Luto - Entre a dor e a Vida (Parte 4)

Luto - Entre a dor e a Vida (Parte 4)

31 de Março de 202612 min 57 s

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Transcrição

Gerada automaticamente

Apresentação e introdução ao tema

Aqui estamos mais uma vez, saudamos cada um de vós, desejamos que estejam bem e cá estamos em mais um episódio neste que é o seu programa Mentes que Sentem. É sempre com muita alegria que nos encontramos, agradecemos a Deus por este privilégio e agradecemos também a cada um de vós conforme nos vamos encontrando ou nos vão escrevendo ou telefonando pelo vosso incentivo e por apreciarem estes momentos que aqui passamos e damos graças a Deus por poder ser instrumentos nas suas mãos para poder trazer algum conhecimento, alguma informação que lhe faça bem a si ou a algum querido que ama. Com certeza que neste programa nós temos sempre a presença da doutora Cristina Dias. Cristina, obrigada uma vez mais esta semana pela tua presença.

Obrigada, Milú. Mais uma vez é bom estar aqui contigo e consigo, que nos acompanhe. Amém. Cristina, nós já tivemos nos outros episódios momentos para irmos falando sobre a questão da perda. Esta perda que se transforma, portanto, num processo de luto, temos falado sobre isso, E por ser algo tão transversal a todos e ao mesmo tempo tão individual, porque é uma coisa tão pessoal, nós vamos continuar a falar um pouquinho mais sobre este assunto que eu acho que é bastante pertinente. Há pessoas, Cristina, que por vezes têm este zabafo de dizerem que não estão a lidar muito bem com a perda. E eu gostava de perguntar se isto faz sentido, ou seja, como é que nós poderemos realmente lidar com este processo do luto?

Obrigada pela questão, Nilu, ela é muito pertinente e mesmo que nós não ouçamos uma pessoa dizer isso, certamente esta dúvida terá passado pela mente de alguém que possa estar a lidar com uma situação destas. E a pergunta que eu colocaria era, afinal, o que é que é lidar bem com uma perda? Porque não existe um manual, não existe alguma linha orientadora que nos diga que se lida com a perda daquela forma. Tal como tu própria disseste, é um processo altamente individualizado. E tal como já referimos num outro episódio, quando nós estamos perante uma perda, pode ser por exemplo a perda de uma pessoa, tu não perdes apenas uma pessoa, tu perdes uma identidade, tu perdes papéis, tu perdes muitas vezes uma estrutura de pessoas à tua própria volta.

É quase como se existissem duas realidades. Quem passa por um processo de perda e vivencia um luto utiliza muitas vezes esta expressão. É como se eu estivesse em duas realidades paralelas e torna-se estranho. E temos tendência a comparar com a nossa experiência passada. A verdade é que, apesar disso ser natural de fazer, não é saudável, porque tu nunca mais vais voltar a ser a mesma pessoa. Tu não és nem melhor, nem pior.

Práticas para lidar com o luto

Não és a mesma pessoa, és diferente, porque aquela perda, de alguma forma, integra a tua nova realidade. Agora, existem algumas coisas, e hoje em particular gostava que nos debruçássemos um pouco sobre situações mais práticas. Existem algumas coisas que podem ajudar a pessoa a gerir este seu processo de luta e a gerir este seu processo de perda. Poderão fazer sentido para alguns, para outros nem por isso, portanto aquilo que eu desafio àqueles que nos ouvem é que vejam o que é que faz sentido para si e tentem implementar caso estejam a passar por uma situação destas. Uma das recomendações que é dada para tu poderes atravessar o luto de forma saudável é tu, se tiveres condições, participares nos rituais fúnebres.

