Seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio deste que já é o seu programa, Mentes que Sentem. É bom que esteja aí desse lado, quem sabe pela primeira vez nós aqui neste canto acolhemos-nos na reflexão e na partilha e no ensinamento de alguns assuntos que, oramos a Deus, possam ser uma mais-valia. para a sua vida nessa recuperação da saúde mental que todos almojamos ter. Boa saúde em todos os aspectos da nossa vida e esta referente à saúde mental é sem dúvida imprescindível e muito importante. Então estamos aqui uma vez mais, mais uma semana. Obrigada Cristina, mais uma vez juntas. Que bom poder estar contigo e continuar a explorar estes assuntos tão pertinentes e importantes à nossa vida.
Obrigada, Milú. É bom estar aqui mais uma vez, é bom podermos ter este espaço de partilha e é bom estar com si, que nos acompanha. Nós, no episódio anterior, falámos um pouquinho sobre a questão de algumas das reações ao luto, à perda de alguém, falaste sobre algumas delas e, entretanto, eu pensei o seguinte, às vezes, naquelas frases, naquelas reações que, por vezes, podem acontecer, e que, no fundo, até por trás, a pessoa até parece que tem receio de assim reagir ou de assim agir por um sentimento de culpa ou por uma... Enfim, qualquer coisa que ali haja por trás que até nem consegue ser aquilo que ela queria ser.
E uma das questões que eu aproveito para colocar, Cristina, é aquela frase que às vezes nós ouvimos de quem está a passar por um processo de luto e em determinada altura diz assim, já não me sinto tão mal, mas depois até acrescenta a essa frase, parece que até já esqueci. Isto é forte. Isto é muito forte e é uma dualidade muito grande. Porque tu não queres continuar a sofrer com aquela intensidade com que sofres, mas parece que esse amenizar do sofrimento te traz uma carga de culpa porque representa como se tu estivesse a ser desleal ou a deixar de permanecer aquela pessoa na tua vida ou na tua memória.
É muito comum isso ocorrer. Portanto, se alguém que nos ouve está a passar por uma situação destas, talvez a expressão mais adequada não seja esta, mas serena um bocadinho. Não é a única que está a passar por uma situação destas. E, efetivamente, faz parte do processo. Mas a verdade é que o fato de eu me sentir melhor não significa de todo esquecimento. Alguns anos atrás eu estava a ouvir uma TED Talk, uma apresentação, sobre este tema, sobre este assunto, e o orador teve uma expressão que eu nunca me esqueci. Eu vou dizê-la em inglês, por causa do impacto que ela tem, depois vou fazer uma tradução livre, que provavelmente não fará jus na sua totalidade.
Mas a pessoa dizia We don't move on from grief, we move forward with it. Ou seja, nós não superamos o luto, nós seguimos em frente com ele. E esta ideia de esquecer é algo que nunca vai acontecer. E agora permito-me uma comparação, sem querer estar a melindrar ninguém, que até pode parecer um bocadinho grosseira. Vamos imaginar que me amputaram um braço. Eu alguma vez me vou esquecer que eu tive um braço. Eu não me vou esquecer disso. Eu aprendi, ou estou a aprender, se for um processo saudável, a gerir aquela ausência. Quando pensava nestas questões, lembrei-me do exemplo de um funeral em que participei recentemente e presenciei uma conversa entre duas pessoas amigas.
entre a pessoa que tinha perdido alguém, que estava a ser sepultada, e um amigo que já há uns anos atrás tinha perdido alguém significativo. E a pessoa que tinha perdido alguém agora estava a fazer esta pergunta ao amigo. Diz-me que se vai tornar mais fácil. E o amigo teve uma resposta que eu achei muito sábia e que cada vez consigo atribuir mais sentido. Ele disse-lhe, vai ser diferente, nós adaptamos. Então, na realidade, tu não esqueces. E quando vem esta questão de tu não saberes muito bem gerir a emoção porque te sentes um bocadinho melhor, como se isso fosse o equivalente a estares a deixar a memória daquela pessoa, isso não é uma verdade.
