Luto: Entre a dor e a vida (parte 1)

Luto: Entre a dor e a vida (parte 1)

10 de Fevereiro de 202626 min 28 s

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Abertura e boas-vindas

Olá, seja muito bem-vindo mais uma vez a este que já é o seu programa, Mentes que Sentem. É sempre bom poder estar consigo, damos graças a Deus pelos dias que nos vai dando. É verdade que em muitos deles nós encontramos desafios, dificuldades, possivelmente está aí desse lado mais triste, mais abatido, ou conhece algum familiar ou amigo que está a passar essa fase. E nós estamos aqui em oração e com a ajuda de Deus para sermos usados pelo Senhor para poder, quem sabe, trazer lamento, trazer aquela palavra, aquele entendimento ou compreensão de alguma situação mais triste e que Deus deseja muito que possa ir ultrapassando, superando e fortalecendo-se a cada dia.

Seja muito bem-vindo, bem-vinda também. Se está connosco pela primeira vez, que bom. Convido outros mais para estar connosco também e é sempre um prazer estarmos juntos e com certeza não é por acaso que está aí. O senhor talvez tenha alguma coisa para lhe trazer hoje neste episódio. Bem-vindos mais uma vez e bem-vinda, Cristina. A doutora Cristina Dias está sempre connosco neste programa. Seja bem-vinda, Cristina, e muito obrigada pelo teu esforço, pela tua dedicação. e por todo o ensinamento que nos trazes. Obrigada, eu me ilumo. E voltamos à velha expressão, estamos no nosso cantinho do conforto. Isso, é verdade, na graça de Deus. Cristina, na graça de Deus nós temos diante de nós alguns episódios para falarmos sobre um assunto que inevitavelmente toca a todos nós.

É um assunto doloroso, é um assunto difícil. Perder alguém, ou seja, passar o luto de alguém é sempre algo muito complexo na nossa vida. É um caminho muito difícil, aquele que se segue logo após a perda de um querido.

O significado do luto

E vamos falar exatamente o que significa isto de continuar, ou seja, entre a dor e a vida, como é que é continuar depois de perdermos alguém. Mas eu gostava de iniciar o episódio de hoje fazendo logo duas perguntas, que com certeza terás capacidade para as responder. Quando nós falamos de luto, do que é que estamos verdadeiramente a falar? Porque às vezes podemos achar que sabemos e nem sabemos possivelmente. E porque é que o luto é uma experiência muito marcante na vida de todas as pessoas? Obrigada, Melu. Obrigada por essa questão. Dizer que efetivamente este é um tema amplamente pertinente e que iremos abordar com calma, com segurança, com respeito.

Mas vamos fazer um pequenino exercício. Vamos imaginar que nós fazíamos uma sondagem de opinião, íamos à rua e perguntávamos a 500 pessoas diferentes, de forma aleatória, para si, o que é o luto? Previsivelmente iríamos ter 500 respostas diferentes, com algumas coisas em comum. Isto porquê? Porque nós estamos a falar de um processo que tem um elevado grau de individualidade. Então não há duas dores iguais. Vamos pegar num exemplo concreto. Imagina que faleceu, por exemplo, a mãe de alguém. e tem filhos. Os dois irmãos, ambos os filhos, por exemplo, vão vivenciar essa perda de uma forma diferente. O marido vai vivenciar essa perda de uma forma diferente e se os pais desta pessoa ainda forem vivos vão vivenciar a perda de uma forma diferente.

Então o que nós pretendemos fazer é falar. Falar sobre isto, um tema que é tão pouco falado e que causa muitas vezes ideias incorretas, que traz muitas vezes a grave ao seu sofrimento, ideias que nos vêm à mente ou às vezes até a nossa própria dificuldade em lidarmos com este assunto. Não vamos trazer soluções, vamos trazer sugestões. que podem ou não fazer sentido para alguém que nos ouve. Seja alguém que esteja a passar por esta situação, seja alguém que conhece outra pessoa que esteja a passar por esta situação. E eu gostaria de introduzir a resposta a essa pergunta por relatar uma experiência real.

