Luto: Entre a dor e a vida (parte 2)

Luto: Entre a dor e a vida (parte 2)

17 de Fevereiro de 202626 min 35 s

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Aqui estamos nós uma vez mais, mais uma semana, mais um episódio deste que já é o seu programamento, Esquecentem. Estamos aqui no canto confortável, neste lugar do lado de cá, mas na certeza que do lado de lá você está aí, na graça de Deus, com a ajuda do Senhor, animado, incentivado, ou se calhar não. Também há dias que estamos tristes, que estamos com grandes desafios e grandes preocupações. Saiba que seja qual for o momento que esteja a viver na sua vida, Deus está presente e nós oramos também para que Deus nos use para ser uma mais-valia na sua vida e quem sabe irão ao encontro das suas necessidades. Seja bem-vindo, bem-vinda também e com certeza estendemos as saudações à doutora Cristina Dias.

Olá, Cristina. Mais uma vez cá estamos para dar continuidade a alguns assuntos importantes. Obrigada, Milu. É sempre bom estar contigo. É bom estar consigo também. Que nos ouve, que nos acompanhe e possamos de alguma forma trazer um contributo.

Perdas socialmente aceites e marginalizadas

Muito bem. Cristina, nós iniciamos na semana passada, no episódio anterior, este conjunto de episódios que vamos falar sobre a questão da importância do luto, a compreensão disso, a vida, a dor. E no fim do episódio passado, tu estavas a iniciar aquilo que são chamadas as perdas socialmente aceites. Ou seja, há coisas que parece que mais facilmente a sociedade aceita que haja luto, E depois outros momentos, se calhar, que menos aceitam na questão do luto. Queres dar continuidade, por favor, a esse assunto, Oreza? Obrigada. Na semana passada nós tínhamos falado sobre esta distinção que acabamos por fazer, quase inconscientemente, tem muito a ver com os nossos princípios culturais e educacionais também, sobre aquilo que é ou não socialmente aceitável para um processo de luto.

E tínhamos abordado a questão do luto pela perda de um familiar e o luto pela perda de um parceiro amoroso. São efetivamente situações socialmente aceitáveis. Ainda enquadrado naquilo que é socialmente aceitável, tu tens o luto pela perda de um filho. É chamado o luto parental. E está reconhecido como sendo uma das experiências humanas mais dolorosas que alguma vez poderão existir. E é muitas vezes acompanhada de uma forma prolongada de luto. Acompanhado de muito sofrimento e impacto em várias dimensões da tua vida. E isto porquê? Porque se rompe a ordem natural das coisas. Aquilo que nós estamos à espera é que sejam os filhos a sepultar os pais e não os pais a sepultar os filhos.

É efetivamente algo profundamente dramático na vida das pessoas, na vida de cada um. Existe também, e também é socialmente aceitável, o luto fraterno. O que é isto do luto fraterno? É a morte de um irmão. Mas se a morte de um irmão ocorre quando tu ainda és criança ou adolescente, isto pode ser um evento altamente perturbador e confuso para a própria criança ou para o próprio adolescente. E não deixa de ser em algumas circunstâncias uma forma de luto marginalizado. O que é que eu quero dizer com isto? Porque a situação é tão grave em si mesma, que nós temos a nossa atenção muito frequentemente concentradas no pai ou na mãe que acabaram de perder um filho, e apesar de darmos algum apoio ao irmão ou à irmã, não deixa de ser talvez um apoio menos proporcional à necessidade desta criança.

Então, não é incomum nós dizermos que as crianças, ou os adolescentes nesta situação, passam por um luto duplo. Passam pela perda do irmão e quase que, figuradamente, pela perda dos próprios pais. Porque ou tu deixas de ter a funcionalidade, há situações em que os próprios pais deixam de ter a funcionalidade de continuar a assumir esse papel, Ou então fazes com imenso esforço, e as crianças acabam por perceber isso também. E repara, quando nós estamos a falar sobre isto, estamos a falar com muito respeito, e tentamos fazê-lo de forma equilibrada, não estamos a dizer é correto ou incorreto, estamos a descrever situações em que isto pode ocorrer. Agora, vamos tentar perceber também algumas situações que podem dar origem a um processo de luto, não quer dizer que inevitavelmente o façam, depende de várias circunstâncias, mas podem dar origem, mas que já não são tão aceitáveis ou tão reconhecidas pela sociedade, e a sociedade somos nós, como permitindo o processo de luto a alguém.