Há pessoas que não têm condições emocionais para o fazer, e não estamos a dizer que é obrigatório. Mas se tu tiveres condições que te permitam fazê-lo, é um momento importante, porque é um momento de transição. É um momento em que tu tens não só o apoio de outros, mas também quebras ali uma espécie de vinco, há uma marca que te diz, quase como se chegássemos àquelas cidades e disséssemos aqui é o quilómetro zero. Portanto, eu tenho uma nova realidade em relação à qual tenho que integrar. Temos falado várias vezes sobre esta questão do reconhecimento das emoções. É também algo importante. E o que é reconhecer as emoções? Pode parecer algo muito artificial e é uma coisa tão simples como admitir que não estás bem. Portanto, se tu estás triste, não suprimas essa tristeza, não tentes fazer de conta que não estás triste.

Se estás zangada, se estás aborrecida, se estás com raiva, se estás apática, lembra-te que isso faz parte deste processo também. Uma coisa que é extremamente importante é permitir que o outro te ajude. E te ajude em tarefas básicas. Não é incomum, sobretudo nos primeiros tempos, a pessoa que está a vivenciar uma perda estar perdida. E desculpa a repetição da palavra. Muitas vezes perguntam, o que é que tu precisas? A própria pessoa não sabe. Está perdida neste contexto. Então, ter alguém que te possa ajudar em coisas como tarefas domésticas, como dizer é preciso ir buscar os teus filhos, precisas que te façam uma compra, precisas que te ajude a organizar as coisas em relação às contas, tudo isto é importante e poderá ajudar.

Agora, quem está a vivenciar o processo de luto? Muitas vezes olha para isto quase como um processo de ineficácia da sua própria parte. Eu conseguia fazer isto e agora não consigo, não é uma questão de conseguir ou deixar de conseguir, é uma questão de como é que poderemos tornar um processo que já é de si difícil, um pouco mais leve para ti. Outra questão que também é importante se tu estás a passar por um processo de luta é tu dares feedback quando houve alguma coisa que te ajudou. A pessoa tem tendência a isolar-se. Aquilo que nós dizemos é tenta não te isolar excessivamente. Procura alguém da tua confiança, se for necessário procura ajuda especializada. Mas quando tens algo que alguém fez que fez a diferença, nem que seja de uma forma muito simples, dá esse feedback à pessoa, porque isso dá uma linha orientadora aos outros.

Estou a conseguir fazer a diferença ou não? Poderei ou não ajudar de outra maneira? É também importante o autocuidado. O que é isto do autocuidado? Muitas vezes a pessoa está, como eu disse anteriormente, perdida e acaba por ser negligente com o cuidado para consigo própria. Nós já tivemos a oportunidade de ver em episódios anteriores, por exemplo, relacionados com a depressão. A importância que o autocuidado tem. A questão da alimentação, a questão do sono. O sono é fundamental. A questão do exercício físico. Portanto, começar a ter cuidado. A higiene. A higiene, exatamente. Começar a fazer esforço. Tudo isto vai exigir esforço, mas fazer um esforço que não tenha a ver com o fato de Estarmos a ultrapassar apenas a perda, mas estarmos a introduzir alguma normalidade à nossa situação e o nosso cérebro precisa disso para o processo de recuperação também.

Há uma outra coisa que te pode ajudar a lidar com esta questão do processo de luto, mas esta é amplamente pessoal. E aqui eu não quero ferir suscetibilidades, portanto cada qual é que vai ponderar se faz sentido ou não. Vamos imaginar que tiveste a perda de alguém. As coisas não são a pessoa. Portanto, o que é que eu quero dizer com isto? Poderá fazer sentido para ti, para lidares com este processo de perda, desfazer-te de algumas das coisas que aquela pessoa tinha, sem estares a desfazer-te da pessoa propriamente dita? Enquanto que há pessoas que dizem eu não consigo fazer isso, é quase como se eu estivesse a afastar as memórias. Portanto, aquilo que cada qual tem que avaliar individualmente é, fará sentido para mim, está me a trazer conforto ou está me a trazer reviver a dor?