Estavas a falar, e antes de colocar a seguinte pergunta, eu estava a me lembrar porque no episódio anterior falaste de diferentes tipos de luto que nós podemos viver, uns que parecem ser mais normais e outros não tanto assim. E quando eu estive que estudei para um país estrangeiro e fiquei longe da minha família, dos meus amigos, da minha língua, daquilo que era o meu dia a dia normal. Eu dei por mim que ao longo desses quatro anos que eu estive ausente do meu país e da minha família, sempre que eu vinha cá de férias, que era sempre uma alegria, a saudade doía muito. O estar do lado de lá, a saudade, era uma grande tristeza.
mas eu aprendi a viver com a saudade. Ou seja, cada ano que passava, não queria dizer que eu não sentisse falta e não sentisse tristeza, mas adaptamos-nos. Portanto, é uma forma de estar na vida agora diferente e já estamos mais preparados para isso. Estavas a falar e eu estava a me lembrar. Aliás, Nilo, desculpa interromper-te. A verdade é que uma pessoa em luto vai voltar a rir, vai continuar a caminhar, mas isso não significa que a pessoa tenha ultrapassado a questão da perda. E às vezes esse rir, a pessoa até se pode sentir culpabilizada em rir, em voltar a ter momentos e dias felizes, não é?
E realmente é algo de complexo. Perguntar-te, quanto tempo, que eu acho que isto é uma das perguntas que alguns queridos podem ter no seu coração, quanto tempo demora a fazer o luto? Será que existe um tempo normal, que nós digamos que é normal, para esta fase? O luto não tem linha de tempo, nem prazo de validade. E no episódio anterior nós falávamos que mais do que o tempo a passar é o que a pessoa vai fazer durante esse tempo, que vai ter impacto no teu processo de recuperação, ou não, desta questão. O que existe é, em termos clínicos, um período expectável em relação ao qual te pode servir de referência caso determinadas reações se mantenham para percebermos se estamos a lidar com um luto que é saudável ou um luto que é patológico.
No entanto, cada pessoa tem o seu ritmo, cada pessoa tem que ter o seu tempo e o seu espaço. Isto não é um processo que se aprece. O que é expectável é que a intensidade e a frequência dos sintomas e dos sinais comece a ter uma expressão um bocadinho diferente. Em média, aquilo que a literatura e os profissionais na área entendem é que há uma grande intensidade de sintomatologia de sinais nos primeiros seis a doze meses após a perda. É expectável que, a partir daí, possa amenizar um bocadinho.
Amenizar porque esqueci? Não. Amenizar porque estou a integrar essa perda, estou a adaptar-me a uma nova realidade. Mas não podemos olhar para este período de tempo e dizer que já estou há um ano nisto. Eu já estou há dois anos nisto. Eu já estou há três meses nisto. Não. Não vamos olhar para este tempo como algo específico e inalterável. Não é correto. E já agora, Cristina, perguntar que nós temos a ideia que as pessoas em luto ficam inevitavelmente deprimidas ou entram em depressão. Isto é verdade? Há uma possibilidade de que quem esteja num processo de luto possa evoluir para um luto patológico e desse luto patológico possa efetivamente entrar numa situação de depressão.
Mas o luto é um processo adaptativo. A depressão é um problema de saúde. O que existem são manifestações que em alguns casos são comuns. Aliás, no episódio anterior falávamos de algumas reações expectáveis e provavelmente alguns poderão ter associado isto a características depressivas. E volto a dizer, não vamos fazer aqui um diagnóstico de trazer por casa, não é esse o objetivo. Agora, a expressão do luto não quer dizer necessariamente que vá dar origem a
uma depressão. São coisas distintas. Como perceber então se podemos estar perante isso que tu disseste, que pode se tornar o tal luto patológico? Como é que a entendemos? Como detectamos isso? Como é que nós tentamos perceber se poderemos ou não estar, ou nós ou alguém à nossa volta poderá estar perante esta situação. Volto a dizer, este diagnóstico tem que ser sempre feito por um profissional habilitado para o efeito. O que nós vamos dar aqui são alguns indicadores de alerta, apenas isso. sempre com esta salvaguarda, este disclaimer, que o processo de luto é oscilante, é tal montanha russa. Portanto, eu não posso estar a olhar para o dia de hoje como um indicador factual único.
Agora, a verdade é que antes de responder à tua questão, porque é que é importante falarmos no luto patológico? Porque o luto prolongado, o luto patológico, afeta em média uma em cada dez pessoas. mas poderá afetar uma em cada cinco pessoas se o processo de luto decorre da perda de alguém de uma morte súbita ou traumática. Se estamos a falar de um processo de luto na sequência de perda de filhos ou de um cônjuge. E se estamos a falar de pessoas, por exemplo, que têm um historial prévio de problemas de saúde mental e que possam não ter aqui um apoio social, um apoio clínico devidamente adequado.
