Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda uma vez mais a este episódio, Mentes que Sentem. É um prazer sempre estar consigo, estar convosco. Agradecemos muito a vossa presença e também a partilha com alguns queridos, alguns familiares ou amigos, de assuntos tão pertinentes quanto estes que nós tratamos aqui neste que já é o seu programa. Damos as boas-vindas a todos vós. Se há alguém que pela primeira vez nos sintoniza, seja muito bem-vindo também. Estamos aqui para tentar esclarecer alguns assuntos disto que é tão importante, que é a nossa saúde mental. Então, nós desejamos muita saúde para todos nós. Se há alguém que tem algum desafio, que tem alguma dificuldade, não desanime, tenha coragem.
Se calhar não é por acaso que está aí, que nos encontrou, e nós oramos para que realmente Deus nos possa usar. para a sua alegria, para a sua bênção, para a sua recuperação. Com certeza que este programa tem sempre a presença da nossa querida Dra. Cristina Dias. Olá, Cristina. Uma vez mais, obrigada pela tua presença.
Obrigada, Milú. É bom estarmos aqui, é bom podermos partilhar e refletir em conjunto. E obrigado àquele que também se encontra desse lado. Que bom. Cristina, nós no último episódio nós abordamos o tema tão atual, que é a questão do bullying e do ciberbullying. E às vezes nós podemos nos questionar e perguntar se ainda existem pessoas que subsetimam, ou seja, não valorizam tanto assim esta questão de ignorarem o bullying e as suas consequências, ou aquilo que possa trazer. Para podermos falar sobre esta situação, nós precisamos de perceber que todos nós trazemos alguns conceitos, algumas ideias que vêm de trás, que vêm até do nosso contexto cultural e educativo e criaram em nós muitos preconceitos.
A verdade é que não se fala deste tema há tanto tempo assim e nós normalizamos um bocadinho determinado tipo de comportamentos porque dizemos que sempre foi assim, então por que agora estamos a dar importância a isso? E, efetivamente, para tentarmos responder de uma forma mais pragmática a esta pergunta, é importante vermos o que as entidades que estudam o tema têm trazido como conclusões. E eu gostava de partilhar contigo e convosco alguns resultados de investigações que têm sido feitas na área. Em 2021, a Unicef lançou as conclusões de um estudo que abordava esta questão do bullying e, entre outras conclusões, dizia que um em cada três adolescentes é vítima de bullying.
Por outro lado, relatava que o bullying verbal é mais frequente do que o bullying relacional, por exemplo, mas não quer dizer que ele não exista. E o bullying social também é extremamente expressivo. Em 2018, a Organização Mundial de Saúde vai fazer um estudo com os jovens em idade escolar e o estudo vai ser especificamente sobre esta questão do bullying também. E o que é que perceberam? Os jovens tinham idades entre os 11 e os 15 anos, portanto pré-adolescentes e adolescentes, e perceberam que cerca de 10 a 15% dos jovens da amostra relataram sofrer bullying frequentemente. E o frequentemente eles diziam que era no mínimo duas vezes por mês.
Nós somos capazes de desvalorizar esta quantidade. Somos capazes de dizer há duas vezes por mês e isso não é nada. Mas se nós ponderarmos nos resultados, nas consequências, não deveria existir nenhuma vez, sequer. Este mesmo estudo acabou por dizer que 6 a 8% dos jovens relataram ser vítimas frequentes de ciberbullying. Em 2024, e agora passando um bocadinho para a nossa realidade nacional, em 2024 a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto faz um estudo vocacionado para a questão do ciberbullying. E o estudo abrangeu uma faixa etária de jovens entre os 11 e os 21 anos de idade. O que é que eles diziam?
Um em cada dez jovens relata ser vítima de cyberbullying muito frequentemente. Destes jovens que são vítimas, uma elevada porcentagem não procura ajuda, não denuncia a situação. E aquele dado que provavelmente me chamou mais a atenção é que um terço dos jovens que presenciam esta questão do cyberbullying não intervêm. Ou seja, estamos passivos perante uma situação em relação à qual não deveria haver passividade. A PSP, Polícia de Segurança Pública, tem um programa que é o programa Escola Segura. Dados relativos a 2024 e 2025, portanto esse ano escolar, diziam o seguinte, foram registadas 130 situações de bullying e 21 situações de ciberbullying em escolas portuguesas.
