Dependências - Correntes Invisíveis III

Dependências - Correntes Invisíveis III

06 de Janeiro de 202625 min 52 s

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Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a mais um episódio deste que já é o seu programa, Mentes que Sentem. É sempre com muita alegria que nós estamos aqui para aprender mais, para crescermos. Se não for para nós alguns desafios que precisamos ou algumas práticas que aqui aprendemos, seja para aqueles que nós amamos, para aqueles que vamos conhecendo, porque o nosso objetivo aqui, com a ajuda de Deus, é ser uma mais-valia para a sua vida, e se está aqui é porque este assunto lhe interessa, talvez porque tem algum desafio, então está bem, está connosco, está com Deus. E estamos com a doutora Cristina Dias, mais uma vez, mais uma semana. Cristina, muito obrigada. Obrigada, Heomilu, quer a ti, quer a todos aqueles que estão connosco também.

Evolucao das dependencias

Muito bem. Nós, no episódio anterior, Cristina, nós já temos vindo a falar sobre esta questão das dependências e realmente aquilo que, no fundo, todos acabamos por perceber alguma dependência da nossa parte em relação a algum assunto, mas no último episódio, no fim, tu falavas sobre a questão de uma sondagem que se fez em Portugal, portanto alguns valores, algumas percentagens que nós vimos. E a pergunta que nos colocamos é, não deve ser só em Portugal, portanto a nível mundial ou algum outro país mais específico, que queres desenvolver nesta questão das dependências? Obrigada, Milu. E lembra-te que nós estamos a tentar responder àquela pergunta de estamos cada vez mais ligados, mas será que estaremos cada vez mais dependentes?

E a realidade norte-americana poderá ser também um bom exemplo a estudar. Algum tempo atrás eu li um estudo que está publicado num livro que se chama A Geração Ansiosa. Para aqueles que eventualmente se interessem por este tema, vale a pena ler esse livro. Ele foi publicado, escrito por Jonathan Haidt, um psicólogo social e investigador. e em que ele e a equipa dele tentaram perceber como é que andava o estado de saúde mental da população norte-americana e, neste caso, foram tentar perceber junto dos estudantes universitários norte-americanos. E foram avaliar o período entre 2008 e 2018. Vamos dar aqui um intervalo de 10 anos e ver de que forma é que poderá ter havido aqui alguma evolução ou não e qual a tendência.

E o que é que eles perceberam? Que a partir de 2010, sobretudo a partir de 2010, tinha havido na população universitária americana, tinha havido um aumento de 134% das taxas de diagnóstico de ansiedade e um aumento de 106% das taxas de diagnóstico de depressão. Como é que é possível que num espaço de tempo relativamente curto tenha havido esta explosão, por assim dizer? Tentaram também fazer uma avaliação, então já que a ansiedade teve estes níveis tão elevados, vamos tentar perceber por faixa etária, não apenas dedicando-nos à população universitária, vamos tentar a nível nacional ver pela faixa etária.

O que é que eles perceberam? que na faixa etária dos 18 aos 25 anos, desde 2010, tinha havido um aumento de 92% dos relatos de ansiedade. Na faixa etária dos 26 aos 34 anos, um aumento de 62%. Na faixa etária dos 35 aos 49 anos, um aumento de 18% e na faixa etária da idade igual ou superior aos 50 anos, um aumento de 7%. Isto são fatores que não são desprezíveis, são indicadores que não são desprezíveis e estão devidamente fundamentados a nível das origens onde foram recolhidos estes dados. Então, a pergunta que este investigador e a sua equipa colocam é, o que é que aconteceu aos adolescentes norte-americanos a partir de 2010?

E vamos avaliar isto no âmbito das dependências. O que é que nós verificamos? Sobretudo entre 2008 e 2010, mas 2010 foi o seu boom, foi a disseminação geral dos smartphones e a disseminação geral do acesso à internet. Portanto, há um outro estudo feito em 2015 também, em que indicavam que os jovens passavam uma média de sete horas por dia do seu tempo livre, excluindo o tempo de escola e tempo de trabalhos de casa, em plataformas digitais. Jogos, Netflix, outros que tais, Youtube, sites de pornografia e por aí fora. Um outro relatório, feito também em 2015 para a população norte-americana, dizia que um em cada quatro adolescentes afirmam estar online quase constantemente.

