Voltamos para trazer mais um médico de família. No programa de hoje vamos falar dos efeitos dos ecrãs na nossa saúde e também dos efeitos nefastos da exposição prolongada a esses mesmos ecrãs. Para nos falar sobre esse assunto temos mais uma vez a doutora Cláudia Neves. Cláudia, mais uma vez, bem-vinda. Muito obrigada, mais uma vez também. Cláudia, eu tenho que começar por te fazer a pergunta quase com que começamos os programas. Porquê que decidiste falar sobre este assunto aqui no Médico Família? Apesar deste ser um tema relativamente recente, no nosso país fala-se disto há pouco mais de 10 anos, claro que há muitas coisas que ainda nós não sabemos em termos de efeitos na saúde, da exposição, do tempo que passamos nos ecrãs, mas cada vez se fala mais isso, sobretudo no desenvolvimento e no comportamento dos jovens e das crianças.
E porque recentemente também tem havido muitas notícias nesta área, E, acima de tudo, é cada vez mais importante todos estarmos informados, sejamos pais, educadores, profissionais de saúde, tios, avós, é importante sabermos mais sobre este assunto. Sei que tu não és especialista em informática, tua área é saúde, é nesse contexto que estamos aqui neste programa, mas eu começo por te perguntar o que é isso dos ecrãs, porque sabermos do que é que estamos a falar, que tipo de ecrãs é que podemos estar ou não expostos, ajuda-nos a melhorar o nosso comportamento. É verdade. Os ecrãs são diferentes. Há uns anos existia um tipo de ecrãs, que eram aqueles ecrãs como a televisão ou o ecrã de cinema, que simplesmente transmitia uma informação, seja um filme, uma série, sejam umas notícias, e que, portanto, a pessoa está mais passivamente a assistir.
Temos também os monitores, que transmitem a informação do sistema de um computador, e temos os ecrãs mais modernos, que permitem mais interação, que são chamados touchscreens, que inclui os modernos telemóveis, os smartphones e os tablets, em que realmente nós podemos aceder ao sistema operativo através do toque, seja com um dedo no ecrã, como nós temos aqui, seja com uma caneta e, portanto, eles são diferentes nesse aspecto. Outra característica em que eles são diferentes O ecrã que não exige nenhuma interação com ele, como a televisão, por exemplo, ou um ecrã de cinema, são os chamados ecrãs passivos. E temos os ecrãs ativos, em que quando nós interagimos com essa tecnologia, participamos ativamente.
Seja utilizar as redes sociais num telemóvel ou num tablet, seja fazer o scroll, ver conteúdos, comunicar, partilhar algo, estamos a interagir com outros através desse sistema. Qual é a diferença? Os passivos têm menor potencial de criar vício ou dependência. Estes ativos em que nós interagimos têm mais capacidade de criar dependência, mas já lá vamos, não é? O que é que difere ainda mais estes novos telemóveis, os smartphones e os tablets? Reparem, por exemplo, quando nós éramos crianças, tínhamos dois canais de televisão. Se tivéssemos televisão. Se tivéssemos televisão.
Eu tive mais tarde, é verdade. Preta e Branca, as primeiras. E eu. E tínhamos um canal que dava desenhos animados na televisão a determinadas horas. E a determinados dias da semana. Exatamente. Nós programávamos. Estávamos na escola, estávamos na escola. Mesmo quando viéssemos da escola não tínhamos logo desenhos animados. Havia horas certas para isso. seja ao domingo, seja durante a semana, seja nas férias. E habituar-nos a preparar, sentar em frente à televisão àquela hora, acabou, não há mais. Havia mais momentos de interação social, de brincadeira. Hoje em dia não é assim. E o que é que permite estes novos ecrãs? Existe uma disponibilidade constante de conteúdos. E é em qualquer lugar? É em qualquer lugar, mesmo fora de casa.
