Inveja - O Veneno Silencioso (parte 3)

Inveja - O Veneno Silencioso (parte 3)

16 de Dezembro de 202526 min 26 s

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Abertura

Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio deste que já é o seu programa Mentes que Sentem. É sempre um prazer e damos graças a Deus por nos encontrarmos uma semana a mais, que aqui estamos para refletir sobre estes assuntos tão importantes relacionados com a nossa saúde mental. Para si que já é sido deste programa, seja bem-vindo uma vez mais. Se pela primeira vez está connosco, pois muito bem. Bem-vindo também. Bem-vinda. E que possa ser uma mais-valia para a sua vida. Com certeza que não estou sozinha. Tenho a doutora Cristina Dias comigo. Olá, Cristina. Mais uma vez, mais uma semana. Pela graça de Deus. E cá estamos. Obrigada, Milú. É sempre uma alegria podermos estar juntas e refletirmos sobre estas questões.

É verdade. Cristina, nós temos vindo a falar sobre aquela que é uma das emoções bastante pertinentes, que é a questão da inveja. No último episódio estávamos a falar já sobre isso e acabamos por perceber que a ciência introduz alguns conceitos que nem sempre nós estávamos despertos para eles ou até os conhecíamos, que era a questão da inveja benigna e a inveja maliciosa. Entretanto, no episódio anterior, nós centramos-nos, sobretudo, nas consequências do impacto, portanto, da inveja maliciosa. Se puderes desenvolver um pouquinho mais este assunto. Antes de mais, obrigada pela questão, Milu. Sabes que quando eu pensava nesta situação, perguntei a mim própria quem diria que havia tanta questão que eu desconhecia sobre esta situação da inveja e que é mais pertinente do que aquilo que nós temos perceção.

Então recapitulando um bocadinho, no episódio anterior nós vimos algumas consequências da inveja naliciosa, aquela que não é positiva a nível de consequências, nomeadamente consequências a nível do nosso corpo, da nossa saúde, a nível dos efeitos psicológicos que isto traz em nós e no desgaste das nossas relações sociais também.

Evolução para o rancor

Mas, sobretudo, terminamos o episódio anterior falando sobre, e é isso que eu pretendo abordar hoje, quando a inveja evolui para emoções que são um bocadinho mais desafiantes, como é o caso do rancor. E, às vezes, nós achamos que estamos todos a falar da mesma coisa e estamos a atribuir significados e sentidos diferentes. Então vamos tentar exemplificar e perceber, afinal, o que é o rancor. E para isso, se me permites, eu vou utilizar um exemplo prático. Vamos imaginar que, de alguma forma, nós somos amigas de longa data e tu, entretanto, compras um carro novo. Eu fico feliz por ti, efetivamente. Mas lá no fundo, não é dito, não é expresso, fica ali com uma pontinha de algo do género.

Quem me dera poder fazer a mesma coisa. Quem me dera que fosse comigo. Eu estou feliz por ti, mas ficou ali aquele fundo. Agora imagina que tu começas a colocar umas postagens nas redes sociais, começam a haver naturalmente comentários e o nosso grupo de amigos vai partilhando e dizem, tu já viste o carro novo da Milu? E aquilo começa a incomodar-me. Então agora não há outro tema. É só aquela situação. E imperfetivelmente esta situação começa a evoluir, está mais presente na minha mente do que aquilo que eu desejava. E eu começo a achar que a atenção é toda virada para ti e eu começo a perder estatuto no grupo. Vamos supor que a determinada altura tu me convidas e dizes, olha, queres vir dar uma voltinha?

E quando vamos, e eu estou feliz por ti, mas quando vamos no carro, eu já não tenho só o senso de inveja, mas eu tenho aqui alguma amargura. Porque não é só eu, eu gostaria também. Caramba, parece que não há mais nada a não ser isto. E tu começas naturalmente, e feliz, a explicar o que é que o carro tem, o que é que deixa de ter. E eu começo a interpretar esta tua atitude como ostentação. Ela agora tem a mania. Ela agora não fala de outra coisa. Isso começa-me a fazer sentir diminuída e injustiçada. Então, sutilmente, aquilo que aconteceu foi que a inveja passou para a amargura e da amargura passou para o rancor. E agora isto inevitavelmente vai condicionar a forma como eu me comporto perante ti.

