Autismo

Autismo

03 de Junho de 202625 min 56 s

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Passada mais uma semana, cá estamos para lhe trazer mais um médico de família. Hoje vamos falar de autismo. Vamos perceber o que é, como funciona e as diferenças que podemos encontrar. Mas, para nos falar sobre este assunto, temos connosco mais uma vez a doutora Cláudia Neves. Cláudia, mais uma vez, bem-vinda. Muito obrigada. É um prazer estar aqui. Eu vou começar desde logo brincando contigo. Tens trazido, eu diria, até na área da prevenção muitas doenças, mas quando falamos de autismo não podemos falar de doença, pois não? O que é o autismo? Não. Está inserido num grupo de perturbações que se chamam perturbações do neurodesenvolvimento. E como diz o próprio nome, Não é uma doença, porque não tem cura, é uma perturbação, uma alteração que ocorre desde a concessão no cérebro, no desenvolvimento do sistema nervoso central e que vai dar alterações a nível físico, a nível intelectual, pode dar a nível social.

E, portanto, quando se fala de autismo, estamos a falar de um problema do neurodesenvolvimento, mas o mais correto até é falar em perturbações no espectro do autismo. Porquê? porque ela é muito heterogênea e na mesma pessoa pode variar ao longo da sua vida. Ou seja... Chamamos mesmo do espectro, porque ela não é linear, é, por assim dizer, circular. E há pessoas que têm problemas numa área, outras pessoas têm problemas noutra, mas é difícil nós estarmos no meio de uma frase sempre a dizer perturbações no espectro do autismo. Então, durante o programa, vamos dizer autismo para ser mais fácil. Ou poderíamos dizer a sigla P-E-A. Mas vamos designar autismo, mas a forma mais correta de designar realmente é perturbações no espectro do autismo.

Mas quando falamos em espectro, falas como se fosse uma espécie de intervalo onde há vários sintomas até... eu diria que eles podem mudar na mesma pessoa com o tempo. Ou seja, a mesma pessoa pode ter numa altura determinado tipo de dificuldades, outras mantêm-se, outras conseguem ultrapassar e outras surgem depois com mais idade. Esta noção de espectro, ou seja, de ser tão diferente torna, eu diria, cada caso um caso. Cada caso é um caso. Conheço várias pessoas, crianças, com esta perturbação e cada uma é à sua maneira. Elas são cada uma especial, como eu costumo dizer. Porquê? Cada uma tem as suas limitações, as suas dificuldades e cada uma tem os seus pontos fortes.

Cada uma precisa de terapia de ajuda para ultrapassar as suas dificuldades nessas diversas áreas e que algumas vão sendo ultrapassadas e deixam de existir. E essa pessoa pode evoluir melhor ou estagnar, tudo depende da idade com que se inicia a terapia, depende realmente do envolvimento dos pais, da escola, tudo o que é o apoio daquela criança ou daquele jovem. E ao longo da vida também pode mudar, por isso é que se diz do espectro do autismo. E como tu disseste, também são todos diferentes. Uns têm mais limitação numa área, outros têm mais limitação noutra. Não quer dizer que uns sejam muito graves, outros muito leves. São diferentes. É isso como tu disseste.

Cada um à sua maneira, são todos diferentes. E intervém-se, diria medicamente, na forma como se manifesta. Não na pessoa em si no seu todo, nem no autismo no seu todo, mas nas manifestações. Qual a prevalência, se tens noção, de alguns números no contexto português? No contexto mundial diz-se que é 1%, mas tem-se verificado nas últimas décadas que cada vez mais estes números têm vindo a aumentar, a chamada prevalência, o número de casos que existem. E de certeza que tu tens essa noção, até eu como médica tenho essa noção. Cada vez existem mais crianças com este diagnóstico. Por um lado, porque toda a sociedade está mais sensível para estas perturbações, os critérios diagnósticos estão mais definidos e cada vez se intervém mais cedo.