Uma delas é, por exemplo, a morte de um animal de estimação. Ainda lhes dizemos, mas era só um animal. E as pessoas podem dizer, mas fazia parte da família, era um membro da família. Às vezes, um processo de luto pode ocorrer perante, por exemplo, uma doença ou uma condição de saúde. Tu podes perder a funcionalidade de um membro, por exemplo, a amputação de um membro. Ou tu podes perder a capacidade de caminhar, por exemplo, estás a perder a autonomia. Tu podes estar perante uma doença terminal e isto é um luto anticipatório, porque tu já estás a vivenciar, e aqueles à tua volta é exatamente a mesma situação também. Podes entrar num processo de luto pela perda de um emprego?

E a pessoa diz, mas como é que é possível? Às vezes não é só um emprego, é uma identidade que tu criaste ali e que de repente ficas desprovido dela. Tu podes assistir a processos de luto pela perda de um país ou de uma cultura? É chamado luto migratório. Portanto, tu acabas de ficar desenraizado daquilo que é o teu contexto familiar, cultural. Onde é que era a padaria? Falavam a minha língua, compreendiam os meus costumes. Há situações em que o término de uma amizade pode dar origem a um processo de luto. E este é provavelmente daqueles que é mais imperceptível, até para as próprias pessoas que o vivem, porque dizem, que disparate, mas porque é que eu estou a sofrer assim?

É só um amigo, ou era um amigo, eu tenho outros amigos, parece que nós não temos a legitimidade de estar em sofrimento por esta situação, mas a verdade é que tu deixas de ter alguém que deixou de fazer parte da tua realidade sem deixar de existir. Existe também o luto que pode surgir na questão da perda da possibilidade de concretizar um sonho. Vamos imaginar que tu dizes o meu maior sonho é ser mãe, mas eu tenho uma condição clínica de infertilidade ou outra que não me permite ser mãe. Há pessoas que gerem esta situação de uma forma, há outras para quem isto pode ter um impacto tal que as leva a entrar num processo de luto. Há também o luto gestacional e neonatal.

Felizmente, começamos a ter uma mudança de perspectiva enquanto sociedade em relação a isso, mas durante muitos anos não tira permitido sequer ponderar-se a hipótese de teres um processo de luto aceitável perante esta perda. Tendem atenção que muitas vezes estes processos são altamente solitários e com um elevado nível de culpa. Se eu tivesse feito isto, o bebê talvez tivesse sobrevivido, ou se eu não tivesse feito aquilo. E é agravado com frequência até pela boa vontade daqueles que estão à nossa volta. Há às vezes observações do género. Ainda és muito nova, ainda vais ter filhos. E permite-me partilhar aqui uma experiência real de alguém que acompanhei durante algum tempo. Uma pessoa que teve mais do que um aborto espontâneo, uma questão de saúde que tinha e que acabava por provocar isso.

E aquela gestação que demorou um bocadinho mais e ela acabou por perder, esta pessoa acabou por perder mais do que um bebê, no primeiro trimestre, nunca ultrapassou este período de tempo, primeiro trimestre da gravidez. Mas aquela gravidez que demorou-me, que vingou, vamos utilizar esta expressão popular, um bocadinho mais, quando ela começou a perceber que estava a entrar novamente em processo de aborto, porque já não era a primeira vez que passava por aquilo, esta pessoa dizia-me, perdoem-me a frontalidade e a rugodeza das palavras, E ela dizia-me isto. Sabes, quando eu comecei a perceber que estava a acontecer a mesma coisa, eu apertei as pernas com toda a minha força, como se eu pudesse impedir que aquilo saísse. Uma situação que também pode dar origem a um processo de luta é o término de uma relação amorosa.