O luto prolongado é, sobretudo, verificado por esta incapacidade que tu continuas a demonstrar para te adaptares à tua nova realidade, em que os sinais e os sintomas continuam a ter uma intensidade de tal forma elevada que perturbam continuadamente no tempo a tua qualidade de vida, a tua capacidade de responderes às necessidades do dia-a-dia. Há alguns indicadores. A incapacidade de tu reorganizar as tuas relações familiares. As relações familiares e de amigos mudam e muitas vezes significativamente após a perda de uma pessoa. Neste caso estamos a falar de uma pessoa. E há às vezes esta incapacidade de voltar a ter contacto, de continuar a permitir a manutenção de um grupo ou a manutenção de uma rotina é um indicador.
Outra coisa é aquela noção constante de vazio. Uma vida sem sentido. O que é que eu estou aqui a fazer? Eu não tenho motivos para continuar a viver. Outro indicador em algumas pessoas, isto é evidente, é a pessoa negar ou recusar-se a admitir a perda. Há pessoas que têm um sentimento de descrença e não estamos a falar de pessoas que estejam com um processo, por exemplo, degenerativo a nível mental. Estamos a falar de pessoas que não têm indicadores de saúde nesse sentido e recusam-se a admitir que houve uma perda. A pessoa, na mente delas, continua a comportar-se como se a pessoa existisse, comesse, dormisse e fosse com elas a todo lado. A intensidade das reações, a tristeza, a culpa, a raiva, intensidade continuada no tempo.
Comportamentos autolesivos, pessoas que se magoam a si próprias, pode ser um indicador. Pensamentos suicidas, pode efetivamente ser um indicador. Consumo abusivo de substâncias, álcool, drogas, medicação até para dormir. Comportamentos de evitamento das manifestações de luto. Eu recuso-me a falar sobre a pessoa. Eu recuso-me a permitir que tu fales sobre aquela pessoa, por exemplo. Aquele anseio repetido por estar na presença daquela pessoa e um isolamento marcado. Uma incapacidade, muitas vezes, de estar na presença de outros. Agora, Cristina, só um bocadinho, desculpa. Já vamos prosseguir e o assunto posterior para continuar, mas temos de fazer um breve intervalo, então já voltamos daqui a pouquinho.
Mais uma vez cá estamos, pela graça de Deus, nesta segunda parte deste episódio de hoje, neste programa Mentes que Sentem. E para si, ou para algum querido seu ou amigo, aqui temos mais uma vez à sua disposição um manual de estudo, Sentimentos, a Ciência do Existir, que pode ter aí na sua casa, pode ter para oferecer também. E neste manual encontrará vários assuntos importantes e bastante interessantes sobre a questão da saúde mental. Então, se ainda não tem, aqui está à sua disposição. É só uma questão de contactar através do 933 939291 e com certeza será um prazer enviar para si ou para algum amigo seu. Cristina, dar continuidade à pouquinho ao que estávamos a falar e agora numa faixa etária que é muito importante e sei que mais lá para a frente até falaremos isto de uma forma mais profunda nas crianças.
Sim, vamos falar sobre esta questão do luto especificamente para as crianças, não só na forma como se comportam, mas também para nós, enquanto adultos e cuidadores, como é que nós podemos gerir este processo e responder a tantas e tantas questões que elas têm. Mas estávamos a falar sobre o luto patológico e como é que nós, por exemplo, numa criança, que indicadores é que nós temos que poderemos estar a passar, a criança pode estar a passar por um luto patológico e ser necessário pedir ajuda. A criança, por exemplo, perguntar insistentemente pela pessoa que morreu. Isto poderá ser um indicador, sobretudo em crianças com idade acima, igual ou acima dos 6 anos, porque antes é normal que isto aconteça, porque as crianças aprendem por repetição e fazem-te a mesma pergunta 500 vezes sobre o mesmo assunto.
Outra questão é nós presenciarmos comportamentos regressivos. Aquela criança até já tinha autonomia no comer, mas agora ela insiste que tu lhe dês a comida. Ou aquela criança até já não fazia xixi na cama, por exemplo, e agora faz xixi na cama. Ou aquela criança não consegue dormir sozinha agora, mas antes até dormia sozinha. A preocupação constante com a segurança e o bem-estar dos pais ou dos cuidadores faz morrer. Vais me deixar? Vais estar comigo? A que horas é que vens?" Este diálogo constante, esta insistência. A ansiedade de separação. Crianças que não conseguem ficar sozinhas sem o pai, mãe ou algum cuidador de referência num determinado local.
