Olá, mais uma vez, mais uma semana, mais um episódio. Mentes que sentem, este que já é o seu programa. Já há algum tempo estamos juntos, com alegria, com a ajuda de Deus e continuamos aqui neste nosso canto, como a doutora Cristina costuma falar, mais aconchegado, mais familiar, mais seguro, para estarmos juntos com a graça de Deus. Cristina, mais uma vez, obrigada pela tua presença e seja bem-vinda. Obrigada, é um gosto, um prazer estar aqui contigo e estar aqui consigo também. É verdade, nós estamos felizes porque até aqui nos tem ajudado o Senhor e já completamos um ano de episódios deste Programamentos que Sentem e por isso no último episódio nós iniciamos estes episódios especiais de resposta a algumas das perguntas que nós fomos recebendo ao longo deste tempo que estamos consigo.
Então, Cristina, nós no episódio anterior iniciamos ou trouxemos aquela pergunta de algum ouvinte que nos fez qual o papel ou a importância da família na saúde mental. Não chegamos a concluir algumas do raciocínio que tu tinhas trazido. Então hoje eu trago-te novamente esta questão de se, como disse no episódio anterior, a família é só ou mais importante na infância.
Nós no episódio anterior estivemos, para tentar responder a essa pergunta, falamos da questão da vinculação. O que é que era a vinculação, qual o impacto, como é que se formava, a estabilidade ou a ausência de estabilidade e os modelos que eventualmente estão associados a isso. E no âmbito da psicologia moderna e da questão da teoria da vinculação moderna, aquilo que se pressupõe é que os modelos aprendidos na infância, pelo primeiro contexto que tu tens, seja ele uma família nuclear ou estando tu noutras circunstâncias, vão servir-te de base para toda a vida. Portanto, a verdade é que a família tem um papel fundamental no teu início de vida, mas vai acompanhar, o impacto vai acompanhar-te ao longo da vida toda.
Então, isso significa que nós estamos, digamos assim, entre aspas, determinados pela família. Ainda bem que a resposta da ciência é não, porque senão provavelmente muitos de nós estaríamos neste momento a entrar num momento de desespero até e de desconforto, porque nós sabemos que há situações em que temos famílias que não são as ideais, contextos mais desafiantes, mais problemáticos. Então, o que a ciência diz claramente é que a família influencia, mas não determina. E há vários estudos nesse âmbito. Eu trouxe um. Foi feito na década de 70 por um investigador chamado Alan Suff, um investigador norte-americano. E ele, no Minas Ota, fez um estudo longitudinal, portanto, que acompanhou ao longo do tempo aqueles que eram os sujeitos do estudo, os participantes do estudo, E era um estudo sobre o risco e sobre a adaptação.
Portanto, aqueles que participaram no estudo, ele e a equipa dele acompanharam-nos desde antes do nascimento, portanto durante a gestação, até à idade adulta. Por isso é que se chama longitudinal. E entre várias questões que eles gostariam de ver respondidas, algumas, duas delas eram, como é que a vinculação ou o apego que tu tens no início da tua vida influencia o teu desenvolvimento? Esta era uma das questões. E a segunda questão era, como é que as tuas relações precoces moldam as tuas emoções, as tuas relações amorosas e até a tua saúde mental? Então, algumas conclusões a que chegaram foram. Primeiro, o apego ou a vinculação influencia fortemente a tua vida futura.
Coloca ali quase como um selo. As primeiras experiências que tu tens vão moldar o teu cérebro. Lembra-te que nós já falamos que o nosso cérebro tem a capacidade da neuroplasticidade, portanto que é algo fantástico, mas ele é moldado por aquilo que nós lhe damos, de alguma forma. Então, moldar este cérebro emocional significa que tem impacto nos teus mecanismos de regulação emocional, tem impacto no desenvolvimento da tua confiança e tem impacto também nesta sensação de segurança que tu poderás ou não ter. Então, a ideia central que eles percepcionaram é, primeiro, tu tens as relações com aqueles que estão à tua volta.
Segundo, tu internalizas a mensagem que estas relações te dão. Em termos da ciência, nós dizemos que as pessoas constroem representações mentais de quem é que elas são, daqueles que estão à sua volta e do mundo no qual elas vivem. E isto tem uma influência importante. Imagina que eu construo uma representação mental de que a figura feminina é uma figura ameaçadora. Eu vou para a escola primária e eu tenho uma professora. Eu vou transpor este senso de ameaça e que tenho que me proteger. Ele acompanha-me de alguma forma. Por outro lado, eles também perceberam que o trauma e a negligência têm efeitos duradouros ao nível da saúde mental e até física das crianças e futuros adultos.