Estas foram aquelas que foram registadas e aquelas das quais nós não temos conhecimento. Será que este número já não demonstra alguma expressividade? Felizmente eu fiquei feliz porque nesse relatório diziam que a própria PSP fez mais de 6.300 ações de sensibilização nas escolas sobre este tema. Ou seja, efetivamente há uma mudança de perspectiva sobre as coisas. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, em 2023, lança também um estudo sobre esta questão do bullying e em outras conclusões. Dizia que os rapazes são mais vítimas do bullying físico e as raparigas tendencialmente sofrem mais um bullying social e um bullying relacional, mas que o ciberbullying afeta ambos em termos de consequência.
Dados internacionais, neste caso da Organização Mundial de Saúde, num relatório publicado em 2021 sobre a questão das consequências do ciberbullying, acabam por dizer que as vítimas do bullying têm duas a nove vezes mais probabilidade de vir a sofrer de depressão, ansiedade e pensamentos suicidas do que aquelas que não são vítimas. Então, será que tudo isto não deveria levar-nos a refletir e a tentar perceber que nós podemos ser agentes de mudança também? Estavas a falar e eu estava a pensar. Pode haver e ainda se manter na nossa mente, e devido realmente ou à ignorância ou ao facto de ser uma coisa mais ou menos nova, alguns preconceitos que ainda se mantenham na nossa mente ou na mente da sociedade e de alguns.
quando alguns pensam que bullying é apenas uma brincadeira, é algo normal na escola. O que dizer sobre isso, Cristina?
Olha Milu, eu creio que qualquer um de nós, se não for sensibilizado para o tema, acaba por normalizar determinados comportamentos. Já são miúdos, é o que nós dizemos. Já agora deixa-me voltar, para responder a essa pergunta, deixa-me voltar a este estudo anterior. Este estudo anterior sobre as consequências falava não só das consequências para as vítimas de bullying, mas as consequências para os próprios agressores. E dizia que estes agressores têm uma maior probabilidade de vir a ter comportamentos antissociais e criminais no futuro. Então será que isto que nós estamos a desvalorizar, relativizar tantas vezes, terá ou não consequências mais graves?
Será que se é o meu filho que está a ser vítima, ou será que se é o meu filho que está a protagonizar uma situação como agressor, eu não poderei olhar para isto e pensar, isto potencialmente poderá enquadrá-lo naquela franja de jovens que poderão vir a desenvolver um comportamento antissocial, ou um comportamento que poderá levar à criminalidade? E essa ideia de que a humilhação é apenas uma brincadeira entre crianças. Se nós a transportássemos para o universo dos adultos, nós já não olharíamos para as coisas dessa forma. Nós éramos capazes de dizer, estás-me a faltar ao respeito. Então por que é que nós muitas vezes temos dificuldade em perceber que aquilo que nós normalizamos em crianças às vezes é um comportamento de bullying?
A verdade é que a realidade nos dias que o bullying tem três características. É intencional, é repetitivo e causa sofrimento. Não estou com isto a falar, não vamos agora também ficar em estado de alerta máxima e estar a interpretar todo o tipo de comportamentos entre jovens e crianças como sendo único, não é? Pronto. Tem que haver aqui algum bom senso e equilíbrio. Mas esta palavra do repetitivo, da intencionalidade para a humilhação e do abuso de poder, Isto caracteriza efetivamente um comportamento que poderá trazer consequências muito graves. E às vezes há aqueles queridos que pensam, ou acham, ou têm esta ideia, este pensamento, que só acontece aos mais fracos.
A realidade tem demonstrado exatamente o oposto. Nós às vezes olhamos e dizemos, há aqueles que são mais tímidos, ou aqueles que não têm tanta capacidade de se defenderem num grupo, por exemplo, ou aqueles que não falam tanto, que não verbalizam, são efetivamente as vítimas potenciais deste tipo de situações. Não é verdade. Nós temos, por exemplo, jovens muito populares que são vítimas de bullying. Temos pessoas... Aliás, basta, por exemplo, olhar até para meios como os meios das artes, até situações de atores ou atrizes que são conhecidos e eles lhe platam. Nós vimos isso no episódio anterior. Eles lhe platam ter sido vítima e ainda hoje, enquanto adultos, muitas vezes são vítimas disto.
Por quê? Pelas diferenças percebidas. pela questão da inveja que muitas vezes existe. Às vezes há outras pessoas que pensam que, no fundo, o bullying é consequência de uma atitude errónea, ou seja, a pessoa está a sofrer o bullying porque ela própria provocou isso mesmo. Nós somos muito lineares. Nós achamos que tem que haver sempre o bom e o mau. Mas o mau, aqui os papéis invertem-se, não é? Aquilo que tu estás a dizer, se nós formos a refletir, na realidade coloca a vítima no papel de mau. Porque então tu deves ter feito alguma coisa para merecer um comportamento destes. As pessoas não se lembram de fazer isto. Muito pelo contrário, estamos a falar de questões de abuso de poder.