Há relativamente pouco tempo eu estava a ler algumas coisas sobre este assunto e encontrei um livro que não está publicado em português. Aliás, este livro está publicado em inglês. E esta autora, autora deste livro, é uma pessoa que vivenciou em primeira mão esta situação do processo de luto. Ela estava grávida do segundo filho, quando perdeu o filho durante a gravidez. Acaba pouco tempo depois por, de forma inesperada, perder o pai. e pouco tempo depois perde o marido, que estava num processo oncológico, isto no espaço de dois meses. Esta mulher não é terapeuta na área, no entanto dedicou-se, a partir desse momento, a estudar esta situação do luto e a tentar, da sua própria experiência, perceber como é que ela poderia trazer algo que fosse positivo para outros que estivessem a passar pela mesma experiência, pelo mesmo processo também.

E a determinada altura, na parte introdutória do livro, ela diz que lhe foram sugeridas várias estratégias e entre elas a hipótese de poder participar numa terapia de grupo. E a primeira reação dela foi de recusa. E a pergunta que lhe vinha à mente é, mas o que é que eles me vão dizer que eu já não saiba? Depois acaba por dizer que a sua perspectiva sobre esta situação mudou e acabou efetivamente por recorrer. O livro não está traduzido para português, portanto eu vou fazer uma tradução caseira, que nem sempre pode não ser fidedigna ou linear. Mas eu gostaria de ler, nessa parte introdutória, a resposta que ela própria dá à sua pergunta do que é que eles me vão dizer que eu já não saiba?

O que eles me teriam dito seriam as suas próprias histórias. Eles dirmiam a minha própria história. As circunstâncias, os nomes e os detalhes. Isso seria diferente para cada pessoa sentada em círculo nas cadeiras daquela sala de conferência do hospital. mas o sentimento, a dor insaciável, seria o mesmo em todos nós. Eles termiam dito o que eu gostaria de dizer a ti, que essa dor, essa tristeza, concede-te à admissão a entrada num clube ao qual não tinhas nenhuma intenção de pertencer. Foste admitida, quer a tua perda seja ao teu marido ou à tua irmã, ou se a perda é mais tangencial. O luto é uma pedra atirada para uma lagoa parada.

Até a menor pedra provoca ondulações para fora." Portanto, o que é que é isto do luto? Vamos tentar responder um bocadinho mais concretamente a esta questão. Mas a verdade é que não importa o que é que o causa, Não importa a intensidade do processo, não importa a duração do processo, ele tem sempre impacto naqueles que estão a vivenciar e naqueles que estão à sua volta. Existem várias definições, vários estudiosos na área, e eu trouxe uma citação de um psiquiatra norte-americano, George Angle, que trabalhou na Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, que eu acho que apesar de ser muito sucinta, é amplamente profunda.

Ele diz o seguinte, o luto é uma resposta universal à perda, com características emocionais e somáticas próprias. Portanto, quando falamos do somático, e é importante termos esta noção, estamos a referir à forma como o nosso corpo exprime as emoções. O que é que nós podemos tirar daqui que é comum ao luto? Primeiro é uma resposta humana, normal, à perda, dependendo do tipo de perda com a qual estamos a lidar. É uma resposta universal. Em algum momento todos vamos lidar com isto, independentemente do nosso contexto cultural. Mas é uma resposta amplamente individualizada. E isto faz-me lembrar uma situação com a qual contactei há algum tempo atrás.

