vai ser diferente. Pergunto se isso também não alivia e não ajuda os nossos filhos, desde muito pequenos, a poderem ter esta perspectiva da vida, ou neste caso da morte, de uma forma mais serena. Acima de tudo, aquilo que a família tem que perceber é o que é válido para a família. O que é que a família acredita. Porque tu podes ter essa perspectiva e outra família ter uma perspectiva completamente diferente.
Mas tu utilizaste aí uma expressão que é fundamental, a questão da esperança. O ser humano tem muita dificuldade em lidar com aquilo em relação ao qual não consegue mudar, que é um facto. Mas se te derem uma esperança de que há algo que possa ocorrer, ou algum tipo de intervenção, ou alguma coisa que não diz que aquele vai ser o fim último de tudo, o ser humano percorre esta milha e outra tanto. Então, para as crianças, acima de tudo nós como adultos, temos que em primeiro lugar perceber em que é que nós, como família, acreditamos. Quais são os valores? E sim, se esses valores para nós são importantes, transmitir esses valores.
Porque a criança precisa de se agarrar naturalmente a algo que diga isto não é apenas a única coisa em que os meus pais acreditam ou em que os meus avós acreditam. Há algo mais que os sustém e que os ampara. E, efetivamente, é importante. Cristina, muito obrigada mais uma vez. Estava a pensar num versículo que gostava de deixar para vós também, nesta realidade que é a nossa vida, não é? E que vivemos estes desafios e que nem sempre sabemos como abordá-los, sobretudo com os mais pequenos. E se calhar uma forma de poder dizê-lo também, Cristina, neste Salmo 34, versículo 18, quando diz que o Senhor está perto daqueles que têm o coração triste.
E quando os nossos filhos estão tristes, seja independentemente da idade que tenham, nós estamos tristes com eles também, mas estamos ali para dizer que não somos só nós que estamos ali, mas Deus também está connosco. Então desejamos que Deus o abençoe, a abençoe e marcamos encontro para o próximo episódio. Fique bem, fique com Deus.
Neste episódio de Mentes que Sentem, abordamos um tema sensível mas essencial, o luto nas crianças. Como podem os mais pequenos compreender a perda, e de que forma os adultos podem ajudá-los a atravessar este processo com segurança e esperança?