E o ser humano invariavelmente, quando sente a possibilidade de exercer poder sobre os outros, nem sempre tem a capacidade de administrar isto de forma equilibrada. O bullying é sempre a responsabilidade do agressor. E estarmos a colocar esta questão sobre a vítima, é estar a agravar a culpa, o sofrimento e silenciar a capacidade de atuação da mesma. Nós já vamos continuar nestes pensamentos tão importantes de serem esclarecidos. Nós vamos fazer uma pausa e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança.
Seja muito bem-vindo mais uma vez. Cá estamos, depois de um pequeno intervalo, a continuar esta conversa tão abençoada sobre várias formas de podermos ser magoados ou magoar e trazer no fundo a tristeza ao coração de alguém ou sermos nós a sentir essa mesma tristeza. Nós, ao longo de todos estes episódios, e já conhece neste programa mentes que sentem, nós temos para si este que é o manual de estudo maravilhoso, Sentimentos, a Ciência do Existir. Aqui poderá encontrar vários temas que irão ao encontro, com certeza, de algum assunto que precise ser mais esclarecido. Poderá pedir para si, poderá pedir para algum amigo ou algum familiar Estamos aqui para vos ajudar, é só contactar através do 933 939 291 e nós teremos com certeza muito prazer em poder enviar para si um exemplar deste guia de estudo e deste manual de estudo.
Cristina, nós estávamos a falar sobre as ideias, os preconceitos, aquelas que às vezes são irrónias, mas que parecem tão normais de pensar e de se sentir. Por exemplo, alguns dizem que os rapazes são sempre mais agressivos e que as meninas serão sempre as vítimas. Mais uma vez, essa é uma ideia que é preconceituosa. Tem muito a ver com a nossa questão cultural. A verdade é que existe uma diferença sentida no tipo de bullying praticado por género, No entanto, ambos são vítimas. As raparigas praticam um bullying mais relacional, mais social, mais verbal.
E, efetivamente, os rapazes praticam um bullying, além de verbal, mais físico. Mas ambos podem ser vítimas nestas situações. Uma outra ideia que existe é que o facto do ciberbullying não ser tão grave quanto o bullying presencial. Ou seja, quando estamos escondidos atrás dos ecrãs, parece ser menos grave do que presencialmente. Nós no episódio anterior falávamos da questão de cada vez mais tomarmos consciência do cyberbullying. Respondendo de uma forma muito objetiva, tu tens algo que está exposto 24 horas por dia, 7 dias por semana. Portanto, a consequência, a dimensão que isto agrega é gravíssima.
Há situações de pessoas que acabam por ter que mudar circunstâncias significativas da sua vida. por causa de episódios de bullying expostos através dos meios sociais, das redes sociais, por exemplo. Se a vítima não reage, alguns dizem e pensam, é porque não sofre e, portanto, não há nada de grave. Nós somos todos diferentes na forma de reagir. Há aqueles que reagem quando alguém provoca, reagem intempestivamente. Mas a verdade é que nós temos um mecanismo de defesa que nos diz assim, algo deste género, se tu estás em minoria perante um grupo, porque normalmente o bully, ele tem um grupo que o suporta, quanto mais não seja porque não o impede de continuar com a prática.
Portanto, estão ali, gravitam de alguma forma. Então, quando tu estás em minoria tu procuras formas de te defender. E uma das formas que tu tens de te defender é não te expores mais, é não falar, é não dizeres nada agora. Isto significa que deixou de doer ou que eu compactuo com a situação. Não significa que muitas vezes eu criança ou eu adolescente não sei como reagir perante esta situação e acabo por tentar defender-me dela da melhor forma possível. Pois. Alguns dizem também que o bullying desaparece com o tempo, que é apenas uma fase da vida. O que dizes, Jout Jout? Se o bullying desaparecesse com o tempo, a prática do bullying pode desaparecer.
Eu não andarei na escola a minha vida toda. A consequência do bullying não desaparece. As marcas. Deixa muitas marcas, afeta adultos e traz consequências a nível relacional e a nível da sua saúde mental. Alguns dizem igualmente que só escolas com problemas é que têm bullying. Aquelas escolas assim, não é? Que toda a gente diz que são escolas horrorosas e escolas más e só aí, nesses contextos, é que existe o bullying. A verdade é que ele existe em qualquer classe social, em qualquer escola, e em qualquer contexto laboral também ele pode existir.