Outro aspecto é que permitem mais interação e, como eu já disse, tornam-se mais viciantes. Permita à criança, estamos a falar aqui sobretudo nas crianças, um controle absoluto do que quer ver, evitando momentos de pausa ou de tédio. Normalmente, em alguns programas específicos, até tu trazes algumas estatísticas. Mas temos ouvido, e tu mencionaste notícias sobre este assunto, temos ouvido muitas notícias da quantidade de horas extrema que as pessoas estão expostas às vacâncias e os nossos jovens. Tens noção de alguns desses dados? Eu trouxe algumas porque são muitas. Encontrei muitas. E não tínhamos tempo aqui para explorar todas elas. A Ordem dos Psicólogos tem isto online e tem muitas estatísticas nesta área de diversos estudos em diversos anos diferentes.
Por exemplo, no mundo, 59,4% da população utiliza redes sociais. No mundo inteiro. Ou seja, cerca de 4,76 mil milhões de pessoas. Isto é de 2023. O tempo médio de utilização da internet no mundo por dia é de 6 horas e 37 minutos, também de 2023, que eu acredito que hoje seja superior a este número. Também em 2023 há mais de 3 mil milhões de jogadores de videojogos. Outra característica do Zé Crenge também é viciante por causa da interação. Ainda no mundo, temos que 64,5% das crianças e adolescentes utilizam o smartphone como atividade de tempos livres.
64,5%, mais de 50%. Mais do que simplesmente ouvir música, que diz que são 51,8%. Estar com os amigos, 31,9%. praticar um desporto, 19,8%, ler um livro, 9,7%, ou ver televisão, 8,9%. Cada vez menos se vê televisão. As crianças e os adolescentes hoje em dia não veem televisão, a não ser que seja para ver outras coisas que não sejam o conteúdo da televisão. Pode ser para ver o YouTube, pode ser para ver um filme, outra coisa. Estes dados que apresentei são de 2022. 1 em cada 4 jovens utiliza as redes sociais mais de 6 horas por dia. Isto no mundo inteiro.
1 em cada 4, 25%, utiliza as redes sociais mais de 6 horas por dia. Isto em 2022. Depois, trago aqui alguns dados de Portugal. Existem mais de 17 milhões de smartphones ativos. Nós não somos tantos. Pelo menos no último censo não éramos tantos, ou seja... Há mais aparelhos do que pessoas. Exatamente. Ou seja, há pessoas que têm mais que um dispositivo, não é? Estamos a falar só dos smartphones. Quase metade das crianças e adolescentes, isto é em Portugal, passa mais de duas horas por dia a comunicar ou a ver e partilhar conteúdos no TikTok. Portanto, crianças e adolescentes. Estes dados são de 2022.
E no TikTok são cerca de 43,1% e no WhatsApp 38,8%. No Instagram 37,1%. TikTok é o preferido. Tem uma característica, vídeos curtos. Esta é outra característica que é viciante. Ainda em Portugal, cerca de 43,5% das pessoas, jovens, adultos e adultos mais velhos, utilizam a internet como forma de escape ou para aliviar o seu estado psicológico. Quase metade. 43,5%. Estão ansiosos, estão deprimidos, estão aborrecidos. A internet é a forma de escape. E nós sabemos, por exemplo, há 20 anos isso não era a realidade. A nossa realidade mudou muito drasticamente.
Ou seja, ainda não tivemos todo o tempo que é permitido para fazer estudos nesta área e para saber as consequências a longo prazo. Só estamos a aflorar o que está a acontecer já agora. Mesmo assim já há muitos estudos, ou seja, compreendo o que estás a querer dizer, ou seja, precisamos de mais tempo para estudarmos mais, mas mesmo assim já chegámos a algumas conclusões e algumas delas certamente vais partilhar connosco hoje. Antes de avançarmos com o nosso assunto, vamos fazer um pequenino intervalo.