Então, a equipa de investigadores chega à conclusão de que entre 2010 e 2015, as vidas sociais dos adolescentes norte-americanos transferiram-se praticamente para os smartphones, com acesso contínuo às redes sociais, aos videojogos e outras atividades na internet. E há uma citação muito interessante que aparece no livro, que eu vou passar a ler, que nos ajuda a perceber um bocadinho mais esta dimensão. Como escreveu em 2015 a professora do MIT Sherry Turkle sobre viver com smartphones, estamos sempre noutro lugar. Trata-se de uma transformação profunda da consciência e das relações humanas, que no caso dos adolescentes americanos aconteceu entre 2012 e 2015.

Estamos perante o nascimento da infância centrada no telefone e marca o fim definitivo de uma infância centrada em brincar. E o mais incrível é que nós podemos olhar para isto e ver, mais ou menos no mesmo período de tempo, esta mesma tendência, este mesmo padrão de comportamento foi verificado aonde também? No Reino Unido, no Canadá, noutros países anglófonos e em países nórdicos.

Impacto da brincadeira

Já agora, Cristina, nesta situação, ou nesta citação que tu falaste, que leste, falam em brincar. E quando falamos em brincar hoje, parece que nós brincávamos de outra forma, nos nossos tempos idos, não é? E a questão que me vem à mente é esta mesmo, qual é a relação entre brincar e o uso abusivo exatamente da tecnologia, dos computadores, dos telemóveis, e faz-me lembrar aquela tirinha e fitinha que antigamente os pais se aborreciam a chamar os miúdos para dentro de casa, agora aborrecem-se e querem que eles saiam de casa. Este relacionamento entre o brincar e as tecnologias.

Eu respondo a essa pergunta com outra pergunta. Como é que nós aprendemos a andar de bicicleta? Como é que nós aprendemos a jogar à bola? Jogando, fazendo. E é curioso, porque esta questão do brincar tem impacto Estamos a falar da dependência, estamos a falar do impacto que isto tem no desenvolvimento dos jovens, dos adolescentes e das crianças. E de repente entra o brincar. E aqui permite-me ler mais uma citação e já vou responder em concreto à tua questão. Então, a determinada autora deste grupo de investigadores diz o seguinte, brincar sim. Isto liga-se a um conceito-chave da terapia cognitiva ou comportamental. A chave para o desenvolvimento emocional não é a informação, mas a experiência.

É na brincadeira sem supervisão e conduzida por crianças que melhor se aprende a suportar as feridas, a lidar com as emoções, a interpretar as emoções dos outros, a ceder a vez, a resolver conflitos e a ter desportivismo. As crianças estão intrinsecamente motivadas para adquirir estas competências porque desejam ser incluídas no grupo e prolongar a diversão. Então, há aqui alguns fatores importantes. Por exemplo, o cérebro da criança atinge 90% do seu tamanho quando ela tem 5 anos de idade, mas depois leva um período, leva muito tempo a ser configurado.

E leva muito tempo a ser configurado por quê? Porque é um período fundamental para a tua aprendizagem social, aprendizagem social e cultural. Brincar permite o quê? Permite criar relações, permite ligar-te num momento à pessoa, permite gerir conflitos, permite administrar emoções, estabelece ligações entre pares, entre comunidades e grupos. E o que é que as redes sociais fazem? Elas são quase inteiramente assíncronas. Tu dizes que estás online com alguém, mas tu não estás presencialmente com essa pessoa. Este impacto da brincadeira e da consequência prática fundamental para o nosso desenvolvimento acaba por ficar minimizado.

E depois existem também duas outras questões que são importantes. As crianças têm dois programas de aprendizagem inato, se é que nós poderíamos utilizar essa expressão. Um deles é chamado o viés da conformidade. O que é que nós fazemos? Tendemos a imitar aquilo que parece mais comum. Ora bem, como é que eu vou comer a sopa? É com uma colher, não é com uma faca. Por quê? Porque é comum, porque é aquilo que eu vejo. E por outro lado, as crianças têm tendência a imitar aquilo que se chama o viés do prestígio. Ou seja, elas têm a tendência a imitar aqueles que parecem mais talentosos ou com mais prestígio. E aqui traz-me sempre à mente, provavelmente já utilizei este exemplo, mas eu acho tão engraçado que volto a referir, um exemplo de um pai que partilhou que a determinada altura estava a vestir-se e tinha uma t-shirt, estava a vestir uma camisa, só que a t-shirt que ele trazia tinha o símbolo do super-homem.

