Olá, seja muito bem-vindo a mais um programa, este que é o seu programa Mentes que Sentem. É sempre com muita alegria que estamos aqui e gratos ao Senhor porque poderemos continuar aqui junto consigo, consigo, com a sua família, com os seus amigos e os queridos que seguramente já partilharam um ou outro momento connosco neste encontro muito particular, muito familiar, mas que pedimos a Deus vá ao encontro das suas necessidades. Como sempre, nós temos a doutora Cristina Dias connosco. Cristina, se é muito bem-vinda. Na graça a Deus. É bom ver-te. Obrigada, Milu, e hoje em particular ainda é melhor. E ainda é melhor porque, e vamos agora desvendar, porque nós já completamos, pela graça de Deus, um ano de programas de episódios que estivemos aqui no seu programa Mentes que Sentem.
Então, louvado seja Deus, parece que foi no outro dia que começamos e já passou um ano que aqui estamos juntos consigo e continuando a pedir a Deus que nos possa ajudar a todos nós. Então, por termos completado já um ano de programas, nós neste gostaríamos de poder fazer, neste e no próximo episódio, algo de muito particular e diferente. Então, o que é que nós pensamos? Como temos recebido várias perguntas, Então, pensamos poder trazer até vós algumas das respostas a algumas das perguntas, porque, entretanto, vamos recebendo outras, que possivelmente faremos depois, noutro episódio, para responder exatamente a isso que nos vai questionando, que nos vai perguntando, que vai surgindo, Cristina, ao longo de todo este ano e, exatamente, que houveram muitas perguntas que foram colocadas.
Então, eu vou começar por uma, Cristina. e uma delas que nos foi colocada e que é realmente muito pertinente. Quando nós falamos de saúde mental, qual é afinal o papel da família?
Ok, Milo, obrigada. E antes de começar a responder essa questão, eu gostaria de aproveitar para agradecer àqueles que estão connosco. Àqueles que estão connosco frequentemente, àqueles que estão connosco esporadicamente e àqueles que estão connosco pela primeira vez. Pelo vosso voto de confiança, pela vossa participação neste que é um espaço que nós consideramos seguro para podermos abordar estas questões. A família. Provavelmente quando nós colocamos essa questão intuitivamente nós dizemos claro que tem importância, claro que tem impacto, claro que tem uma interferência na questão da nossa saúde mental. Mas será que nós temos verdadeira noção do tipo de influência e o que é que a ciência diz sobre isso?
Então é nessa perspectiva que eu gostaria de tentar responder a esta pergunta. E começaria por fazer aqui duas comparações que aparentemente estão descontextualizadas, mas eu já vou fazer o L de ligação. Há uns anos atrás li duas crónicas de opinião em jornais diversos. que me despertaram o interesse e me deram vontade de rir. Uma delas era a experiência, até muito bem humorada, a forma como estava escrita, de um senhor de nacionalidade britânica que tinha vindo, na idade da reforma, residir para Portugal. Enquanto dava os primeiros passos no domínio da língua portuguesa, deparou-se com uma expressão que lhe causava muita confusão. Ele dizia que ouvia as pessoas constantemente a dizerem Então pá, e pá.
E ele, por mais que tentasse compreender o significado daquilo, não conseguia. Foi ao dicionário. E o dicionário, a definição dizia algo do género. Pá, instrumento de trabalho que pode ser utilizado, sei lá, olha, na construção ou na agricultura. Ainda mais confuso ficou o senhor. E depois ele acabava por relatar, com muito sentido de humor, o que é que efetivamente tinha acontecido. Vamos ao segundo exemplo e já vamos tentar responder à tua questão. Há a questão que nos foi colocada. Uma outra crónica de opinião. Neste caso, escrita por um escritor literário do Brasil, portanto um senhor bastante conceituado no mundo literário. Ele relatava que vinha de uma família humilde e o seu maior desejo quando era miúdo, relatava ele na crónica, era poder comer uma maçã.
E nós olhamos, no nosso país a maçã é um fruto que não é raro, por contrário, é um fruto muito comum. Se tu dissesses, olha, quero comer uma manga ou uma papaya, que são frutos que não são tão frequentes no nosso país, mas que no país dele eram frutos frequentes. Então ele diz que numa determinada ocasião festiva, já não sei precisar se natal, se aniversário, a lembrança dele foi uma maçã. E ele detalhava a dúvida existencial quase que teve do género como ou não como. Experimente o sabor ou limite-me a contemplar a cor, a cheirar a textura. E nós olhamos para estes dois exemplos e compreendemos claramente. que existem aqui circunstâncias de vida, do meio onde tu cresces, do ambiente familiar, das experiências que tu vais tendo ao longo do tempo, que condicionam a forma como tu te posicionas em relação às situações.