Voltamos já a seguir para a segunda parte, também com uma prenda muito especial para sempre. Até já. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança. Estamos de volta. Vamos trazer a segunda parte do nosso Médico de Família de hoje e, como disse antes do intervalo, tenho uma oferta muito especial para si. O guia de estudo Mente Feliz. Neste guia de estudo ele foi trabalhado por vários especialistas que aborda várias áreas, vários problemas como lidar com os problemas de forma mental nos dias de hoje e à atualidade. Porquê que eu digo e reforço esta questão dos dias de hoje?
porque traz-nos desafios, como vimos no início deste programa, que antes não tínhamos e temos que saber lidar com eles. E aqui vai encontrar desde como lidar com a ansiedade, com o sofrimento, com a perda, com a tristeza, com a doença profunda. São apenas alguns dos exemplos dos diferentes assuntos que vai encontrar aqui no Guia de Estudo. E o que é melhor é que é totalmente gratuito. Basta enviar-nos uma mensagem para o 933 939291 a dizer Mente Feliz para sabermos que é este guia de estudo a que se refere e depois nós mesmos entraremos em contacto consigo para lhe fazer chegar gratuitamente a sua casa
pelo correio. Cláudia... Interrompi-te quando estávamos a falar sobre o problema do uso dos ecrãs na infância, mas eu começo precisamente por aí. Tu mencionaste algumas estatísticas e elas agravam-se precisamente, ou os estudos mostram que há um problema maior, ou é mais grave, se me permite corrigir assim a pergunta, nas crianças e nos adolescentes. Fala-nos um pouquinho sobre isso. trouxe um estudo que foi realizado por investigadores do Estudo para o Desenvolvimento Humano e Potencial da Universidade Nacional de Singapura. Eles utilizaram estudos da imagem do cérebro, em vários momentos ao longo dos anos para estudar se existe uma possível via biológica no cérebro que explique a exposição aos ecrãs, tipo de ecrãs e tempo de ecrã e os efeitos depois no desenvolvimento da saúde mental desses jovens e adolescentes.
Nós sabemos que a infância é um período de rápido desenvolvimento até nível cognitivo. e que as crianças são como esponjas, estão muito receptivas, em todos os sentidos, a aprender a ser influenciadas por tudo o que está no seu meio ambiente. E acabam por ser formatadas com ele, com esse conteúdo. Exatamente. Durante o desenvolvimento normal, tanto as redes cerebrais como a sua linguagem vão se especializando, melhorando ao longo do tempo, mediante os estímulos a que são expostos. Nas crianças com elevada exposição aos ecrãs, as redes nervosas, as redes cerebrais, a ligação entre os neurónios, as chamadas sinapses, onde se transmitem aqueles químicos que transmitem essa informação, que controlam a visão e a cognição, a capacidade mental da criança, especializam-se mais rapidamente, ou seja, são muito mais estimuladas.
antes de desenvolver aquelas capacidades mentais para o pensamento mais complexo. Ou seja, em termos de sinapses, desenvolve-se muito mais rapidamente antes de haver um sentido crítico das situações. Isto o que é que vai fazer? Vai limitar a flexibilidade daquela criança ou daquele adolescente e a sua resiliência, tornando-se uma criança menos capaz de se adaptar na vida a novas circunstâncias. As crianças com essas redes cerebrais alteradas, que repararam isso por metros de imagem, demoraram mais tempo a tomar decisões durante uma tarefa que lhes foi atribuída quando tinham cerca de oito anos e meio de idade.
Quando nos anos antes estavam expostas a ecrãs. O que sugere uma redução da eficiência e da flexibilidade cognitiva. Perderam essa capacidade de adaptação, capacidade de decisão mediante um problema que lhe é apresentado. As que demoraram mais tempo a tomar essa decisão, aos 8 anos e meio, quando lhes foi proposto esse problema, tiveram níveis mais elevados de sintomas de ansiedade aos 13 anos de idade. Ou seja, estas descobertas sugerem que a exposição aos ecrãs na infância pode ter efeitos que se estendem para lá da infância. E isto vai moldar, portanto, o desenvolvimento cerebral e o comportamento anos mais tarde. É o que demonstra este estudo pela imagem.