Portanto, realmente existem mais casos porque a perturbação é mais conhecida, é mais diagnosticada. Ou seja, mesmo naqueles casos mais ligeiros, se consegue identificar aqueles traços do autismo, então a pessoa passa a ficar diagnosticada Exatamente. E isso é bom, porque quanto mais cedo for essa intervenção, melhor é o prognóstico. Mas, a nível mundial, diz-se que a estimativa dá 1%, 1 em cada 100. No entanto, dados recentes em Portugal, o último estudo foi de 2005, apontava para 1 em cada 1.000 crianças. Para a minha própria experiência, isto é muito pouco. E o Fernando Campilho, que é o presidente da Federação Portuguesa de Autismo, ele diz que existe cerca de 1% das crianças em Portugal com perturbação no espectro do autismo.

Ou seja, alinhado com o resto do mundo. Sim, com o resto do mundo. Um em cada cem. Por exemplo, no meu grupo de utentes que eu tenho no meu ficheiro, eu tenho mais que isso. Eu tenho mais que 1% das crianças, isto é, 1% das crianças. Eu tenho mais que 1% das crianças, por exemplo, no meu ficheiro. Também é variável, não é, de sítio para sítio. E a verdade é que em todos os sítios onde eu já trabalhei, este é o sítio onde eu trabalho atualmente, é o que maior número tenho de pessoas realmente com... Mas aqui estamos a falar de pessoas diagnosticadas, não estamos a falar de pessoas que dizem que têm... Não, pessoas diagnosticadas e com acompanhamento. Nós vivemos aí durante uns tempos uma moda, por exemplo, com a hiperatividade.

Todas as crianças tinham hiperatividade. Aqui não. Estamos a falar de traços bem concretos que estão estudados, reconhecidos e portanto estamos a falar de pessoas diagnosticadas. Deixa-me só dar aqui um parêntese. A perturbação déficit de atenção e hiperatividade é outra perturbação dentro das perturbações do neurodesenvolvimento e realmente é a perturbação do neurodesenvolvimento mais frequente em Portugal. em termos de crianças à idade escolar. É mais frequente. Muito bem. Sabendo então, como disseste, que não é uma doença, a pergunta é, já podemos falar, ou já é conhecido quais são as causas, como é que surge o autismo?

Causas e prevalência

Essa costuma-se dizer é a pergunta que vale um milhão, não é? Era bom que soubéssemos a causa, porque se soubéssemos a causa poderíamos prevenir. Não se pode dizer que esta é a causa. Não existe nenhuma causa identificável. Tem-se a certeza que é multifatorial. Vários fatores contribuem para o seu aparecimento. Pensa-se na parte genética, pensa-se na parte da influência do estilo de vida. Claro que há várias teorias, mas não há nada comprovado. Não há dúvida que realmente há vários fatores que contribuem para isso. Não há dúvida também que o problema é mesmo o desenvolvimento cerebral. Ou seja, tem a ver mesmo com o desenvolvimento do sistema nervoso central durante a gravidez, que tem alguma perturbação.

Qual o fator que afeta? Não sabemos. E que vai realmente dar esta limitação, esta perturbação depois da própria pessoa por causa dessa alteração que acontece mesmo no cérebro. Portanto, é o que se sabe. Até hoje. Vamos falar um pouquinho mais à frente. talvez de algumas características, porque eu acho que é um mundo, eu acho fascinante, são pessoas fascinantes, têm dons e talentos extraordinários, outras vezes com dificuldades muito próprias, mas assim de traços típicos, traços gerais, quais são aqueles que tu podes identificar?

Sinais e características

Está muito bem definido. Normalmente as perturbações identificam-se no autismo em duas áreas específicas, nomeadamente nas dificuldades da comunicação social e nos padrões de comportamentos repetitivos. Ou seja, na comunicação social podem ter uma dificuldade em iniciar ou manter uma conversa, em entender os sinais não-verbais, por exemplo, desde cedo nós temos comunicação não-verbal, a expressão facial que nós temos, a expressão corporal. Eu estar a falar com um bebê, por exemplo, depois dos seis meses e apontar-lhe para um sítio e ele convergir o olhar para esse sítio e acompanhar-me, olhar para mim, se eu sorrir ele corresponde com um sorriso, é comunicação não-verbal.