Foi o caso daquele senhor britânico, para ele era uma questão cultural, ele não compreendia culturalmente uma coisa que tem a ver com a nossa realidade. O outro senhor, a questão da maçã, era uma coisa que não era acessível pelo contexto econômico da família, pelo lugar onde viviam. Portanto, isso teve impacto. Então, se nós transportarmos isto para o contexto da importância da família, a família nuclear, na nossa situação de saúde mental, o que a ciência nos tem dito é que ela é normalmente o primeiro ambiente onde o cérebro humano aprende algumas coisas fundamentais que servem de base para o resto da sua vida, nomeadamente como lidar com emoções, como lidar ou interpretar o mundo, estou numa situação segura ou insegura, como lidar com o erro e com a frustração e também qual o nosso valor enquanto pessoas.
E um cérebro em desenvolvimento, e todos nós já passamos por isso, E em alguns momentos ainda lidamos com estas questões. Tem questões que podem não ser tão perceptíveis, mas são fundamentais. Questões como? Estou seguro? Será que eu sou valorizado? Posso errar? Será que alguém me vê? Me vê enquanto pessoa? Me atribui valor? Eu tenho controle sobre a minha vida? Eu consigo agir sobre? E talvez aquela que possa ser a pergunta mais relevante, que é o que é que me acontece se eu errar? porque nós temos muito medo do erro. Na década de 1970, houve um investigador, o Dr. Ed Tronick, que fez uma experiência que depois foi amplamente replicada.
Chama-se The Steel Face. Aliás, se depois quiserem ver no YouTube, ela está disponível. Então, o que ele tentava perceber era como é que se desenvolvia e qual o impacto da relação entre um cuidador e uma criança, neste caso o cuidador primário, que poderia ser o pai ou a mãe, mas neste caso foi a mãe que foi escolhida. E a experiência era algo muito simples. Tu tinhas uma mãe, tinhas uma mesa, tinhas a mãe sentada deste lado, e do lado oposto da mesa tinhas uma criança pequenina, bebê ainda, mas que já interagia. Estava sentada na cadeirinha dele. E a mãe estava a interagir com esse bebê, portanto falava, cantava, brincava, tocava no bebê e o bebê respondia. Portanto, respondia balbuciando, palgrando, tentando mexer nas coisas, aquilo que é absolutamente normal.
A verdade é que o objetivo da experiência era tentar perceber como é que a criança reagia quando isto deixava de ocorrer. Então a mãe a determinada altura virava a cara para o lado e quando voltava novamente a olhar para a criança tinha uma expressão que não tinha emoção. Ou seja, still, parada. Portanto, a criança olhava para a mãe e interagia, fazia aquilo que sempre fez. Portanto, tentava balancear, brincar, tentar mexer. A verdade é que a mãe não reagia. E isto demorou, esta ausência de expressão emocional, demorou cerca de dois minutos. Nesses dois minutos é impressionante ver a reação das crianças. A criança começa num primeiro contexto, a brincar, depois quando vê que não tem reação, começa a aumentar o nível de voz, portanto começa a gritar, a chamar a atenção, tenta agarrar, depois começa a ficar claramente muito desconfortável e a tentar mexer-se e sair da cadeirinha.
E numa última instância nós vemos as crianças a chorar compulsivamente e algumas delas inclusive a morderem-se, porque é uma forma de aliviar todo aquele desconforto. E agora a pergunta que nós colocamos é, se em dois minutos, em que tu deixas, a pessoa está lá presente, mas deixas de ter uma interação, que é considerada vital para aquela criança, ela tem esta reação, o que é que acontecerá depois? Há uma frase que eu gosto particularmente, que diz assim, a segurança emocional aprende-se antes de se pensar. Tu percepciones uma coisa antes que ela seja entendível, perceptível de alguma forma. Portanto, quando nós falamos de família, e existem várias famílias, vários contextos de família neste momento, nós estamos a falar dos primeiros cuidadores da criança.