Mais uma vez, a tua identidade, as tuas rotinas, as tuas relações de amizade podem ser afetadas. Portanto, são tudo situações em relação às quais um processo de luto pode ser disputado, mas que nem sempre são socialmente aceitos, como tal. Poderá colocar-se a pergunta, Cristina, qual o impacto para cada um de nós que estamos perante, portanto, uma perda, que é ou não socialmente aceite. Sabes que nós posicionamos-nos muito em função daquilo que a sociedade espera de nós, o que não é necessariamente negativo. Portanto, há regras e há uma ordem que tem como objetivo manter a coerência, manter a organização.

Se eu, por exemplo, estou à espera do autocargo, eu devo respeitar a fila da entrada. Portanto, isto é socialmente aceitável. Mas quando se fala destas questões, envolve sempre o receio da comparação e do juízo de valor. E aqui há algum tempo eu ouvi alguém que trabalha nesta área como profissional, na área do luto, terapeuta do luto, e esta pessoa dizia-me que cada vez que eu tenho alguém que vem ter comigo, com a sua própria experiência de perda, acaba por me dizer, eu sei que isto não se compara a... Começa com este tipo de observação, pedi desculpa. Quase como se fosse isso. É como se tu estivesse perante a questão de uma pessoa que, por exemplo, não consegue engravidar perante uma pessoa que acabou de perder um filho.

Eu sei que o fato de eu não conseguir engravidar não se compara a. Mas a verdade, e é isto que eu gostaria de deixar como alerta, é nós pegamos numa das coisas mais significativas que aconteceram na nossa vida e nós encolhemos, diminuímos o seu significado. Porquê? Porquê é que nós fazemos isto? O que é que o tamanho da minha perda tem a ver com o tamanho da tua perda? Porquê é que nós temos esta necessidade de comparar? luto não é uma coisa que se mede, que se pese e muito menos é uma competição de dor. Nós não estamos aqui a tentar perceber quem é que fica no pódio nesta situação. Então a primeira coisa que devemos tentar desmistificar um bocadinho na nossa mente é esta necessidade que temos de comparar gradações de dor Como se o fato de eu ter uma gradação de dor mostrasse que eu fosse melhor pessoa do que tu, que tens outra gradação de dor.

Isto não é comparável. São processos altamente individuais.

Reações individuais no luto

Nós vamos já dar continuidade ao teu pensamento. Vamos fazer um breve intervalo, como normalmente, e já voltamos. Mais uma vez saudamos cada um de vós, cá estamos de volta para a segunda parte de mais um episódio Mentes que se Sentem. E já sabem que nesta altura temos sempre o prazer de poder convidar cada um de vós a adquirir de forma gratuita este manual de estudo, Sentimentos, a Ciência do Existir, onde alguns dos assuntos referentes à saúde mental aqui estão para si, para ler, para refletir, para partilhar com algum amigo ou algum familiar, portanto fique à vontade. É uma questão apenas só de nos contactar através do 933 939291 e nós teremos todo o gosto e todo o prazer de poder enviar para si este manual, que seguramente será uma grande benção na sua vida.

Cristina, falar, quando falamos normalmente, claro, do luto, é como nós dizermos que chorar faz parte do processo, não é? Parece ser o mais natural possível. Mas, no entanto, e às vezes até nos podemos surpreender com isso, nós não reagimos todos da mesma forma. Podes desenvolver mais um pouquinho este assunto, porque às vezes até podemos ficar chocados com a reação de A, de B ou de C, porque não está a viver da forma que eu achava que ele teria que viver ou reagir diante da questão do luto. Então vamos dizer uma verdade com a qual certamente todos concordamos, mas temos dificuldade de pôr em prática. É que perante o luto não há reações certas ou erradas.

Há reações individualizadas. Chorar é uma resposta comum, mas existem outras. E não chorar não significa que aquela pessoa que não chora não esteja a sofrer tão profundamente como a pessoa que manifestou através do choro as suas emoções. E permite-me introduzir aqui uns exemplos práticos. Recentemente conversava com alguns jovens, um dos meus filhos tinha um grupo de amigos lá em casa e a conversa rodou sobre vários assuntos e a determinada altura um dos jovens, faixa etária dos 19, 20 anos, dizia-me algo do género. Que o fato de tu teres perdido algo ou alguém não te dá o direito de te vitimizar.