Aqui é uma das limitações que tem a ver com esta comunicação e interação social. Porquê? Porque as pessoas com a perturbação no espectro do autismo podem entender a comunicação de forma diferente. Não que eles não queiram comunicar. Para eles a comunicação, a interação é diferente. Por outro lado, eles podem ter necessidade, por vezes, de ter o seu espaço. Não comunicar quando nós o desejamos. Este realmente é um dos campos em que eles são diferentes, por assim dizer. Outro é os padrões de comportamentos repetitivos. Para eles é muito importante a rotina rígida. Tudo que saia da sua rotina, dos seus hábitos, cria-lhe ansiedade. Por outro lado, têm interesses muito focados em termos específicos.

Gostam de fazer aquilo e fazem aquilo repetidamente. São apaixonados, não é? Exatamente. São demasiado focados até. Exatamente. Pode ser por números, pode ser por música, pode ser por arte, pode ser por áreas diferentes. Eu diria, essas duas áreas são muito conhecidas de todos nós, não é? Sim. São chamados os pontos fortes de alguns realmente autistas. Outra é a sua sensibilidade sensorial, que pode ser à luz, ao barulho, barulhos que para nós, nós nos habituamos a ouvir regularmente, para eles incomoda muito. Não é porque eles, coitadinhos, são mais sensíveis, não. Eles próprios têm uma sensibilidade sensorial maior que a nossa. São uma espécie de gatilhos que disparam no cérebro, que eles não conseguem controlar.

Vou dar um exemplo. É determinados sons que os cães ou os gatos ouvem que nós não ouvimos. As pessoas com autismo, para eles, esses sons são muito mais alarmantes no seu cérebro do que para nós. Tem a ver como o cérebro interpreta esses sinais sonoros. Para outros é a luz, para outros é as texturas. As texturas ou toque. Para alguns, na textura, nos próprios alimentos. As texturas de alguns alimentos. Algumas crianças com autismo não conseguem comer, por exemplo, alimentos sólidos durante os primeiros anos. Tem a ver com as texturas. Não tem a ver por manias deles, não é esse o problema. É a sensibilidade deles à textura que é diferente. Pronto, são diferentes. E é interessante, como tu disseste, porque eu como médica de família tenho várias crianças e adolescentes autistas no meu ficheiro e lembro-me de um menino que tem neste momento seis, sete anos, ainda não está no primeiro ciclo, está realmente a fazer o apoio das terapias e tem feito uma evolução extraordinária nos últimos dois anos.

Para quem não falava, não respondia ao nome, não interagia connosco, excelente. Ele chegou ao consultório, claro, nós temos que respeitar o espaço deles. Se eu disser dá cá cinco, ele dá o cinco. É incrível. E a última consulta, eu fiquei maravilhada quando o pai me diz assim, vou-lhe mostrar o que é que ele faz agora. Ele não aprendeu a ler, ele está na pré. O pai não pega num texto de criança, pega num texto qualquer, naquele caso foi o Boletim de Saúde Infantil, e ele começa a ler o texto linearmente. Ele aprendeu, só vinha eu a ler. o som das letras, a juntar as letras, as sílabas e a ler. É um exemplo de como realmente ele tem um interesse naquilo. É um ponto forte dele, não é? Eu diria que tem um... Por isso é que eu acho que é fascinante. Tem uma espécie de um mundo próprio, não é?

Que é maravilhoso. Até quem está com quem convive. Conhecer é um mundo diferente do nosso, mas ao mesmo tempo acaba por ser bastante interessante e apaixonante. Isto que eu acabei de dizer são os dois campos principais, mas não quer dizer que eles estejam com estas características todas presentes na mesma pessoa. Por isso é que é um espectro. É muito variável. Nem com a mesma intensidade. Exatamente. São todos diferentes. Todos diferentes. Muito bem. Já voltamos à conversa sobre este assunto. Para já vamos fazer um pequenino intervalo, apenas dois minutinhos. Voltamos já a seguir e com uma oferta muito especial para si. Então até já. TV Novo Tempo, o canal da saúde, o canal da esperança.

Estamos de volta nesta segunda parte. Hoje, no consultório aqui no seu médico-família, na Novo Tempo e na Rádio RSS, estamos a falar de autismo. Por isso, escolhemos como oferta para si este guia de estudo Mente Feliz. É um guia de estudo fantástico, trabalhado por especialistas, para cuidarmos da nossa mente e também com alguns textos bíblicos para mostrar como Deus quer que nós possamos trabalhar a nossa mente, enfim, as nossas decisões. E tudo isto gratuitamente. Basta enviar-nos uma mensagem escrita a dizer Mente Feliz para o 933-939291. Vou dizer novamente, 933-939291. Não hesita, é mesmo totalmente gratuito.