Eu começo a ter respostas mais curtas, mais frias. Sou capaz de fazer observações do género. Olha, se eu fosse a ti, tinha cuidado. Vais ver, esse modelo de carros dá muitos problemas. Ou, quando tu levares à revisão, aí é que vai doer. Ou, eventualmente, alguém que vem ter comigo e um grupo de amigos e diz-te, já viste o carro novo da Milo? Pois, pois, mas eu acredito que a Milo provavelmente teve que se endividar para comprar o carro. Portanto, percebes como isto é muito sutil, só que o que o rancor faz em nós? Ele permanece, e permanece independentemente daquilo que o provocou. Ou seja, imagina que a determinada altura tu fazes uma observação qualquer, e eu já não consigo ser isenta perante ti, porque eu sinto aquela emoção dentro de mim.

Tu dizes qualquer coisa em relação ao teu trabalho, e a forma como eu reajo é defensivamente. Então o que é que é o rancor? O rancor é um ressentimento prolongado contra alguém que nos feriu ou nos humilhou, ou contra alguém ou alguma situação que nós percepcionamos como injusta, acreditamos que o outro não merece aquilo que tem. Só que o rancor funciona como um eco. Portanto, imaginemos esta imagem visual. Quando nós vamos a um determinado local e gritamos eco, e aquilo devolve-nos a palavra, então o ressentimento funciona como o eco daquilo que a inveja nos provoca. E o que a inveja nos provoca? Provoca-nos este sentido de que somos diminuídos perante o outro.

E o ressentimento acaba por se tratar de uma emoção que é ruminativa. Mais uma vez, esta expressão está sempre lá. Qual é a grande diferença entre a inveja e o rancor? Tem a ver com o gatilho, com aquilo que provoca. A inveja é, sobretudo, provocada pelo êxito do outro. enquanto que o rancor é provocado pela ofensa do outro. Tenha sido uma ofensa real ou tenha sido uma ofensa percepcionada por mim, entendida por mim como tal. Repara, Cristina, a pergunta que se coloca, ou que poderemos colocar, é Será que existem pessoas mais vulneráveis à inveja?

Ou seja, numa mesma situação duas pessoas terem reações diferentes e, no fundo, umas evoluírem para isso que tu estás a dizer, a questão do rancor, e outras não. Essa pergunta não pode ter uma resposta simples. Aquilo que eu poderei fazer é dar aqui alguns tópicos que efetivamente podem predispor a pessoa para uma maior vulnerabilidade na gestão da inveja e ela evoluir para o rancor, mas conforme deves compreender, e aqueles que nos ouvem, cada caso é um caso. Nós não podemos agora rotular as pessoas. E quais são alguns dos fatores de vulnerabilidade? Nada que nós já não tínhamos falado aqui. Um deles é a baixa autoestima. Sempre que eu sinto que estou a ser comparada e isto me causa sofrimento, a inveja pode evoluir para o rancor.

Outra é aquilo que também já falamos noutros episódios, esta questão de estar inserida em contextos, sobretudo em contextos familiares, em que o meu valor próprio é medido pelo desempenho e o desempenho é medido pela comparação constante. Então tu não vês, tu não consegues, mas o teu irmão conseguiu. Ou tu vês, tiraste quanto neste teste, mas olha que o teu amigo tirou X. E não é uma comparação na perspectiva do estímulo, é uma comparação na perspectiva de te dizer que não foste suficiente. Outra situação também é provocada, por exemplo, por ambientes de trabalho muito tóxicos, por situações que normalmente estimulam a cooperação, como por exemplo o caso das redes sociais. São uma das situações com as quais lidamos atualmente que mais suscitam emoções difíceis A inveja, por exemplo, que pode evoluir para algo mais.