E vemos que eles estudaram pela imagem, mas depois estudaram o comportamento destas crianças quando adolescentes. E, acima de tudo, vimos que menos capacidade de tomar de decisão, resiliência, menos flexibilidade mental e mais sintomas de ansiedade. Estamos a falar de fatores essenciais para o desenvolvimento de qualquer ser humano. É verdade. Que passam a ser, eu diria, prejudicados, pelo menos chamemos de assim, logo numa fase muito tenra da idade. Muito precoce. Ouvimos isso até, enfim, legislação recente sobre o uso dos telemóveis nas escolas, da internet. O mundo, eu diria está a alertar-se e alerta para esta problemática.
mas não é só as crianças que estão a ser afetadas. Os adultos também parece que estão a deixar-se afetar pelas redes sociais, pelo uso dos ecrãs e também com questões, eu diria, de forma mental, não é? É verdade. Relativamente às crianças e aos jovens, A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria está disponível online para todos aqueles que nos estão a ver ou a ouvir, se quiserem consultar. Tem um parecer, portanto é formado por vários especialistas de várias especialidades e tem um parecer que eles redigiram com base noutras associações pediátricas do mundo, a americana, a do Canadá. e a própria Organização Mundial de Saúde, e eles dão recomendações mediante a idade, o tempo de exposição a ecrãs, dependendo do tipo de ecrãs.
O tipo de conteúdo e quanto tempo por dia, mediante a idade. E está muito bem feito, muito bem estruturado. Mas desculpa lá interromper-te. Então, antes mesmo de terminarmos o nosso programa, eu vou deixar tempo para que tu possas dar, pelo menos hoje, algumas dicas. Pode ser assim? Sim, sim, sim. E a própria sociedade portuguesa de neuropediatria tem alertado cada vez mais para este impacto no desenvolvimento das crianças e dos adolescentes pela exposição aos ecrãs. Eles tentam alertar os pais, os educadores e a sociedade civil em geral para os riscos dos mesmos. Salienta-se que é particularmente nociva esta exposição à tecnologia digital quando os conteúdos são selecionados de forma autónoma ou até aleatória, pelas próprias crianças e pelos jovens, seja no YouTube, no TikTok, no Instagram.
sem interação com adulto, sem filtros de segurança, sem controle do tempo que está em frente ao ecrã, sem conteúdos didáticos pedagógicos para aquela criança ou para aquele jovem e sem realmente respeitar os limites de tempo aconselhados para a idade. Ou seja, já não estamos a falar apenas e só do prejuízo à exposição do próprio ecrã, mas claro, depois aos conteúdos. Sim, essencialmente os conteúdos. Essencialmente, os problemas que hoje em dia se conhecem mais associados à exposição dos ecrãs na infanciação, existe uma redução do tempo de interação da criança com os seus pais, com as outras crianças e com os adultos. Isto vai limitar a capacidade de interação social dessa criança ou desse jovem e vai limitar a sua capacidade de evolução na sua linguagem.
Temos muitas crianças com problemas realmente com perturbações da linguagem, que têm que fazer terapia da fala. E de interpretação, parece que... Interpretação de textos, exatamente. Começa-lhe a faltar essa capacidade. E muitas vezes, porque também aquilo que eles veem nos ecrãs, estou a falar agora em termos de português de Portugal, não é português de Portugal. E então temos crianças, como eu vejo nas consultas de saúde infantil, pequeninas, a falar com a pronúncia do Brasil ou a falar em termos de inglês. Crianças de 2, 3 anos. Porquê? Porque não é porque lhes ensinem na escola ou aos pais, é porque o tempo que estão nos ecrã. Então fomos liaisados com esses termos. Exatamente. Outro problema é o aumento do risco da fadiga ocular digital. Inclui sintomas como o olho seco, temos o aumento da miopia, dor de cabeça e visão desfocada pelo tempo em frente a um ecrã.