Até podemos enviar gratuitamente para a sua casa pelo correio. Vamos então agora a uma pergunta que pode até ser muito difícil, mas pelo menos termos algumas ferramentas, até para os jovens pais.

Sinais de alerta

A que sinais devemos estar alertas? Porque muitas vezes algumas crianças são diagnosticadas tardiamente porque não se consegue ler os sinais logo nos primeiros momentos. Hoje em dia, felizmente, isso já não acontece muito porque as crianças são vigiadas na sua unidade de saúde pelo médico e enfermeiro de família e nós, em todas as consultas, desde o nascimento, avaliamos não só o crescimento, avaliar o perigo da cabeça, a estatura, o peso, mas avaliamos o desenvolvimento por uma série de exames que nós fazemos à criança, desde bebê, no exame objetivo, e perguntas que fazemos aos pais ou atividades que pedimos às crianças para fazerem. Fazemos uma avaliação do desenvolvimento. E, normalmente, até aos dois anos já notamos que há ali algum problema de desenvolvimento da criança.

Antes dos dois anos, hoje em dia, já notamos. Mas, realmente, há sinais de alerta, é verdade. Nem todos podem ter estes sinais, como já vimos, eles podem ter umas limitações ou de outras. Não responder ao seu nome, por exemplo. Alguns pais até referem isso e nós notamos na consulta. E uma das coisas que avaliamos e devemos avaliar e descartar é realmente o déficit auditivo. A ver se é esse o problema. A fraca imitação verbal ou não verbal, aquela criança que realmente não imita sons, seja mesmo não falando como é que faz um animal, ou visto um carro, como é que faz o carro, não imita sons ou sílabas que um outro adulto ou cuidador tente realmente fazer com que imite. Dificuldade em estabelecer o contacto visual, a criança não olha para nós, parece que não nos está a ver sequer, está desligada do sítio onde está.

Pode ter um atraso no desenvolvimento do motor, isto pode-se notar. Logo, uma coisa que avaliamos, por exemplo, aos 6 meses é se a criança se senta. Isto é em etapas por idades, o que é que é importante atingir alvo a determinadas idades. E, por exemplo, o sentar. Depois, se aos 9 meses se põe em pé, quando nós seguramos, se firma os pés e as pernas. Se realmente consegue segurar nas grades da cama e levantar-se. Isto tem a ver com o desenvolvimento do motor. Avaliamos também. Pode ser dificuldade em ter atenção conjunta quando nós mostramos um livro e a criança devia olhar para o livro que nós estamos a mostrar, mas não olha para o sítio onde estamos a mostrar. Tem dificuldades em brincar ao faz-de-conta. Não corresponde à afetividade, por exemplo, alguém faz-lhe um carinho, dá-lhe um beijo.

A criança não corresponde, nem percebe às vezes o que é que isso quer dizer. Os comportamentos repetitivos e bizarros podem ser motor até. E pode ter variações extremas do temperamento, que às vezes pode ser interpretado como birras. Lembro, por exemplo, de uma utente relativamente aos comportamentos repetitivos. Ela já era mãe de dois filhos antes deste mais novo. E ele ainda com um ano, ela disse-me na sua consulta, o meu menino deve ter autismo, porque eu já tenho outros dois filhos e ele é diferente. A mãe notou. Então o que é que a mãe fez? Eu vou lhe mostrar um vídeo que eu filmei. Todos os dias ele faz isto antes de adormecer. Então ela filmou no telemóvel e mostrou-me o vídeo. Aquele menino todos os dias antes de adormecer batia no peito até adormecer.