E a verdade é que entra a filha pequenina, a filha deveria ter uns 4, 5 anos, entra e vê o pai a vestir a camisa. Ora bem, qual é a ideia que nós temos do super-homem dos desenhos animais ou dos filmes? Ele tira a camisa e por baixo da camisa tem o fato e o símbolo. E a miúda fica delirante e olha para o pai e pergunta "- Pai, és tu?", pergunta a pequenina. E o pai tem uma resposta com muito sentido de humor e ele diz, "- Olha filha, sou eu, mas não digas a ninguém, nem à mamã", responde o pai. A verdade é que uns dias depois a pequenina vem muito compenetrada, vem ter com o pai e pergunta-lhe, "- Não és tu, pois, não?" Agora, pensa comigo, porque é que a menina ficou tão feliz com a perspectiva de que o pai poderia efetivamente ser o super-homem?

Porque tem poder, tem protagonismo, tem estatuto. Acontece que as redes sociais e a internet, o que é que elas nos fazem muitas vezes? Elas inibem esta aprendizagem social e expõem-nos a modelos, por exemplo, de influencers ou de youtubers, que tu não sabes se eles efetivamente têm os mesmos padrões ou os mesmos valores que tu consideras importantes, mas as nossas crianças passam mais horas com eles do que com a. Própria família. Sem dúvida. Nós vamos continuar esta conversa interessante e esta reflexão, mas vamos fazer um intervalo muito breve. Não saia daí. Já voltamos. TV Novo Tempo, o canal.

Mecanismos comportamentais

Da saúde, o. Canal. Da esperança. E cá estamos novamente, pela graça de Deus, a dar continuidade a mais um episódio deste que já é o seu programa, Mentes que se Sentem. E recordo, uma vez mais, como fazemos em todos os episódios, este guia de estudo que nós temos para si, para os seus queridos ou para algum amigo, que está disponível gratuitamente para enviarmos para a sua casa. É apenas necessário contactar-nos através do 933 939291 e com certeza a nossa equipa terá muito gosto em poder reencaminhar para si este manual, Sentimentos, a Ciência do Existir, que tem assuntos muito pertinentes sobre a questão da saúde mental.

Cristina, há pouquinho antes do intervalo estávamos a falar sobre esta questão, exatamente, das redes sociais, desta aprendizagem social, que inibe, no fundo, a cultura familiar e comunitária, que leva, no fundo, as crianças a centrarem-se nesses influencers, não é? Portanto, nesse mérito duvidoso que muitas das vezes nós poderemos encontrar aí. Desenvolver mais um pouquinho. Esta ideia. Sabes que há uma coisa, a investigação demonstra que a aprendizagem social é feita durante a infância, mas há um período especialmente sensível para esta aprendizagem cultural e social, que é dos 9 aos 15 anos. E as lições aprendidas nessas idades ficarão muito mais vincadas.

E agora eu pergunto-te, o que é que as nossas crianças dos 9 aos 15 anos estão maioritariamente a fazer? Como é que elas aprenderam a brincar? O que é que foi substituído? Esta aprendizagem diária foi substituída. Pelo quê? Exato. Então, ao ouvirmos o que essas pesquisas revelam, e tu acabaste por as referir, muitos de nós estarão a pensar, como pais, como educadores, nesta realidade que nós não podemos fugir dela. Ela é pertinente, é real. O que é que nós. Podemos fazer então? Eu volto a referir aquilo que tantas vezes me vão ouvir dizer. Equilíbrio. Nós não estamos aqui a demonizar as situações, estamos a tentar perceber como é que elas funcionam, o impacto que têm em nós para podermos fazer escolhas equilibradas.

E permite-me dar um exemplo simplista. Eu recordo-me há uns anos atrás, nós termos ido fazer uma caminhada em família, e a determinada altura passamos por uma zona que tinha vários medronheiros. E naturalmente fomos comendo os medronhos. Mas houve um dos meninos que se entusiasmou e comeu, comeu, comeu. A verdade é que a barriga dele também se entusiasmou, passado algum tempo. E a situação foi tão notória, que a verdade é que às vezes, ainda hoje, vamos caminhar e de vez em quando brincamos com ele, porque passamos um medronho e dizemos, olha, está ali o teu amigo. E ele responde rapidamente, tu não falas nisso, só de pensar dá-me dor de barriga. Então, nós não estamos com isto a querer dizer, agora vamos retirar totalmente isto do nosso alcance. Não, vamos aprender a gerir.