É outra situação que poderá fazer algum sentido de forma prática para lidar com este processo de luto. Não quer dizer, no entanto, que mesmo essa pessoa que tenha dificuldade em se desfazer das coisas do seu querido ou daquilo que partiu, em determinado tempo e oportunamente o possa fazer, só que naquela altura não consegue fazer. Exatamente. Mas às vezes nós temos, não é incomum ouvir determinadas pessoas dizerem que parece que estão a traiçoar a memória daquela outra pessoa. Não é a coisa que significa à pessoa. Claro que pode haver algo que seja simbolicamente mais importante para ti, mas poderão haver outras situações que não te estão a fazer bem e tu não estás a ter noção disso.

Então, é uma questão de ponderar.

Estratégias de expressão e apoio

manter as rotinas. À medida que for possível, começando a recuperar as rotinas do trabalho, da escola, do dia-a-dia, até de atividades que eram prazerosas, mais uma vez o nosso cérebro precisa disto para integrar a questão da perda. E depois existem outras sugestões, que mais uma vez são individualizadas, mas que ajudam no processamento da dor, sobretudo a questão da dor. Poderá fazer sentido tu escreveres uma carta de despedida à pessoa? Tu sabes que a pessoa já não vai ler a carta, mas organizas um bocadinho as tuas ideias, processas a dor, dizes aquilo que faz sentido para ti dizer, independentemente de ser algo que tu consideras positivo ou não, e depois decides o que é que vais fazer com aquela carta de alguma forma.

E pode ser uma carta que se transforma num diário. Esta é outra estratégia. Terapeuticamente, muitas vezes é aconselhado que tu tenhas um diário do luto. Nem que tu escrevas uma ou duas frases apenas naquele dia. Mas nada te demonstra tanto a tua evolução, como olhares para trás e veres algo registrado com o qual já não te identificas totalmente. Provavelmente não com aquela intensidade. Isto mostra que está a haver uma evolução também. Há pessoas que têm formas de expressar através de outro tipo de criatividade. Há pessoas para quem, por exemplo, compor uma música poderá fazer sentido. E aqui eu gostava de trazer um exemplo amplamente conhecido.

Aquele músico Eric Clapton. Ele tem uma das suas músicas mais famosas, chamada Tears in Heaven. Foi composta exatamente num processo destes. Foi quando ele perdeu o seu filho com a idade de 4 anos, portanto. E foi uma das formas que encontrou para processar. Portanto, aqui não estamos a dizer que há formas corretas ou incorretas. Há formas individualizadas. Há situações ou há pessoas para quem, por exemplo, visitar um lugar simbólico, O que tinha importância para essas pessoas é importante. Recordam-me que recentemente tivemos a situação de um amigo que faleceu. A família optou por cremar esse amigo e depois foram a um lugar, eles e os amigos mais próximos, a família e os amigos mais próximos, a um lugar que era especial, para de alguma forma fazer uma homenagem simbólica.

Pode ser também uma maneira de ajudar a lidar com este processo. Há situações, o fato de nós nos sentirmos úteis traz-nos muito equilíbrio a nível mental, a nível emocional. E às vezes quando nós perdemos alguém parece que perdemos um senso de propósito. Ou de utilidade. Ou de utilidade, exatamente. O fato de tu, por exemplo, fazeres voluntariado, o fato de doares para uma determinada instituição, o fato de, olha, ovelha dás e plantares uma árvore. Portanto, fazeres algo em memória de, mas que te dá um sentido de utilidade novamente e que estou a fazer algo que contribui para a memória desta pessoa e para a minha gestão da dor.

Procurar, eventualmente, grupos de apoio. Numa primeira fase a pessoa pode não estar disponível para falar sobre isso, falar sobre a sua perda, mas a verdade é que num segundo momento o apoio de um grupo que tem lidado com a mesma situação pode fazer a diferença de forma significativa. Nós vamos continuar este assunto, com certeza muito pertinente e que faz parte da vida de todos nós. Vamos apenas fazer uma pausa e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança.

Sobre este episódio

Neste episódio do programa Mentes que Sentem, é abordado um tema profundamente humano e inevitável, o processo de luto. Através de uma conversa sensível e esclarecedora, são partilhadas reflexões e estratégias práticas para lidar com a dor da perda de forma saudável e consciente.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 43
Estreou
31 de Março de 2026
Categoria
Saúde