É verdade. Portanto, não há aqui diferenças de espaços. Poderá haver a propensão de existirem mais focos deste comportamento em determinado tipo de espaços, mas ele ocorre em qualquer sítio, ou poderá potencialmente ocorrer em qualquer sítio. E quando falamos de bullying, normalmente parece que o associamos apenas e só às crianças e aos jovens. E a pergunta que eu te faço é se o bullying acontece realmente só às crianças e aos jovens. Permito-me partilhar uma situação que me aconteceu recentemente, para poder responder essa pergunta. Estava a atender uma senhora. Ela deveria ter cerca dos seus 40 e poucos anos. E ela estava visivelmente fragilizada.
Toda esta mulher premia. Tremia desde a voz às mãos, ao corpo, e ela relatava uma experiência profissional que estava a ter. Esta senhora trabalhava numa fábrica, numa indústria, na parte da produção, e ela dizia, a minha encarregada grita tanto. chama tanto os nuns, destrata-me, humilha-me tanto, que eu não consigo mais, eu não consigo voltar para lá. E a senhora dizia-me algo. Eu vou sair daqui, vou ao meu médico de família tentar uma baixa. Se efetivamente eu conseguir a baixa e conseguir recuperar um bocadinho, eu vou tentar ponderar o que é que vou fazer da minha vida. Mas, na realidade, se isso não acontecer, eu saio daquele trabalho.
A verdade é que nós estávamos a falar de uma senhora cuja família dependia daquela atividade profissional, do rendimento que ela recebia. Nós atribuímos um nome diferente. A sociedade não chama bullying a adultos. É chamado mobbing, quando nós falamos em relação aos adultos. Tem características semelhantes ao bullying, portanto ambos têm um comportamento repetitivo, intencional e um abuso de poder. Modifica é as circunstâncias e as consequências, porque o mobbing é muito associado aos contextos laborais e contextos institucionais. Alguns exemplos de práticas de mobbing, por exemplo, a sobrecarga de tarefas que tu sabes que serão impossíveis de realizar, o esconder informação que é vital, o propositadamente não levar aquela pessoa a participar em tarefas que o grupo tem necessidade de fazer, críticas constantes, humilhação verbal, abuso a nível de assédio moral, assédio sexual, tudo isto são práticas que se integram nesta questão do mobbing.
Consequências, conforme tu própria deves calcular, um stress elevadíssimo, ansiedade, depressão, autoestima, absentismo laboral e até a questão do abandono do trabalho. Ao ouvir isso, naturalmente nós nos questionamos e perguntamos então o que é que podemos fazer para ajudar e para poder aliviar ou até resolver, ajudar a resolver essas situações.
Para poder responder essa pergunta eu vou dar voz a alguém que em primeira instância viveu esta situação. Isto depois vai ser partilhado com aqueles que nos ouvem e que nos veem. Eu retirei alguns trechos de um artigo de opinião publicado no blog Famílias No Bully. E é publicado por Luís Moreira, e acho muito interessante, este artigo foi publicado em 2019, acho muito interessante a forma como ele introduz. Ele diz, Luís Moreira, ex-alvo de bullying. Já foi parado. Exatamente. Então ele diz assim, a minha história, eu retirei só alguns aspectos. O meu nome é Luís Moreira, tenho 31 anos e durante 10 anos fui vítima de bullying. Depois relata, dá continuidade à história e diz o seguinte, Aprendemos a lamber as nossas próprias feridas, em silêncio, em segredo, escondidos, envergonhados, sem nunca deixarmos que vejam o quanto nos magoaram.
E sem percebermos muito bem como. Estamos a entregar de bandeja todas as armas que os bullies precisam. Eu sei que comecei a ficar mais forte quando decidi combater o bullying e fui a conversar sobre ele. Eu sei que, se iniciarmos o diálogo, estamos a mudar a conotação das palavras, estamos a contribuir para mudar as mentalidades, o tom das nossas conversas e, claro, a nossa atitude. Um verdadeiro combate ao bullying é em si mesmo um combate à ignorância. E deste combate sairemos todos vencedores. As vítimas, os pais das vítimas, os amigos, os professores, os auxiliares e sim, em certa parte, os agressores. Estamos a impedir que a popularização do tema gaste o assunto, para não termos reações como, ou não, outro artigo sobre o bullying.