A dificuldade que temos em lidar com emoções difíceis, como é o caso da frustração, mas há sobretudo dois aspectos que não são tão falados e que podem predispor a pessoa a uma maior vulnerabilidade para evoluir da inveja para o rancor. Uma delas é uma necessidade forte de validação externa. Tem a ver com a nossa autoestima. Há pessoas que desenvolveram mecanismos em que a sua autoestima está muito dependente da validação que o outro faz. Então o fato, por exemplo, de eu ter menos likes numa portagem que coloquei, ou alguém elogiar alguém ao meu lado num jantar, por exemplo, eu sinto isso como uma ofensa pessoal.

Eu sinto isso como algo que não está a valorizar. E por outro lado, este segundo fator não é tão consciente, mas quando falamos de rancor, provavelmente é aí que muitas vezes toca o dedo na ferida. E tem a ver com o quê? Tem a ver com feridas emocionais antigas, que não são perceptíveis. ou não foram trabalhadas, ou não estão geridas, e qualquer gatilho, qualquer trigger, vai fazer com que voltemos novamente a reviver isso. E quando falamos do rancor, nós temos que diferenciar a dor causada da dor processionada. O que é que é isto? Se nós pudéssemos pôr o rancor numa equação matemática, nós diríamos que o rancor é composto por x% da dor causada e é composto por um fator, uma porcentagem ainda superior, da dor percepcionada ou da dor despertada.

E como é que nós poderemos perceber com o que é que estamos a lidar? Então poderemos fazer uma pergunta muito simples. Só esta pergunta já vai ajudar, de alguma forma, a clarificar algumas questões. Vamos utilizar o exemplo do carro. E a pergunta é, a Milu realmente magoou-me ou ela tocou numa ferida que já existia? Porque se eu for a tentar justificar, eu vou dizer que sim, ela magoou-me, porque ela de alguma forma exibiu-se. Mas se eu tentar ser um bocadinho mais pragmática e perguntar a mim própria, mas será que é só isso? Será que ela teve esta intencionalidade? Se ela não teve a intencionalidade de me magoar, então porque é que eu me sinto magoada? Olha, eu me sinto magoada porque eu senti-me desvalorizada. E de onde é que vem esta perceção de me sentir desvalorizada?

E quando eu faço aqui um rewind, Eu vou provavelmente encontrar vários episódios na minha vida que têm o padrão comum de eu me sentir desvalorizada. Então, qual é a minha ferida emocional? É esta desvalorização constante que eu não estou a conseguir trabalhar. Então, o rancor, aquilo que faz é, de alguma forma, elicitar estas feridas que muitas vezes não estão resolvidas. Nós já vamos continuar esta conversa interessante sobre estes assuntos. Vamos fazer um breve intervalo e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da saúde. O canal da esperança.

Gostaria de saudar novamente cada um de vós, cá estamos para a segunda parte deste novo episódio desta semana, e aqui estamos para oferecer-vos, uma vez mais, aquele que é o guia de estudo que temos oferecido ao longo de várias semanas, já há vários meses. para alguns de vós já em casa, já o estudaram, já o leram, se calhar já o partilharam, mas aqui temos para vos oferecer, para ligarem ou para mandarem uma mensagem para o 933 939291, este guia de estudo, os sentimentos, a ciência do existir, que ajudá-lo, há com certeza, a aprofundar mais um ou outro assunto que sinta necessidade para si ou para algum querido seu. Portanto, não deixe de pedir, nós teremos muito gosto em poder enviar gratuitamente para a sua casa.