A senhora que acompanha durante algum tempo tinha perdido um marido. Era uma situação que já era expectável, ele estava com o processo de uma doença, diziam-lhe é uma questão de tempo, mas não estavam a contar é que demorasse tão pouco tempo, que fosse tão rápido. E a senhora dizia-me nos primeiros tempos, dizia-me eu sinto necessidade de ir ao cemitério. Eu sei que eu não vou lá fazer nada, porque ele não me está a ouvir, mas é como se aquela proximidade me fizesse sentir mais calma e mais tranquila. Contrapartida às filhas adultas, já com as suas próprias famílias, ficavam aflitas com esta atitude e diziam, não vais para o cemitério, o que é que lá vais fazer? Estamos a falar do mesmo evento e de formas individuais de o sentir.

O processo do luto envolve várias dimensões. Envolve a parte emocional, psicológica, cognitiva. Não é incomum as pessoas dizerem a minha mente parece que deixou de reagir, parece que eu tenho um nevoeiro mental, eu não me lembro onde é que pus as coisas, o que é que ia fazer e parece que tenho dificuldade em organizar mentalmente um pensamento. Envolve o nosso comportamento, afeta a nossa parte comportamental, social e até neurobiológica. não é uma patologia. E sempre que nós nos referimos à parte de patologia é por oposição à questão da saúde. Portanto, quando nós temos uma patologia é algo que desequilibra o nosso processo de saúde, de equilíbrio a nível orgânico.

O luto é um processo. É um processo adaptativo. Adaptativo a quê? A uma perda e a uma nova realidade, a qual tu estás a tentar integrar de alguma forma. No entanto, e nós iremos ter a oportunidade de falar disso com mais calma, o luto pode evoluir para aquilo que é considerado um luto patológico. em que deixa de ser meramente, e este meramente entre aspas, porque estamos a falar de uma situação extremamente delicada, deixa de ser aquilo que é considerado um luto, um processo normal de adaptação à perda, mas passa a ser uma situação que vai trazer consequências a nível da própria saúde da pessoa. E, independentemente da perda em concreto, envolve-se sempre dor.

Esse nível de dor pode ser mais ou menos intenso. Quando falamos da perda, falamos de perda em relação a pessoas, por exemplo, pode ter sido um familiar, pode ter sido um amigo, pode ter sido um colega de trabalho. Mas pode também ser alvo de um processo de luto uma perda em relação a uma coisa com a qual nós mantínhamos uma relação afetiva, significativa. Pode ser um animal. Pode ser, por exemplo, uma relação conjugal, uma relação amorosa. Pode ser até a perda de uma funcionalidade do teu corpo. Tudo isto enquadra-se no contexto da perda. Agora, o fato disto ser uma experiência que pode ser mais ou menos marcante na vida das pessoas, depende de alguns fatores também.

Depende, por um lado, a nível da sua intensidade e da sua duração, do vínculo que tu tinhas com aquela pessoa, com aquela circunstância ou com aquele objeto. Eu posso perder o meu colega de trabalho e posso perder o meu filho. A natureza, a intensidade e a duração vão ser completamente distintas, porque estamos a falar de perdas diferentes em relação às quais eu tinha um vínculo diferente. Está estudado que a circunstância em que ocorre a perda também tem impacto na duração, na natureza e na intensidade. Por exemplo, quando tu estás a lidar com uma perda que é inesperada, a intensidade e a duração é diferente substancialmente diferente do quando tu estás a lidar com algo que é expectável.

Uma coisa é eu dizer, a minha avó faleceu, ela tinha 92 anos de idade, era expectável que isto pudesse acontecer. Outra coisa é tu dizer, faleceu aquela criança com 5 anos de idade. Também tem influência neste processo de luto as tuas próprias características pessoais, a maneira como tu vais lidando com a situação, a tua própria personalidade. Tem também um grande impacto o apoio social e familiar que tu tens. e, inclusive, as tuas crenças culturais e religiosas, caso tu as tenhas também. Nós já vamos prosseguir, depois eu quero te fazer uma pergunta.