Sendo que as variáveis que eles consideravam trauma ou negligência eram, por exemplo, o abuso. O abuso seja físico, seja verbal. A negligência, seja uma negligência física, porque não atendemos às necessidades básicas e emocionais da criança, ou até uma negligência emocional. a própria instabilidade familiar que pode ocorrer e o stress. Existir num contexto mais ou menos stressante. Agora, há uma questão que é muito positiva, que eles descobriram também ao fazer este estudo, é que nem todas as crianças que passam por traumas desenvolvem problemas graves. E também uma outra questão que eles percepcionaram foi que nem todos os pais que vêm de uma situação de abuso, que foram abusados, se tornam em pais abusadores.
E nós tínhamos muito esta permissão transgeracional, ou seja, se eu vivi abuso na minha infância, eu vou ter tendência a reproduzir os mesmos comportamentos. Eles o que percepcionaram é que do grupo de estudo que estavam a acompanhar, apenas um terço das pessoas desenvolveram este tipo de situações, o que é uma boa notícia. Então, acabaram também por vincar esta noção de que a vinculação é efetivamente um fator de probabilidade. Portanto, há uma probabilidade que tu venhas a desenvolver determinadas características, mas não é um destino. Ou seja, ao longo da experiência de vida daquelas crianças, adolescentes e futuros adultos, eles perceberam que a existência das relações de apoio a existência de níveis de estabilidade, a existência de outras figuras que assumiram o papel de cuidadores.
Uma intervenção precoce pode, de alguma forma, alterar o percurso da tua vida de forma positiva. Por outro lado, nós sabemos que o desenvolvimento humano é feito por etapas, portanto, e assenta também na capacidade neurológica de resposta que nós temos. E cada fase constrói as bases, a capacidade para a próxima fase. E eles desenvolveram o conceito dos caminhos de desenvolvimento. Eles disseram, de alguma forma, se ao longo destes caminhos de desenvolvimento são introduzidas aqui variáveis que reforçam pela positiva, isto vai interferir na forma como tu te desenvolves. Ou seja, o desenvolvimento não é totalmente determinado pela infância.
Ele é influenciado, mas ele não é totalmente determinado, o que sem dúvida é uma muito boa notícia. Então nós poderíamos então dizer que E lá vai a pergunta, que família é o fator mais importante? Nós podemos dizer que no início de vida, que é um dos fatores mais importantes, sim. Isso acresce uma responsabilidade sobre cada um de nós, de alguma forma. Mas o mais correto é dizer que a nossa saúde mental constrói-se em relação com os outros. Portanto, a família é o primeiro capítulo, não é o livro todo. Ainda sobre esta situação, Cristina, e antes de irmos para intervalo, podes deixar algumas sugestões práticas para as nossas famílias, para os cuidadores? São mesmo apenas algumas sugestões, coisas muito simples.
Oportunamente, noutros episódios, teremos a oportunidade de explorar de forma diferente. Tendem atenção que estamos todos num processo de aprendizagem. Portanto, qualquer um como cuidador está também a aprender, qualquer um como filho, como pai está a aprender. Portanto, uma das mensagens que eu gostaria de deixar a ti, àqueles que nos ouçam, é não fiquem frustrados. Ou não se rendam à frustração. Nós vamos ter desafios ao longo do tempo. Vamos ter momentos melhores e piores. Mas há algumas sugestões base. E a primeira é aquilo que já tantas vezes temos repetido. Vamos separar, tentar fazer um esforço para separar a identidade do comportamento. Uma coisa é eu estar constantemente a dizer a uma criança, tu és preguiçoso.
A criança vai internalizar, vai criar um modelo de representação sobre si mesma como sendo uma criança preguiçosa. Outra coisa é eu dizer, olha, parece-me que isto está a ser difícil para ti. Será por causa disso que tu não queres fazer? Portanto, às vezes aquele comportamento que a criança tem pode efetivamente ser um comportamento de preguiça, como pode não ser. Pode ser um comportamento de proteção. Outra questão que também temos falado várias vezes é validar antes de corrigir. O que é que nós queremos dizer com isto? Primeiro a emoção, depois a solução. Olha, eu acredito que isto te possa ter deixado muito zangado, mas Não é forma de bater no humano, ou não se resolve dessa forma, ou há outras soluções.