Eu gostava de trazer aqui uma informação que eu acho que é pertinente para nós como adultos, porque nós não podemos estar à espera que as nossas crianças ou os nossos jovens mudem comportamentos se nós próprios não fizermos isso dentro da nossa rotina, a começar por nós. A mudança que eu quero que ocorra no outro tem que começar em primeiro lugar em mim. Ivan Pavlov, um fisiologista russo do início do século XX, Ele fez várias experiências e várias investigações, mas teve uma em particular que foi muito notória nesta questão comportamental. Ele, na altura, estava a estudar o processo de digestão dos cães. E ele sabia que se tu pusesses a comida à frente do cão, o cão salivava.

Mas ele ficou intrigado porque percebeu que os cães também salivavam, não tendo a comida à frente, mas quando ouviam os passos do tratador. E ele pensou, Mas o passo de um tratador é um estímulo neutro. Será que nós conseguimos condicionar o comportamento, por exemplo, dos cães? Com um estímulo totalmente neutro. Então ele foi buscar uma campainha. E aquilo que acontecia é, o cão vê comida, saliva. O cão ouve a campainha, não saliva. Mas ele começou repetidamente a expor o animal a esta sequência. Campainha, toca. Depois é-te apresentada a comida. E depois tu comes. E aquilo que começou a ocorrer no cérebro dos cães, é que a associação foi feita com tanto sucesso, que bastava eles ouvirem a campanha, mesmo não tendo a comida que eles já salivavam.

E entre outras conclusões que este estudo veio a trazer, uma delas é que os comportamentos podem ser apreendidos por associação. Portanto, se dois estímulos aparecerem juntos repetidamente, o organismo aprende a associá-los. Isto é uma premissa base. E a outra premissa base também tem a ver com reações automáticas, como é o caso, por exemplo, do salivar. Tu não controlas, é uma reação automática. Por exemplo, neste momento só de falar em salivar eu já estou a salivar. É uma reação automática. Reações automáticas podem ser condicionadas até por estímulos que inicialmente eram neutros, que é o caso da campanha.

E porque é que eu estou a falar sobre isto e o que é que isto tem a ver com a internet? Porque este é o princípio base, por exemplo, das notificações que tu tens no telemóvel e que eu tenho no telemóvel. O que é que nós temos? Ao perceber este mecanismo, ao perceber que eu posso associar dois estímulos e que posso provocar uma mudança comportamental em ti, eu tenho aqui uma informação que vale ouro. Pensa comigo. Há uma citação que eu daqui a um bocadinho já vou ler. Aliás, perdoa-me, vou lê-la já para depois explicar esta questão das modificações. Neste mesmo estudo feito por esta equipa de investigadores, eles dizem o seguinte. Esta é uma descoberta-chave da psicologia comportamental. É melhor não recompensar um comportamento sempre que o animal faz o que lhe pedimos.

Ao recompensar o animal segundo um esquema de razão variável, como uma em cada dez vezes em média, mas pode ser às vezes menos, ou mais, o comportamento resultante é mais forte e persistente. Ora bem, em termos práticos isto quer dizer o quê? O cão tem noção de que se fizer aquele comportamento vai ter uma recompensa, e numa média, numa estimativa, Em dez vezes ele poderá ser recompensado à segunda vez ou poderá ser recompensado à quinta. Portanto, ele não sabe. Há uma ordem variável, mas ele tem uma estimativa. Mas ele também pode ser recompensado à décima segunda. E esta noção de que em algum momento eu vou ser recompensado num determinado intervalo de tempo, faz com que o comportamento fique mais vincado e crie uma maior tendência.

Então agora vamos voltar ao exemplo das notificações no telemóvel. tu recebes o som de uma notificação. Tu tens um estímulo que inicialmente era neutro, mas que passaste a associar a um comportamento. Mas tu não sabes aquela notificação, por exemplo, da mensagem. Tu não sabes qual é o conteúdo da mensagem. Tu não sabes se vai ser uma notificação de um amigo que te quer dizer alguma coisa, de uma coisa engraçada ou de uma conta para pagar. Isto é razão variável. Mas o que é que tu normalmente fazes? O que é que tu estás a fazer? Estás a consolidar este comportamento. Então, quando nós conseguimos compreender que é isto que acontece no nosso cérebro, nós já não olhamos para as coisas de uma forma tão superficial e isso ajuda-nos a estabelecer alguns limites e algumas estratégias de atuação

Consequencias da tecnologia

relativamente a este tipo. De comportamentos. A questão das dependências que temos estado a falar, portanto, particularmente essas dependências online, para além das consequências que tu tens vindo a referir, que outras nós poderemos saber e aprender pela ciência, que são aquelas que são apontadas pela ciência, no que refere exatamente a esta dependência. Da internet? para além daquelas que nós já referimos, e mais uma vez este estudo, que foi um estudo transversal, portanto, que abordou vários outros estudos também. A ciência tem demonstrado que uma das consequências da dependência online é a privação social.