Nem que seja, por exemplo, a escola, que é um local ao qual eu estava habituada. Brincadeiras insistentemente relacionadas com o tema da morte e uma tristeza profunda ou apatia podem ser alguns indicadores que uma criança poderá estar a passar para um processo de luto patológico. Por que é esta importância de falarmos no luto patológico? Porque eles aumentam o risco de depressão, de stress pós-traumático e de
suicídio e isto devem ser sinais de alerta. Quando alguém está a passar por um processo de luto, não é incomum e nem é por mal. A pessoa a ouvir, olha, tens que ser forte, a vida continua. Se calhar nem é a melhor expressão que devemos dizer, mesmo que seja com carinho. O que dizer disto, Cristina? Olha Milo, nós vamos abordar algumas questões que eu acredito que na nossa boa vontade, no nosso desejo de trazer algum alívio e conforto, nós dizemos àqueles que estão a passar por um processo de luto. Então, não entendam de todo aquilo que nós vamos conversar sobre isto como uma referência de não deves dizer.
Mas entendam sim como, como é que eu posso reformular isto. E às vezes não há reformulação possível. Às vezes aquilo que existe, entre estar calado e dizer alguma coisa, nós nem sempre sabemos qual é a melhor atitude. Mas o dizer alguma coisa, desde que seja com carinho e a pessoa o entenda, mesmo que possa trazer algum grau de sofrimento ao outro, mostra que tu te preocupas connosco e isto é importante. Tens que ser forte. A vida continua. Estar triste ou estar em sofrimento não é um sinal de fraqueza. E quando nós dizemos isto, às vezes essa é a perceção que a pessoa do lado lá tem. E por outro lado, nós estamos sempre despreparados para uma perda.
Não importa se eu já perdi a minha mãe, e eu sei que é expectável eu vir a perder o meu pai, mas quando eu sou confrontada com esse momento, nada me preparou para esse momento. A intensidade e as reações são únicas e não são expectáveis, ao contrário daquilo que eu tinha como perspectiva. Portanto, estamos todos a tentar fazer o nosso melhor nesta situação. E isto faz-me lembrar uma situação que um senhor partilhava comigo recentemente. Ele perdeu a esposa num acidente. E a determinada altura está a trabalhar e está a tentar retomar a sua vida e recebeu um convite do local onde trabalha para o jantar de Natal. E falava com um colega e amigo e dizia, olha, não vou, não me sinto em condições de ir.
E o amigo dizia-lhe, ok, tudo bem, eu compreendo, mas ouve, a vida continua. E este senhor, algo frustrado, dizia-me assim, que a vida continua sem ele. Eu sei que ele não disse isso por mal, mas que a vida continua sem eu. Mas como é que eu faço com que a vida continue? E aqui permite-me introduzir um pequenino poema. Ele vai ser passado em inglês, a língua original em que foi escrito. Eu vou, de alguma forma, tentar traduzi-lo para o nosso português. Mas que ajude a perceber um bocadinho isto do que é que tu tens que ser forte e o que é que isto implica. Este poema foi escrito por uma autoressada Ryan. Esta senhora é terapeuta na área da saúde mental. Dedicou-se à poesia a partir de 2018, na altura em que perdeu a mãe, e foi a forma que ela conseguiu para integrar esta questão da dor.
O título do poema é Encontra-me Aqui. Ela diz, desculpa pela perda da tua pessoa e o milhão de coisas que desapareceram. no dia em que o seu coração deixou de bater. E o bilhão de coisas que tu deves lamentar cada dia que passa e que elas não estão presentes. Eu peço-te desculpa que não existe uma melhor palavra do que só desculpa. A vida continua, a vida continua sem o milhão de coisas que deixaram de existir, porque aquela pessoa deixou de existir. Então, mais do que tens que ser forte, é perceber que aquela pessoa está a ser forte, mesmo quando não o é.
Só o fato de continuar a existir já é um sinónimo de força. Então, às vezes é preferível formular isto e dizer, admiro a forma como estás a tentar fazer isto, mas eu estou cá. O que tu precisares. E às vezes aquela questão de... Realmente não é por mal, mas temos que pensar com muito carinho a nossa postura diante daquele que está a viver uma fase destas tão difíceis, da questão do luto. Às vezes dizemos não chores, não fiques triste. Isto é pedir o impossível, portanto é irracional, não é real isto. Aliás, Milu, estavas a falar e permite-me dar um exemplo de uma comparação patética.
É o mesmo que eu agora chegar e pisar-te o pé com força e dizer não sintas dor. Não é possível. Nós é que nos sentimos desconfortáveis com o desconforto do outro. É isso. Sabes que há tempos eu lia uma frase que eu achei muito interessante e permito-me dizê-la em relação a isto. A pessoa dizia o seguinte, estamos todos a tentar fazer o nosso melhor. O nosso melhor dificilmente é suficientemente bom e nem todas as coisas ficarão bem. A perda de alguém que te é próximo ou querido muda-te, mas ainda és tu. Estamos todos a tentar fazer o nosso melhor. Aquele que perdeu e aquele que está ao lado de quem perdeu. Não vai ficar tudo bem. Vai ficar diferente.