Temos o aumento do tempo de atividades sedentárias, falta o brincar, que é ótimo para a motricidade, seja brincar na rua com outra criança, seja andar de bicicleta, seja o desenvolvimento da motricidade fina, que também é importante, pegar numa tesoura, pegar num lápis. As crianças começam a ter essa dificuldade de desenvolvimento. Abrindo aqui um bocadinho um parênteses, há um estudo recente que mostra que os novos cirurgiões, não foi feito em Portugal, têm dificuldades na motricidade fina quando a cirurgia não é robótica, exatamente porque não passaram a sua adolescência a muito a desenvolver motricidade fina e passaram muito em frente aos ecrãs. Interessante. Novos cirurgiões. Temos dificuldade em estarem atentos.
em controlar os seus impulsos, em gerir a adversidade e enfrentar os momentos de tédio. Estão muito habituados ao sistema de compensação dos ecrãs, que lhes aumenta a sensação de prazer, imagens rápidas e isso realmente dificulta a capacidade de adaptação a estas crianças, a estes jovens à vida em sociedade. Afeta também negativamente a qualidade do sono, não só pela exposição à luz azul, mas também pelo seu conteúdo. Temos a diminuição da produção da melatonina, que é a hormona que promove realmente o sono, e nós assim temos crianças e jovens, e adultos jovens, com graves problemas de sono por causa destes ecrãs. Outro aspecto é a informação que os ecrãs transmitem em termos do que é a imagem ideal de um homem ou de uma mulher.
Muitas vezes aquilo são imagens editadas, não é real, mas a criança passa a ter uma baixa autoestima porque não se vê conforme aquele ideal, ou aquele ídolo, ou aquele jovem, ou aquele adolescente. Isto realmente condiciona perturbações do comportamento alimentar, quadros depressivos e até de ansiedade. Em todas as idades, a utilização excessiva de ecrãs pode ser aditiva, ou seja, indutora de dependência comportamental. A pessoa está bem se continuar a utilizar os ecrãs e a ciência diz que compara o efeito destas tecnologias à de outras dependências. Porquê? Porque o estímulo constante, as notificações, as redes sociais, porque vem um like, uma notificação, um clique, Tudo isso, através da sensação de bem-estar pela libertação da dopamina, cria dependência.
Cria uma dependência que é reconhecida como uma doença, uma adição como outra, que tem que ser tratada. Exatamente. Nós temos agora recentemente, abriu recentemente uma clínica em Portugal, só por exemplo para dependência de jogo. Vou dar o exemplo. Mas é uma questão de tempo até às dependências do ecrã. E como é que se mostra esta dependência do uso do ecrã? Isto tem todas as idades. A saliência na vida dessa pessoa, dessa criança, ou seja, o ecrã domina os pensamentos e o dia-a-dia. O seu pensamento, quando não está no ecrã, está mesmo no ecrã. A tolerância, ou seja, para ter o mesmo prazer, tem que passar cada vez mais tempo no ecrã e isso é característica de qualquer dependência. A abstinência, ou seja, se lhe é tirado um ecrã basta ver uma criança que é viciada no telemóvel ou no tablet se lhe o tirarem.
A irritabilidade, a falta de paciência, a ansiedade, a frustração, isso são sintomas de abstinência. E o impacto na vida real, o desinteresse pelas atividades físicas, pela interação com as outras pessoas, o isolamento social, a perda da qualidade do sono, rendimento escolar e rendimento laboral. Nós estamos a falar aqui essencialmente em crianças e jovens, mas isto aplica-se muito aos adultos jovens. Infelizmente eu tenho tido histórias até de pessoas mais velhas, até de idosos. Dependência dos ecrãs, também das redes sociais. Nós não nos ficamos por aqui. Porquê? Assim como no nosso país estamos alerta para isto, outras sociedades estão cada vez a emitir mais alertas neste sentido.