Batia, batia, batia com a própria mão dele. Era um movimento repetitivo e bizarro, que não é comum. E realmente depois foi enviado para a consulta de especialidade, foi estudado e está confirmado. E vemos como uma mãe que estava alerta e foi diagnosticado cedo. E quanto mais cedo, melhor realmente para podermos atuar o mais rápido possível. Interessante tu teres apartilhado connosco a tua experiência porque vemos como cada um pode ser tão diferente. Estes exemplos, eu penso que o melhor é o exemplo prático para ajudar aqueles que nos estão a ver ou a ouvir. Claro que não vamos pensar que todos têm uma ou outra característica que tem autismo. Não é essa a ideia. Há um conjunto de sinais. Até há pessoas que podem ter alguns traços, mas não são diagnosticadas como.

Têm ali alguns traços, mas conseguem viver bem com isso e lidar até com isso. Mas há aqui uma curiosidade que é, alguns deles são mesmo opostos. E isso é que nos deixa intrigados. Por exemplo, um determinado autista pode ser músico exímio num determinado instrumento. E outro, por exemplo, ter dificuldade em ouvir aquele som. Estamos a falar de extremos. Fala-nos um pouquinho mais particularmente o que é que nós podemos encontrar no autista. Por exemplo, na comunicação. Há aqueles que preferem comunicar verbalmente. Apesar de eles muitas vezes não olharem para nós olhos nos olhos, é importante sempre respeitarmos as suas limitações e mostrarmos empatia e comunicarmos da forma que eles preferirem. Estou a falar, por exemplo, na comunicação.

Alguns preferem comunicar por aparelhos audiovisuais. Escrevem num tablet, escrevem num telemóvel e mostram-nos. Devemos respeitar sempre. É importante, mas isso é em qualquer pessoa. Devemos respeitar o espaço que a pessoa quer. Outros preferem por gestos. Pequenos gestos, eles conseguem comunicar o que é que os perturba. Naquilo dos interesses realmente mais intensos, alguns podem ter realmente um conhecimento detalhado e enorme acerca de uma determinada área. Como são focados, se estudam muito e aprendem muito. Porque é aquilo que eles gostam, o que lhes dá prazer e passam tempo nisso. Isso é o que lhes dá realmente alegria e fonte de satisfação e especialização.

E isso deve ser visto não como uma obsessão, porque não é uma obsessão, é o que lhes dá prazer. Devemos ver isso como um ponto forte e porque não utilizar isso para a sua autonomia no futuro. Porque é assim, o grande objetivo de todas as perturbações do neurodesenvolvimento, o objetivo da sociedade deveria ser aceitá-los, respeitá-los e dar-lhes ferramentas para eles terem autonomia e independência ao longo da sua vida. Esse é o grande objetivo. E se realmente alguém tem um ponto forte em determinada área, por que não explorar isso para ele ter uma autonomia, até profissional, ocupacional, nessa área? Relativamente à sensibilidade sensorial, já falámos que uns são muito sensíveis, às luzes ou ao barulho. Outros são hipossensíveis, ou seja, vemos aqui o extremo oposto.

Alguns realmente preferem até ver luzes, cores mais intensas. Porquê? Porque eles acham que têm pouca sensibilidade a estes estímulos sensoriais e então gostam de coisas mais intensas por causa da sua hipossensibilidade. A forma de socialização pode ser diferente de uns para os outros. Alguns conversam connosco normalmente. Muitas vezes olham-nos nos olhos, outras vezes não olham nos olhos. São todos diferentes e depende da idade. É um processo. E das fases que eles já ultrapassaram, não é? Uns não conseguem suportar o toque, outros são muito apegados. Outros gostam do abraço. É verdade. É tão engraçado.

Tem alguns meninos autistas, eu pergunto se pode abraçá-los, dizem que sim e abraçam também. Não quer dizer que eles não queiram socializar. A forma de socializar deles é diferente. Eles não veem o interagir com outra pessoa, em termos verbais e não verbais, como nós vemos. É simplesmente isso, são diferentes. Podem preferir interações diretas, podem ser pragmáticos e acharmos que eles estão a ser frios no seu discurso. Não, é a forma deles serem. É a forma deles se sociabilizarem. Ou podem precisar de mais tempo a sós para recargar as baterias. É como tu dizes, são todos diferentes, não é? E o cérebro deles pode funcionar de maneira diferente uns dos outros e funciona de forma diferente daqueles que não são autistas.