Cristina, em relação àquilo que acabaste de dizer há pouquinho, antes do intervalo, a pergunta que nós podemos colocar agora é que será que nós conseguimos tomar consciência de que nada mais nada menos, ao fazermos isso, nos

O papel da vitimização

estamos a vitimizar? Esta questão de sentir-nos ou colocar-nos no papel de vítima. Teremos nós consciência disso? Sabes que é interessante, quando falávamos há pouco sobre o fato da inveja poder evoluir para emoções um bocadinho mais complicadas, uma delas o rancor, outra delas é esta questão da vitimização. E quer uma, quer outra, são muito sutis a forma como elas se desenrolam dentro de nós. E o que é isto da vitimização? Vamos tentar clarificar antes de responder à tua questão. Ela tem a mesma raiz emocional, portanto, esta sensação de injustiça e desigualdade percebida. Mas o nosso cérebro não gosta da comparação. Então, muitas vezes, encontra mecanismos para lidar com isso de forma a que não nos cause tanta dor, tanto desconforto.

E um dos mecanismos é transferir a responsabilidade de algo que está a ocorrer para fora. É o mecanismo da vitimização. não é que eu não consiga, não me deram oportunidade, por exemplo. Então, como é que sutilmente ocorre esta questão da vitimização dentro de nós? Vamos imaginar que aconteceu algo... Vamos imaginar novamente o exemplo do carro. Aconteceu algo, eu vim de ter sucesso e eu senti de alguma forma inveja, desconforto, frustração com aquilo. Só que em vez de isto evoluir para o rancor, como eu não estou a conseguir lidar com esta dor da comparação, eu vou auto-justificar. E como é que eu auto-justifico? Olha, a minha luz está cheia de sorte. Se lhe tivesse saído ali o dinheiro no Euromilhões, muito mais ela estaria.

O que é que eu estou a fazer? Eu estou a acreditar que eu não tenho forma de estar nas mesmas condições que tu. Transfira esta responsabilidade para um fator externo. Eu não consigo a vida, não me sorri. E isto paralisa-me. Paralisa-me por quê? Porque não me dá condições para acreditar que eu posso fazer de forma diferente. E o ciclo repete-se. Autoalimenta a questão da inveja. E não, a maior parte das vezes nós não temos consciência que estamos a lidar com aquilo. O rancor às vezes é mais perceptível do que a vitimização. E nós estamos a falar nisto na perspectiva de quais são as consequências ou o impacto que a inveja maliciosa pode ter em nós.

Portanto, quando ela evolui para emoções mais difíceis, como é o caso do rancor ou da vitimização, mas também torna-se pertinente falarmos sobre a questão da inveja, porque nós temos uma grande falta de literacia emocional. Nós tínhamos falado sobre isso algumas vezes. E sabes, quando eu estava a pensar sobre isto, lembrei-me de um episódio da minha infância, que hoje me traz um sorriso aos lábios, mas na altura não me trouxe sorriso aos lábios. Eu deveria ter uns 5 ou 6 anos de idade, eu tenho um irmão 2 anos mais novo do que eu, e ele efetivamente tem uma cor de olhos muito bonita. Muito bonita. E eu recordo-me de nós passarmos na rua e consecutivamente as pessoas pararem e dizerem, em relação ao meu irmão, que lindo, que olhos tão bonitos que tu tens.

Eu, na altura, não sabia atribuir um nome a isto. Hoje eu sei que eu estava cheia de inveja. E eu pensava comigo, que injustiça, mas eu também tenho olhos. Por que é que ninguém olha para mim? Então, a verdade é que nós vivemos numa sociedade que cada vez mais estimula a comparação social. E nós não estamos a dotar as nossas famílias, as nossas crianças, os nossos jovens, na maior parte, de competências que lhes permitam lidar com estas emoções que lhes causam desconforto. Aliás, há estudos que provam que, por exemplo, as redes sociais são uma das maiores fontes de comparação e da tal fonte de emoções difíceis também. E falar dessa questão das redes sociais, se calhar a pergunta que convém fazermos é, será que de alguma forma isso nos impacta ou não?