E embora eu creio que compreendia o que aquele jovem queria dizer, eu desconheço o contexto pelo qual ele fez aquela observação. Portanto, eu não sei se ele está a vivenciar alguma situação em que ele diz que alguém está a vitimizar-se por causa disto. Mas eu partilhei com ele duas experiências e depois fiz-lhe uma pergunta que é aquela que vou voltar a fazer àqueles que nos ouvem. Alguns anos atrás eu recordo-me de uma situação, acredito que já partilhei esta experiência, eu recordo-me de uma situação de uma senhora que acompanhei, casada, duas filhas, faz seta área dos seis a oito anos as filhas. Entretanto, numa altura, numa viagem, a família regressa de um determinado sítio, vem um condutor embriagado lá de lá, provoca um acidente e uma das filhas falece nesse acidente de aviação.

E nesse ano em que a filha falece, esta mãe tem necessidade de fazer uma festa de aniversário para a filha e convida os amigos. Portanto, a filha já não está viva e tu estás a celebrar o aniversário dela. Segundo exemplo. Por acaso também com uma mulher. Um filho já adulto, estudante universitário, que tem uma situação muito complicada, um acidente na estação de comboios, onde ele estava à espera de apanhar o comboio e acaba por falecer. Era filho único. E durante muito tempo, aquela mãe ia para aquela estação de comboios, escrevia bilhetes para o filho e pendurava esses bilhetes na árvore que estava ao lado da estação de comboios. E a pergunta que eu coloco é, isto são reações certas ou reações erradas?

E eu coloquei esta pergunta a este jovem. E a verdade é que é assim. São estranhas para mim. São reações que eu acho que não teria numa situação destas. Mas não sei, porque não estou a vivenciar. Ou mesmo que a vivencie, posso não estar a vivê-la daquela forma. Mas a verdade é que foram a forma que aquelas pessoas a encontraram de expressar ou de aliviar a sua dor. Agora, o que é que existe? Existem algumas reações expectáveis no processo de luto à generalidade das pessoas. Claro está que se estas duas situações, estas duas pessoas que eu estou a falar, mantivessem o mesmo comportamento durante anos a fio, acompanhado de outros sinais, então nós já poderíamos estar a pensar numa situação de um processo de luto patológico.

Então quais são algumas das reações expectáveis à generalidade das pessoas num processo de luto? A nível do comportamento, tu podes ter uma situação em que te sinta-se amplamente agitada ou podes ter o oposto, uma passividade, um cansaço, uma exaustão, uma falta de energia, uma apatia. Podes perder o apetite, como podes comer excessivamente. Podes ter dificuldades em dormir e podes dormir mais do que é habitual. Podes sentir dores físicas, dores musculares, dores de barriga, que aparentemente não tenham uma causa explicativa fisiológica. Podes beber demasiado, não é incomum as pessoas refugiarem-se na bebida como anestesiando as suas próprias emoções.

Mas também não é incomum que as pessoas, por exemplo, utilizem medicação não prescrita para dormirem, porque não conseguem conciliar o sono. Não conseguir fazer planos ou tomar decisões. A pessoa pode ficar bloqueada. Até teria a capacidade anteriormente de tomar decisões. Neste momento tudo é um obstáculo. Não ter interesse em coisas que habitualmente davam prazer. Não ter vontade de estar com ninguém. Aquele sentimento dúbio de eu preciso de ter alguém, mas ao mesmo tempo eu não tenho a capacidade de estar com pessoas. Há pessoas que têm uma necessidade de estar constantemente ocupadas. Há pessoas que têm dificuldade de prestar apoio ou ter as suas rotinas habituais, cuidar das crianças, se for o caso, da casa, de outras situações, do seu trabalho.