As fases do luto

Nós vamos para o intervalo normal, que temos uma breve pausa e já voltamos. Mais uma vez saudamos cada um de vós, seja bem-vindo à segunda parte deste episódio, onde iniciamos hoje este estudo extraordinário de conhecimento, com todo o carinho e todo o respeito que é o luto e o seu significado na nossa vida e a forma que, na graça de Deus, podemos ir superando cada dia após essa experiência. Deixamos para si, como sempre, o nosso manual, o Guia de Estudo Sentimentos, a Ciência do Existir. É um manual que pode estar aí em sua casa, pode ser seu, pode ser para algum amigo, algum familiar, então não deixe de nos contactar.

através do 933 939 291. Teremos muito gosto e muito prazer em enviá-lo para a sua casa ou enviá-lo para a casa de alguém que acha que seja pertinente estes estudos e estas áreas da saúde mental tão importantes para cada um de nós. Cristina, há pouquinho estavas a falar e eu estava a pensar, como é que o luto se costuma manifestar na vida das pessoas? Porque ouvimos falar normalmente das fases do luto, parece haver várias fases, vários momentos. Se pudesse explicar um bocadinho isso, por favor. Essa ideia está amplamente difundida e efetivamente há muitos de nós que organizamos a nossa perspectiva sobre o processo de luto como se ele obedecesse a fases.

Vamos tentar primeiro perceber como é que surge essa ideia para depois dar-lhe um enquadramento. A verdade é que essa ideia foi desenvolvida por uma psiquiatra suíça-americana, Elisabeth Ross, e ela fez um trabalho pioneiro, extraordinário, com pacientes terminais. E trouxe algum grau de humanidade e empatia a esta questão do fim de vida, quando naquela altura era um assunto altamente tabu. Não deixa de ser um bocadinho hoje também. Mas creio que hoje é mais na perspetiva de nós não sabermos muito bem o que fazer e não tanto do não vamos falar sobre a situação. Mas a verdade é que esta senhora observou e entrevistou pacientes terminais, ou seja, pessoas que sabiam que iam falecer, mas que ainda não tinham morrido.

E em 1969 é publicado um livro da sua autoria, On Dead and Dying, onde ela propõe cinco fases de enfrentamento da morte, nomeadamente a negação, a raiva, a negociação, a depressão e a aceitação. Mas estas fases foram pensadas para descrever as reações emocionais que as pessoas tinham diante da própria morte iminente. Elas não foram pensadas para pessoas em luto. Com o tempo, os profissionais de saúde e as pessoas, a sociedade em geral, percebeu que as pessoas enlutadas tinham características, tinham reações muito semelhantes a estas que ela acabou por descrever para os pacientes terminais.

E o modelo foi então generalizado a esta questão da aplicação para pessoas que estão a passar pelo luto. E vamos tentar perceber de uma forma muito sucinta o que é que são essas fases. A primeira fase é chamada a fase da negação. E é quando tu tens uma sensação de choque ou de incredulidade. Não, isto não pode estar a acontecer. Isto não é verdade. O que é que se passa? Isto não. Não. Não. E recusas. E é uma forma que o teu organismo tem de proteger a tua mente de uma dor intensa do início da perda. Existe uma outra fase, que é chamada a fase da raiva. Conforme o próprio nome indica, além da raiva, revolta, sentimentos de injustiça, e a raiva pode ser dirigida a outras pessoas, pode ser dirigida a ti, pode ser dirigida aos próprios profissionais de saúde, ou pode ser dirigida a Deus, caso tu acredites em Deus de alguma forma.

E é uma maneira de tu expressares a dor. Essa fase é depois seguida por uma outra fase, que é a fase da negociação. E é quando tu tentas negociar mentalmente como se aquilo pudesse aliviar a dor ou a realidade. Tu tens noção que estás perante uma situação que tu não mudas, mas mentalmente começas na fase do e se? E se eu tivesse feito diferente? E se isto não tivesse acontecido? E se eu tivesse dito esta palavra? E se eu tivesse impedido isto? Esta fase é frequentemente acompanhada de elevados níveis de culpa. A pessoa sente-se culpabilizada porque de alguma forma poderia ter tido um desfecho diferente se...