Eles então, quando recebem determinado tipo de informação, podem focar-se mais numa informação e desligar da outra. Ou podem conseguir captar a ideia geral. São todos diferentes. E isto realmente até permite que eles sejam inovadores e originais. A questão é essa. Podem estar a ver os assuntos de uma outra perspectiva. Agora, é importante que eles precisam sempre de rotina e previsibilidade. Tudo que seja coisas novas, seja numa criança uma brincadeira nova, ir a um sítio diferente, ir de férias a um sítio diferente, cria-lhes ansiedade. porque eles estão habituados à sua rotina e que deve ser rígida. Desde o levantar até ao deitar, tudo. Isso é importante. Para eles se sentirem bem, não é? Estamos mesmo a chegar ao fim, mas tu já mencionaste aqui a colar como devia ser a nossa atitude perante o comportamento autista, mas em breves minutos eu pergunto-te primeiro como agir perante o diagnóstico e depois qual deve ser a

Apoio e inclusão

nossa atitude, não só dos familiares, mas de todos nós. Como já falámos, o grande objetivo realmente é a autonomia e a sua inclusão quase total na sociedade. Neste sentido, dependendo da pessoa que temos à nossa frente, as suas limitações, intervim nessas áreas. Se for da linguagem da fala, terapia da fala, se for realmente na interação psicologia, podem precisar de terapia ocupacional. O que é importante realmente é ajudá-los a ultrapassar essas limitações. A intervenção deve ser sempre multidimensional, nas várias dimensões do espectro do autismo, e multidisciplinar, por vários profissionais. Normalmente são seguidos numa consulta hospitalar, de pé da psiquiatria, com apoio de terapia da fala, terapia ocupacional, psicologia, tudo, como vemos, de várias especialidades.

E os objetivos são sempre maximizar a sua funcionalidade e nós devemos realmente respeitá-los, ter paciência, criar laços com eles, mas à maneira que eles querem, não à maneira que nós queremos. Respeitá-los e amá-los como eles são, não é? É uma aprendizagem mútua, não é? É. Nós devemos aprender a viver ou a lidar com pessoas no espectro do autismo e realmente eles próprios têm a noção das suas limitações e estão num processo É por fases, não é? Vão aprender a lidar com essas limitações. Muito bem, Cláudia. Obrigado mais uma vez para si que está desse lado. Espero que tenha gostado deste programa. Eu acho fascinante. Havia muito mais para dizer, mas o tempo não permite.

Dizer-lhe antes mesmo de fechar que temos este guia de estudo para lhe oferecer, Mente Feliz, um guia de estudo fantástico que fala sobre ansiedade, que fala sobre depressão e muito mais. E o melhor de tudo é que é totalmente gratuito. Tem também como prevenir, não só para quem tem problemas, mas para quem quer ter uma mente feliz e saudável. Para poder receber o guia de estudo, basta enviar uma mensagem para o 933-939291 a dizer Mente Feliz. 933-939291. A fechar, dizer-lhe que este programa estará disponível em podcast em radioaccess.pt e também no YouTube da Novo Tempo Portugal. Se tiver alguma sugestão, se gostaria de trazer aqui alguma questão ao médico de família, não hesite.

Entre também em contacto connosco. Teremos todo o gosto, e quem sabe, numa próxima data, trazer aqui esse assunto ao seu consultório, ao seu médico de família. Até ao próximo programa, se Deus quiser.

Sobre este episódio

Neste episódio do Médico de Família, a Dra. Cláudia Neves ajuda-nos a compreender melhor o autismo, também conhecido como Perturbação do Espectro do Autismo.

Ao longo da conversa, percebemos porque o autismo não é uma doença, mas sim uma perturbação do neurodesenvolvimento. São abordadas as suas principais características, os sinais de alerta na infância, a importância do diagnóstico precoce e o papel fundamental da família, da escola e dos profissionais de saúde.

🧠 Cada pessoa no espectro do autismo é única. Algumas podem ter dificuldades na comunicação, na interação social ou na adaptação a mudanças de rotina. Outras revelam talentos, interesses intensos e formas muito especiais de ver o mundo.

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Série
Médico de Família · 72 episódios
Temporada e episódio
Temporada 1 · Episódio 57
Estreou
03 de Junho de 2026
Categoria
Saúde
Convidados
Cláudia Neves