Então, aqui nós não estamos a falar apenas no papel de quem cuida, porque quem cuida Quer queira, quer não, também ensina desde o início à criança se o mundo é um lugar seguro ou inseguro para essa criança estar. Então, Cristina, o que quer dizer na prática esta questão desse sistema de
segurança emocional? Ok, vamos tentar traduzir isto de forma mais simples. Durante os anos 20, o século 20, perdão, a psicologia do desenvolvimento teve um boom, por assim dizer, um crescendo a nível de investigação e de coisas que foram fundamentais para aquilo que somos hoje e continuam a ter o seu desenvolvimento. E houve um investigador, um psiquiatra britânico, o Dr. John Balby, que ele, na sequência das suas investigações, deu origem a uma teoria que é chamada a teoria do apego ou teoria da vinculação. Ora bem, o que é vinculação? O dicionário define vinculação como o ato ou o efeito de ligar-se a.
Tu vinculas-te a. E, mais tarde, os estudos dele foram desenvolvidos também por outros investigadores e um dos investigadores mais importantes também foi uma psicóloga chamada Mary Ainsworth. E ela, entre várias experiências que desenvolveu, desenvolveu uma experiência que também tem sido amplamente replicada, que se chama The Strange Situation. Portanto, a situação estranha. O que é esta experiência? Eles simularam o ambiente de uma sala de estar, de uma casa. Então, entra uma mãe e entra a criança. Estamos a falar de crianças feixas etárias entre um ano a 18 meses, um ano e meio, sensivelmente.
E a criança fica desconfortável porque entra num ambiente que é estranho, mas é um ambiente que não deixa de ser apelativo, porque o chão está cheio de brinquedos. E a mãe faz aquilo que normalmente faz em casa, brinca com a criança. Portanto, tu vês a mãe e a criança a interagirem. Agora, o que é que eles estavam interessados? Eles foram mudando variáveis. E as variáveis, a mudança de variáveis eram coisas do género. Está a mãe e a criança a brincarem, de repente entra uma pessoa estranha à criança e senta-se aí num sofá. E eles estão sempre a tentar perceber qual é a reação da criança e qual é a reação da criança em relação à sua própria mãe. Depois, este estranho tenta interagir com essa criança na presença da mãe. A seguir, outra variável que é introduzida é a mãe sai e a criança fica sozinha com o estranho.
A mãe regressa, passado algum tempo sai o estranho e fica a mãe novamente com a criança. E passado um bocadinho sai a mãe e a criança fica sozinha. Isto tudo, claro, em períodos de tempo muito curtos. O que é que eles estão a tentar perceber? Qual é a reação da criança quando a mãe regressa? Ou qual é a reação da criança quando tem um elemento estranho no espaço? E o que é que eles foram percebendo à medida que foram introduzindo várias crianças e várias famílias a esta experiência? Porque crianças que têm níveis de vinculação seguros tendem a acalmar-se muito mais rapidamente e a voltarem a brincar. Portanto, imagina, a mãe saiu da sala, a criança ficou sozinha, chora, fica absolutamente aflita.
Mas a mãe regressa e se nós temos aqui um desenvolvimento de um nível de vinculação que traz segurança à criança, ela com facilidade acaba por se acalmar E acaba por voltar a fazer aquilo que uma criança desta idade faz, que é explorar o mundo à sua volta. Perceberam também que crianças que têm níveis de vinculação inseguros, em que há ambivalência, e ambivalência em relação ao quê? Em relação à mensagem que é transmitida pelo cuidador. Não há consistência. A criança não encontra um padrão. Portanto, eu tanto posso ser acolhida como eu posso ser rejeitada. É isto que ocorre. Então, crianças que têm níveis de vinculação inseguros, na realidade, elas acabam por desenvolver reações também ambivalentes ou evitativas.
Por exemplo, as crianças não conseguem parar de chorar. Ou, depois de se acalmarem, acabam por evitar brincar. Ou seja, sempre que uma criança está em stress, e agora estamos a falar de crianças pequeninas, ela procura uma figura de proteção. E se essa figura responde de uma forma consistente, previsível, tu crias um padrão seguro de vinculação. Por exemplo, imagina um bebê que desperta à meio da noite e chora. Se tu tens um cuidador que com alguma consistência vai lá e tenta acalmar a criança, e isto é consistente no tempo, a criança acaba por perceber, quando eu preciso, alguém vem. Isto estabelece a base para que futuramente, um futuro próximo e um futuro um bocadinho mais distante, nomeadamente até numa adolescência ou num espaço adulto, a pessoa se sinta mais ou menos segura para enfrentar desafios e aquilo que está à sua volta.
Muito bem. Com certeza que vamos continuar a refletir sobre esses assuntos tão importantes. Vamos, no entanto, fazer a nossa pausa habitual e já voltamos. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança.