E como é que nos impacta? Eu acho que a pergunta que tu fazes, nós intuitivamente dizemos que impacta, não é? Mas muitas vezes não temos percepção da profundidade do como isso nos impacta. Nós vamos ter provavelmente a oportunidade de falar melhor sobre esta questão das redes sociais. E não estamos aqui a falar mal, porque tudo tem o seu aspecto positivo e o seu aspecto desafiante. Mas vamos pensar só em algumas características. O que é que as redes sociais fazem? Elas amplificam a exposição. Mas a tua vida é exposta de forma enviesada. Põe a parte positiva da vida. E aqui vou mais uma vez dar um exemplo. Imagina que eu faço um bolo. E o bolo está muito bonito.

Eu tiro uma fotografia e posto na rede social e toda a gente diz que é bom, que é bonito e tem os comentários. E provavelmente as pessoas até ficam com uma perceção de que eu faço bolos muito bonitos, que por acaso não é o caso de maneira nenhuma. Mas eu não posto As tentativas de insucesso. Exato. Eu não posto aquele bolo que não sei eu tão bem. E tu não sabes se aquele bolo que eu postei, se fui eu que o fiz ou se foste tu. Ou se eu fui comprar à pastelaria. Ou se é saboroso ou não. Ou se é uma caixa de cartão que está pintada de alguma forma. Então, o que é que isto nos faz? Nós estamos muito mais conscientes dos aspectos negativos nas nossas vidas do que os aspectos negativos na vida dos outros.

E as redes sociais trazem-nos isto, trazem-nos uma visão enviesada da realidade. Acontece que o nosso cérebro está constantemente a construir modelos que lhe permitam interpretar a realidade. Isso é útil e é pertinente. Agora, quando o teu cérebro é sobrecarregado com uma informação enviesadamente positiva, ele naturalmente vai fazer comparação e vai dizer que sou inferior. E é isto que ocorre dentro da nossa mente. Esta questão das redes sociais e das dependências, neste caso das redes sociais, é cada vez mais pertinente e vamos dedicar algum espaço para falar sobre isso especificamente. Mas neste momento eu fartia uma pergunta, Cristina.

Será que nos podes deixar algumas sugestões, porque acho que é importante esta questão prática das coisas, que podem ajudar as nossas crianças, os nossos adolescentes, a lidarem com esta questão das comparações e das emoções que isso

Mentalidade de crescimento

mesmo provoca? Olha, Milu, para poder responder essa pergunta, vamos deixar aqui algumas estratégias práticas que acho que são importantes para todos nós. Não são a resolução de todos os problemas, mas contribuem para. Eu me recordo de um estudo que foi feito muito interessante. Em 2006, uma professora de Psicologia da Universidade de Stanford Carol Deck, ela publicou a teoria da mentalidade e embora existam pessoas que são a favor e outras que identificam algumas falhas a esta abordagem, na realidade nós temos que olhar e perceber o que é que eu posso retirar de positivo e que de alguma forma pode ter um impacto no meu dia a dia.

Então, esta teoria da mentalidade, a Mindset Theory, ela explica como é que as nossas crenças em relação à nossa inteligência, ao nosso talento, influenciam o comportamento, a motivação, o sucesso e a aprendizagem. E o que é que ela percebeu? O que é que fizeram? Ela e o grupo de investigadores pegaram em grupos de crianças, separaram estes grupos de crianças, deram tarefas adequadas à faixa etária das crianças, resolveram um puzzle, um enigma, qualquer coisa. Mas depois a diferença era no estímulo, no reforço que lhes davam. Num grupo de crianças eles davam o que consideraram um reforço fixo. És muito inteligente, boa. No outro grupo de crianças eles davam o reforço de crescimento.

Muito bem, esforçaste bastante, tiveste um bom resultado. E depois estas crianças eram expostas, supostamente, a colegas que teriam tido resultados melhores nas mesmas tarefas que elas estavam a executar. O que é que eles perceberam? que crianças que têm maioritariamente, porque não é exclusivamente, maioritariamente, uma mentalidade fixa que está sempre a ser reforçada pelo elogio à inteligência da criança, elas aceitam que as suas capacidades são inatas, são imutáveis. Têm mais dificuldade em lidar com frustração. por incrível que pareça, veem o esforço como um sinal de falta de sucesso, falta de talento, e sentem-se ameaçadas pelo sucesso dos outros.