E, por exemplo, relativamente ao contexto dos adolescentes norte-americanos, o que é que eles perceberam? que em 2012, em média, os adolescentes norte-americanos passavam em contextos presenciais com amigos, por dia, cerca de 122 minutos. Presencialmente, por dia, com os amigos, fora do contexto escolar. Em 2016, este número tinha diminuído para 67 minutos. Outra consequência, e lembra-te daquilo que falávamos da importância do brincar e da aprendizagem social. Outra consequência desta dependência online é a privação de sono. É gravíssima esta privação de sono, não só pelas consequências que ela traz, nomeadamente depressão, ansiedade, irritabilidade, déficits cognitivos, déficits de aprendizagem, pobre desempenho académico, mais acidentes e mais mortes por acidente.

Portanto, é não só grave ao nível da consequência que isto nos traz, mas é grave ao nível do impacto que isto tem, ou seja, é das privações que mais se vê, das consequências que mais se vê nas dependências online. Por outro lado é a própria dependência, nós já falamos do mecanismo de recompensa e prazer que com a libertação de dopamina quer mais, quer mais e quer mais. Mas há um fator que é frequentemente desvalorizado e que tem um grande impacto. Uma das grandes consequências tem a ver com a fragmentação da atenção. Ora bem, o que é que é a atenção? É esta capacidade de nós mantermos fixos num determinado caminho mental, sem estarmos constantemente a prestar atenção às distrações que temos.

Por exemplo, nós estamos concentradas neste momento na questão do programa. Nós poderemos ter uma série de estímulos à nossa volta, a tentar distrair a nossa atenção. Então, esta questão da atenção é aquilo que nos permite manter. E o que é que eles perceberam? Manter no objetivo, no caminho. O que é que perceberam? que sobretudo no início da adolescência a utilização abusiva das redes sociais ou dos videojogos provoca esta fragmentação da atenção e pode interferir naquilo que nós chamamos de função executiva. Ora bem, o que é função executiva? A função executiva é um conjunto de processos mentais bastante complexos nos quais tem uma interferência fundamental no nosso lobo frontal.

Não apenas, mas fundamentalmente este. E esta função executiva permite ao cérebro fazer o quê? Planear, organizar, tomar decisões, controlar impulsos e adaptar-se a novas situações. Ou seja, são as capacidades que nós usamos para gerir o nosso comportamento. Então se nós traduzirmos isto para uma linguagem mais simplista, aquilo que nós vamos dizer é a fragmentação da atenção. ocorrendo, sobretudo no início da adolescência, vai interferir na tua capacidade de gestão do teu comportamento, na tua capacidade de planificação, de organização, de tomada de decisões, de controle, de impulso e adaptação. Às situações. A dependência online, poderíamos dizer, afeta raparigas e rapazes.

Da mesma maneira. A dependência online tem impactos diferentes nos rapazes e nas raparigas. Os rapazes e os homens normalmente estão mais focados na procura da ação. As raparigas e as mulheres estão mais focadas na procura da comunhão. Então, a forma como a dependência online nos afeta é diferenciada tendo por base esta característica. que é algo que nós depois vamos ver com mais calma no próximo episódio. Mas sim, não é que afeta mais ou que afeta menos, afeta em. Áreas diferenciadas. Cristina, muito obrigada. O tempo passa sempre a voar quando estamos a falar destes assuntos.

Assuntos que com certeza são pertinentes para nós, para a nossa casa, e pensamos nos nossos filhos. Pensamos, entantos, que verdadeiramente o saber gerir esta questão das dependências da internet é, diria eu, um dos maiores desafios do nosso século. Então, foi bom estar contigo, Cristina, uma vez mais. Obrigada. Até a próxima semana e para si também. Um abraço. Fique com Deus e até para a semana.

Sobre este episódio

Neste episódio do Mentes que Sentem, a conversa foca-se nas dependências online e nos sinais de alerta que muitas vezes passam despercebidos no dia a dia. A Dra. Cristina Dias partilha dados e reflexões sobre a forma como o uso intensivo de smartphones e internet se associa ao aumento da ansiedade e depressão, especialmente a partir de 2010, e como isso pode afetar de forma profunda crianças, adolescentes e adultos.

Série
Mentes que Sentem · 50 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 36
Estreou
06 de Janeiro de 2026
Categoria
Saúde