Uma arrogância de quem acha que sabe do que se trata, porque já ouviu falar um bocadinho sobre o assunto. Temos de falar sobre o bullying. É o nosso dever. Então, por onde é que nós começamos? Não calando. Falando, falando com respeito, sensibilizando e agindo prontamente na nossa esfera de influência. E tal como fizemos no episódio anterior, nós iremos deixar no final do episódio algumas linhas, alguns contactos para onde poderão recorrer para pedir ajuda especializada. Então, se alguém que não se está a ouvir é vítima desta situação, ou conhece alguém que é vítima desta situação, eu gostaria de dizer, não te cales. Procura ajuda.
Fala com alguém. Mas, em primeira instância, a culpa não é tua. regista, tenta registar aquilo que aconteceu, tenta de alguma forma, sobretudo se foi uma coisa relacionada com o ciberbullying, antes de apagar as mensagens ou de sair de determinado tipo de canais, guarda provas, faz prints, faz fotografias, bloqueia perfis e poderá ser efetivamente necessário pedir ajuda formal, nomeadamente às autoridades. Se tu és um observador, Aquilo que eu gostaria de te dizer é que tu tens o grande poder para a mudança. E nós dizemos, mas não é nada comigo. É tudo, tem tudo a ver conosco.
Só o fato de eu perceber que isto não é uma mera brincadeira. Só o fato de eu poder ajudar aquele que está a ser vítima desta situação. Apoiá-lo a procurar ajuda. Muitas vezes, se a relação que eu tenho com aquele que pratica o bullying o permitir, poder marcar ali uma presença e dizer isto não está a ser correto, fazer algo que vai contra a perspectiva do grupo, isso é importante, isso pode dar um passo para a mudança, nós temos esse poder. E muitas vezes nós não queremos fazê-lo com receio de podermos vir a ser no futuro as próximas vítimas, mas a pergunta que eu coloco é, e quem é que te vai defender a ti nessa altura? Se tu és o agressor, eu gostava de dizer-te que este é um comportamento que mais tarde ou mais cedo vai se reverter contra ti.
E tu podes dizer, não, isso nunca aconteceu ou eu estou numa situação em que eu me sinto protegido. No episódio anterior nós falávamos da experiência de um neurocirurgião que foi vítima de bullying. A verdade é que ele também, durante algum tempo, foi bully. Acabou por fazer bullying com os outros. E numa determinada altura ele acaba por perceber que de cada vez que conseguiam controlar as suas emoções, tinham controle sobre ele. Então quando nós achamos que temos uma ascendência de poder sobre o outro, na realidade nós estamos a ser controlados por esse mesmo poder. E um dia isso poderá virar-se contra nós. Então, se me permites, Milu, eu gostava de deixar aqui uma mensagem final, na continuidade daquele artigo publicado, porque muitas vezes nós como pais, como educadores, não sabemos o que fazer.
Ficamos perdidos. Então, permite-me terminar lendo algo que este jovem dizia. E ele diz o seguinte, uma mensagem para os pais. Para os pais que me estejam a ler, a minha mensagem é simples, falem. A ansiedade dos pais vem muitas vezes por não saberem exatamente o que devem dizer. É uma ansiedade e uma dor que se cumula com a indisponibilidade dos filhos de falar sobre estes episódios. No meu caso, havia uma vergonha de não corresponder à expectativa que os meus pais tinham sobre mim. Uma ficção que, na minha cabeça, correspondia à verdade. E o meu silêncio mascarava o embaraço de ter sido fraco, de não ter conseguido defender. Se tivéssemos falado na altura, teria percebido que eles estavam tão perdidos quanto eu, tão assustados, e que não havia expectativa nenhuma maior do que aqueles verdadeiramente tinham para mim, que eu fosse feliz.
O diálogo só começa se for seguro, se houver confiança e se não houver consequência, e sobretudo com coragem. Encorajem. Se não souberem o que dizer aos vossos filhos, comecem por aqui. Leiam este texto em voz alta como um exemplo de alguém que começou a sentir-se melhor a partir do momento em que começou a falar. Talvez tenha deixado de ser vítima. Ou ainda, ou seja, mas de outras coisas da minha memória. E sim, do meu silêncio. É por isso que escrevo este texto. É o meu dever. Estou como Cesarine, poeta. Entre nós e as palavras usem paredades. Entre nós e as palavras o nosso dever é falar. Amém. Muito obrigada, Cristina, uma vez mais.
Tem sido um prazer, sem dúvida, e uma grande bênção. E como dizias, e muito bem, é falar, devemos de falar, e estamos aqui para falar consigo, para falar destas coisas, para ser uma bênção a sua vida. Foi um gosto muito grande ter estado consigo uma vez mais, e se Deus quiser, vemos-nos no próximo episódio.