E cá estamos novamente para a segunda parte de mais este episódio, de estarmos consigo. Queria continuar a recordar-vos este privilégio e esta oportunidade que nós temos de poder receber aí na sua casa ou na casa de algum amigo ou de algum familiar este manual de estudo que nós temos para si, Sentimentos da Ciência do Existir, que será um privilégio para nós poder enviar para si e com certeza que será uma mais-valia na busca e no encontro destas informações tão importantes em relação à nossa saúde mental. Então já sabe, contacte-nos através de 933 939291 e nós teremos muita alegria e com certeza muito prazer em poder enviar para si. Com muito carinho e agora que já estamos há mais de um ano, Possivelmente tem amigos que ainda não têm este manual, então será uma excelente oportunidade.
Cristina, estavas a falar há pouquinho sobre esta experiência extraordinária que foi feita com este bebê, a sua mamãe e depois um outro elemento externo que acaba por chegar. Estavas a falar sobre esta questão da base, ou a importância dessa base. E a minha questão que agora eu coloco é, e se essa base não existir? Ou se não é segura, não é? Essa é uma questão amplamente pertinente e permite-me usar dois exemplos para podermos entrar nessa questão. Recentemente, este é um exemplo caseiro, recentemente tive uma experiência que ainda hoje me traz um sorriso aos lábios e teve a ver com uma situação de um dos meus filhos. Portanto, ele costuma apanhar o autocarro quando vem da escola.
e tínhamos combinado que iríamos encontrar-nos numa determinada paragem, num determinado lugar. A verdade é que ele demorou mais tempo do que era habitual e eu pensei, bom, olha, deve ter adormecido e saiu na paragem a seguir, eventualmente. Porque ele ligou-me a dizer que tinha saído num outro local, não, perdão, que tinha demorado um bocadinho mais, mas que depois me explicava. E eu logo conjeturei, pronto, ou adormeceu ou perdeu-se distraído com alguma coisa. Nisto, quando nos encontramos, ele diz-me assim, não, apanhei o autocarro errado. É o que eu te digo, dá-nos vontade de rir, não é? E eu olhei para ele e pensei, como é que é possível que tenhas apanhado o autocarro errado? E aqui nós já falamos sobre a questão do nosso cérebro e que o nosso cérebro não é factual.
Ele preenche os espaços vazios. Já falamos inclusive da atenção e da memória. E ele disse-me, olha mamã, eu vi o nome da localidade para onde íamos e imagina que o número do autocarro é um, dois, três, quatro, vamos supor. E naquele caso o autocarro era 1, 2, 3, 5, mas ele limitou-se para olhar para a localidade e para os dois primeiros. E diz-me ele, quando eu estava no autocarro, e a primeira parte do caminho foi igual, quando ele começou a fazer um caminho que era diferente, eu comecei a ficar atento e a começar a ficar um bocadinho atrapalhado. Eu sabia que ia parar no mesmo sítio, mas por onde é que ele me estava a levar? Até abri a aplicação do Google Maps para acompanhar, dizia-me ele. E nós rimos, mas a verdade é que nós, enquanto adultos, se estivéssemos numa situação semelhante, aquilo que foge da nossa previsibilidade iria deixar-nos desconfortáveis também.
Segundo exemplo, e já vamos responder concretamente à tua pergunta. Uma das coisas que nós fazemos com muita frequência, sobretudo com crianças pequeninas, é aquela brincadeira do cucu. Portanto, papas a cara e apareces subitamente à criança. Tipo um esconde-esconde, mas neste caso com uma criança pequenina bebê não dá para o fazer de outra forma. Mas a verdade é que se tu estiveres a falar, por exemplo, com uma criança de 3 anos e disseres vamos brincar às escondidas, imagina que estamos numa sala, mesmo que a criança não te consiga ver, a criança de 3 anos, ela sabe que tu existes, tanto que ela vai te procurar. Mas uma criança pequenina não tem ainda desenvolvido aquilo que nós chamamos de conceito da permanência do objeto.
Ou seja, isto só costuma ocorrer, só começa a ficar mais ou menos consolidado e isto é variável de criança para criança. aproximadamente aos dois anos de idade. O que significa que quando, por exemplo, tu estás com uma criança de um ano e faz essa brincadeira do cu-cu, estás atrás de um armário e apareces para a criança, tu estás a existir naquele momento. Mas quando tu desapareces, tu deixaste de fazer parte daquela realidade. Então agora pensa numa situação em que há imprevisibilidade. Estou eu agora a querer dizer que nós temos que estar 24 horas sobre 24 com as nossas crianças? Não, não é isso. Mas a verdade é que a criança começa a percepcionar se há previsibilidade de comportamentos ou não e o impacto que isso tem.