Primeiro validarmos aquilo que a criança sente. E o validar não quer dizer que estejamos a desculpar, estamos a reconhecer o impacto que aquilo teve na criança. Outra questão que é muito difícil, e eu creio que nas nossas famílias nós temos pouco cuidado com isto, que é permitir que o erro ocorra sem humilhação. E nós com frequência dizemos que estamos só a brincar ou então agora não se pode dizer nada. Não é isso que eu estou a dizer. As brincadeiras podem ocorrer, mas nós temos noção quando uma brincadeira é ofensiva, quando uma brincadeira vai de alguma forma magoar ali a pessoa. Erros todos cometemos. Já é suficientemente desconfortável eu estar a ligar com um erro, quanto mais eu sou humilhado por causa do erro.
Então, aprender que eu posso errar e mesmo ficando com vergonha não significa que isso tenha que me paralisar. Eu não desenvolvo assim um medo incapacitante ou um medo extremo. Por outro lado, também temos falado várias vezes sobre isso. Dar autonomia progressiva nas tarefas. Portanto, pequeninas tarefas adequadas à idade das crianças vão permitindo esta autonomização progressiva que é fundamental como uma base na idade adulta. E ser exemplo, ser exemplo emocional. O nosso cérebro, ele aprende mais pelo que vê do que propriamente por aquilo que ouve. E eu aqui gostava de trazer um exemplo que eu achei delicioso. Alguém partilhava comigo, dizia tem um filho com 4 anos.
e, neste caso, era a mãe, e a mãe estava a começar a ficar alterada com algo que a criança estava a fazer. E o pequenino virou-se para a mãe e disse-lhe, olha, mamã, eu acho que tu precisas de respirar. Acho que precisas de ir para aquele cantinho ali e respirar um bocadinho. E o que é que é isto? É exatamente o que a mãe lhe diz quando ele começa a ficar um bocadinho mais alterado. Portanto, se funciona para mim, funciona para ti, de alguma forma.
Nós vamos já continuar, já nos encontramos, vamos apenas fazer um breve intervalo. Até já. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança. E cá estamos novamente, voltamos, pela graça de Deus, para continuar este episódio do seu Programamentos que Sentem e que já nos conhece e já está connosco há algum tempo, sabe que temos este manual para lhe oferecer. Se é novo, se está connosco pela primeira vez, não deixe de perder esta oportunidade de poder pedir este manual de estudos, Sentimentos, a Ciência do Existir, onde aqui encontrará alguns ensinamentos, alguma informação sobre esta questão da saúde mental.
Muito importante para todos nós, sem dúvida, então contacte-nos através do 933 939291 que vê aí a passar no rodapé e teremos muito gosto em enviar para si. 933 939291 para si ou para algum familiar que queira oferecer. Cristina, Uma outra pergunta que eu gostava de fazer e que também chegou até nós. Como podem os pais perceber se um filho está a passar por dificuldades emocionais? Eu acho que isto realmente é muito, muito importante. É extremamente importante, é amplamente válida essa questão. Nós já temos respondido essa questão várias vezes, mas eu vou tentar agregar aqui um bocadinho a informação para sermos mais objetivos.
Então, a primeira questão que eu gostava de deixar claro é que muitas vezes os pais não conseguem ver esta situação diretamente. Ela aparece frequentemente de forma indireta. Ou seja, temos essa perceção pela avaliação de sinais, através de mudanças no comportamento, nas rotinas, na forma como a criança ou adolescente se relaciona com o mundo. Do ponto de vista psicológico ou emocional não existe um sintoma isolado. Aquilo que existe é um padrão. Existirá um padrão de mudança em relação àquilo que é habitual? Então este é o primeiro sinal de alerta. Estou eu a percepcionar que há mudanças persistentes ou súbitas naquilo que é o comportamento normal do meu filho?
E às tantas a pergunta que nós devemos colocar é, o que é que mudou? o que é que eventualmente desapareceu ou o que é que ficou mais intenso. Portanto, avaliar faça aquilo que é a normalidade do que nós conhecemos. Está mais isolado, evita a família e os amigos, tem perda de interesse nas coisas que gostava, tem uma irritabilidade ou uma explosão emocional descontextualizada, tem uma queda da motivação geral, portanto, isto eram coisas que não faziam parte do comportamento habitual da criança, podem ser sinais de alerta. Outro sinal de alerta, outro indicador é o padrão de sono. Nós temos falado também várias vezes na importância do sono para o equilíbrio emocional. A criança tem dificuldade em adormecer, tem dificuldade em insónia.