E compreender isto e dar este espaço é amplamente importante para aquele que
está a passar por este processo. Cristina, falar sobre a perda pode ajudar no processo do luto? Ou até reabrir algumas feridas? Porque também, é verdade, depende das pessoas. E por que razão nós temos, no fundo, até tanto medo de falar com as pessoas que estão em luto? Será porque não sabemos o que dizer ou porque isto nos incomoda bastante? Claro que sim. A tua realidade uma perda é o receio que eu tenho que seja a minha realidade daqui a algum tempo. E muitas vezes é como tu dizes, olha, eu vou utilizar uma expressão que não é simpática, mas nós somos todos incompetentes naquilo que diz respeito ao processo de luto.
Seja quem passa, seja quem está à volta. E esta palavra de incompetência não é na perspetiva de diminuir a pessoa, é na perspetiva de estamos todos a tentar ver como é que isto vai ocorrer. Agora, se é melhor falar ou não, sobre a perda e se vai abrir feridas, vai sempre abrir feridas porque essa ferida nunca cicatrizou. Ela está aberta. Ou melhor, não é nunca cicatrizou. Ela está em estádios diferentes. A verdade é esta. Depende um bocadinho da sensibilidade da outra pessoa que tu tens à frente. E tu vais percebendo um bocadinho se essa pessoa está disponível ou não. Mas dar espaço para que a pessoa possa falar é importante. Porque o processo de luto É um processo de profunda solidão.
É solidão não só emocional, porque é uma solidão de um sentimento que é único para ti e para a tua perda. mas é uma solidão física tangível. E é tangível porque o telefone deixa de tocar, porque as mensagens deixam de aparecer, porque as pessoas não sabem muito bem o que estão a dizer, há círculos de amizades que não sobrevivem de alguma forma, há conhecidos que deixam de fazer parte da tua existência. E às vezes a pessoa que está em luto cria expectativas em relação à maneira como o outro se deveria comportar. E isto também não é muito saudável. É normal que ocorra, mas também não é muito saudável, porque o outro não adivinha como é que eu acho que ele se deveria comportar. As pessoas em luto raramente expressam aquilo que precisam.
E raramente a expressam porque é acrescentar mais um fardo àquele fardo que ela já carrega. mas é importante partilhar a tua solidão com alguém que, de alguma forma, te seja mais próximo e mais íntimo. E aqui eu deixo um desafio caso alguém que não se esteja a ouvir esteja a passar por um processo de luto. Nós depois iremos falar de sugestões concretas, mas dê feedback. Diga se houve alguma coisa ou algo que lhe fez bem ou que lhe trouxe consolo. Diga isso à pessoa. Está a dar uma pista para que o outro saiba como posicionar-se também. Cristina, muito obrigada. Não sei se aí em casa sentem o mesmo, mas o tempo voa e, portanto, parece que dissemos muito pouco e o tempo passa tanto a correr.
Obrigada mais uma vez, Cristina. Estavas a falar e eu estava a pensar a um versículo muito bonito que eu gosto. Aliás, qual é o versículo que a gente não gosta, não é como se costuma dizer. mas é um Salmo, o Salmo 56, versículo 8, em que o Senhor diz algo de maravilhoso, mesmo porque tocando esse aspecto da solidão e às vezes não conseguirmos ser alcançados pelo outro, mesmo o outro tentando e fazendo o seu melhor. E é muito interessante, e para si que está aí em casa, se às vezes sente sozinho e acha que ninguém entende. Este Salmo 56, no versículo 8, diz assim, o Senhor Tu recolhes as minhas lágrimas no teu vaso. As minhas lágrimas estão escritas no teu livro.
O Senhor compreende tudo em relação à nossa vida. E se às vezes acha que não há alguém que esteja atento, ou que sinta, ou que perceba, o Senhor está aqui a dizer que tem um vaso especial onde recebe as nossas lágrimas. E elas são todas anotadas no seu livro. O interesse e o cuidado, o amor que Deus tem por cada um de nós. Cristina, muito obrigada mais uma vez. Deus te abençoe e a si também. Que o Senhor o abençoe muito, a abençoe e até à próxima semana, se Deus quiser.
Neste episódio do programa Mentes que Sentem, é abordado um tema profundamente humano e delicado, o processo de luto, as emoções contraditórias que o acompanham e os sinais que podem indicar um luto patológico.