E isto é muito comum. E há pessoas que ficam nesta fase durante muito, muito tempo. Depois é proposta uma outra fase, que é a fase da depressão ou da tristeza. E é o quê? Esta sensação de tristeza profunda, de desânimo, de vazio, é um confronto com esta realidade da perda, mas não deixa de ser uma fase importante no processo do próprio luto. E finalmente a última fase que é proposta é a fase da aceitação. E o que é esta fase da aceitação? É quando tu reconheces a perda como parte da realidade e estás a tentar integrar aquilo e retomar a tua vida. A verdade é que a própria Elizabeth Ross mais tarde reconheceu, e hoje em dia também é amplamente reconhecido, que estas fases não são obrigatórias nem lineares.

Durante algum tempo nós achávamos que qualquer pessoa que estivesse a lidar com um processo de luto tinha que seguir estruturalmente isto. Não, não é verdade. Por outro lado, nem toda a gente vai passar por estas mesmas fases. E pode haver situações em que a pessoa esteja a passar pelas duas fases ao mesmo tempo. Eu posso estar com raiva e posso estar triste ao mesmo tempo. Portanto, isto é mais como se fosse uma linha orientadora para nós percebermos se faz parte ou não de um processo normal de luto estar a vivenciar isso. Agora, o que é que nós podemos afirmar? que existem as reações comuns, que é quase sempre um processo doloroso, pode envolver diferentes momentos.

Existe elevado nível de oscilação emocional. Vão ouvir-me e vais-me ouvir várias vezes utilizar a expressão de montanha russa. Às vezes estamos lá em cima e lá em cima estamos um bocadinho melhores, outras vezes estamos cá embaixo, estamos muito mal, de alguma forma. Esta intensidade oscila ao longo do tempo e pode estar também associada a momentos que sejam mais expressivos. Épocas, por exemplo, vestidas. Natal, aniversários podem suscitar algumas reações mais intensas. E é um processo que leva tempo. Mas esta ideia, que vulgarmente é transmitida, de que o tempo cura tudo, não é verdade. Mais do que o tempo que passa, aquilo que faz a diferença é o que é que a pessoa em luto faz durante esse período de tempo.

Perder alguém que nos é querido é o único motivo para o luto? Ou podemos nós perguntar, e existem outras situações que também despertam todos estes sentimentos inerentes à questão do luto?

Tipos de perdas

A tua pergunta é amplamente pertinente, Milú, porque nós temos ideias daquilo que socialmente reconhecemos como passível de um processo de luto. Então, nós podemos dividir as perdas naquelas que são socialmente aceitas para dar origem a um processo de luto. e aquelas que a sociedade tem dificuldade em integrar como tal e está à espera que tu continues a funcionar normalmente depois dessa perda. E há também situações em que as pessoas estão a lidar com uma perda e não percebem que estão efetivamente a passar por um processo de luto. Então vamos tentar perceber quais são aquelas que são socialmente aceitas e aquelas que são um bocadinho mais postas de lado pela nossa própria sociedade, mas que dão também origem ou poderão também dar origem a um processo luto.