A criança acorda, por exemplo, muito cansada. Ela dorme excessivamente. Ela tem queixas constantes de fadiga. Será que nós estamos a lidar com isto? Outra questão tem a ver com a mudança do desempenho escolar. Durante a infância e a adolescência, a escola funciona muito como um termómetro emocional. Porque é o contexto onde as crianças, habitualmente, se encontram para além da família. E passam muitas horas. E passam, efetivamente, muitas horas. Quais são alguns dos sinais de alerta? queda súbita nas notas, falta de concentração, a desmotivação ou desistir de fazer as tarefas, o evitar ir à escola, o aumento de faltas, por exemplo. Outra questão que também é importante tem a ver com o estado de humor da própria criança.
Será que a criança começa a demonstrar uma tristeza ou uma apatia emocional? Uma tristeza mais frequente ou uma apatia? Será que nós temos uma criança que de repente começou a manifestar muita ansiedade ou sinais de mais ansiedade? tem muito medo de errar. Eu me recordo de uma situação de alguém que partilhava comigo, que o sobrinho, por exemplo, fazia o exercício, o trabalho de casa que a professora tinha pedido e mal tinha terminado apagava outra vez, apagava e voltava a fazer e refazia isto constantemente, constantemente, porque tinha receio que apesar de estar bem feito não fosse suficiente. Estaremos a falar de uma criança que demonstra baixa tolerância à frustração, que chora com facilidade ou que tem uma reatividade até com as tais explosões emocionais descontextualizadas.
Outro indicador tem a ver com a linguagem. Muito atentos às expressões que as crianças utilizam. E mais uma vez volto a dizer, tem a ver com a frequência. Expressões como não consigo, sou um burro, não vale a pena tentar, ninguém gosta de mim, são indicadores de alerta. Outro indicador de alerta é também se houve alguma mudança significativa na relação com os pais. Portanto, a criança evita falar ou responder, por exemplo, ou até responde de uma forma agressiva ou evasiva. Deixa de partilhar experiências que eram coisas normais. Atenção, aqui eu não estou a falar das fases de transição. É muito comum nós termos situações em que na infância a criança era verborreica, quase que dizíamos isso, e na adolescência passou para um adolescente calado.
Não há uma palavra só. Exatamente. Isto às vezes tem a ver com as fases de transição. Parece que a criança está assim hepática ou desligada e outro indicador de alerta para os pais são as causas de somatização, as queixas físicas, a somatização sem causas aparentes. Está uma barriga, a dor de cabeça, a tensão muscular ou queixas inespecíficas. Portanto, tudo isto poderão ser indicadores de alerta que podem ajudar os pais a perceber que o seu filho, a sua filha ou algum familiar poderá estar a lidar com um problema. E então eles percebendo isso, o que é que poderão fazer? Ok. Há coisas que estão ao nosso alcance, há outras que não. Nós temos que ter noção disso.
Primeiro, e eu quero voltar a referir, é observar o padrão, tá bem? Não é um episódio isolado. Todos nós temos dias maus. As nossas crianças e os nossos adolescentes também têm dias maus. Portanto, isso tem que ser algo com alguma consistência no tempo, tá bem? E quando eu digo no tempo, não é uma semana. Isso. Que eventualmente, a menos que seja um sintoma mais grave. Uma das questões que poderá ajudar é fazer aquilo que nós chamamos de perguntas abertas. Nós temos muita tendência a dizer o que é que tu tens e às vezes não temos consciência que isto causa ali uma barreira, porque a criança fica na defensiva. Então fazer uma pergunta aberta é algo do género. Olha, eu tenho notado que estás diferente. Queres falar sobre isso? Estás a dar espaço para que a criança decida se quer ou não quer.
Outra questão que também é muito importante, tinha a ver com aquilo que já falávamos, a validação das emoções, mas também o evitar a pressão imediata para que a criança fique bem. Isto porquê? Porque é óbvio, enquanto cuidadores, enquanto pais, nós desejamos o bem daqueles que estão connosco. E se eles sofrem, nós sofremos com eles também. E desejamos o melhor para eles. Mas às vezes, nesta nossa vontade de querer ajudar, nem sempre percebemos que estamos a colocar sobre eles um fardo que eles têm que mudar automaticamente ou têm que melhorar automaticamente. E, na grande maioria das vezes, a primeira necessidade da criança nestas circunstâncias não é uma solução, é uma presença. Essa é a primeira necessidade. A criança precisa de uma segurança.