E para responder de uma forma científica à tua questão, Talvez um dos exemplos mais impactantes e tristes foi o que aconteceu em 1989 na Roménia. Na altura houve a queda de um regime, nomeadamente de Cháuzesco. E a verdade é que durante o seu período de governo, uma das medidas que ele tinha implementado era o incentivo à natalidade. E ele, inclusive, fazia o controle da natalidade, mas o controle da natalidade na perspectiva de que têm que ter filhos. Qual era a premissa básica? Segundo, de uma forma muito simples, isto é, quanto mais população, mais mão de obra, quanto mais mão de obra, mais capacidade econômica e a partir daí o país floresce.
A verdade é que isso não ocorreu, porque as famílias deixaram de ter condições para alimentar e para prover às necessidades de tantas crianças, tanto que os índices de mortalidade infantil e até materna acabaram por subir e muitas crianças foram abandonadas E foram parar àquilo que se chamam os orfanatos. E só quando há a queda do regime é que se começou a ter uma perceção mais ampla do que efetivamente estava a ocorrer nesses contextos. Mais tarde o governo, que entretanto tomou posse, pede ajuda internacional a investigadores na área. E o que é que eles vão encontrar? Primeiro, orfanatos com condições deploráveis. Muita negligência.
muito abuso, falta de higiene, falta de condições, muitas crianças apinhadas no mesmo espaço. Não havia praticamente contacto com o adulto e quando havia era para assegurar uma necessidade básica, enfiar-te a comida pela boca, por exemplo. Então, imagina, tu és um bebê de meses que não te consegues mexer. O teu dia-a-dia foi deitado numa cama a olhar para um teto. Tu és uma criança um bocadinho mais velha, tu não tens interação com um adulto que estimula a linguagem, que estimula a parte cognitiva, então tu estás a olhar para as paredes. E mais tarde várias equipas intervieram e desenvolveram aquilo que eles chamaram de projeto de bucareste, um projeto de intervenção precoce.
O que é que eles pretendiam saber? Por um lado, qual tinha sido o impacto na vida das crianças deste contexto e segundo, quais as formas de intervir para tentar minimizar esta situação. Perceberam que, tanto que depois houve uma sensibilização para a comunidade exterior e muitas destas crianças acabaram por ser adotadas por famílias no exterior. Também perceberam algumas premissas-base. que a ausência de cuidado consistente pode afetar profundamente o desenvolvimento emocional. Ou seja, aquela criança tinha alimentação. A higiene, infelizmente, não era a mais adequada. Não estou a dizer que a alimentação fosse a mais saudável, mas tinha alimentação, tinha uma necessidade básica assegurada. Mas isso era suficiente?
Não, não foi suficiente. Por outro lado, crianças privadas de relações estáveis, e relações estáveis com um adulto, por causa da questão da estimulação e da segurança, desenvolveram dificuldades cognitivas, dificuldades emocionais e dificuldades sociais. E isso reflete-se ao longo da sua vida, por exemplo, até nas relações que estabeleciam com as outras pessoas como adultos, dificuldade em confiar, por exemplo. E aquilo que se percebeu é que quanto mais cedo estas crianças tinham sido retiradas daquele contexto e colocadas num contexto mais estável, maior a probabilidade que tinham de poder ultrapassar as carências e o impacto que aquilo lhes causou.
E efetivamente há situações muito dramáticas, ou seja, era algo que empiricamente nós já sabíamos ou desconfiávamos, nós não tínhamos uma experiência visível. E este relato acabou por demonstrar aquilo que efetivamente nós processionamos depois na vida das pessoas. Portanto, efetivamente, a família tem um impacto fundamental na saúde mental, naquilo que nós desenvolvemos ao longo da vida também.
O tempo passa a voar, Cristina, mas dizer e se calhar deixar para o próximo episódio algumas outras perguntas também que vão ao encontro deste tema que nós estamos agora aqui a referir, porque poderá colocar-se a questão, será que esta questão da família é tão importante ou mais importante na infância do que noutra fase da nossa vida, mas nós teremos a oportunidade no próximo episódio de estarmos juntos. Obrigada mais uma vez, Cristina. Que Deus o abençoe e a abençoe. É sempre um prazer estar consigo e, na graça de Deus, nos encontraremos no próximo episódio. Até lá.
Qual é o verdadeiro papel da família na saúde mental? 🧠❤️
Neste episódio de Mentes que Sentem, conversamos sobre a importância das relações familiares, da segurança emocional e da vinculação no desenvolvimento de cada pessoa.