Uma perda socialmente aceita é a morte de um familiar. pai, mãe, tio, avô, avó. E a verdade é que quando tu estás perante a morte de um familiar que te é próximo, isto traz-te a noção de fragilidade e de desamparo. E isto é amplamente complicado para quem está a viver. É quase como se a iminência da fragilidade da vida fosse algo que me tocasse a mim também. Isto faz-me lembrar uma situação de uma jovem com quem falei recentemente. Estamos a falar de uma jovem adulta, já tem filhos, e esta jovem tinha uma ligação muito próxima com a avó materna. Ela, de alguma forma, foi criada por aquela avó materna.

e a avó acabou por falecer. E ela está a vivenciar ainda um processo de luta e tem uma depressão associada, depois iremos falar sobre isto com mais calma. Ela dizia-me, não é incomum ir à casa da minha mãe, e a casa da minha mãe o jardim faz confronto com o jardim da minha avó, e subir as escadas e ter aquele impulso de gritar, avó! E é estar à espera de lá, de lá, ouvir, estou aqui, que era a forma como nós costumávamos falar. Outra perda socialmente aceite é o chamado luto conjugal, é a morte do teu parceiro amoroso. A verdade é que quando tu perdes alguém que é o teu companheiro ou a tua companheira, tu não perdes só a pessoa.

Tu perdes uma identidade, tu perdes a identidade do casal, tu perdes a identidade de uma intimidade emocional, de uma intimidade física, e tu perdes até a identidade de um possível futuro em conjunto. E isto fez-me, quando estava a pensar neste assunto, fez-me recordar uma experiência há alguns anos atrás, eu deveria ter os meus 19, 20 anos, e este casal ficou-me marcado na memória. E eu fui com uns amigos, fui passar férias a casa dos avós maternos deles. E porquê que o casal me ficou marcado? Pela dinâmica que tinha. Estavam sempre a discutir. Mas ele, já era um casal na ordem dos setenta e poucos anos, ele era aquele refilão murmurador, está sempre a murmurar para dentro. Ela era a refilona explosiva, portanto, o que tinha a dizer, dizia.

E acabou até por ter um comportamento um bocadinho insultuoso um com os outros. E não era incomum eu ouvir, velho, morre! Vai embora, velho!" E eu ouvi o senhor dizer, velha, morre! E eu pensava, isto é tão estranho, é tão fora da minha realidade. A verdade é que algum tempo depois este senhor acabou efetivamente por falecer. E uns anos depois nós estivemos novamente com esta senhora. E a expressão dela era esta, velho, que falta que me fazes, sinto tanto a tua falta. E nós muitas vezes olhamos para esta questão do futuro em conjunto e nós não perspectivamos este futuro em conjunto para uma pessoa, por exemplo, que já tem 70 ou 80 anos, mas emocionalmente ele ainda existe.

Consolo na dor

E temos outros que iremos falar também. Sem dúvida. Com certeza que é um tema vasto e teremos a oportunidade nos próximos episódios de poder ir falando mais e ensinando e refletindo mais sobre este assunto. Há um versículo muito bonito, Cristina, e eu gostaria de deixar a todos os queridos que nos escutam, que é o Salmo 34, no versículo 18, em que o Senhor diz assim, perto está o Senhor daqueles que têm o coração quebrantado. e salva aqueles que têm os contritos de espírito, ou seja, ele não abandona aqueles que estão destruídos por dentro. E sei que em momentos como este, e outros que iremos aprofundar mais nos episódios seguintes, muito da grande força e do alento que podemos encontrar é junto de Deus.

E estamos aqui consigo para o acompanhar, se é essa a sua realidade ou de algum querido que ama. Obrigada, Cristina, mais uma vez. Encontramos-nos, se Deus quiser, com a ajuda de Deus, e na graça de Deus, e com a coragem de Deus, no próximo episódio, se Deus quiser. Até lá.

Sobre este episódio

Neste episódio de "Mentes que Sentem", abordamos o tema sensível do luto. A Dra. Cristina Dias explica que o luto não é uma doença, mas um processo adaptativo e profundamente individual. Vamos desmistificar as fases da dor e compreender como as diferentes perdas impactam a nossa saúde mental e física. Uma conversa de esperança e compreensão para quem atravessa o vale da saudade. 🕊️🙏

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 40
Estreou
10 de Fevereiro de 2026
Categoria
Saúde