Várias sociedades científicas estabeleceram orientações e limites para o uso de ecrãs. A Academia Americana de Pediatria, a Organização Mundial de Saúde, a Sociedade Canadiana de Pediatria e o Departamento de Saúde Australiana, todos eles, recomendam a evicção, ou seja, zero ecrãs até aos dois anos. telemóvel, televisão, tablet, computador, até os dois anos é de zero. É a idade em que realmente o cérebro é mais adaptável e que é importante desenvolver-se sem exposição a ecrãs. Isso gera, além disso, uma forte restrição e controle parental durante a idade escolar. E nós temos ouvido nas notícias e visto cada vez mais países proibirem os ecrans nas escolas em determinadas idades.
No nosso país também já temos algumas leis nesse sentido, mas isto vem de encontro àquilo que todas estas sociedades alertam para os efeitos nocivos da exposição aos ecrans na infância. Tinha-te perguntado, mas tu ainda tinhas muito mais para falar sobre os efeitos nefastos nos jovens. Mas e nós, os adultos? Porque muitas vezes olhamos para as notícias e é muito salientado, exatamente, porque é muito mais projecional. Que é a idade de maior desenvolvimento, mais rápido, sim. E muitas vezes, sabendo nós que também há prejuízo grande para os adultos, parece que se ouve falar sobre isso. É sim, não se fala tanto, talvez porque os adultos tomam as suas decisões, a criança... Desculpa interromper-te, mas deviam tomar as decisões informados, não é? Sim. As crianças, supostamente, um adulto é que gera as suas decisões ou deveria ser assim, porque a criança não tem capacidade de tomar uma decisão completamente informada como adulto.
Claro que temos adultos com este problema e tentamos chamar a atenção para isso. Quais são os problemas dos adultos? A dependência, como já aqui falámos, o interferir na sua capacidade de rendimento laboral, a interferência no sono e, claro, os sintomas de depressão e ansiedade. Portanto, a saúde mental, em geral, fica afetada. Até porque falas da dependência dos jogos, mas muitos dos jovens adultos dos dias de hoje... São dependentes dos videojogos. São dependentes dos videojogos porque as pessoas começaram com esse mundo e, portanto, hoje em dia, casam, têm a sua vida profissional, mas muitas pessoas, adultos, continuam a jogar. Passam noites nisso. Passam a ser viciados no jogo. Estamos já na reta final.
Tu fostes já mencionando algumas recomendações.
Em breves segundos queres dizer-nos mais alguma coisa sobre isso? Eu tentei resumir. Eu vou sugerir que vá à internet buscar as da Neuropediatria, da Sociedade Portuguesa da Neuropediatria, mas da Academia Americana de Pediatrias. Resumo de uma forma muito rápida. Em casa, fazer um plano de utilização dos ecrãs. Sem limites, conforme cada um quer. Fazer um plano de utilização. Pôr limites e encorajar a brincadeira real. Interagir uns com os outros. Nunca ter tempo de ecrã sozinho nas crianças. Nunca. Sempre com vigilância do adulto, dos seus conteúdos, e tentar privilegiar a comunicação face a face, não através de redes sociais ou do Zoom, do Teams, ou o que seja. Presencialmente. Presencialmente! Evitar a utilização de qualquer ecrã até os dois anos, como já aqui falámos.
Criar zonas de tecnologia proibida, por exemplo, o quarto ou as refeições. Adultos e crianças. Não utilizar tecnologia para compensar, para acalmar a criança, uma birra, porque está em público, não utilizar nesse sentido. Ter cuidado com as aplicações da escola para o estudo em casa. Chamar a atenção sobre a privacidade, o sexing e os predadores sexuais que estão na internet, sobretudo às crianças. E estar online, sempre com supervisão. Olha, desculpa lá, foi mesmo rápido e mesmo assim já fugimos do nosso tempo. Dizê-lhe que se não teve a oportunidade de ouvir e escutar este programa na íntegra, ele está disponível em podcast em Radio RCS.pt e na Novo Tempo Portugal, no YouTube da Novo Tempo Portugal. Dizê lhe também que o nosso programa chega ao fim, mas marcamos encontro para a semana, espero voltar a encontrá-lo aqui na Novo Tempo, no Médico Família, porque aqui todos têm Médico Família.
Até lá, se Deus quiser.