Enquanto que as crianças que têm uma mentalidade de crescimento em que o elogio é feito sobretudo à questão do esforço, elas, apesar de ficarem frustradas, olham para o esforço como um processo de aprendizagem, e veem a comparação com os outros como, ok, eu também consigo lá chegar. Quando estas crianças eram expostas aos resultados de alguém que supostamente tinha tido um resultado melhor do que o delas, as crianças com mentalidade fixa reagiam com inveja e desânimo. Enquanto que as crianças, com maioritariamente a mentalidade de crescimento, reagiam como, ok, eu também posso fazer. E isto depende, sobretudo, ou vai ter implicação sobretudo em nós como adultos, como educadores, como aqueles que intervêm neste mecanismo nas crianças.

O tipo de reforço que nós damos às crianças ou aos nossos adolescentes vai ser um reforço que molde o tipo de comparação que nós fazemos. Pode ser um reforço para uma comparação ameaçadora, destrutiva, ou pode ser um reforço para uma comparação instrutiva, inspiradora. Há algumas sugestões práticas. Uma delas é elogiem. o esforço inteligente que a criança faz e a sua estratégia, não apenas o resultado. Olha, eu gostei muito do esforço que tu fizeste. Eu já vi que apesar de ter sido desafiante para ti, tu tentaste várias estratégias até funcionares. Muito bem. Tu fizeste um excelente trabalho. Eu vi que tentaste várias alternativas e isso é sinal de inteligência.

Tu percebes que aqui a inteligência está integrada com o esforço. Outra questão é celebrar as tentativas e não apenas o resultado. E aqui permite-me dar um exemplo pessoal lá de casa. Eu recordo-me que houve uma fase, uma faixa etária, em que nós estávamos sempre a levar animaizinhos para casa. Ou porque os meninos encontravam uma avezinha que tinha caído no chão e resolveram levar, ou porque viram um ratinho que acontecia qualquer coisa. Portanto, houve uma fase da vida que eu só tive bicharada lá em casa. mas invariavelmente, porque eles já vinham em não muito bom estado. Portanto, imagina, numa porcentagem de 10 animais e os dois sobreviveram e os outros faleciam. E eu recordo-me que eles ficavam profundamente frustrados e tristes e diziam, mas nós estamos a fazer e estamos a tentar, porquê que?

Porquê que? Porquê que? E a verdade é que se eu for olhar, valorizar a criança pelo resultado, os animais faleciam. Mas se eu for valorizar a criança pelo esforço, aquilo que nós tentávamos dizer era filho, e não tentamos fazer isto, e aprendemos que às tantas é melhor fazer aquilo. E às vezes a pergunta que se colocava era, então da próxima vez que tu vejas um animal que precisa de ajuda, tu não o vais querer trazer para casa. E apesar de ele ficar triste e frustrado com a questão da morte, ele dizia, não mamã, eu quero voltar a trazê-lo, porque é esta questão de celebrarmos o esforço e as tentativas, não apenas o resultado.

Conclusão e encerramento

No próximo episódio iremos ver mais algumas sugestões. Muito bem. Cristina, muito obrigada mais uma vez. O tempo voa. Estavas a falar e eu estava a pensar se há alguém que valoriza o pouquinho que nós possamos fazer. É o nosso Criador, portanto é Deus. Então, se algum dia deste se sentir nada ou se sentir que faz pouco ou que não vale, leia a palavra de Deus. Veja o que a Bíblia diz realmente neste sentido de Deus ter amado tanto cada um de nós, ter dado a sua própria vida. Então nós temos um valor extraordinário. Que nós recebamos este ensinamento de Deus e também o partilhemos com aqueles que estão à nossa volta. Foi um prazer estar consigo. Voltamos na graça de Deus na próxima semana.

Até lá.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 33
Estreou
16 de Dezembro de 2025
Categoria
Saúde