A nível dos teus pensamentos, não é incomum que estás constantemente a pensar na pessoa ou naquilo que se perdeu? Tens medo ou ansiedade em relação ao futuro. Acreditar que não será possível continuares a viver num futuro porque houveste a perda. Tens dificuldade em pensar com clareza o tal nevoeiro mental. E não é incomum as pessoas estarem a passar por isto e às vezes questionarem. Será que eu estou a entrar num processo de demência? Porque eu não era assim. Desorientação face aos teus valores. Há, inclusive, as situações em que as pessoas alteram as suas crenças, aquilo que eram valores fundamentais para elas. A nível emocional e de sentimentos, além da tristeza profunda, este choque, este choque que leva a que a pessoa negue a realidade.

Eu não quero acreditar que isto é uma realidade. Sentir raiva ou ressentimento porque a pessoa nos deixou. Sentir culpa porque nós estamos vivos e essa pessoa não. Devia ter sido eu, não ele. É tão comum as pessoas pensarem isto. Às vezes a pessoa se sente desculpada porque sente alívio na morte daquela pessoa. Sobretudo quando estamos a falar de processos de doença altamente dolorosos que antecederam esta situação. É muito frequente esta sensação de solidão, de desamparo, de abandono. A saudade que vem. O vazio emocional. Esta apatia, estas emoções contraditórias. Este não sentir nada.

Eu gostaria de dar alguns exemplos com os quais tive contato, de atitudes concretas que as pessoas tomaram durante o seu processo de luto, que nós poderemos até dizer não estaria à espera, ou serão estranhas, mas que mais uma vez não temos que avaliar como corretas ou incorretas, são formas de esmerdão. Situações em que, por exemplo, a pessoa no dia a seguir ao funeral dá a roupa toda da pessoa que faleceu e uns meses depois está a pedir a quem deu que devolver a roupa. situações em que a pessoa parece que vê a pessoa que faleceu em tudo o que é sítio, em tudo o que é caras, em tudo o que é local. Guardar tudo aquilo em que a pessoa tocou ou dar tudo aquilo em que a pessoa tocou.

Manter-se na mesma casa ou mudar de casa, porque eu não consigo ficar a viver nesta casa, por exemplo. Celebrar o aniversário da pessoa, celebrar o aniversário do falecimento da pessoa também. Praticar desporto de forma excessiva. Há situações em que pessoas fazem isso. Gastar dinheiro excessivamente. Ficar horas a olhar para o telemóvel. Tudo isto são formas através das quais, muitas vezes, as pessoas processam esta situação da perda. Isso fez-me lembrar, enquanto falavas, e se calhar até sobretudo aqui na parte norte do nosso país, há muito o uso e o hábito de quando se passa por um momento de luta ou se perde alguém, a questão de vestir roupa colorida não deva ser

Expressão exterior e emoções contraditórias

apropriado. E, portanto, há este pensamento de que quem respeita e quem verdadeiramente amou quem partiu, portanto quem morreu, vai manifestar-se exteriormente, inclusive por um estilo de roupa mais escuro, mais pesaroso, para demonstrar exteriormente esse pesar. O que dizer sobre isso, Cristina? Olha, de uma forma muito simples, se eu fosse alguém, amigo ou conhecido de uma pessoa que está a passar por um processo de luto, e a minha crença educacional e social é que aquela pessoa deverá demonstrar esse pesar utilizando uma roupa mais escura, e a pessoa não corresponde a esse estereótipo que eu tenho, a pergunta que eu devo colocar é, o que é que é mais importante para mim?

É importante a minha crença ou é importante o bem-estar daquela pessoa? Isso faz-me lembrar uma situação de alguém com quem contactei há algum tempo. A pessoa tinha perdido o marido. E a pessoa dizia, mas eu já tenho tanto nível de tristeza na minha vida que eu preciso de cores alegres para eu não me sentir tão pesarosa. E tudo o que é alegre, tudo o que é cor chamativa, eu utilizo. E esta senhora estava a dar-me este exemplo por causa da cor do cabelo dela. Ela tinha o cabelo pintado cor de rosa. E a verdade é que ela mudava aquela cor com frequência. Se tu me perguntares, é a cor que eu acho que provavelmente se pintou o cabelo? Talvez não. Mas quem sou eu para estar a dizer e a julgar se aquilo traz algum conforto à pessoa?