Então, eu até poderei, perante aquilo que eu estou a assistir, dizer não, efetivamente eu tenho que recorrer a uma ajuda especializada, o que é amplamente legítimo. Mas estar presente, mesmo com um silêncio, a criança percepcionar que tu estás ali, poderá ser o primeiro fator que faça a mudança. Cristina, uma outra questão que foi colocada pelos nossos ouvintes é a seguinte, que mensagem gostaria de dizer ou poderia deixar às pessoas que estão a lutar
silenciosamente com problemas emocionais? Silenciosamente, essa é a palavra-chave. E eu acredito que há um número bastante superior àquele que nós temos perceção, de pessoas que lidam, que lutam silenciosamente com desafios. Então a primeira coisa que eu gostaria de dizer é que se estás a passar por isso, isso não te torna fraco. Ou seja, às vezes o problema não é falta de força, é o excesso de carga ao longo do tempo. E nós utilizamos aquela expressão, ninguém é de ferro. É verdade, ninguém é de ferro, mas a questão é enquanto estamos a atravessar esse período. Muitas vezes sentimos que já não conseguimos mais, que aquilo ultrapassa a nossa capacidade de resposta.
E muitas dificuldades emocionais não são visíveis. Às vezes até temos dificuldade em atribuir-lhes uma designação ou pô-las por palavras, mas isso não as torna menos reais de todo. E quando isto acontece, o nosso cérebro entra em modo de proteção comum. Algumas características típicas, ele evita, ele adia, ele tende a ficar desligado emocionalmente quase, como aquele nuveiro mental que já tantas vezes temos falado. Agora, a verdade é que muitas pessoas que estão a passar por isto não precisam de grandes mudanças para começar. Precisam de um pequeno passo, de um gesto simples, de uma questão que nos ajude a receber a noção de que continuam a ter algum controle.
Se tu estás a passar por uma situação que é difícil, a primeira questão é que tu não tens que resolver a tua vida hoje. Tu também não tens que saber o que é que vais fazer amanhã. E tu também não tens que te sentir pronto. Se nós estamos à espera de ver respondidas estas questões, acho que dificilmente algum de nós conseguirá. Mas começa por fazer coisas muito simples. Uma coisinha pequenina que te tira deste modo passivo. Às vezes é respirar, às vezes é ir beber um copo de água, às vezes é enviar uma mensagem a alguém, às vezes é sair e ir à rua um pouquinho, sair de um contexto. E sobretudo quando nós estamos a passar silenciosamente, nós temos receio de nos expormos. E eu não estou a dizer que o vais fazer a qualquer pessoa.
Mas, certamente, tu terás alguém a quem poderás mandar uma mensagem e pedir, olha, podemos falar um bocadinho? E às vezes até podes não dizer nada, podes dizer, olha, não tenho capacidade para falar, mas eu preciso estar na companhia de alguém. Porque às vezes o primeiro sinal da mudança é dar este primeiro passo. Portanto, se estás a passar por isto, não tens falta de força, não estás a lidar com uma incompetência da tua parte. Provavelmente estás a lidar com uma carga amplamente difícil, mas quanto mais nós a internalizamos, quanto menos a partilhamos, mais difícil ela se torna. Então, o primeiro passo para a mudança é quebrar o isolamento e quebrar
pequeninas, dar pequenos passos. Coisas muito simples que tu possas fazer, mas que te devolvam um bocadinho a noção de que eu ainda controlo alguma coisa. Com certeza que teremos a oportunidade nos últimos episódios de continuar estas reflexões. Estavas a falar, Cristina, eu estava a me lembrar, aliás, há vários salmos que nos podem ajudar em momentos desafiadores, sem dúvida, e esta questão de muitas das vezes encontrar alguém para nós, nem que seja partilharmos uma caminhada, não é preciso partilhar uma palavra, pode ser uma caminhada. E há vários salmos muito bonitos e eu gostava de deixar para si, que talvez este episódio possa ter dito alguma coisa ou se identifique, no salmo 27, versículo 14, diz assim, espera pelo Senhor, tem bom ânimo, fortifique-se o teu coração, espera pelo Senhor.
e não há nada como um dia depois do outro. E se hoje não estamos bem, acreditemos em Deus que amanhã será melhor. Então, Cristina, mais uma vez, obrigada de coração. Para si, receba o nosso abraço. Já sabe, nos encontraremos na próxima semana, se Deus quiser. Até lá.