E se eu estou a falar para alguém que está a vivenciar o processo, a pergunta é o que é que te traz mais conforto. Se te traz conforto, então haja de acordo com isso. No fundo podemos nós perguntar, será que é normal sentir emoções contraditórias neste processo de luto e no fundo qual é o papel das emoções durante esse processo? É perfeitamente normal, o velho adágio da montanha-russa, a velha comparação da montanha-russa, esta oscilação de tanto estou mais estável como estou tremendamente mal, é perfeitamente normal acontecer. Não quer dizer que o processo não esteja a ocorrer, mas ele é desgastante, porque a pessoa diz, eu nunca sei como é que eu vou estar no dia seguinte, eu nunca sei como é que eu vou estar daqui a uma hora.

Porque às vezes tu até consegues estar relativamente estável numa situação mais complicada e desabares por completo quando passas, por exemplo, por alguém num carro que tem uma cadeirinha de bebê e tu perdeste um filho, vamos supor, e desabas por completo. Portanto, há sempre esta imprevisibilidade. Agora, as emoções são amplamente importantes e a expressão da emoção são amplamente importantes no processo de recuperação. e indo buscar um bocadinho de uma forma muito sucinta àquilo que já falamos nos episódios da inteligência emocional, há três situações que são muito frequentes num processo de luto. Uma delas é a tristeza. Mas a tristeza, voltamos a relembrar-nos, é uma emoção do recolher, do olhar para dentro, do tentar perceber o que é que não está bem, do expressar uma dor, mas com o objetivo de levar a uma mudança.

E eu posso neste momento não perceber ainda como é que eu vou conseguir lidar com esta situação, mas eu sei que em algum momento isto poderá vir a ser uma realidade. A raiva é também muito comum e em vez de suprimirmos a raiva temos que perceber que ela deve ser manifesta. E é a perceção da injustiça contra as circunstâncias, contra as pessoas, contra Deus também muitas vezes. Às vezes sentimos isto. E a questão da raiva pode ajudar-nos a sentir, a agir, a mudar também. Pode impulsionar-nos nesse sentido. E gostava só de deixar aqui um alerta, porque muitas vezes também não é incomum a pessoa sentir rir, ou dar uma gargalhada, ou estar num momento menos pesaroso.

Isso é quase como se fossem bolsas de oxigênio, de alguma forma. Mas parece que isto nos traz algum desconforto. E iremos falar sobre isso com mais calma. Muito bem, Cristina. Realmente, isto é algo maravilhoso. Estavas a falar e eu estava a pensar. E em si, como nós acabamos por ver hoje, às vezes nós tentamos colocar no outro a forma que nós achamos que seria a melhor que o outro devesse reagir ou devesse fazer. E é muito bonito um dos versículos que nós encontramos na Bíblia de Romanos, do apóstolo Paulo, em que ele diz, alegrai-vos com aqueles que se alegram, mas chorai também com aqueles que choram. E, no fundo, isto é respeitar o outro, respeitar a sua reação, as suas emoções.

Obrigada, Cristina, uma vez mais por este ensinamento tão precioso, que não fica por aqui. Na graça de Deus, teremos todo o prazer de estar consigo na próxima semana, em mais um episódio e momentos que sentem. Até lá. Que Deus o abençoe.

Sobre este episódio

Neste episódio de "Mentes que se Sentem", exploramos as várias faces do luto e como a sociedade lida com diferentes tipos de perda. Desde a dor profunda da perda de um filho até lutos menos reconhecidos, como a morte de um animal de estimação ou o fim de uma amizade, a Dra. Cristina Dias ajuda-nos a compreender que não existe uma forma certa ou errada de sofrer. Uma conversa essencial sobre empatia, respeito e o processo individual de cura emocional. 🌿✨

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 41
Estreou
17 de Fevereiro de 2026
Categoria
Saúde